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5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.2 EIXO TEMÁTICO 1 - CUIDADO: A ASSISTÊNCIA E O SERVIÇO

5.2.3 Infraestrutura

Quadro 38 – Infraestrutura

Ideia Central DSC

Infraestrutura dos serviços

P=8 (P2, P3, P4, P5, P6, P8, P9, P13)

O serviço é precário de falta de profissionais pra atender os pacientes. Em geral, eu falo os pacientes em geral. E no meu caso pior ainda. Vou chegar lá, eu sei que vai estar lotado, não vai ter médico, eu sei que você é atendido depois de umas 4 horas esperando. E isso aí já sei desde minha lesão. É sempre muito lotado, sempre falta médico, medicamentos, entre outras coisas. Você depende de uma coisa não tem. Não ter água no local, não ter um espaço ventilado, entendeu? É muito ruim. Precisam ter um espaço adequado para se sentir bem. Gente sentada em corredores, isso, entendeu? Isso é um absurdo. Eu acho.

Porque eu chego ali, se eu for em uma consulta ali na Unidade de Saúde da Família, primeiro, é sete horas da manhã que abre o posto. Você tem que chegar lá seis horas da manhã pra você ficar na fila. E sabe onde você fica na fila? No sol quente do lado de fora, aí no meu caso em pé com par de muletas. Aí você vai lá pra dentro e você vai lá sentar numa cadeira dura, no meu caso, estou falando da minha patologia. E dali a pouco você não aguenta mais ficar lá sentado. Eu não aguento, eu já cheguei a abandonar consulta por causa disso, por causa de dor, de não aguentar. E nós não estamos recebendo agentes de saúde nas nossas casas. Porque não tem agentes de saúde pra trabalhar. Então a gente não tem assistência. A agente de saúde passava aqui, e depois que começou toda essa bagunça na rede pública, que não tem médico em postos de saúde, não tem nada, eu perdi esse atendimento em casa. Isso aí não é erro de gerência do posto, não é erro de enfermeira chefe do posto, não é erro de nada. Isso é erro do poder público que toda semana falta médico, ou toda semana troca um médico. Já teve um grupo de psicologia que eu participei.

Era algo simples, mas você tinha esse espaço. Acabaram com isso aí, não tem mais.

Ninguém ofereceu mais nada. Mas eu não procurei mais de fazer fisioterapia aqui, não resolve. Eu precisava de uma de uma fisioterapia, mas não tem pra vir na minha casa. Pra

me dar esse serviço. Pra contribuir. Eu tive que fazer uma radiografia de escaneometria das pernas, só que essa radiografia tá no processo ainda. Foi paga. Porque o governo não faz esse tipo de radiografia. Essa não é feita pelo SUS. Eles me dificultaram bastante pra eu conseguir a passagem pelo TRD (Transporte Fora de Domicilio) porque eles alegam que a gente tem um centro de reabilitação aqui, mas é uma cirurgia que aqui não é feita né.

Então assim, é isso que eu acho muita dificuldade.

F=5 (F2, F3, F4, F5, F8)

Do posto, algumas vezes eles passaram, vieram na casa ver como a gente tava, mas é assim, é lá uma vez na vida e outra na morte, entendeu? E isso quando você vai e encontra médico.

Muita falta de medicamento. Fora os materiais. A parte de medicação, por exemplo, a gente até parou de pegar, você ia lá não tem o medicamento, não chegou. Aí leva anos pra poder comprar e você tem que estar sempre indo lá pra perguntar se chegou. É um desgaste você sair, ir lá, não tem, volta mês que vem. Você volta, não tem. Fez oito dias que eu peguei os exames pra poder pegar as fitas. E as agulhas não pega, não peguei nem fita e nem a insulina. Tem que comprar. E tem hora que não tem. Difícil. A parte pra atendimento na área de fisioterapia, ela é muito pouca. Porque as pessoas com necessidades especiais precisam de constante. Então se a gente fosse só depender do serviço público pra isso a PcD não estaria como está hoje.

GAS=2 (GAS2, GAS3)

É um desafio pra nós, não é fácil. Poderia ser melhor o atendimento, acontece que a gente não tem às vezes condições de atender essas pessoas como a gente gostaria. Teria que ter uma equipe especifica mesmo pra atender aquela família. Mas é um desafio que a assistência. Mas a gente faz o que pode. O trabalho é muito intenso. Falta funcionário, a gente tem que suprir, a gente redobra o nosso esforço, mas a gente consegue fazer. Chegar num ambiente que é climatizado, aqui nós não temos. Quer dizer no nosso trabalho eles ficam ali naquela sala quentíssima esperando às vezes 1 hora, 1 hora e meia. Isso não é só eles, o público em geral. Tem até um serviço que é em domicílio pra pessoa com deficiência que a gente não conseguiu trabalhar ainda, desenvolver como gostaria.

Disponibilizar até a residência da PcD todos os nossos serviços. O cadastro único, então a gente deslocaria até a casa desse cidadão e trabalharia esses serviços com ele lá. A gente ainda não conseguiu realizar isso a contento né? Falta mão de obra, às vezes é difícil você se locomover daqui. Acho que todo o trabalho de rede ele é importante, porque assim, a gente não consegue no nosso território aqui. Trabalho hoje, com mais de 50 bairros. A gente não consegue atender todo mundo. Porque assim, não é só o trabalho de rua delas.

Elas têm que ficar aqui. Quer dizer, chega gente toda hora, pra ser atendido, recebe da secretaria as visitas, a secretaria manda pra gente visitar as famílias. São poucas pessoas para um território muito grande.

GS=2 (GS2, GS3)

Na rede falta várias coisas. O que que a gente consegue buscar na rede, o que que está disponível pra esse paciente? Só que a demanda é muito alta aí a gente encara essas barreiras. É feito pelo CER APAE a dispensação, as consultas, são poucas vagas.

Principalmente as vagas para o infantil. Aqui no fundo eu tenho duas vagas pra cadeirantes.

Desde que eu estou aqui uma dessas vagas já afundou e eu já pedi manutenção milhares de vezes e não se resolve. Coisas básicas, se chegar cadeirante aqui eu tenho uma bancada de acesso pra ele, porém eu não tenho um computador e funcionário ali pra fazer esse atendimento. Precisa não apenas na parte estrutural, mas na parte de atendimento mesmo, condições de trabalho pra poder tá fazendo o atendimento dessa população. Olha os computadores são muito bons né, estão gerando o relatório, vamos ver se vai sair. Eu tô tentando abrir, só que a internet não é boa. Então assim, eu acredito que deveria ter alguma coisa unificada, porque cada informação que eu preciso eu tenho que ir num lugar pra buscar ela, às vezes o paciente está aqui eu não vou conseguir ter esse acesso a tempo.

SAMU é um sonho lindo que nunca vai funcionar. Só tem meia dúzia de ambulância no município. Às vezes a gente solicita uma visita, solicita um apoio, mas eles também barram

na mesma coisa que nós. Eles não têm um carro pra fazer uma visita. Acredito que essas dificuldades acabam acarretando muito.

A temática da infraestrutura remete às condições substanciais para a oferta dos serviços básicos de saúde e de assistência social. A pessoa com deficiência e o cuidador familiar alertam para a precariedade do atendimento devido à falta de recursos humanos e físicos, que desestabilizam e até mesmo impedem o acesso aos cuidados de saúde. No geral, os principais problemas encontrados são a falta de médicos e a troca constante desses profissionais, a falta de medicamentos e insumos diversos, a não existência de tipos específicos de exames e o procedimento cirúrgicos concedidos pelo SUS, além da fragilidade das condições estruturais dos prédios, exemplificados pela ausência de água e ventilação e pela inadequação e insuficiência de espaço e de mobiliários.

As problemáticas levantadas impactam o atendimento de toda a população que está submetida à mesma infraestrutura de serviço. Contudo a pessoa com deficiência enfatiza que

“no meu caso pior ainda”. As particularidades da pessoa com deficiência são explicitadas no relato de ter uma patologia crônica associada à deficiência, pela mobilidade reduzida e pela dificuldade em permanecer muito tempo em pé ou sentado em cadeiras desconfortáveis. Isso ocorre porque essas condições podem gerar incômodos e dores ainda maiores do que em pessoas sem algum tipo de impedimento físico e/ou sensorial. Somado a isso, ainda existem outras condições ambientais mencionadas anteriormente, reforçadas pelo discurso do gestor da assistência social ao descrever a sala de espera como um local de calor intenso, sem climatização.

A vivência da pessoa com deficiência em espaços públicos ilustra que algumas dificuldades estão para além da deficiência, por estarem condicionadas a questões macrossociais (AMORIM; LIBERALI; MEDEIROS NETA, 2018). A precariedade da infraestrutura potencializa as adversidades de acesso por configurar-se como mais um empecilho que prejudica ainda mais o desempenho da pessoa com deficiência na efetivação de seu cuidado.

A descontinuidade de serviços ofertados retrata um estado de desassistência da pessoa com deficiência e do cuidador familiar, sendo expressa pelo cancelamento do serviço da psicologia e por dificuldades para fazer as visitas domiciliares. Ao encontro disso, tanto o gestor da saúde como o da assistência social reclamam da indisponibilidade de recursos, principalmente de profissionais, e da baixa qualidade de outros, como os computadores lentos e ineficientes, em um retrato que demonstra condições ínfimas de trabalho.

A exemplo disso, o atendimento domiciliar é necessário, planejado e almejado pelos usuários e serviços, principalmente para esta parcela da população com maior dificuldade de mobilidade. Contudo, não há carros para conduzir a equipe interdisciplinar ou não há como direcionar funcionários para esta atividade, por estarem sobrecarregados dentro do serviço.

Outro aspecto refere-se à manutenção estrutural para o que já existe e que não é resolvida, ainda que seja solicitada formalmente por diversas vezes. Por fim, o gestor da saúde demonstra a ineficiência do poder público que, ao mesmo tempo em que se apropria dos conceitos do desenho universal e de adequação ambiental, ao disponibilizar uma bancada acessível para o atendimento de usuários de cadeira de rodas, não fornece funcionário e nem computador para utilizá-la, mantendo o status inacessível do serviço.

É reconhecido que a consolidação da Atenção Primária em Saúde representa um dos avanços mais relevantes do SUS enquanto política pública. Contudo estudos evidenciam que a expansão do atendimento na atenção primária, representada por seu desdobramento com a criação da Estratégia da Saúde da Família, ocorreu de maneira heterogênea e com grandes desafios financeiros que impactam o planejamento e as práticas de cuidado. As restrições orçamentarias do SUS são visualizadas na falta de medicamentos, vacinas e na provisão de pessoal, ao mesmo tempo em que a demanda tem aumentado em um contexto de recessão econômica e de desemprego. Por isso, tanto a reforma quanto a ampliação das UBS dependem de uma política integrada, comprometida e que projete equipar, qualificar e renovar os serviços de saúde (FACCHINI; TOMASI; DILÉLIO, 2018; NEVES et al., 2018; VIEIRA-MEY et al., 2020). Na conjuntura visualizada, a atuação do poder público é criticada e culpabilizada, de forma explícita pela pessoa com deficiência em suas experiências e implícita pelo gestor ao narrar os impasses vivenciados em sua rotina de trabalho.

Mediante a realidade de uma infraestrutura carente e prejudicada, os participantes expressam o seu descontentamento sobre o serviço recebido e sobre a maneira de ofertá-lo, caracterizado nos discursos: “muito ruim”, “é um desgaste você sair, ir lá, não tem”, “é um desafio para nós, não é fácil”, “poderia ser melhor o atendimento”, “a gente não conseguiu trabalhar ainda, desenvolver como gostaria” e “essas dificuldades acabam acarretando muito”.

Como visto, o funcionamento dos serviços, discutido na ideia central anterior, está intrinsicamente relacionado com a infraestrutura do serviço. Contudo, ainda que as percepções predominantemente negativas constem nos DSC sobre o serviço nesses aspectos, o DSC da pessoa com deficiência e do cuidador familiar, construído por 8 e 5 participantes respectivamente, é predominado pela satisfação sobre o atendimento recebido.

Segundo Pires, Lorenzetti e Gelbcke (2010), as condições de trabalho envolvem a força de trabalho e suas especificidades, como a qualificação exigida, a formação permanente, a divisão do trabalho, as relações contratuais e o ambiente que inclui instrumentos adequados, quantidade e qualidade e espaço físico. Estudos indicam que os profissionais da atenção primária estão submetidos a diversas situações de risco, que incluem: condições de trabalho precárias, a ausência de planos de cargos e carreiras, a exposição a ambientes insalubres e doenças, a exigência de produtividade, a dificuldade do trabalho em equipe e as ineficiências na rede de atenção (CARREIRO et al., 2013).

Diante do panorama relatado pelos participantes, é possível compreender que os profissionais estão desempenhando sua atividade laboral dentro de um contexto que não os beneficia, depositando apenas em sua força de trabalho grande parte da responsabilidade sobre o atendimento prestado, que está sendo reconhecido pelos usuários. Porém trabalhar em condições degradantes pode ter um custo para o profissional, tanto no exercício de sua função como para a sua própria saúde.

O adoecimento entre os trabalhadores em saúde tem sido um tema amplamente debatido, tratando-se de um processo que inclui fatores fisiológicos, psicossociais, econômicos e referentes ao ambiente de trabalho (CARREIRO et al., 2013; LOURENÇO; BERTANI, 2007;

NASCIMENTO, 2015). Mais especificamente, um estudo realizado sobre o adoecimento dos trabalhadores da Estratégia Saúde da Família, em um município da região Centro-Oeste do Brasil, evidenciou um risco crítico relacionado aos fatores de organização de trabalho, relações socioprofissionais e condições de trabalho. Segundo os autores, esse risco pode estar associado à infraestrutura do serviço, como a falta de insumos e materiais e a precariedade nas instalações e nos mobiliários. Apesar disso, ao se avaliarem prazer e sofrimento no trabalho, os índices apresentaram-se satisfatórios no quesito liberdade, demonstrando que, mesmo inserido em um ambiente de trabalho precário, os profissionais conseguem se sentir livres para desempenhar suas atividades no atendimento à saúde (MELLO et al., 2020).

O mesmo fenômeno ocorre no caso do profissional de assistência social. Segundo Santos (2020), a precarização do trabalhador da Política de Assistência Social é um dos fatores que contribuem para o desmantelamento dessa política social pública. Tal como vivenciado pelos profissionais da saúde, as equipes dos CRAS lidam com mecanismos despontencializadores que fragilizam a execução do trabalho. Perante o recrudescimento do projeto neoliberal no país, o desmonte pelo viés dos cortes no orçamento e a flexibilização caracterizada pela fragilidade dos vínculos trabalhistas, as configurações dos trabalhos desenvolvidos pioram, direcionando os serviços para o mal funcionamento ou para a

interrupção de seus trabalhos, de forma a reverter garantias estabelecidas e destituir o cidadão de direitos sociais (LIMA, 2011; ROMAGNOLI, 2016; SANTOS, 2020).