IMPEDIR UM NOVO SURTO
6 MODELO DO SISTEMA DE GESTÃO PARA A PREVENÇÃO DO CANCRO CÍTRICO SGPC
6.3 Elementos do Sistema
6.3.3 Infra-estrutura e pessoal
A disponibilidade e a adequação dos recursos ou meios de produção são fatores chave para a obtenção de resultados em qualquer processo produtivo e no caso do SGPC é fundamental que a propriedade disponha de recursos humanos e instalações adequadas para a prevenção do cancro cítrico. A ISO 9001:2000 trata estes aspectos como “gestão de recursos”, os quais abrangem recursos humanos, financeiros e materiais, incluindo-se aí instalações, equipamentos, programas de computador e serviços de apoio. Todos estes itens são aplicáveis à citricultura, porém, para a prevenção do cancro cítrico, poderiam ser considerados, no mínimo, os requisitos abaixo:
6.3.3.1. Capacitação e conscientização do pessoal
A abordagem proposta pela ISO 9001:2000 para gestão da qualidade prevê que o “pessoal que executa atividades que afetam a qualidade do produto seja competente, com base em educação, treinamento, habilidade e experiência apropriados”. Conceitos equivalentes são abordados em outros modelos, como na Produção Integrada de Frutas – PIF, que trata do tema como “Capacitação dos Recursos Humanos”, enquanto que o código SQF 2000 especifica que treinamento apropriado deve ser proporcionado às pessoas que realizam atividades críticas.
O SGPC procura seguir os mesmos conceitos. Desta forma, propõe-se que o pessoal que executa atividades relacionadas com a prevenção do cancro cítrico, incluindo, quando aplicável, o produtor, administradores, agrônomos, técnicos, pragueiros, inspetores e demais trabalhadores, fixos ou temporários, deva estar consciente da importância da prevenção do cancro e receba treinamento compatível com as funções exercidas.
Uma grade ou matriz de treinamento, definindo exigências mínimas para cada atividade ou função pode ser estabelecida e os treinamentos poderiam ser desenvolvidos pelo FUNDECITRUS e outras entidades. Como mínimo, os administradores e responsáveis técnicos deveriam receber treinamentos sobre as características e formas de propagação do cancro cítrico, medidas de prevenção e legislação fitossanitária aplicável. Treinamento específico deve ser previsto para os inspetores e pessoal responsável pelo monitoramento do pomar. Além disto, deveriam ser previstos programas de sensibilização e conscientização para todos os trabalhadores em geral, incluindo os colhedores.
Registros da escolaridade dos funcionários e dos treinamentos realizados deveriam ser mantidos. Em particular, registros da capacitação dos responsáveis técnicos, incluindo comprovante de escolaridade e de participação em cursos sobre a prevenção do cancro cítrico deveriam ser mantidos pelos produtores. No caso de utilização de agrônomos credenciados pela CATI para emissão de CFO´s (Certificados Fitossanitários de Origem), esta exigência poderia ser dispensada mediante comprovação do credenciamento.
A título de exemplo, uma matriz de treinamentos é apresentada na tabela 6.3.
TABELA 6.3 – Matriz de treinamento para a prevenção do cancro cítrico
Treinamentos Proprietário / administrador Agrônomo responsável Inspetores / pragueiros Colhedores e funcionários Características do
cancro cítrico Conscientização
Conhecimento detalhado Identificação dos sintomas - Medidas de prevenção do cancro cítrico Conscientização Conhecimento
detalhado Conscientização Conscientização Legislação
fitossanitária Visão geral
Conhecimento detalhado - - Funcionamento do SGPC Conhecimento detalhado Conhecimento detalhado Noções gerais – preenchimento de registros -
Segurança no
trabalho Conscientização Conscientização Conscientização Conscientização
6.3.3.2 Infra-estrutura
O objetivo deste elemento é definir os padrões técnicos mínimos que deverão seguidos pelos produtores para adequar suas propriedades em relação às medidas para prevenção do cancro cítrico recomendadas pelo FUNDECITRUS. Neste campo, as referências de outros sistemas são bastante genéricas, face à especificidade inerente a cada atividade e cultura, porém o objetivo é assegurar que as instalações, equipamentos e outros recursos necessários sejam disponibilizados e mantidos de forma apropriada.
A infra-estrutura mínima para a prevenção do cancro cítrico envolve equipamentos, barreiras e instalações que tem sido recomendados pelo FUNDECITRUS, tendo como objetivo principal barrar a entrada da bactéria no pomar. A infra-estrutura necessária para cada propriedade deveria ser definida pelo agrônomo responsável por ocasião do planejamento inicial com base nas características de cada propriedade e nas recomendações do FUNDECITRUS.
O SGPC deveria indicar quais medidas de prevenção deveriam ser obrigatórias e quais seriam passíveis de indicação pelo agrônomo responsável. Em ambos os casos, deveriam existir especificações ou padrões construtivos mínimos para cada tipo de medida. As recomendações atuais não são adotadas em sua totalidade pelos produtores, conforme analisado no capítulo anterior, o que sugere a necessidade de uma maior discussão sobre quais deveriam ser obrigatórias. Com base nos resultados da pesquisa de campo e nas recomendações do FUNDECITRUS, é possível indicar, a priori, quais deveriam as medidas obrigatórias e quais as recomendáveis, as quais deveriam ser adotados pelos produtores sempre que possível, ou, no mínimo, mediante determinação do agrônomo responsável. Estas medidas seriam:
a) Obrigatórias:
a. Viveiros telados para a produção de mudas, seguindo as normas regulamentares, no caso de produção própria de mudas. Por se tratar de assunto regulamentado e fundamental para prevenir a
contaminação das mudas, este requisito deveria ser obrigatório também para quem produz suas próprias mudas.
b. Cercas e porteiras para impedir o acesso de pessoas e veículos não autorizados ao pomar.
c. “Arco rodolúvio” ou, no mínimo, equipamento de pulverização manual para a desinfecção de veículos.
d. Instalações para desinfecção de mãos e calçados de pessoas que entrem no pomar.
b) Recomendáveis
a. Disponibilidade de material de colheita próprio, incluindo escadas, caixas e outros. Este requisito pode ser considerado como recomendável, uma vez que o produtor pode utilizar material de terceiros, desde que devidamente desinfetado.
b. Bins para armazenagem da fruta colhida. Os bins devem estar situados nos limites da propriedade para evitar o trânsito de veículos no pomar, o que pode causar ferimentos nas plantas e transmitir a bactéria do cancro. Este problema pode ser minimizado por uma boa desinfecção dos veículos, por isto, em função do custo elevado dos bins (ao menos para pequenos produtores), a utilização de bins poderia ser considerada como recomendável. Os bins podem ser de barranco, metálicos ou móveis (FUNDECITRUS, Manual Técnico Cancro Cítrico, p.8, 2001).
c. Quebra-ventos nas divisas da propriedade e entre talhões. O uso de quebra-ventos deveria ser recomendado em função da localização da propriedade e das características de cada região, considerando histórico de cancro, regime de ventos, topografia, estradas, outros pomares, etc. O espaçamento entre as fileiras deveria ser de 10 a 15 vezes a altura das plantas utilizadas para este fim (NAMETAKA, 1991, p. 782). Segundo a pesquisa de campo, menos de 10% dos produtores utilizam quebra-ventos e sua obrigatoriedade pode causar polêmicas face ao alto custo de implantação e à redução da área útil da propriedade, de acordo com declarações de alguns produtores.
d. Cerca viva para evitar a entrada de intrusos ou animais que possam transmitir a bactéria. Por permitir um melhor fechamento que a cerca de arame, a cerca viva é preferível e seu custo não chega ser um grande empecilho. Seu uso poderia ser recomendado pelos agrônomos em função da localização da propriedade em relação a estradas, residências e outras propriedades.
Apesar de não se ter identificado dúvidas dos produtores sobre como implementar as medidas de prevenção, seria conveniente estabelecer especificações para os elementos da infra-estrutura para que houvesse padrões técnicos mínimos para evitar divergências sobre a adequação das medidas implementadas. Outra exigência deveria ser a existência de um plano de verificação periódica e conservação da infra-estrutura, cujo cumprimento fosse registrado numa planilha pré-estabelecida ou em cadernos de campo.
6.3.3.3 Segurança e Uniformes
Equipamentos de proteção individual – EPI´s – devem ser fornecidos aos funcionários e colhedores de acordo com as normas regulamentadoras de segurança no trabalho rural – NRR`s e os trabalhadores devem receber treinamento apropriado. O fornecimento de uniformes aos colhedores, apesar de ser uma recomendação do FUNDECITRUS para a prevenção do cancro cítrico, é muito pouco adotado pelos produtores (cerca de 3%). Além de ser considerado de baixa eficácia pelos produtores (média de 1,56, entre baixa e regular) e possuir custo elevado, é de difícil controle, uma vez que, além de fornecer os uniformes, é necessário mantê-los desinfetados para que não sejam um vetor para a contaminação de pomares. Na propriedade visitada eram fornecidos jalecos descartáveis que eram substituídos diariamente, entretanto os custos eram elevados e outras alternativas estavam sendo pesquisadas. Desta forma, apesar de ser recomendado pelo FUNDECITRUS, o fornecimento de uniformes pode ser reavaliado e definido antes se tornar um requisito obrigatório.