CAPÍTULO 1 OS PROCESSOS CÍVEIS DE LIBERDADE
1.2 INJUSTO CATIVEIRO: AFRICANOS LIVRES E A LEI DE 1831
1831.
defendendo causas de africanos importados ilegalmente, em diversas ações de liberdade, auxiliados e liderados pelo mais destacado advogado da causa negra, Luís Gama, “o rábula da liberdade”, na justiça609.
Ricardo Tadeu Caíres Silva (2007), em sua análise, concebe a justiça como um palco privilegiado das lutas pela abolição da escravatura na Bahia. A utilização da lei de 07 de novembro de 1831 se transformou em uma das importantes estratégias de contestação à escravidão por parte dos abolicionistas baianos na segunda metade da década de 1880610.
Keila Grinberg (2007), por meio de sua investigação histórica, demonstra que essa prerrogativa legal de liberdade foi utilizada por escravos que viveram em companhia de seus senhores na Província do Uruguai – que desde 1840 estava livre da escravidão – e, ao retornarem ao Brasil, reivindicaram a liberdade. O escopo documental da autora foi composto por sete processos, dos quais quatro foram resolvidos a favor da liberdade e três foram negados. Segundo a estudiosa, a adoção desse direito à liberdade, baseada nos dispositivos legais de 1831, por escravos em ações de liberdade, estabeleceu o “princípio da liberdade” para esses negros importados de maneira ilegalmente no Brasil 611.
Noutro trabalho, a pesquisadora observa que vários escravos brasileiros (ou baseados no Brasil), depois de cruzar de volta a fronteira da Argentina ou do Uruguai, foram para os tribunais reclamar seus direitos à liberdade fundamentando seus argumentos na lei de 1831. Nestes casos, além da referência à lei de 1831, os defensores dos escravos frequentemente usaram o argumento do “princípio da liberdade”, segundo o qual qualquer escravo que pisassem em solo livre automaticamente teria direito à libertação612.
K. Grinberg (2013) encena um reencontro das fronteiras da escravidão e da liberdade no sul da América. Motivados pela busca do solo livre, além do distanciamento do senhor, muitos escravizados tentaram a fuga pela fronteira, o que
609_______.Orfeu de Carapinha: a trajetória de Luís Gama na imperial cidade de São Paulo.
Campinas, Editora da Unicamp/Cecult,1999, p.189-265.
610SILVA, Ricardo Tadeu Caíres. Caminhos e descaminhos da Abolição. Escravos, senhores e direitos nas últimas décadas da escravidão (Bahia, 1850-1888). Tese de Doutorado. Curitiba, PR, UFPR/SCHLA, 2007, p.228
611GRINBERG, Keila. “Escravidão, direito e alforria no Brasil oitocentista: reflexões sobre a lei de 1831 e o ‘princípio da liberdade’ na fronteira sul do Império brasileiro”. In J. M. de Carvalho (org.), Nação e Cidadania no Império: novos horizontes. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2007.
612_______.Escravidão e Relações Diplomáticas Brasil e Uruguai, século 19. Curitiba. In:
ENCONTRO ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NO BRASIL MERIDIONAL, 4, 2009, Curitiba. Anais.
Curitiba: UFPR, 2009, p. 1-9. Disponível em: <https://bit.ly/2Zw5PrN>. Acesso em: 20/11/2020, p.5.
poderia possibilitar a mudança efetiva de condição jurídica de escravo para livre ou liberto613.
Para os negros, mostra-nos Sidney Chalhoub (1990), o significado da liberdade foi forjado na experiência do cativeiro. Para o autor, as ações de liberdade se constituem em processos judiciais nos quais os escravos, através de seus curadores, procuravam conseguir a alforria a seus senhores pelos mais variados motivos614.
A historiadora Keila Grinberg (2010), em sua análise, mostrou que as ações de liberdade se distribuem por praticamente todo o século XIX, aumentando em número à medida que o tempo avança. Os processos distribuem-se por todo o século XIX e por quase todas as regiões do país, em maior ou menor proporção615.
Enfatiza K. Grinberg (2001) que, de fato, a ocorrência de ações de liberdade em fins do século XVIII e boa parte do XIX demonstra que havia um espaço, dentro do universo das leis, da jurisprudência, de advogados e juízes, mesmo partindo de tradições jurídicas distintas, para que se discutisse a questão da mudança de condição de uma pessoa616.
Mariana Armond Dias Paes (2019) demonstra que o direito de ação dos escravizados existia, todavia era limitado e precário617. Kátia de Queirós Mattoso (2003) havia muito bem demonstrado na historiografia que o escravo não possuía personalidade jurídica, portanto, para o cativo requerer a proteção dos tribunais, ele necessitava do intermédio de um curador nomeado pelos próprios tribunais618.
Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça (2006) recuperam as enormes potencialidades associadas ao direito, ao justo, ao legal e ao legítimo, nas origens da justiça, para que possamos observar o conflito entre diferentes concepções de direitos, que formam campos conflituosos, constitutivos das próprias relações sociais no terreno minado pela luta política, cujos sentidos e significados
613_______.Fronteiras, escravidão e liberdade no sul da América, p.14-15. In: As fronteiras da escravidão e da liberdade no sul da América/ organização Keila Grinberg.-1.ed. – Rio de Janeiro:
7Letras, 2013.
614CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte / Sidney Chalhoulb. - São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.21.
615GRINBERG, K. Liberata: a lei da ambiguidade - as ações de liberdade da Corte de Apelação do Rio
de Janeiro no século XIX [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisa Social, 2010,p.11-13.
616_______. Alforria, direito e direitos no Brasil e nos Estados Unidos. Estudos Históricos, n.27, p.63-83, 2001, p.75.
617DIAS PAES, Mariana Armond, op. cit., p.20-25.
618MATTOSO, Katia M. de Queirós, op. cit., p.179.
dependem das ações dos próprios sujeitos históricos que os conformam619.
Luiz Gama620
Esse tipo de ação de liberdade, sustentada pela lei de 1831, concorreu em um processo da série documental analisada. Esta propagada pelo mais famoso abolicionista de São Paulo, Luiz Gama, que a utilizou como um poderoso instrumento de desestabilização da ordem escravocrata e da legitimidade da escravidão, no foro de Pindamonhangaba, em 03 de setembro de 1878.
O rábula requeria a liberdade de 18 escravos que pertenceram a Alexandre Marcondes do Amaral Machado, já falecido na época, e que, apesar de disposição testamentária dando liberdade aos mesmos, ainda continuavam cativos. O sentido interno do processo tem, como finalidade, a libertação dos africanos, bem como de seus descendentes, importados criminosamente e ilegalmente, após a lei de 1831, por Alexandre Marcondes do Amaral, que, em seu testamento, confessou tais crimes. Todavia os mencionados africanos, bem como seus descendentes, continuavam mantidos em cativeiro ilegal em violação manifesta do direito.
A peça processual se abre com a petição de Luiz Gama em favor da liberdade de Francisco, Simão e outros, escravos, que foram do finado Alexandre Marcondes do Amaral Machado. O suplicante provava suas alegações com documentos exibidos. Ele requeria e aguardava providências, concernentes à cessação do indébito cativeiro, em que se achavam aqueles infelizes, que têm direito à reparação justíssima, do seu usurpado trabalho.
A incapacidade da justiça de fazer valer a lei fez com que Luiz Gama apelasse às autoridades para que tomem, nos termos das disposições em vigor, as necessárias providências para que, de pronto, entrem no gozo de sua liberdade os africanos livres bem como seus descendentes.
A estratégia adotada no processo pelos familiares do testador foi de suprimir a
619LARA, Silvia Hunold, MENDONÇA, Joseli Maria Nunes. “Apresentação”. Direitos e justiças no Brasil: ensaios de história social/ organizadores: Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça.
– Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2006. p.12 -14.
620Liberdade em favor de Francisco, Simão e outros, escravos, que foram do finado Alexandre Marcondes do Amaral Machado. 2º Cartório. Juízo Municipal de Pindamonhangaba. Data: 03 de setembro de 1878. Documento 03. Caixa 1151. Centro de Memória Barão Homem de Mello. Arquivo Histórico Dr. Waldomiro de Abreu. Pindamonhangaba/SP. Transcrição Paleográfica: Jurandyr Ferraz de Campos e Silvia Maria Pereira Novais. Arquivo Histórico Dr. Waldomiro Benedito de Abreu- Prefeitura Municipal de Pindamonhangaba-SP.
petição de liberdade movida por Luiz Gama em seu movimento de liberdade dos africanos e seus descendentes. Os familiares de Alexandre Marcondes do Amaral Machado seriam os responsáveis legalmente por passar as cartas de liberdade aos africanos ilegais, contudo recusaram-se em comparecer à justiça, evitando-se, assim, dar prosseguimento à petição de liberdade. Aos africanos ilegais e seus descendentes, personagens centrais deste processo, a liberdade permaneceu uma abstração, pois continuavam retidos ilegalmente como escravos, mesmo após serem libertados por testamento deu seu proprietário.
Uma outra ação, que agora analisaremos, ao arrepio da lei de 1831, em favor da liberdade do africano Luiz, retido, ilegalmente, como escravo.
Luiz e Eva, africanos621
Este processo cível de liberdade é exemplificação da mais bela pintura da argumentação jurídica entre o advogado do escravizado e o advogado do proprietário. Brilhante são as estratégias de defesa em torno da legalidade e ilegalidade da ação. Preciosa se converte por ser o duelo composto pelo principal advogado dos escravizados frente ao maior defensor do direito à propriedade, João Romeiro, o redator da Tribuna do Norte.
A competência jurídica, aliada à experiência como advogado, deputado provincial, redator, tornava João Romeiro no adversário mais implacável de ser derrotado no tribunal. Ele, advogado experiente, possuidor de um amplo conhecimento jurídico acerca das leis e da jurisprudência, conseguia muitas vezes reduzir a interpretação da liberdade dos escravizados em detrimento do direito dos proprietários.
Igualmente grandiosa é a ilustração jurídica daquele que mais impetrou ações de liberdade em nome de escravos. José Fortunato da Silveira Bulcão, ao questionar a ilegalidade da escravidão no tribunal, nos deixou um registro dos mais admiráveis para a posterioridade, digno das mais fascinantes histórias de enfretamento à ordem escravocrata.
A peça inaugural do processo foi redigida por José Alexandre Bulcão a arrogo
621Ação de Liberdade. 1º Cartório. Juízo Municipal de Pindamonhangaba. Luís e sua mulher Eva.
Data: 21 de maio de 1883. Documento 04. Caixa 158. 1881 – 1888. Centro de Memória Barão Homem de Mello. Arquivo Histórico Dr. Waldomiro de Abreu. Pindamonhangaba/SP.
do suplicante Luiz, natural da costa africana, preto, em 15 de maio de 1883, retido como escravo, até aquela data, no município, em poder de Elias Homem de Mello.
Ele era casado com Eva igualmente africana e nas mesmas condições do suplicante. A petição tratava de sua liberdade e de sua companheira. José Alexandre Bulcão expunha também que Luiz possui valor legítimo correspondente ao seu possível valor como escravo.
Para resguardar o direito de liberdade, o peticionário solicitava a necessidade de garantia de depósito judicial provisório. Além da nomeação de curador idôneo, para poder fazer a eles seus direitos. Vinha, portanto, o suplicante requerer uma medida que os colocaria a salvo de qualquer violência. Segundo Dias Paes (2019), o depósito funcionava como garantidor do direito de ação de escravos e libertos. O depósito era uma garantia que o ordenamento jurídico brasileiro reconhecia aos escravos622. Mostra-nos a autora para que um escravo fosse parte de um processo, era necessário que ele fosse representado por um curador623.
O juiz municipal, Aurélio de Gusmão, atendeu à solicitação de José Alexandre Bulcão, nomeando curador do suplicante, o advogado José Fortunato da Silveira, e, para depositário, José Alexandre Bulcão.
Em 26 de maio, ao juiz municipal, dizia José Alexandre Bulcão, depositário dos libertandos Luiz e Eva, que tendo recebido somente Luiz, restando, portanto, ainda a receber Eva, que estava sob o poder do seu proprietário, Elias Homem de Mello. Ele requeria em juízo que se mandasse passar mandado e fazer recolher ao depósito a referida Eva. Em mesma data, o juiz municipal intimou o proprietário para fazer a entrega da preta Eva, a fim de ser recolhida ao respectivo depósito.
O dr. José Fortunato da Silveira Bulcão, curador do africano Luiz e da sua mulher Eva, exibiu, em juízo, a quantia de 380$000 (trezentos e oitenta mil réis) referentes ao pecúlio de Luiz. Mas, peticionava ele que, como requereu a liberdade dos seus curatelados por serem africanos livres, deixava de entrar com o pecúlio.
Em 27 de maio, ao juiz municipal, o curador dos libertandos, Luiz e Eva, em cumprimento do seu dever, ofereceu a consideração de sua ação. Argumentava que tanto Luiz como sua mulher Eva são africanos, importados para o Brasil. Assim como na matrícula geral, como nas averbações subsequentes, foram ocultadas a qualidade de africanos ou a naturalidade dos libertandos. Na matrícula feita em 26
622DIAS PAES, Mariana Armond, op. cit., p.90, 93, 101 e 102.
623Ibidem, p. 69 e 75.
de setembro de 1872, foram declaradas, com inexatidão, as idades dos mesmos, tendo 44 anos a mulher, e 45 o homem. Os documentos, oferecidos pelo advogado José Fortunato da Silveira Bulcão, se comprovados, provavam a ilegalidade do cativeiro. Passar-se-iam, portanto, as cartas de liberdade aos libertandos.
A defesa da propriedade
O proprietário dos libertandos Luiz e Eva, Elias Marcondes Homem de Mello, passou procuração de plenos poderes ao dr. João Romeiro para representá-lo na defesa de seus interesses. O advogado peticionava que a lei não exigia, para reconhecimento da propriedade, que o senhor atual fizesse exibição de todos os títulos anteriores, pelos quais foi a propriedade adquirida.
João Romeiro criticava a nomeação do depositário José Alexandre Bulcão, que, segundo ele, não possuía a precisa idoneidade e nem podia inspirar ao juízo a garantia para bem desempenhar o cargo de depositário. Não passava, nos seus dizeres, de um simples caixeiro. Requeria, portanto, ao juiz que haja de substituí-lo, nomeando pessoa que inspira mais confiança ao senhor dos escravos. O despacho de João Romeiro foi aceito e o depositário, José Alexandre Bulcão, foi destituído do cargo a mandado do juízo municipal. A defesa dos libertandos sofria o primeiro revés.
“Amou a liberdade e afrontou a propriedade”
O curador dos libertandos, o dr. José Fortunato da Silveira Bulcão, tendo ciência do despacho do juiz municipal, peticionou contra aquela medida, pois, para ele, não se deveria remover o depositário pela simples alegação de suspeito pelo senhor dos escravos. Ainda mais pelo que foi alegado de ser o depositário um simples caixeiro que não merecia a confiança necessária do proprietário.
O advogado representava que é falso que o depositário seja um simples caixeiro. Ele foi, hoje não o é. José Alexandre Bulcão é negociante por conta própria.
Mas, continuava a exposição, ainda que fosse, não há disposição de direito que encabule a essa classe de gente arreliares do mesmo cargo para depositário, quando possa sê-lo. Para a defesa não parecia ser jurídico entender que só os ricos possam ser depositário.
O dr. José Fortunato da Silveira Bulcão sustentava que o depósito é uma garantia estabelecida pela lei, em favor do libertando, para tratar a diligência e poder livremente tratar de seu direito. Não é, segundo a sua linha de argumentação, indispensável que mereça a aprovação do senhor do suposto escravo. A sua remoção, sem audiência, passa desconfiança do juízo.
O curador, lembrava ao juízo, assumiu a defesa dos libertandos, pois foi indicado pelo depositário. Ele não podia, por isso, tolerar tamanha ofensa do juizado.
Em solidariedade ao destituído depositário, o advogado pediu ao juiz que digne-se conceder-lhe a exoneração, pois, registrou em sua petição, “se amou a liberdade e afrontou a propriedade”, amava ainda mais seus brios.
O juiz municipal, Aureliano de Gusmão, respondendo à petição, disse que não houve ofensa e nem desconfiança provocadas ao doutor curador dos libertandos.
Assumiu como curador e depositários dos libertando, o dr. José Marques de Oliveira Ivahy.
A saída dos tribunais de José Alexandre Bulcão e do dr. José Fortunato da Silveira Bulcão parece dissipar quaisquer crenças na marcha do processo de liberdade de Luiz e Eva com base na lei de 07 de novembro de 1831. O novo curador não pareceu disposto a lutar por essa prerrogativa de liberdade. Não é por mera força do acaso que o advogado, José Marques de Oliveira Ivahy, escreveu que não se provava pelos documentos do processo que Luiz e Eva foram importados após a supressão do tráfico. A defesa se limitava a solicitar arbitramento para ser Luiz libertado por meio de pecúlio. Quanto a Eva, mulher de Luiz, restava o direito de poder reclamar, perante o meritíssimo juiz de órfãos, sobre sua ordem de preferência na classificação para ser libertada pelo Fundo de Emancipação. O proprietário esteve de acordo com o que foi proposto pelo curador na sua procuração. Luiz, por meio do processo de arbitramento, foi avaliado em trezentos e oitenta mil réis (380$000). Quantia essa que possuía como pecúlio para indenizar seu proprietário.
A liberdade indenizada passa a ser o objeto de análise dos processos cíveis de liberdade sustentados pelo direito de libertar-se pelo pecúlio, à revelia senhorial, estabelecido pela lei de nº2040 de 28 de setembro 1871.