2.2 SISTEMA BANCÁRIO E SUSTENTABILIDADE 31
2.2.1 Iniciativas de Responsabilidade Socioambiental 33
No decorrer dos últimos anos, especialmente na atual década, uma série de iniciativas mundiais começou a ser proposta e implantada pelo setor bancário. A necessidade da utilização de princípios norteadores, que direcionem as instituições bancárias para uma postura de maior compromisso com o desenvolvimento sustentável, ficou cada vez mais evidente, pressionando os bancos para a adoção de mecanismos que associem suas marcas corporativas a ações de natureza sócio-ambientais de grande vulto.
2.2.1.1 Global Compact – Pacto Global
Por iniciativa de Kofi Anan, então Secretário-Geral das Nações Unidas, durante o Fórum Econômico Mundial, que teve início em 1999, foi implementado o Global Compact,
que tem o objetivo de mobilizar a comunidade empresarial internacional para a promoção de valores fundamentais nas áreas de direitos humanos, trabalho e meio ambiente. Com a participação de empresas e ONGs, dentre outros.
O Global Compact procura “unir o poder dos mercados à legitimidade dos valores universais”, nas palavras de Kofi Anan. Inicialmente foi estruturado em nove princípios e posteriormente, em junho de 2004, a dez, intitulados “Os dez princípios do Pacto Global”6, agrupados em quatro grandes áreas conforme segue:
Direitos Humanos
1. Apoiar e respeitar a proteção de direitos humanos reconhecidos internacionalmente dentro de sua esfera de influência; e
2. Certificar-se de que não estejam sendo cúmplices de abusos e violações dos direitos humanos.
Trabalho
3. Apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento efetivo do direito à negociação coletiva;
4. Apoiar a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou compulsório;
5. Apoiar a erradicação efetiva do trabalho infantil; e
6. Eliminar a discriminação com respeito ao emprego e à ocupação. Meio Ambiente
7. Apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais;
8. Engajar-se em iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental; e
9. Incentivar o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambientalmente amigáveis.
Corrupção
10. Combater a corrupção em todas as suas formas inclusive extorsão e propina.7
Bancos como Santander, Banco do Brasil e a Bovespa são membros do Comitê Brasileiro do Pacto Global, criado em dezembro de 2003.
6 Disponível em: www.unglobalcompact.org . Acesso em: 08 out 2008. 7 Disponível em: www.ethos.org.br. Acesso em: 23 out. 2008.
2.2.1.2 Declaração de Collevecchio
Em 2002, reuniram-se em Collevecchio, cidade localizada a cerca de duas horas de Roma, representantes de entidades filiadas a BankTrack, rede internacional de ONGs que acompanha a industria financeira com relação a temas sócio-ambientais. Em janeiro de 2003,l o resultado das discussões foi endossado por mais de 200 organizações da sociedade civil a declaração de Collevecchio, apresentada durante o fórum mundial, em Davos, Suíça. O documento delineia o papel que o setor financeiro tem ao promover a sustentabilidade, convocando-o a trabalhar temas como impactos, responsabilidade, transparência, prestação de contas, e governança corporativa. Em 2006, a rede BankTrack lança o “The Do´s and Dont´s of Sustainable Banking”, guia que propõe oferecer elementos práticos para a implementação dos princípios norteadores da Declaração de Collevechio. A versão em português foi lançada em dezembro do mesmo ano pela ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira. A Declaração de Collevecchio conta com seis princípios nos quais os bancos devem se basear, para se tornarem entidades sustentáveis: compromisso com a sustentabilidade; “não causar danos”; com a responsabilidade; com a prestação de contas; com a transparência e com a sustentabilidade dos mercados e da governança.
2.2.1.3 Princípios do Equador
Em outubro de 2002, o International Finance Corporation – IFC, braço direito do Banco Mundial, possibilitou um encontro das dez maiores instituições financeiras do mundo, ABN-Amro, Barclays, Citigroup, Crédit Lyonais, Crédit Suisse, HypoVereinsbank, Royal Bank of Scotland, WestLab e Westpac para discutir experiências em financiamento de projetos de desenvolvimento e que possuam impacto em questões ambientais e sociais. Em 2003 foram então lançados os princípios que contém os critérios mínimos para concessão de créditos a projetos de países emergentes com valor acima de US$ 10 milhões pelas Instituições Financeiras, assegurando que os projetos financiados sejam desenvolvidos de acordo com os conceitos de sustentabilidade, e garantam o equilíbrio ambiental, o impacto social e a prevenção de acidentes.
Esses critérios prevêem especificações de cada categoria de projetos no que se refere: aos cuidados com as populações atingidas pelas construções; à observação das
condições de trabalho, dos níveis de poluição e da emissão de gases de efeito estufa; à realização de consultas públicas para verificação da viabilidade do projeto, entre outros.
Com base nesses critérios, os projetos são classificados com o risco social e ambiental que apresentam: A – alto risco; B – médio risco e C – baixo risco. Para as categorias A e B, o solicitante deverá ter concluído uma Avaliação Ambiental, cuja preparação seja consistente com os critérios de seleção ambiental e social do IFC.
Em 2007, segundo o Infrastructure Journal, 71% do montante destinado a projetos em países emergentes, o que corresponde a US$ 52,9 bilhões, foram liberados sob as condições do Principio do Equador.
2.2.1.4 Princípios para o Investimento Responsável
Em 2006, por iniciativa também de Kofi Anan, ocorreu no Rio de Janeiro o lançamento para a América Latina dos Princípios para o Investimento Responsável – cuja sigla em inglês é PRI. Foi implementado pela Unep Fi e pela Global Compact, que na sua elaboração teve a participação de representantes de vinte instituições de investimentos de doze países, que juntos administram mais de um trilhão de dólares. O único representante da América Latina foi a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil – PREVI.
O PRI tem como objetivo fornecer diretrizes para incorporar variáveis ambientais, sociais e de governança corporativa nas decisões de investimentos e nos processos de aquisições da comunidade e de investidores institucionais ao redor do mundo. Os seis princípios que abarcam as questões de relevância para as dinâmicas sociais atuais são pontuados por 35 ações que investidores individuais e institucionais podem adotar para implementá-los. Os PRIs vão ao encontro dos interesses em longo prazo dos beneficiários dos fundos de investimentos, especialmente dos fundos de pensão, bem como da necessidade de mais transparência e de responsabilidade fiduciária dos gestores.
Após o lançamento dos PRI nos EUA e na Europa a adesão das instituições de Investimento aos princípios tem crescido, já ultrapassando casa dos quatro trilhões de dólares em recursos (VENTURA, 2006).