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1.4 CONCEITO, NATUREZA JURÍDICA E FINALIDADE DA RECUPERAÇÃO

1.4.1 Inovações e Aspectos Gerais da Lei n°11.101/2005

Merece destaque a novel ideologia apresentada pela Lei n° 11.101/05, haja vista que ainda no relatório do projeto de lei, sob numeração de PLC n°71/2003, foram listados 12 princípios norteadores, quais sejam: preservação da empresa; separação dos conceitos de empresa e de empresário; retirada do mercado de sociedades ou empresários não recuperáveis; proteção aos trabalhadores; redução do custo do crédito no Brasil; celeridade e eficiência dos processos judiciais; segurança jurídica; participação ativa dos credores; maximização do valor dos ativos do falido; desburocratização da recuperação de microempresas e empresas de pequeno porte; rigor na punição de crimes relacionados à falência e à recuperação judicial.

A base principiológica da legislação atualmente vigente encontra-se em consonância com os princípios trazidos pela Constituição Federal de 1988, isso porque os esforços de recuperar as atividades econômicas e, portanto, de recuperar a empresa excederam em muito os meros interesses da relação credor versus devedor.

A exegese da Carta Magna emprestou novos conceitos quanto o desenvolvimento das práticas comerciais, haja vista que, se passou a observar que a empresa como geradora de postos de trabalho, o que, direta e indiretamente, garante aos cidadãos fonte de subsistência, cidadania e, consequentemente, vai de encontro com a dignidade da pessoa humana. Fora isso as formas de realizar os procedimentos também são mais humanas e menos dramáticas, como será abordado no decorrer do capítulo.

É neste sentido que o artigo 47 da LRF dispõe: “A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e do interesse dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica”.

Assim, a regra passa a ser a tentativa de salvamento da empresa, quando economicamente viável, restando a decretação de falência como medida extrema e que deve ser evitada, sendo apenas aplicável quando a preservação da atividade se mostrar inviável.43 Dessa

maneira, em caso de não haver condições para a manutenção da empresa no mercado, ela deve ser liquidada e evitar o agravamento da situação como um todo, o que demonstra preocupação com a salubridade do mercado.

A atual legislação também se preocupou em garantir a proteção do trabalhador, conferindo-lhe direito de preferência no recebimento de seus créditos, na forma do artigo 54, caput e parágrafo único, da Lei 11.101/2005, além da busca pela preservação dos postos de trabalho conforme falado anteriormente.

Outro quesito que merece extremo destaque, pois que está intrinsecamente ligado ao cerne do presente trabalho de pesquisa, é o interesse da nova legislação em promover redução de custos de acesso ao crédito, conferindo maior segurança jurídica a credores e investidores bem como a diversos atores das mais variadas atividades econômicas.44

Sobre esta questão, o Paulo Penalva Santos ressalta que tal intenção do legislador não surtiu grandes efeitos no que tange ao spread bancário quando afirma “[...] a intenção do legislador era produzir a redução do ‘custo e do crédito’ – o que, de fato, em parte não se verificou na prática, pois o Brasil possui um dos maiores ‘spreads’ bancários do mundo”.

Ponto extremamente importante da Lei n° 11.101/05 é o princípio da celeridade e eficiência do processo, de modo que suas normas visam a efetividade com vistas a acompanhar,

43 SALOMÃO, Luis Felipe; SANTOS, Paulo Penalva. Op.cit. p. 15 44 Ibid. p. 18

dentro do possível, a velocidade das transações mercantis e a dinâmica do mercado econômico. Dentre as modificações, pode-se destacar os prazos rígidos que a lei apresenta, em que pese a sua frequente relativização por parte dos julgadores com vistas a evitar o trauma da decretação de falência.

O sistema engenhoso da LRF visa conferir segurança jurídica por meio da clareza de suas normas. Além disso, confere participação ativa aos credores, com vistas a evitar o descaso praticado com eles no ordenamento anterior, coibir fraudes e adequar o processo e os resultados à realidade mercadológica.

Percebe-se, junto com a extinção da concordata e criação do instituto da recuperação judicial de empresas, a aniquilação da figura do comissário bem como a mudança nas atribuições e denominação, que passa a ser chamado de administrador judicial, e deverá, segundo o artigo 21 da LRF, “ser profissional idôneo, preferencialmente advogado, economista, administrador de empresa ou contador, ou pessoa jurídica especializada”.

O artigo 22, I, g, da LRF prevê a necessidade de requerimento ao juiz, feito pelo administrador judicial, para convocação de assembleia geral de credores. Nesse mesmo sentido, a Seção III da, Capítulo II, prevê a formação de Comitê de Credores, constituído mediante deliberação em assembleia geral, contendo, necessariamente, um representante de cada classe de credores, segundo a especificação do artigo 26. Dentre as atribuições do comitê, previstas pelo artigo 27 da LRF, está o auxílio do administrador judicial e do magistrado no decorrer do processo, verificando o seu correto andamento, isto é, órgão da recuperação judicial com caráter fiscalizatório.

Dentre os princípios que merecem destaque resta, ainda, o rigor na punição dos crimes falimentares. Verifica-se, ao realizar breve comparativo entre as penalidades previstas pela legislação anterior, que os crimes punidos com pena de reclusão (artigo 187, do Decreto-Lei n° 7.661/45) tinham pena culminada máxima de 4 anos, ao passo que na legislação atual a dosimetria pode alcançar a soma de 6 anos (artigo 168, da Lei n° 11.101/2005). Outro fator que demonstra maior firmeza é que grande número dos crimes falimentares recebiam, na lei anterior, a pena de detenção, enquanto hodiernamente se adota, para a maioria das condutas tipificadas, a pena de reclusão, sendo a previsão do artigo 178 da LRF a única hipótese de detenção. Isso porque as falências fraudulentas impõem grandes prejuízos à ordem econômica e social, bem como todo o esforço de soerguimento da empresa presente no novel texto normativo, inclusive mediante desburocratização, celeridade e participação ativa de credores, tem de se preocupar sobremaneira com as fraudes que contra ele possam vir a ser tentadas.