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Resultados e Discussão

4.3. Análise das amostras – Voluntários

4.3.1. Ingestão controlada de bebidas alcoólicas

As concentrações de etanol obtidas nas diferentes matrizes biológicas em função do tempo após a ingestão controlada das bebidas alcoólicas estão apresentadas na tabela 4.4.

Tabela 4.4 – Concentração de etanol no sangue, na saliva e na urina ao tempo 0, 30, 60 e 90 min após a conclusão da ingestão da cerveja nos voluntários do sexo feminino (1

a 5) e masculino (6 a 10).

Concentração de etanol em função do tempo (min)

Sangue (g/L) Saliva (g/L) Urina (g/L)

0 30 60 90 0 30 60 90 0 30 60 90 1 ND 0,234 0,230 0,173 0,185 0,179 0,156 0,115 0,175 0,331 0,376 0,323 2 0,452 0,464 0,386 0,322 0,398 0,393 0,350 0,276 0,285 0,522 0,504 0,455 3 0,431 0,495 0,525 0,478 0,497 0,395 0,581 0,426 0,054 0,771 0,613 0,638 4 0,346 0,541 0,448 0,372 0,474 ND 0,412 0,385 0,039 0,815 0,620 0,521 5 0,695 0,651 0,594 0,471 0,969 0,531 0,451 0,393 0,160 0,803 0,725 0,670 Média 0,481 0,477 0,437 0,363 0,505 0,375 0,390 0,319 0,143 0,648 0,568 0,522 6 0,196 0,583 0,512 0,471 0,412 0,389 0,348 0,300 0,003 0,548 0,623 0,771 7 0,271 0,500 0,426 0,300 2,061 0,616 0,393 0,314 0,070 0,729 0,612 0,464 8 0,315 0,491 0,468 0,382 0,223 0,391 0,314 0,272 0,068 0,588 0,643 0,563 9 0,223 0,356 0,303 0,230 1,239 0,334 0,279 0,194 0,003 0,387 0,432 0,475 10 0,380 0,536 0,531 0,439 1,750 0,551 0,455 0,355 0,001 0,653 0,696 0,601 Média 0,277 0,493 0,448 0,364 1,137 0,456 0,358 0,287 0,029 0,581 0,601 0,575

Com vista a perceber o perfil de absorção e eliminação do etanol no organismo humano, as concentrações médias foram relacionadas com o tempo após a ingestão total da bebida alcoólica. Através da observação da Tabela 4.4, conclui-se que houve no tempo de 0 minutos o pico máximo médio da concentração de etanol no sangue nos voluntários do sexo feminino, e aos 30 minutos nos voluntários do sexo masculino. Porém a variação entre o tempo de 0, 30, 60 e 90 minutos no sexo feminino não é muito relevante, verificando-se maior variação no caso do sexo masculino, Figura 4.13.

Figura 4.13 – Concentração média do etanol no sangue nos tempos de 0, 30, 60 e 90 minutos após a ingestão

total da bebida alcoólica para o sexo feminino e masculino.

Pode ser observado na Tabela 4.4, que a concentração média máxima de etanol no sangue do sexo feminino ocorre ao tempo de 0 min, atingindo os valores de 0,48 g/L e para o sexo masculino, aos 30 minutos, de 0,49 g/L. O trabalho realizado por Gubala et al., 2002 mostrou que os valores de concentração de etanol no sangue assumiram valores equivalentes em ambos os sexos como obtido no presente estudo. No trabalho realizado por Feltraco et al., 2009 os valores de concentração média máxima de sangue foram obtidos entre os tempos de 60 e 120 minutos. Visto que o estudo não esclarece sobre o tipo de bebida ingerida e o método de controlo, não é possível comparar os tempos de obtenção das concentrações máximas de etanol.

0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0 20 40 60 80 100 Co n ce n tr ão (g L -1) Tempo (min) Sangue (Feminino) Sangue (Masculino)

Recorrendo à Tabela 4.4, observa-se que a concentração média de etanol na saliva atinge o máximo aos 0 minutos, ou seja, logo após a ingestão completa da cerveja. Os valores obtidos foram de 0,58 g/L para o sexo feminino e de 1,14 g/L para o sexo masculino (Figura 4.14). No estudo de Gubala et al., 2002, no qual uma maior quantidade de etanol foi ingerida (0,6 g de etanol/kg de massa corporal para o sexo feminino e 0,7 g de etanol/kg de massa corporal para o sexo masculino), os valores de concentração de etanol na saliva variam entre 0,6 g/L a 1,4 g/L para o sexo masculino e entre 0,65 g/L a 1,10 g/L para o sexo feminino. Assim como no presente estudo, o sexo masculino apresenta maior nível de concentração de etanol na saliva do que o sexo feminino. A diferença entre os valores das concentrações de etanol na saliva em ambos os sexos nos dois trabalhos pode ser devida à variação do tipo de bebida (bebida fermentada e bebida destilada) e/ou à quantidade de etanol por Kg de massa corporal. É importante referir que essas diferenças podem ser devidas às técnicas de amostragem ou aos tempos de recolha das amostragens. No presente estudo o tempo 0 minutos é referente a 20 minutos após o início da ingestão da bebida, logo, pode ser essa a diferença observada quando comparado com outros estudos, visto que a matriz apresenta o mesmo comportamento, decrescente. No trabalho de Feltraco et al., 2009, as concentrações médias máximas de etanol foram obtidas entre 30 a 60 minutos após o início das recolhas de amostras. Como esperado e verificado no presente trabalho, as concentrações máximas de etanol serão obtidas nos primeiros pontos de recolha após a ingestão da bebida alcoólica.

Figura 4.14 – Concentração média do etanol na saliva nos tempos de 0, 30, 60 e 90 minutos após a ingestão total

da bebida alcoólica para o sexo feminino e masculino. 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2 0 20 40 60 80 100 Co n ce n tr ão (g L -1) Tempo (min) Saliva (Feminino) Saliva (Masculino)

As concentrações médias máximas de etanol na urina para os diferentes géneros ocorrem em tempos diferentes (Tabela 4.4). Para o sexo feminino o valor onde a concentração média é máxima foi atingido ao tempo de 30 minutos, correspondendo a 0,73 g/L. Enquanto que para o sexo masculino o valor é de 0,60 g/L no tempo de 60 minutos (Figura 4.15). De acordo com o estudo de Martinis et al., 2004, no qual foram utilizados dois tipos de vinho e uísque com uma quantidade de etanol ingerida de 0,5 g de etanol/Kg de massa corporal para ambos os sexos verificou-se que as concentrações máximas foram obtidas entre os tempos de 90 a 120 minutos. Isto pode dever-se ao facto de o estudo ter sido realizado sob condições de ad libitum relativamente à água e ser ainda servido um lanche de aproximadamente 150g de amendoins salgados a cada voluntário o que interferiu com a absorção do etanol no organismo, retardando- a. A presença de alimento no estômago resulta numa diminuição da concentração de etanol e num aumento do tempo para atingir o pico referente à concentração máxima do mesmo Baselt, 1996.

Figura 4.15 – Concentração média do etanol na urina nos tempos de 0, 30, 60 e 90 minutos após a ingestão total

da bebida alcoólica para o sexo feminino e masculino. 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0 20 40 60 80 100 Co n ce n tr ão (g L -1) Tempo (min) Urina (Feminino) Urina (Masculino)

Verifica-se que para ambos os sexos, a variação ao longo do tempo é a mesma, alterando apenas a concentração obtida. Como seria de esperar, no tempo de 0 minutos a matriz que apresentou maior valor de concentração foi a saliva, por ser a via pela qual a bebida alcoólica foi administrada. Nos restantes tempos, para ambos os sexos, na comparação das três matrizes biológicas, a urina foi a que apresentou os valores mais elevados seguida pelo sangue e por último a saliva (Figura 4.16 e Figura 4.17). As diferenças observadas não foram significantes, uma vez que segundo o programa SPSS, as variações intra indivíduo eram superiores às variações inter indivíduos. Isto deve-se ao facto de que há caraterísticas que não podem ser controladas como o metabolismo de cada voluntário, e este presume-se ser um parâmetro com elevada relevâncias nos resultados obtidos.

Figura 4.16 – Concentração média do etanol nas diferentes matrizes biológicas nos tempos de 0, 30, 60 e 90

minutos após a ingestão total da bebida alcoólica no sexo feminino. 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0 20 40 60 80 100 Co n ce n tr ão (g L -1) Tempo (min) Sangue Saliva Urina

Figura 4.17 – Concentração média do etanol nas diferentes matrizes biológicas nos tempos de 0, 30, 60 e 90

minutos após a ingestão total da bebida alcoólica no sexo masculino.

Com a finalidade de verificar a correlação existente entre a concentração de etanol nas diferentes matrizes foram calculadas as associações lineares entre as concentrações - sangue e saliva; sangue e urina; saliva e urina – através da correlação de Pearson (Tabela 4.5). As melhores correlações obtidas com todos os tempos incluídos verificam-se para o Sangue/Saliva

relativamente ao sexo feminino com um R2 = 0,8688 e para a Saliva/Urina para o sexo

masculino onde o R2 é igual 0,9652.

Tabela 4.5 – Correlação de Pearson entre as diferentes matrizes para ambos os sexos.

Correlação de Pearson

Sangue/Saliva Sangue/Urina Saliva/Urina

Feminino 0,8688 0,0911 0,3865

Masculino 0,5188 0,7007 0,9652

Desprezando o primeiro ponto, tempo de 0 minutos, verifica-se que as correlações melhoram consideravelmente para o sexo feminino (Tabela 4.6). Como é o primeiro tempo é necessário ter em conta que podem ter ocorrido erros na recolha das amostras e/ou nem todos os voluntários estarem nas mesmas condições pedidas (quantidade e tipo de refeição efetuada antes da realização da experiência, por ex.).

0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2 0 20 40 60 80 100 Co n ce n tr ão (g L -1) Tempo (min) Sangue Saliva Urina

Tabela 4.6 – Correlação de Pearson entre as diferentes matrizes para ambos os sexos excluindo o primeiro

ponto.

Correlação de Pearson

Sangue/Saliva Sangue/Urina Saliva/Urina

Feminino 0,9971 0,8985 0,9285

Masculino 0,9322 0,9474 0,9928

Por definição, o valor da correlação (R2) quanto mais próximo estiver da unidade 1, em módulo,

maior é o grau de dependência estatística linear entre as variáveis. Logo, confirma-se que as concentrações de etanol apresentam forte correlação entre as 3 matrizes biológicas em estudo. Como apresentado na Tabela 4.6 os valores de correlação de Pearson variaram entre 0,8985 e 0,9971. De acordo com o estudo realizado por Gubala et al., 2002, onde a bebida ingerida foi vodka para uma razão de 0,7 g de etanol/kg de massa corporal para os homens e de 0,6 g de etanol/kg de massa corporal para as mulheres, existe elevada correlação entre as concentrações

Capítulo V

5. Conclusões

- O método desenvolvido no presente trabalho para a determinação e quantificação de etanol em três matrizes biológicas – sangue total, saliva e urina – utilizando a técnica HS- SPME e a análise por cromatografia em fase gasosa acoplada ao detetor FID demonstrou ser seletiva, sensível, específica, com boa precisão e linearidade, apresentando resultados adequados para as matrizes biológicas em estudo.

- Com a metodologia proposta, foi possível determinar parâmetros farmacocinéticos importantes para avaliar as concentrações de álcool em amostras biológicas para fins de toxicologia forense.

- Os resultados da ingestão controlada de cerveja por parte dos voluntários mostraram que os perfis cromatográficos foram semelhantes para ambos os sexos. Sendo que para as matrizes de sangue, os máximos de concentração média de etanol verificaram-se aos 0 minutos para o sexo feminino e aos 30 minutos para o sexo masculino. Para a saliva, ambos os sexos atingiram o máximo da concentração média de etanol ao mesmo tempo, 0 min. Relativamente à urina o sexo feminino atingiu o pico de concentração máxima aos 30 minutos e o sexo masculino aos 60 minutos. Independentemente dos tempos e concentrações obtidas para ambos os sexos, não se verificaram diferenças significativas. - A correlação de Pearson confirmou a existência de correlação entre as três matrizes analisadas revelando uma elevada dependência linear entre as variáveis com valores de

R2 muito próximos de 1. Logo, a saliva e a urina demonstraram ser matrizes alternativas

Capítulo VI

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