4.3 Inquéritos Extrapoliciais
4.3.2 Inquérito Policial Militar
Inicialmente no Brasil, o Processo Penal Militar era conduzido pelo Decreto-Lei nº 925, de 02 de Dezembro de 1938, denominado de Código da Justiça Militar. Porém, a partir do Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de Outubro de 1969, surgiu o Código de Processo Penal Militar que vigora em nosso ordenamento jurídico atualmente, e é o responsável por regulamentar o Processo Penal Militar Brasileiro.
No tocante ao conteúdo do Código de Processo Penal Militar atual, explica Ederson José Biscaia (2006) “[...] preservou em seus institutos a tradição, os usos e costumes militares, e acima de tudo os princípios da hierarquia e disciplina, considerados como pilares de sustentação de qualquer força militar”.
Os órgãos militares zelam pelo caráter de seus integrantes, isto é, os militares devem agir em conformidade com a moral e com os princípios militares, sendo que ao agir inversamente, são submetidos a julgamentos sob a presidência de outros militares, além de serem punidos com maior austeridade.
O processamento dos delitos militares se dá por força do Código Penal Militar e pelo Código de Processo Penal Militar. Caso a lei militar seja omissa, aplicam-se, subsidiariamente, as disposições do Código de Processo Penal Comum, assim como os usos e costumes militares, os princípios gerais do direito e a analogia, conferindo ao indiciado segurança jurídica e as garantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa (BISCAIA, 2006).
O inquérito policial militar, por força do que dispõe o artigo 9º do Código de Processo Penal Militar, tem como finalidade a apuração das infrações penais militares, bem como de sua respectiva autoria. Entretanto, os crimes a serem investigados pela Polícia Judiciária Militar ocorrem no âmbito da Justiça Militar, ou seja, trata-se de uma justiça especializada, onde os procedimentos processuais são descritos no Código de Processo Penal Militar e os tipos penais no Código Penal Militar.
Na definição apresentada por Tourinho Filho (2010, p. 242): “[...] Tais inquéritos nada mais são que investigações levadas a cabo pelas autoridades militares para apurar a existência de crime da alçada da Justiça Militar e suas respectivas autorias [...]”.
A partir da análise do conceito, apreendem-se algumas peculiaridades atinentes ao inquérito policial militar, principalmente no tocante à autoridade competente para presidi-lo, à natureza do crime e à autoria delitiva. Trata-se de investigações cuja competência é atribuída à autoridade militar (Polícia Judiciária Militar), nos crimes de caráter militar, praticados por integrantes de corporações militares.
Da mesma forma que o inquérito policial comum, o inquérito policial militar é o instrumento utilizado na primeira fase da persecução penal, ou seja, na investigação criminal a partir do momento em que um tipo penal situado no Código Penal Militar é infringido.
Logo, ante uma infração penal na esfera militar, pertence ao Estado o direito de punir (jus puniendi) e, como primeiro ato estatal, incumbe à Polícia Judiciária Militar, por intermédio da instauração do inquérito policial militar, realizar as averiguações necessárias dando início à persecutio criminis, a fim de adquirir elementos probatórios suficientes à propositura da ação penal militar, sendo esta de titularidade do Ministério Público e correlata à segunda fase da persecução penal (BISCAIA, 2006).
Caso a autoridade militar responsável pelas investigações, entenda que a infração praticada é de competência da Justiça Comum, cabe a ela dirigir as informações obtidas ao Ministério Público que, com base naquilo que foi colhido no inquérito policial militar, oferecerá denúncia (TOURINHO FILHO, 2010, p. 243).
A finalidade do inquérito policial militar não é julgar uma pretensão, mas sim desvendar a materialidade e autoria de um crime militar. Destarte, todas as provas agregadas durante a fase investigatória serão corroboradas em juízo, conferindo, portanto, um caráter provisório ao inquérito policial militar (BISCAIA, 2006)
O inquérito policial militar também é considerado um procedimento informativo e pré-processual, isto é, preliminar, haja vista que seu intuito é fornecer elementos, tantos quanto forem suficientes, ao membro do Ministério Público, para que este tenha a capacidade de desenvolver sua opinio delicti. Em suma, a Polícia Judiciária Militar, no desenrolar do inquérito militar, informa o promotor a respeito de tudo o que norteia o delito, bem como o prepara para a ação penal, já que, na maioria dos casos, o promotor irá se valer do inquérito para fundamentar a acusação.
Quanto a esse caráter informativo:
O encarregado do procedimento deverá municiar o titular da ação penal militar com um conjunto investigativo robusto, expondo de forma circunstanciada o fato criminoso, a qualificação do seu autor e ofendido, indicando o tempo, o lugar do crime e outros elementos que se fizerem necessários e pertinentes (BISCAIA, 2006)
Equivalente ao inquérito policial comum, não se consagra no inquérito policial militar o princípio do contraditório, uma vez que se trata de um procedimento administrativo e não de um processo, conforme dispõe o inciso LV, do artigo 5º, da Carta Política.
Ademais, não há partes no inquérito policial militar, logo, interpretando o dispositivo constitucional mencionado, não há que se falar em acusado, mas sim em indiciado, comprovando ainda mais a não incidência do contraditório.
O artigo 16 do Código de Processo Penal Militar prevê expressamente a sigilosidade do inquérito policial militar, outra de suas características. No entanto, por conta de determinadas legislações específicas, dentre elas a Lei nº 8.906/94 (estatuto da OAB), esse caráter sigiloso vem sofrendo uma mitigação, possibilitando ao advogado do indiciado amplo acesso aos autos do inquérito militar (BISCAIA, 2006)
Mesmo diante disso, o sigilo continua sendo peça fundamental nas investigações, já que sem ele inúmeros estorvos, embaraços seriam criados a fim de
impossibilitar a elucidação dos crimes, tendo em vista a dificuldade de se conseguir provas.
Haveria o aniquilamento de instrumentos, produtos do crime, intimidação de testemunhas, alterações do local do crime etc.
No desenvolvimento das investigações, a autoridade militar tem poder discricionário, isto é, não esta obrigada a seguir nenhum procedimento específico preestabelecido, realizando a diligência que achar necessária e pertinente. Cabe ressaltar que discricionariedade não é o mesmo que arbitrariedade, pois esta configura abuso de autoridade, ultrapassando os limites do razoável impostos pela lei.
Por fim, a última característica atribuída ao inquérito policial militar é a Inquisitoriedade. Isso se dá, em virtude basicamente da carência de contraditório; da ausência das partes, ou seja, de acusação e defesa; da discricionariedade com a qual a autoridade conduz as investigações, competindo-lhe, segundo sua conveniência, realizar e deferir diligências, dentre outros (BISCAIA, 2006).
A autoridade policial militar em nenhum momento será declarada suspeita, em razão do inquérito policial militar ser um procedimento investigatório, não havendo qualquer nulidade, mas sim, nos casos de suspeição, meras irregularidades, conforme prevê o artigo 142 do Código de Processo Penal Militar. Assim, robustece o caráter inquisitorial do inquérito policial militar (BISCAIA, 2006).
Quanto à conclusão do inquérito policial militar, o artigo 20 do Código de Processo Penal Militar estabelece um prazo. Assim dispõe o referido diploma legal:
Art. 20 – O inquérito deverá terminar dentro em vinte dias, se o indiciado estiver preso, contado esse prazo a partir do dia em que se executar a ordem de prisão; ou no prazo de quarenta dias, quando o indiciado estiver solto, contados a partir da data em que se instaurar o inquérito.
Por derradeiro, insta ressalvar que, por força do artigo 24 do Código de Processo Penal Militar, a autoridade policial militar não tem competência para optar pelo arquivamento do inquérito policial militar, sendo atribuição exclusiva do Ministério Público ou da autoridade Judiciária (BISCAIA, 2006).
Passaremos a estudar a partir de agora, mais uma espécie de inquérito extrapolicial, qual seja, o Inquérito Civil.