Daniel Pires
Centro de Estudos Bocageanos- Setúbal
1 – A obra
O Dicionário Bibliográfico Português1 é uma obra relevante, sendo consulta obrigatória, apesar de ter
sido publicado há cerca de 140 anos, de todos os investigadores que equacionam a cultura nacional. Porém, ao contrário do que é do conhecimento comum, o legado de Inocêncio Francisco da Silva não se circunscreve àquele laborioso empreendimento.Com efeito, é também da sua lavra a organização da obra completa de Bocage, cuja primeira publicação data de 1853, e das Poesias Eróticas, Satíricas e Burles- cas, que conheceram clandestinamente os prelos no ano seguinte. Porém, o seu caminho na qualidade de editor literário não se circunscreveu a Bocage: deve-se-lhe a publicação das Poesias Joviais e Satíricas de António Lobo de Carvalho, das Composições Poéticas Agora Coligidas pela Primeira Vez de José Anastácio da Cunha (Lisboa: na Tipografia Carvalhense, 1839), edição que lhe valeu ser processado judicialmente por “abuso de liberdade de imprensa em matéria religiosa.” Recorde-se que A Voz da Razão, obra pro- eminente, ao que parece, daquele matemático, fora apreendida por decreto da Congregação do Índex, de 7 de Janeiro de 1836. Da sua iniciativa foram ainda as edições da Feira dos Anexins, obra póstuma de D. Francisco Manuel de Melo, publicada pouco antes de falecer, e, ao que tudo indica, da Colecção d’ Epístolas Eróticas e Filosóficas, dada à estampa, em Paris, no ano de 1834, com a chancela da “Casa de J. P. Aillaud”, tinha Inocêncio 24 anos. Reunia esta obra três poemas que marcaram o século XVIII português: a “Epístola a Marília”, que esteve na origem da detenção de Bocage, “A Voz da Razão” e a “Epístola d’ Heloisa a Abeilard”, da autoria de Colardeau, embora “de acordo com o modelo de Pope”, assinada por J. da F., o tradutor português.
A sua laboriosa actividade manifestou-se ainda nas páginas de um jornal que fez época, O Conimbri- cense, dirigido por Joaquim Martins de Carvalho, no qual publicou documentos inéditos de inequívoca importância para a cultura nacional sobre, entre outros assuntos, a inquisição, o Marquês de Pombal, os Távoras e a maçonaria.
De acordo com o Dicionário da Maçonaria de A. H. de Oliveira Marques, Inocêncio Francisco da Silva, perfilhando Demócrito como nome simbólico, pertenceu às lojas maçónicas “5 de Novembro” e “Pureza” e ascendeu aos graus 7º do Rito Francês e 33º do REAA, tendo sido membro efectivo do “Supremo Conselho”. Esta militância não o impediu de elaborar uma circunstanciada biografia de uma personalidade que fez do anti-maçonismo profissão de fé, intitulada Memórias para a Vida Íntima de José Agostinho de Macedo, obra importante para a reconstituição das relações que este contundente polemista manteve com o poeta setubalense.
2 – Inocêncio editor de Bocage
2.1 – Obras publicadas durante a vida de Bocage
Os marcos miliários da produção poética de Bocage encontram-se nas várias edições do primeiro
1 Durante a vida de Inocêncio Francisco da Silva, foram publicados, entre 1858 e 1862, sete volumes e dois suplementos. A conclusão desta fulcral iniciativa foi da responsabilidade de Brito Aranha e de Álvaro Neves.
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tomo das Rimas (1791, 1794 e 1800); nos Idílios Marítimos (1791); no segundo tomo das Rimas, “dedi- cadas à Amizade”, dado à estampa em 1799 com o objectivo de incensar as personalidades que, na sombra dos bastidores ou nos circuitos palacianos, congeminaram a melhor estratégia para o libertar do cárcere, entre as quais se contam nomeadamente José de Seabra da Silva, mas também os marqueses de Abrantes, de Ponte de Lima e de Pombal (filho primogénito de Sebastião José de Carvalho e Melo), Joaquim Pereira de Almeida, Vicente José Ferreira Cardoso da Costa e o conde de São Lourenço; no vulgarmente designado por terceiro tomo das Rimas, na realidade intitulado Poesias de Manuel Maria Bar- bosa du Bocage Dedicadas à Ilustríssima e Excelentíssima Senhora Condessa de Oyenhausen, Marquesa de Alorna, correligionária da arte de lapidar o verso e também vítima do despotismo de Diogo Inácio de Pina Manique, Intendente-Geral das Polícias do Reino; num folheto, actualmente raro, constituído por um soneto e quinze oitavas, o Elogio Poético à Admirável Intrepidez, com que em Domingo 24 de Agosto de 1794 Subiu o Capitão Lunardi no Balão Aerostático, composto em defesa do nauta italiano que tão maltratado foi pelas autoridades portuguesas; nos Improvisos de Bocage na sua mui Perigosa Enfermidade, na Colecção dos Novos Improvisos de Bocage na sua Moléstia, com as obras que lhe foram dirigidas por vários Poetas nacionais e em A Virtude Laureada, obras publicadas ao longo dos últimos seis meses de vida do poeta, que convivia já quotidianamente com o espectro da morte.
2.2 – Obra póstuma
Na sequência do falecimento de Bocage, foram envidados esforços para se publicarem os inéditos que se encontravam no seu espólio. Seria, por um lado, uma ajuda preciosa a Maria Francisca Barbosa du Bocage, em situação económica precária, e, por outro, dar-se-iam a lume composições que estavam no segredo dos deuses. A irmã de Bocage, que com ele partilhara um quarto andar da rua André Va- lente, às Mercês, e presenciara a agonia que, no ano de 1805, o acometera, entregou-as, tendo como desiderato a organização de um livro, ao padre José Agostinho de Macedo. Há quem afirme – por exemplo, Nuno Álvares Pato Moniz – que, por despeito, aquele inimigo de Bocage queimou alguns poemas; subsistem as dúvidas, mas a correspondência de Maria Francisca, dirigida a Manuel Pinto Baptista, administrador da Gazeta de Lisboa, é muito pouco abonatória para o mencionado religioso2.
Depois de um impasse, o livreiro Desidério Marques Leão, em 1812 e em 1813, publicou as Obras Poéticas de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, oportunisticamente intituladas “tomos IV e V”, porquanto inserem muitos textos que constam dos anteriores. Caracterizam-se pela incúria no domínio da trans- crição, embora apresentem o mérito de desvendar bastantes inéditos; com o objectivo de exautorar a edição anterior, Nuno Álvares Pato Moniz decidiu, em 1813 e 1814, dar aos prelos dois volumes inti- tulados, sintomaticamente, Verdadeiras Inéditas, Obras Poéticas de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Segundo aquele amigo do escritor, o primeiro tomo incluía composições manuscritas disponibilizadas pela irmã e outras “que estavam em mãos diversas de sujeitos que muito estimadas as recatavam por serem da letra do Autor”. Advertia ainda que naquele volume se reuniam quase exclusivamente inéditos. Em posfácio, Pato Moniz retomava as suas considerações sobre aquela iniciativa:
Havia mais poesias manuscritas, com as quais se contava fazer maior este volume; porém, viu-se que umas eram fragmentos indigestos, e desprezaram-se por honra do Autor; outras não foram julgadas dignas de licença e outras finalmente já se achavam impressas em vida do Autor.3
Registou-se então um longo silêncio, entrecortado por reedições que não carrearam quaisquer elementos novos; em 1840, três anos antes de falecer, António Maria do Couto, que convivera com
2 Cf. Arquivo Distrital de Setúbal, acervo de Almeida Carvalho, pasta nº 102, carta nº 1, de 15 de Junho de 1807, e nº 2, não datada, eventualmente de Fevereiro do ano seguinte.
3 Verdadeiras Inéditas, Obras Poéticas de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, tomo IV e 1º das suas obras póstumas. Lisboa: na Im- pressão Régia, 1813, p. 284.
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Bocage na boémia4 e na maçonaria, publicou Poesias Satíricas Inéditas de (…)5, obra que deverá ser lida
com circunspecção por ser redutora – dando voz a uma tradição empobrecedora do poeta – e pelas contradições e inexactidões da transcrição. Por idêntica senda trilharam, por vezes, os irmãos António Feliciano de Castilho e José Feliciano de Castilho, em Excertos de todos os Principais Autores Portugueses de Boa Nota, assim Prosadores como Poetas6, dando guarida a composições pícaras, medíocres, incompatíveis
com a sensibilidade de Bocage7.
2.3 – A edição da obra completa de Bocage da responsabilidade de Inocêncio Francisco da Silva
Considerando, por um lado, a atribuição abusiva de poemas, a incúria na transcrição, o lucro como único móbil e o oportunismo que caracterizaram algumas das edições anteriormente mencionadas e, por outro lado, o facto de a poesia de Bocage se encontrar então dispersa e inacessível, é da mais elementar justiça saudar a publicação por Inocêncio Francisco da Silva, em 1853, da obra completa8.
Quarenta e oito anos depois do falecimento do escritor, foi finalmente preenchida uma lacuna. Inocêncio Francisco da Silva foi quase contemporâneo de Bocage: nasceu em Lisboa, no ano de 1810. São evidentes as afinidades existentes entre ambos: membros da maçonaria, apologistas do livre pensamento, críticos do despotismo, vítimas da censura e amantes das belas-letras. Compreende-se, deste modo, a iniciativa daquele bibliógrafo, que constituía também uma homenagem a uma figura tutelar da literatura nacional.
Da ampla investigação que empreendeu constaram múltiplos contactos com pessoas que privaram com o poeta ou que o conheceram indirectamente, através de depoimentos de amigos e de familiares. Alguns tinham inclusivamente em seu poder manuscritos originais ou cópias que se revelaram úteis para a organização da sua edição da obra de Bocage. Concomitantemente, Inocêncio realizou um atu- rado trabalho de arquivo, labor que lhe facultou informações não despiciendas e textos inéditos.
Este manancial de carácter biográfico foi-nos transmitido em notas minuciosas ao longo dos seis volumes que constituem a primeira edição da obra completa de Bocage. Tal aparato crítico é relevante porquanto estamos em presença de uma poesia que, exceptuando a lírica, para ser melhor compreen- dida, necessita com frequência de ser contextualizada.
Eis, pois, a matriz que acompanhou posteriormente todos os editores escrupulosos de Bocage.
2.4 – A Edição das Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas
Os primeiros cinco volumes da obra completa de Bocage foram publicados ao longo do ano de 1853; o sexto apresenta um texto final datado de 24 de Janeiro do ano seguinte. Inocêncio sabia que, devido ao seu teor subversivo, havia uma parte importante da poesia de Bocage que permanecia iné- dita. Decidiu então preparar a sua edição clandestina, única forma de evitar a acção predadora da cen- sura. Por outro lado, evitava uma mais do que provável acção judicial, como acontecera anteriormente com a obra de José Anastácio da Cunha. Recorde-se que Inocêncio era funcionário do Governo Civil de Lisboa, cargo que implicava algumas limitações no domínio da publicação.
As Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas de M. M. de Barbosa du Bocage não Compreendidas na Edição que das
4 Cf. COUTO, António Maria do – Um Taful de Luneta. Colecção de letreiros célebres que se acham escritos por cima das portas de várias lojas desta capital feitos para servirem de anúncio ao público. Lisboa: na Oficina de Simão Tadeu Ferreira (volume 1) e na Oficina de João Procópio da Silva (volume II), 1806.
5 Lisboa: Tipografia A. J. da Rocha, 1840, 64 p. 6 Lisboa: Tipografia Lusitana, 1845-1847, tomos 17 a 25.
7 Sobre este assunto, V. BILAC, Olavo – Bocage. Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2001, 47 p.
8 Poesias de Manuel Maria Barbosa du Bocage coligidas em nova e completa edição, dispostas e anotadas por I. F. da Silva, precedidas de um estudo biográfico e literário sobre o poeta por L. A. Rebello da Silva. Lisboa: Tipografia de António José Fernandes Lopes, 1853, 6 volumes.
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inocêncio Franciscoda silVa editorde bocage
Obras deste Poeta se Publicou em Lisboa, no Ano Passado de MDCCCLIII vieram então a lume, apresentando a folha de rosto apenas a data e “Bruxellas”, local de edição obviamente fictício. Foram finalmente pos- tas em letra de imprensa algumas composições que marcaram a nossa literatura: a “Epístola a Marília”, manifesto iluminista que põe em causa o casamento, a hipocrisia clerical, a educação então vigente, o despotismo e a manipulação religiosa com fins políticos; as “Cartas de Olinda e Alzira”, manifesto feminista que reivindica a individualidade e o direito ao prazer para além do matrimónio; a “Arte de Amar ou Preceitos e Regras Amatórias para Agradar às Damas” e alguns sonetos que se revelaram paradigmáticos como “Amar dentro do peito uma donzela” e “Magro, de olhos azuis, carão moreno”, na sua versão clandestina, isto é, diferente daquela que a censura aprovara e fora publicada no terceiro tomo das Rimas9. Inocêncio Francisco da Silva anotou profusamente a mencionada obra e assinalou os
poemas que são de autoria duvidosa.
O sucesso foi amplo, pois conhecem-se três edições de 1854, partindo do princípio, não seguro, de que a data é verdadeira. Uma delas apresenta oito imagens pornográficas, iniciativa de um editor anónimo que,
constatando a recepção considerável da obra, decidiu republicá-la à revelia de Inocêncio.
Esta é a matriz de todas as edições posteriores das Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas, as quais apre- sentam locais fictícios: Bruxelas, Baía, Londres, Amsterdão, Cochinchina, Paris, Leipzig, etc.10
3 – Conclusões
Uma afinidade, entre outras, existe entre Bocage e Inocêncio Francisco da Silva: a pouca consi- deração que o poder lhes consagrou. Com efeito, o primeiro foi votado ao ostracismo e faleceu na miséria, perdendo-se, mais tarde, os seus restos mortais numa vala comum, que abrigou também os de Nicolau Tolentino e de António Lobo de Carvalho. O segundo só muito tardiamente – já próximo da cegueira – obteve redução de horário para prosseguir o Dicionário Bibliográfico Português; acresce ainda que a sua preciosa e extensa biblioteca foi desirmanada num leilão, sem que, como era curial, o Estado português interviesse. Apenas foi, então, permitido a Brito Aranha retirar alguns espécimes fulcrais para a conclusão daquela obra.
A bibliografia passiva de Inocêncio é breve porque não foi conferido ao seu labor o reconhecimen- to que lhe é devido. O objecto da presente comunicação é contribuir para a reparação dessa injustiça.
9 In Poesias de Manuel Maria Barbosa du Bocage dedicadas à Ilustríssima e Excelentíssima Condessa de Oyenhausen. Lisboa: na Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1804, p. 10.
10 Traçámos o historial destas edições clandestinas no estudo prévio de Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas de Bocage. Porto: Caixotim, 2005, p. LII.
14leiturasde bocage Bibliografia:
BOCAGE – Poesias de Manuel Maria Barbosa du Bocage, coligidas em Nova e Completa Edição, Dispostas e Anotadas por I. F. da Silva e Precedidas de um Estudo Biográfico e Literário sobre o Poeta por L. A. Rebello da Silva. Lisboa: Tipografia de António José Fernandes Lopes, 1853, 6 vols.;
ID. – Poesias Eróticas, Burlescas, e Satíricas de [...], não compreendidas na edição que das obras deste poeta se publicou em Lisboa, no ano passado de MDCCCLIII. Bruxelas: 1854, 217 p. ;
Catálogo da Copiosa Biblioteca do Falecido Inocêncio F. da Silva. Lisboa: Tipografia Universal, 1877; F., T. – “Catálogo da Estante de Martins de Carvalho” in Arquivo Coimbrão nº 2, Out. 1923; MARQUES, A. H. de Oliveira – Dicionário da Maçonaria Portuguesa. Lisboa: Editorial Delta, 1986, vol. 1;
ID. – História da Maçonaria em Portugal. Volume 1 – Das Origens ao Triunfo. Lisboa: Editorial Pre- sença, 1990;
NEVES, Álvaro – “Cartório do Dicionário Bibliográfico Português” in Arquivo Coimbrão nº 3/5, Maio 1924;
ORTIGÃO, Ramalho – As Farpas. Lisboa: Clássica, 1944, vol. III;
PEIXOTO, Jorge – “Os Índices do Dicionário Bibliográfico Português de Inocêncio Francisco da Silva” in Arquivo de Bibliografia Portuguesa (Coimbra), nº 15/16, Jul.-Dez. 1958;
PEREIRA, Esteves e RODRIGUES, Guilherme – Portugal – Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico. Lisboa: João Romano Torres Editor, 1912, vol. VI.
14 RACISMO E ANTISEMITISMO EM BOCAGE?
Marie-Hélène Piwnik
Universidade de Paris-Sorbonne/Paris IV
No comum louvor que se faz à poesia de Manuel Barbosa do Bocage, há sempre uma discreta restrição, que diz respeito aos sonetos onde ele faz prova abertamente do que hoje chamamos racismo e antisemitismo, às vezes inclusive passados em silêncio. São pouco numerosos, comparados com a prolífica produção erótica-amorosa, e mesmo com o resto da ingente criação satírica na qual se inse- rem. Quanto ao antisemitismo, consta nos sonetos 266 e 2671, ambos dedicados a “G…P…S…M…,
apontador no arsenal da Marinha”, definido como “sacerdote fiel do hebraico rito”, e também no soneto 272, intitulado “A um ricaço tido na conta de cristão-novo” (notemos que “tido na conta” já deita suspicácia sobre a veracidade da identidade declarada). Ao todo, 3 sonetos, de fim dos anos 80. As composições de cunho racista são mais abundantes. Dividem-se em dois grupos, que correspon- dem a dois períodos distintos da vida do poeta: as que escarnecem os goeses – como se sabe, Bocage foi mandado para Goa em 1786 como guarda-marinha, tinha ele 20 anos -, e as que fazem troça dos brasileiros, e nesse último caso convém sublinhar um elemento que não se haverá de menosprezar na nossa análise, ou seja que as figuras satirizadas gravitam em redor da Nova Arcádia, como o próprio poeta, que nela ingressa aos 24 anos, quando se funda, em 1790. Entre as dezenas de sonetos de veia satírica, contamos 6 de escárnio aos goeses, do 190, “Tu, Goa, in illo tempore cidade” ao 195, “Lusos heróis, cadáveres cediços”2; há 5 de mofa aos brasileiros, destacando o bem conhecido soneto 250, “A
um célebre mulato Joaquim Manuel, grande tocador de viola e improvisador de modinhas”, cujo teor insultuoso é repetido no seguinte, 251, e seguindo com as três composições que ridicularizam o Padre Domingo Caldas Barbosa, brasileiro presidente da Nova Arcádia, ou seja o soneto 222, “Descreve uma sessão da Academia de Belas-Letras de Lisboa, mais conhecida pela denominação de Nova Arcádia”, que começa com “Preside o neto da rainha Ginga” etc.; o mordente soneto 237, “Por casa entrou c’um vil bugio”, e o soneto 238, “Ao trovista Caldas, pardo de feições e grenha crespa e revolta”. Ao todo, 11 sonetos, devendo-se acrescentar a “sátira em louvor” (assim mesmo intitulado pelo poeta) ao mesmo Caldas Barbosa, soneto 236.
Antes de empreender o estudo detalhado desses sonetos, pareceu-me oportuno contemplar breve- mente o estado da questão na época, que é, como todos nós sabemos, a das Luzes.
Se nos remontarmos a séculos anteriores, e baseando-nos sobre a escravatura, será fácil de admitir que o enorme tráfico de pretos de África para América a partir de princípios do século XVI implicava uma global, absoluta indiferença aos sofrimentos dos desterrados, ligada a um sentimento de desprezo para com os africanos, e chegaremos à conclusão da existência dum racismo anti-negro generalizado, quer este se apoiasse em textos bíblicos (a raça negra seria descendente de Cão, cujo filho Canaã foi maldito por Noé) ou num simbolismo negativo da cor negra, mesmo que o mito do “bom negro”, gerado pelo Prestes João, se tivesse propalado um pouco durante a Idade Média. O próprio Las Casas, embora se arrependesse no fim da vida – mas aquelas derradeiras posições só foram conhecidas três séculos após a sua morte -, propusera que se substituísse a escravatura índia pela preta. António Vieira, quanto a ele, embora explique aos pretos que vivem o seu purgatório na Terra, privilegia claramente os índios. No entanto, cabe dizer que ambos adoptam uma atitude cristã, humanista, pouco frequente na altura.
1 A edição utilizada é a de Daniel Pires, BOCAGE, Obra Completa, vol 1, Porto: Ed. Caixotim, 2004.
2 Ao tomar conhecimento tardiamente da edição de Daniel Pires, vi que se podia ter acrescentado o soneto 196, “Um governo sem mando, um bispo tal”, que ironiza sobre Macau, e nunca foi publicado nas Obras Completas do poeta.
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O Século das Luzes vai infelizmente racionalizar aquilo que descansava, vamos dizer, em precon- ceitos colectivos mágico-religiosos. É assim que se procede, nos países que praticam a escravatura, a uma codificação minuciosa da mestiçagem a partir dum léxico bem especializado, dentro do qual a palavra “mulato”, por exemplo, remete para o mulo, ou seja o resultado do cruzamento entre burro e égua, ou entre cavalo e burra, sendo particularmente estigmatizadora.
A noção de raça, desenvolvida como poderoso elemento de classifição em autores franceses do século XVII como Henri de Boulainvilliers e François Bernier, permite ao sueco Lineu (Carl von Linné), em pleno século XVIII, distinguir quatro raças humanas: europeus, americanos, asiáticos e africanos, cujas capacidades intelectuais e morais vão decrescendo da primeira à última, o que significa que, aponta ele, poucos escalões separam o escravo africano do macaco superior.
Buffon lamenta o facto da possível fecundação entre brancos e negros; se não existisse, “o negro