PARTE I. A TÍTULO DE INTRODUÇÃO
CAPÍTULO 2. A “PROMESSA” DE CIDADE (1822-1845):
2.2. A CIDADE: ESPAÇO E GESTÃO INCIPIENTES
2.2.5 Quando o silêncio fala mais do que mil palavras: O (não)
2.2.5.2 Infraestrutura: E Natal, finalmente “foi a tal”!
Outro aspecto relacionado ao espaço físico das aglomerações muito citado nos Relatórios de Presidente de Província é o que se relaciona com “Infraestrutura”. As aparições mais recorrentes dizem respeito às “Fontes públicas” e “Pontes”; seguidas pelas “Estradas e comunicação” e “Aterro”. Um fato importante que percebemos nos Relatórios é que enquanto no item “Os Equipamentos Públicos” os Presidentes se referem a situações no Rio Grande do Norte em geral, no caso de “Infraestrutura” todas as colocações referem-se à capital ou da capital em relação ao “restante” da província, deixando subentendido que tais infraestruturas apenas existiam na capital, detentora das maiores verbas para sua construção, inexistentes nas demais localidades.
Quando se fala em “Fontes” quase invariavelmente trata-se de duas (a FIGURA 15 – Infraestruturas existentes entre 1822 – 1845 - Fonte D’àgua): a primeira é a Fonte da Cruz da Bica, continuamente deteriorada em virtude das chuvas de inverno; a respeito da construção deste equipamento, ocorrida no governo do capitão- mor Lopo Joaquim de Almeida Henriques, a frente da capitania do Rio Grande do Norte de 1802 a 1806, uma ata do Senado de Natal, defendendo seus trabalhos na capitania, é significativa. Teixeira, (2009), recompõe esse acontecimento no trecho a seguir:
Para combater a seca, ele [Lopo Joaquim de Almeida Henriques] mandou construir, em Natal, um curso d´água cristalina, cercado de muros, erigidos com pedra e cal. Mandou construir também uma "grande cava" que, retendo a água através dos muros, formavam "um grande lago". Esse reservatório servia para banhos, assim como para distribuir água por quatro canalizações, produzindo dessa forma "um leque profundo, soberbo, magnifico". Era a fonte chamada "do baldo", localizada ao sul da cidade, onde os habitantes se abasteciam d' água. (TEIXEIRA, 2009a, p. 243).
E a outra fonte d´água mencionada, era a Cacimba São Thomé, que, assim como a Fonte da Cruz da Bica, continuamente encontrava-se danificada.
FIGURA 15 – Infraestruturas existentes entre 1822 – 1845
Fontes d’água*
Fonte: autoria própria, a partir de base cartográfica da prefeitura municipal do
Natal. Disponível em:
http://www.natal.rn.gov.br/semurb/paginas/file/mapas_fotos/natal_geral.zip, em julho de 2014. Localização das fontes de água em Teixeira, 2009a, p. 521. * Base em cartografia atual da cidade de Natal-RN
LEGENDA:
Quando se fala em “Pontes”, a maior reclamação é a inexistência dessas e a maior reivindicação dos Presidentes é a Ponte Peixe Boi (FIGURA 16 – Infraestruturas existentes entre 1822 – 1845 - Pontes e Aterros), que atravessaria o Rio Salgado (Potengi), ligando a capital ao interior da província24; quando se fala de “Estradas e
comunicação” é a identificação dos Presidentes acerca da precária situação das vias de acesso da Província, e, sobretudo, da dificílima ligação da capital com o restante da própria Província; quando é mencionado o “Aterro” (FIGURA 16 – Infraestruturas existentes entre 1822 – 1845 - Pontes e Aterros), trata-se do Aterro da Coroa, por onde embarcam e desembarcam produtos vindos do Rio Salgado (Potengi).
24 Maior aprofundamento acerca da Ponte Peixe Boi, que atravessa o Rio Salgado, bem como sobre o
Aterro da Coroa, a questão das redes potiguares no decorrer do século XIX, e suas implicações para Natal e Macaíba, podem ser encontradas na obra de Rodrigues (2006).
FIGURA 16 – Infraestruturas mencionadas entre 1822 – 1845
Pontes e Aterros em Natal e Vizinhança*
Fonte: autoria própria, a partir de base cartográfica da prefeitura municipal do Natal. Disponível em: http://www.natal.rn.gov.br/semurb/paginas/file/mapas_fotos/natal_geral.zip, em julho de 2014.
* Base em cartografia atual da cidade de Natal-RN
Fonte: Vetorização de fragmento da cidade de Natal baseado no Atlas do Império do Brazil, de Candido
Mendes de Almeida, ilustrando Natal em 1864, identificado o aterro do Salgado. Encontrado em: Miranda, 1999, p. 55.
Quer seja pelas dificuldades em viajar pela Província averiguando sua situação (como foi dito, pela precária situação das estradas e, por conseguinte, da rede de comunicação), seja pela necessidade maior de fixação do Presidente de Província na capital (cidade de maior hierarquia administrativa na Província), seja pelas resumidas verbas para empreender estas visitas pelo Rio Grande do Norte (identificadas pelas constantes reclamações acerca da falta de recursos), ou ainda pelos recursos de infraestrutura se fixarem somente na capital (uma vez que não havia recursos suficientes para provir outras localidades e a capital era a cidade que merecia maiores investimentos dado seu nível hierárquico superior) o fato é que a “Infraestrutura” citada nos Relatórios todas se referem quase sempre a Natal.
Ao longo de todo este primeiro recorte histórico, as Fontes d’água da capital aparecem deterioradas e carecendo de reparos; nas palavras do Vice- presidente Coronel Estevão José Barboza de Moura:
A Fonte Publica da Capital, chamada Bica, está no mais deploravel estado de ruina. Foi perdida toda a despesa, que com ella se fez, á falta da direcção de hum Engenheiro habil, conhecedor da materia. Posto que reconhecesse a Camara Municipal a mesma falta, no quiz deixar de orçar para concertos a quantia de 1:400$00 Reis, assim como para reedificação da Cacimba chamada de S. Thomé a de 252$600 e a de 221$800 Rs. para reparos do Baldo. Todos estes orçamentos são feitos com o preciso detalhe, mas nem por isso posso afiançar que se facção obras duradouras. (MOURA, 1841)
Longe de ser uma situação excepcional, o relato deste Presidente é identificado em praticamente todo o primeiro período estudado: todos os Presidentes destinaram verbas para o conserto da Fonte Pública de água da Bica em Natal, que, contudo, todo ano era encontrada pelo Presidente subsequente em ruínas, como a própria citação acima insinua, ao concluir dizendo que embora os orçamentos tenham sido feito com detalhes e ainda mais por um “Engenheiro habil” nem por isso se pode assegurar que as obras sejam duradouras.
Verbas, em maior ou menor vulto, eram continuamente destinadas a reparos, mas que não eram suficientes para resistir aos desgastes das intempéries climáticas ou ao uso frequente destas infraestruturas, e todos os anos estas obras precisavam de revisões – que eram providenciadas, e tinham uma duração muito limitada.
Em 1845, o Presidente Casimiro José de Moraes Sarmento, na tentativa de sanar de vez este problema propõe um investimento generoso, corroborado por Engenheiro habilitado, e que, uma vez executada a obra, sugere que a água seja vendida à população (por barril), revertendo o valor para os cofres públicos cobrindo as suas custas, até sanar a dívida; ou seja, ainda temos o problema de abastecimento
de água sem resolução até o próximo recorte histórico, estudado no capítulo 4 desta tese – e novamente temos a cerceamento de uma importante infraestrutura sendo adiada por falta de verbas e de profissional capacitado (o que também é repercussão da falta de capitais).
A questão do abastecimento de água e o cuidado com a proteção e criação de mananciais também foi item de reflexão das Câmaras Municipais, identificada nas Posturas Municipais. Nestas, observamos que tratam em linhas gerais da preocupação com manutenção dos mananciais hidráulicos existentes (por exemplo, estimulando a plantação de árvores e multando o corte destas nas marginais de rios e olhos d’água, obrigando os plantadores e criadores a disponibilizarem seus olhos d’ água para o sustento da localidade, impedindo que se cause obstrução no acesso aos mananciais de água e a obrigatoriedade de abertura de novos poços ou açudes, quando identificado um crescimento expressivo do rebanho de criação, em especial do vaccum), bem como com o cuidado em evitar sua contaminação pelos fins mais diversos (pelo lançamento de lixo e resíduos variados, de animais mortos, de entulho, proibição de lavagem de roupas e de animais, ou trabalhar com curtume de couros, assim como vetando o uso do tingui no caso das pescarias).
Para exemplificar estas preocupações com os mananciais aquíferos, extraímos das Posturas Municipais de Portalegre de 1839, os artigos 22 e 29 que tratam do plantio de árvores nas proximidades dos olhos d’água e da proteção às marginais de fontes d’ água, cujo conteúdo, é expresso a seguir:
Artigo 22. Os Fiscais desta Villa e mais das Povoações no município do mesmo determinarão aos moradores a plantação de cajueiros, cajazeiras, gameleiras, trapiás, pitombeiras, nas proximidades dos olhos d’agoas da Bica, e em toda a baixa de suas nascenças, no sitio do Brejo até atravessar a estrada, que segue para o Martins; no Simao Diaz; Gruta do Fonseca; Jenipapeiro e mais adjacências, que fornêção agoa para sustentação do Povo: sob pena dous mil reis de multa aos contraventores. [...]
Artigo 29. Fica proibido o corte de quasquer madeiras das margens das fontes da Bica, Brejo, Simão Dias, Gruta de Fonseca, e outras existentes, até a distância de duzentas braças de cumprimento, e quarenta de largura, sob pena de dez mil reis de multa e na mesma pena incorrerão os que nessa distância fizerem roçados ou roçagens para qualquer fim. (POSTURAS Municipais de Portalegre de 5 de Setembro de 1839).
Os artigos acima ilustram a preocupação na manutenção do entorno dos mananciais de água, estimulando o plantio de determinadas espécies de árvores mais resistentes ao clima sertanejo, e penalizando de forma mais severa os que as removem, fragilizando o reabastecimento destas fontes de águas naturais. Embora vejamos este item presente em várias Posturas Municipais, identificamos, como é o
caso da citação acima, um reforço maior nas localidades situadas mais ao interior do Rio Grande do Norte, onde a água é um bem valioso e escasso, sobretudo nos períodos de secas (é o caso de Portalegre, Angicos, Caicó e Assu, muito embora Apodi possivelmente estivesse na mesma situação, mas não nos foi possível analisar suas Posturas Municipais Policiais). Nestas regiões mais afastadas do litoral, observa- se uma maior quantidade de artigos relacionando-se com o resguardo dos mananciais e um maior detalhamento nas proibições de agentes poluentes, tanto para o abastecimento humano como as águas para sustento das criações e plantação. Estas diferenciações de tratamento conforme a região são significativas, porque enfatizam, no âmbito da província, aspectos de maior peso, segundo os problemas mais específicos de uma região, mostrando que a elite apreendia as diferentes realidades e intervinha conforme a necessidade de cada área.
Com relação às “Pontes”, embora tenham sido frequentemente mencionadas nos Relatórios de Presidente de Província – como não existindo e sendo fundamentais para o desenvolvimento da cidade – se enquadram melhor nas propostas de “intervenções”. Deste modo, nos Relatórios de 1837, 1838, 1843 e 1844 são identificadas recorrentes apreensões dos Presidentes de Província à falha, que dificulta o desenvolvimento da Província, que é a ausência de uma ponte, (também identificada como Ponte Peixe-Boi) que interligue a capital com os municípios de Extremoz e São Gonçalo, atravessando o Rio Salgado (Rio Potengi).
São citados os benefícios que seriam para o comércio, para a facilidade de comunicação e transporte; contudo, o maior impasse identificado é a falta de construtores que se habilitassem a assumir tal empreitada. Embora indiscutivelmente necessária, era de fato uma obra totalmente fora do orçamento provincial da época, de forma que o Presidente João Valentino Dantas Pinajé a este respeito comenta em seu Relatório:
Todavia senhores eu devo confessar-vos esta verdade e mesmo o presidente que vos pediu faculdade para construir essa ponte naquele lugar, conheceu a vista delles que he tão difícil construi-la e conserva-la, atenta a propor-la ai não houvesse sido mal informado. Eu acrescento que a ponte está muito alem de nossas forças e a sua utilidade não compensará em um século o custo de sua construção e daqui infiro, que esta obra limitar-se-ha a lei citada25. (PINAJÉ, 1838).
Na mesma situação encontrava-se a ponte sobre o rio Maxaranguape, no município de Extremoz, cuja concessão havia sido fornecida em 1842 (perdida em
25 Refere-se a Lei nº. 18 de 31 de Outubro de 1837, que autorizou o Governo a promover, por meio de
empresa, ou por subscrição voluntaria a construção de uma Ponte no lugar denominado Peixe-boi, interligando a capital à Extremos.
1843 porque o interessado não executou a obra) e ainda em 1844 não havia aparecido outro interessado em executá-la, também não realizada neste primeiro recorte. Já a ponte sobre o Rio Pitimbu encontrava-se conclusa em 1844, assim como o esgotamento do Rio Cajupiranga (que, contudo, não removeu todos os obstáculos a sua plena navegação). Este era outro problema recorrente em toda a província: além da falta de pontes, a falta de esgotamento (dragagem), que tornassem tais rios navegáveis, o que minimizaria o problema das faltas de estradas (mas entre a construção de pontes e os tratamentos para melhoria da navegabilidade de rios, nem era feito um serviço, tampouco o outro).
FIGURA 17 – Infraestruturas existentes entre 1822 – 1845
Pontes no RN, nas proximidades de Natal*
Fonte: autoria própria, a partir de base cartográfica da
SECRETARIA DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS HÍDRICOS – SEMARH. Programa Estadual de Recursos Hídricos. Coordenadoria de Infraestrutura - COINFRA. Disponível em:
http://www.idema.rn.gov.br/contentproducao/aplicacao/idema/so cio_economicos/arquivos/Anuario-
CDROM%202010/mapas/Bacias_Hidrogr%E1ficas_2010.png, em setembro de 2013.
* Base em cartografia atual do estado do RN
LEGENDA:
No tocante às “Estradas e Comunicação”, assim como o problema da falta de pontes e de rios navegáveis, a situação da capital era de total isolamento, desconectada com o que acontecia em seu interior pela falta de meios eficazes de comunicação, que de acordo com o presidente João Joze Ferreira D’Aguiar trazia repercussões negativas sobremaneira para a economia potiguar:
Bem longe de dizer-vos, que temos Estradas, vos afirmarei, que apenas algumas péssimas veredas, que nos dá comunicaçao com o centro da Provincia, digo péssimas, por que, alem de tortuozas e mal aceadas, empessam à cada passo o viajante pela sua estreiteza, de maneira a não permitir um cavaleiro transitar livremente. É este, talvez, um dos mais poderosos impecilios, que obstao ao engrandecimento d’esta Capital, por que, esmerando-se todo um anno, o laborioso agricultor para obter uma grande colheta, vê-se forçado à leva-la ao mercado d’outra Provincia, que lhe apresenta melhores Estradas, furtando-se, d’esta arte, aos contínuos incommodos que tem de suportar para traze-la à esta capital, e à outros diferentes pontos da Provincia, diminuindo ao mesmo tempo as suas pequenas rendas. (D’AGUIAR, 1836).
Aqui, observamos a relação direta de uma categoria de análise (infraestrutura), influenciando outra (economia) e, mais ainda, o desenvolvimento da cidade: na apreensão do Presidente de Província, mesmo quando havia uma produção satisfatória (passível de tributação, logo de receita para a Província), a falta de pontes e estradas minimamente estruturadas fazia evadirem-se os recursos para as províncias limítrofes, impedindo a aplicação de recursos para a melhoria da infraestrutura potiguar, e os benefícios que isso traria. A isto aliado um sistema de tributação falho, temos como resultado a situação físico espacial potiguar de um modo geral, e da cidade em particular, absolutamente precária ao longo deste primeiro recorte. Na busca por resolver este problema, uma das opções mencionada em 1838 foi a realização de uma loteria (jogo) e com a venda dos bilhetes, uma porcentagem seria revertida para a melhoria das estradas existentes e construção de mais uma estrada interligando a vila do Príncipe (Caicó) com a vila da Princesa (Assu); no ano seguinte, verificou-se a inutilidade de tal ação (muitos poucos bilhetes foram vendidos). Somente em 1841 é mencionada uma conclusão de estrada interligando Caicó às Oficinas em Assu26.
O Subitem, intitulado “Traçado viário”, tal qual aparece nos Relatórios, é mencionado de forma indireta nos Relatórios, e ainda assim, foram poucas as referências. A principal informação neste sentido se concentra em Natal, e os Presidentes abordam muito mais as condições dos caminhos do que sobre o desenho da cidade, num discurso muito semelhante ao usado para caracterizar as “Estradas”.
Dado o caráter ainda muito rural, no qual os aglomerados urbanos ainda tinham uma forte ligação com as unidades produtivas agropecuárias, o subitem “Estética urbana e das edificações” não foi mencionado de forma muito direta neste período histórico, sobretudo nos Relatórios de Presidente de Província, pois, como
26 Esta estrada de início iria em direção à Macau, passando pelos municípios de Santana do Matos e
Angicos; contudo, em plena construção, verificou-se que a melhor solução seria que ela seguisse o curso do Rio Assu, pois em tempos de seca, a trajetória anterior da estrada carecia de água e de ramas para sustento do rebanho.
vimos, neste momento a cidade potiguar ainda se estruturava, carecendo de uma série de equipamentos públicos e infraestruturas básicas, que de tão precários, eram os que mais demandavam atenção da administração à época. Já nas Posturas Municipais, que lidavam mais proximamente com estas questões, ainda de forma embrionária, sobretudo em relação à estética das edificações, temos algumas referências que nos possibilitam vislumbrar as principais preocupações de ordenamento e estética, presentes neste primeiro período pesquisado. Tais preocupações se revelam, sobretudo, na rubrica “Construção”.
Nas Posturas Municipais, o item “Construções” em nosso entendimento, envolveu a construção tanto de edificações quanto de estradas. Dentre estas recomendações aparecem a necessidade de se obter licença da Câmara Municipal para edificar ou reedificar habitações e prédios em geral (tais licenças variavam entre um a dois anos de prazo para efetivar-se a construção, caso contrário tanto a licença como a concessão do terreno tornavam-se inválidas, podendo ser repassadas a outrem), e a exigência de se manter o alinhamento frontal das edificações (em geral, mediante risco contido no verso da licença expedida pela Câmara ou através de cordeamento27 feito pelo próprio fiscal ou agente destinado a esta atividade) tanto em
relação às ruas como becos e praças. Juntamente com a recomendação do alinhamento frontal, vemos a obrigatoriedade na construção de calçadas (que são sugeridas com dimensão em torno de quatro a cinco palmos), evidenciando neste momento uma preocupação maior com a estética das ruas do que das edificações (no capítulo quatro vemos aos poucos este item Construção tornar-se muito mais significativo e detalhado nas Posturas Municipais).
A precariedade de algumas destas construções pode ser identificada nas Posturas Municipais de Touros (de 4 de novembro de 1839), quando em seu artigo 7º, determina:
Que toda a pessoa que tiver casa de palha nas ruas públicas d’esta Vila, as não poderão redificar, só sim se for para se cobrir de telha, e não podendo ceder o lugar a outra, que o possa fazer na correspondência das outras. Posturas Municipais de Touros de 4 de novembro de 1839.
Ou seja, algumas aglomerações urbanas, em suas ruas principais ainda tinham casas cobertas com palha. Dentre as raras preocupações estéticas (se é que
27
O cordeamento é um processo de demarcação, sobretudo de lotes e ruas, a partir de dimensões pré- determinadas. Normalmente, a regularidade do traçado urbano é atribuída à ação de engenheiros militares, mas também é resultado das normas e regulamentos das Câmaras Municipais, impostos por meio de seus arruadores na constante definição do cordeamento e da demarcação das ruas, em consonância com as Posturas – que variavam conforme a realidade do município e sede.
podemos considera-la como uma questão estética) encontradas nestas Posturas, estão as obrigações em caiar a frente das edificações pelo menos uma vez ao ano (mencionada nas Posturas de Touros de 4 de novembro de 1839, Vila Flor de 27 de Outubro de 1836 e Portalegre de 5 de Setembro de 1839).
Nas Posturas Municipais de Extremoz de 6 de Novembro de 1837, encontramos duas situações que merecem destaque pela sua excepcionalidade, no período estudado: O 17º Artigo determina larguras de portas e janelas de 1,1 a 1,21 metros dependendo da largura do prédio (foi a única Postura Municipal estudada neste primeiro recorte que faz menção a dimensionamento de esquadrias, o que de certa forma corresponde a uma preocupação estética) e o Artigo 25º, que trata de penalidades aos mestres de obras que não cumprirem o seu trabalho de construção de forma adequada, o qual diz o seguinte:
Art. 25º Todo mestre de obras, que trabalhar em qualquer edifício, que fique ameaçando ruina por mal aplumado, e construído, ou por falta de materiaes, profundidade e largura de bons alicerces, conhecido isso por exame de peritos na conformidade do artigo antecedente, será multado em doze mil reis, sem prejuízo da indemnização ao prejudicado. (POSTURAS Municipais de Extremoz de 6 de Novembro de 1837).
Este artigo traz algumas repercussões positivas de ordem prática: inibe a