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O Brasil é um país que apresenta grandes desigualdades. E a renda é um dos indicadores mais evidentes. A pobreza no Brasil, além de seu perfil regionalizado, no qual se destacam as regiões nordeste e norte do país, está concentrada no meio urbano.

De acordo com Ferrari, a pobreza é definida pela “Situação sócio-econômica da pessoa, família ou grupo com nível de renda inferior ao da comunidade a que pertence ou tomada como referência. Assim, a pobreza é definida por um nível de renda variável no tempo e no espaço” (FERRARI, 2004, p.282). A pobreza pode ser estabelecida sob a ótica relacional, a partir de uma relação entre a renda familiar e a renda familiar média da região. Neste caso, a contextualização da realidade ao qual se deseja estudar é necessária a sua melhor compreensão.

A pobreza é mais facilmente medida a partir da renda, porém possui outras características intrínsecas. A primeira delas, ligada à questão habitacional, é a dificuldade de acesso à terra, o que estimula a ocupação ilegal, e a proliferação de áreas urbanas informais, como favelas, loteamentos clandestinos, alagados, mocambos etc. A segunda característica,

que também se vincula à primeira, é a ausência de infra-estrutura e investimentos em serviços públicos nos locais de moradia. A terceira, é o desemprego e subemprego, o que agrava a situação em virtude da instabilidade gerada pela incerteza da sobrevivência; e por fim está a dificuldade de acesso à esfera pública pelos mais pobres (MOTTA, 2004; LESBAUPIN, 2000).

Já a riqueza é mais dificilmente definida. Um estudo de Medeiros (2004) no qual ele afirma não existir um consenso entre os teóricos sobre o que é um rico, o citado autor busca estabelecer a fronteira entre os ricos e os não-ricos a partir de uma regra de distribuição dos recursos totais de uma sociedade entre sua população. E para determinar os critérios distributivos, o autor define como linha delimitadora da riqueza acumulada aquela que necessária à eliminação da pobreza, usando-se apenas a redução da desigualdade de renda.

A dificuldade em estabelecer a faixa a partir da qual se define pobreza, e em seu oposto, a que define a riqueza, passa por referenciais diferentes, ou é determinada pela distribuição de renda em uma determinada sociedade, ou é estabelecido por um patamar absoluto. Por exemplo, a pobreza e a indigência (pobreza extrema) são medidas diferentemente pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL); pelo Governo Brasileiro e pelo Banco Mundial. A metodologia oficial utiliza como referencial o salário mínimo, isto é, os pobres seriam aqueles com renda mensal igual ou menor que ½ salário mínimo per capita. (IBGE, 2006b)

No relatório do Banco Mundial de 1990 a pobreza foi definida como um alvo a ser combatido através de políticas sociais e compensatórias, visto que, nesse documento, foi relacionada à incapacidade de atingir a um padrão mínimo de vida. Esse padrão estabelecido pelo Banco Mundial está vinculado ao poder de consumo do indivíduo, e por conseqüência à sua renda. Já ao inserir o termo “incapacidade” o enfoque da pobreza aborda a ausência de oportunidades econômicas dos indivíduos que está por sua vez relacionada às dificuldades de acesso a serviços sociais e às impossibilidades de produtividade individual, combatidas através do aumento do capital humano. O relatório de 2001-2002 do Banco Mundial, apresenta a pobreza sob um outro ponto de vista, já influenciado pelas idéias de Amartya Sen “para quem a questão da pobreza deve ser encarada pela idéia de privação de capacidades básicas de realizar (ou seja, de cada um alcançar os seus objetivos de vida) e não como uma carência de determinadas necessidades”. Esta nova visão que entende a pobreza como algo multidimensional, levou o Banco Mundial à adoção de um modelo de combate à pobreza baseado na expansão das capacidades humanas dos pobres (apud UGÁ, 2004, P. 57-59).

ao padrão de vida absoluto de parte da sociedade. Já a desigualdade é atribuída a padrões de vida relativos a toda a sociedade. A desigualdade mínima é a situação em que todos são iguais, sendo possível tanto na pobreza zero como na pobreza máxima (SPOSATI, 1998, p.4).

Em cidades brasileiras, os problemas relacionados à pobreza se traduzem em altos custos sociais devido aos níveis de subemprego e desemprego. Motta afirma que uma das características intra-urbanas é o perfil da pobreza, a qual se concentra, particularmente, na periferia das aglomerações urbanas e grandes cidades, onde 47,76% dos pobres brasileiros estão situados (MOTTA, 2004, p. 137).

Tabela 1 - Evolução temporal dos indicadores de desigualdade de renda no Brasil

Ano Coeficiente de Gini Índice de Theil

1981 0,59 0,69 1985 0,60 0,76 1990 0,62 0,78 1995 0,60 0,74 2000 0,63 0,71

Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) citado por BARROS; HENRIQUES; MENDONÇA (2000) atualizada por FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO; IPEA; PNUD (2003).

O grau de desigualdades existente na sociedade brasileira é medido por instrumentos comparativos, dentre os quais o Coeficiente de Gini e o Índice de Theil13, bastante difundidos e consagrados, e que revelam o grau de desigualdade de renda de uma realidade específica. Entre os anos de 1981 e 2000, nota-se conforme tabela 1, uma estabilização na desigualdade de renda no país, o que demonstra uma tendência não-superada. Ao analisar a evolução da distribuição da renda no Brasil entre 1980 e 1990, Maricato (2002, p.30) constata o aprofundamento da desigualdade no Brasil, e trata o fenômeno como fratura social.

As desigualdades existentes no país demonstram as disparidades entre a situação de extrema pobreza e a de extrema riqueza. Os dados apresentados na tabela 1, anteriormente apresentada, representam esses contrastes através dos indicadores de renda. Ao mesmo tempo precisam ser mais bem conhecidas e medidas as relações entre distribuição da renda e variáveis estruturais e ambientais. Uma delas é a relação entre a presença da infra-estrutura e a renda.

Assim, existiria uma clara associação entre a presença de investimentos públicos e a

13 Coeficiente de Gini e o Índice de Theil medem o grau de desigualdade existente na distribuição de indivíduos segundo a renda domiciliar per capita. Seu valor varia de 0, quando não há desigualdade (a renda de todos os indivíduos tem o mesmo valor), a 1, quando a desigualdade é máxima (apenas um um indivíduo detém toda a renda da sociedade e a renda de todos os outros indivíduos é nula).

renda da população. As acirradas disputas pela aplicação dos recursos destinados ao saneamento básico têm levado os governos a dar maior atenção às áreas onde as elites se encontram, por isso mesmo são as áreas das cidades melhor servidas por infra-estrutura. E proporcionam benefícios aos setores privados rentistas e lucrativos da cidade. Enquanto isso, a precariedade e o desabastecimento são encontrados em periferias e favelas, onde habitam as classes mais pobres. Tal diferenciação de atendimento é verificada entre os indicadores de núcleo e periferia (FERNANDES, 2002; MARICATO, 2001; ROCHA, 1997).

No entanto, os mais pobres são muito mais dependentes dos serviços públicos. De acordo com Rocha (1997, p.137) “aos níveis de renda monetária mais baixos, o efetivo acesso a serviços de educação, saúde e saneamento básico significa que a renda real pode ser substancialmente mais elevada (...) o acesso a abastecimento de água e esgotamento sanitário adequados está estreitamente vinculado às condições de saúde”.

A pobreza relacionada à baixa renda e à falta de acesso aos serviços públicos vincula-se a problemática da privação de capacidades, já que as situações adversas de vida reduzem as oportunidades, inclusive às de participação social e cidadania ativa, uma vez que nesta situação o indivíduo volta-se para às soluções básicas de sobrevivência. O inverso pressupõe uma melhor capacidade de trabalho, de dignidade e de participação ativa na sociedade.

No entanto, o papel do Estado como executor de políticas públicas de combate à pobreza tem sido avaliado. As práticas de combate à pobreza nos seus mais diversos conceitos não têm alcançado efetivo sucesso haja vista os resultados publicados através dos índices citados anteriormente(Gini e Theil) e outro indicadores de qualidade de vida que no Brasil, denunciam as desigualdades ainda existentes e persistentes.

Motta (2004, p.138) alerta para a insuficiência de investimentos públicos nas áreas informais, haja vista a precariedade das condições de habitação, de infra-estrutura e de serviços públicos; e para problemas de planejamento e gestão urbanos, dentre estes a reduzida disponibilidade financeira para projetos que enfrentem a demanda por habitação e por serviços urbanos.

Um outro significado da infra-estrutura para os mais pobres da cidade, vai além da melhoria da qualidade de vida. Para muitos, principalmente para os habitantes das áreas ilegais, se apresenta como garantia de posse de suas moradias. Conforme foi verificado por De Souza (2004, p. 143), em assentamentos ilegais de cidades, a ausência e a presença da infra-estrutura urbana se constitui um indicador de consolidação do assentamento. Levando os moradores a uma percepção de seguridade de posse, quando se dá a implantação da infra-

estrutura nessas localidades.

Ao dotar áreas precárias com a infra-estrutura, necessária às condições de habitabilidade, além de propiciar qualidade de vida estar-se-á fortalecendo o sentimento de cidadania garantido por duas condições: pelo tratamento igualitário e pelo segurança da posse da terra.