Entende-se que no processo relatado há uma relação de poder inevitável. Os intelectuais alçados ao trabalho de definirem a prática, via texto etno- gráfico, necessariamente falarão pelos que não possuem voz na dinâmica de inventariamento e que serão entendidos como “outros” que devem ser “inscritos”, e, no que fazem, não conseguem sair completamente da sua pró- pria posição. Como nos ensina Clifford (1998, p. 19), a elaboração do “outro” a partir de etnografias se faz “a partir de relações históricas específicas de dominação e diálogo”. Quanto à escrita etnográfica e o processo de inscri- ção inerente ao texto podemos partir de discussão proposta por Geertz que entende tratar-se de um lugar específico do etnógrafo, não se tratando da totalidade da prática.
o que inscrevemos (ou tentamos fazê-lo) não é o discurso social bruto ao qual não somos atores, não temos acesso direto a não ser marginalmente, ou muito especialmente, mas apenas àquela pequena parte dele que os nossos informan- tes nos podem levar a compreender. (GEERTZ, 1989, p. 14)
O processo de instrução, enquanto produção de um “texto”, no sentido etnográfico, é composto por uma polifonia, onde algumas vozes evidenciam- -se mais do que outras. Neste sentido, o dossiê se coloca como uma construção onde articulam-se as diversas vozes dos atores que o elaboraram. As últimas décadas do século XX foram marcadas por uma autorreflexão das ciências humanas, em especial na antropologia (GONÇALVES, 1998). Caldeira (1988) afirma que o antropólogo estaria seguindo uma tendência de se interrogar sobre seus limites para conhecer o outro, tentando trazer este fato para seu texto. Segundo esta autora, o antropólogo sempre esteve presente em seu texto e na elaboração de seus dados, sendo tal fato essencial, definindo sua experiência como fundante à constituição do conhecimento antropológico. Entretanto, as críticas mais recentes trouxeram a valorização da experiência individual do pesquisador na produção dos textos etnográficos, apontando e
reforçando o pesquisador como responsável por uma tradução.9 Importante
então, concordando com James Clifford (1998), entendermos que o autor apa- rece inserido no interior de estruturas de poder que se fazem presentes nos diversos momentos de interação entre etnógrafos, nativos e outros persona- gens, somando-se ainda o fato de que o texto etnográfico é produzido a partir de uma autoridade, construída com estratégias retóricas a partir de supostos epistemológicos. (GONÇALVES, 1998)
No campo da memória social o processo de instrução nos leva à reflexão dos processos de definição dos significados dos elementos valorizados como constituintes do passado da capoeira e marcadores de posições. A memória social deve ser compreendida enquanto construção social produzida a partir de hierarquias. Desde as primeiras décadas do século XX, a partir dos estudos de Maurice Halbwacs e Frederic Bartlett, entende-se que faz “parte de um processo social, em que indivíduos não são vistos como seres humanos isola- dos, mas interagindo uns com os outros, ao longo de suas vidas e a partir de estruturas sociais determinadas.” (SANTOS, 2003, p. 33)
Metodologicamente se colocou ao processo da instrução o desafio de realizar o “diálogo entre o tempo histórico passado e o tempo presente”, conforme indica o dossiê, entendendo a capoeira enquanto um “patrimônio vivo” que se faz a partir do saber de seus mestres,
A compreensão da perspectiva de que a roda traz os elementos do pas- sado da capoeira e que as referências ao passado se fazem de forma tão pre- sente no dossiê é importante, pois o registro se coloca como um marco de definição de como se deve discorrer a respeito do passado da capoeira. Há de se atentar para a importância dada à descrição do processo histórico da capoeira, pois entendemos que há uma valorização da história na definição do que seria a capoeira. Ou seja, para o dossiê, falar em capoeira é remeter a um passado que se coloca como vivo nas rodas, sendo este presente definido pela memória que carrega.
9 Segundo Caldeira ( 1988, p. 138) a crítica que ela chama de pós-moderna sobre os textos etnográficos que buscam tratar o autor como distante aos seus textos assim se colocaria: “Muito estaria sendo perdido ou sendo substancialmente modificado na transformação que ocorre entre a pesquisa de campo e o texto. O que era uma experiência de campo fragmentada e diversa acaba sendo retratado como um todo coerente e integrado. [...] O que era um diálogo, vira um monólogo encenado pelo etnógrafo, voz única que sub- sume todas as outras e sua diversidade à sua própria elaboração. O que era interação vira descrição, como se as culturas fossem algo pronto a ser observado e descrito [...].”
O dossiê entende a cultura no interior de uma dinâmica, neste sentido propondo que o registro conste apenas como etapa para se pensar em planos de salvaguarda, descrevendo assim esta concepção:
A perspectiva que se coloca é de que a cultura é dinâmica e não crista- lizada, portanto, o registro não é suficiente para salvaguardar as mani- festações, mas uma etapa necessária para traçar um plano que elabore e encaminhe políticas públicas para seus atores.
A partir das falas dos coordenadores e do dossiê entendemos que a ca- poeira foi vista enquanto prática multifacetada e possuidora de símbolos que a remetem à identidade negra. Entretanto, nossa principal questão recaiu sobre como foi montado o “texto” que permitiu o inventariamento e o regis- tro da prática. Percebe-se que sua construção sofreu as influências da monta- gem da equipe e das negociações necessárias no desenrolar de sua produção. O dossiê foi elaborado por determinado grupo de pessoas e que tentaram conciliar suas próprias perspectivas com as do IPHAN, do MinC, do Gover- no Federal. James Clifford (1998, p. 44) acerca da complexidade do trabalho etnográfico nos dá indicações para o entendimento deste processo: “uma maneira alternativa de representar essa complexidade discursiva é entender o curso geral da pesquisa como uma negociação em andamento”.
O registro da capoeira nos mostra que a metodologia e o recorte são realizados a partir de redes que traz marcas ao processo de inventariamento. Fica claro que o dossiê tem a intenção de inscrever o mundo da capoeira em sua dinâmica atual, porém o fazendo a partir de certo lugar, carregando con- sigo marcas que, possivelmente, trarão implicações ao campo da capoeira. Reforça esta assertiva que o processo de registro possui seus desdobramen- tos para além do inventário que serão as ações de salvaguarda que também se colocam, por sua vez, como uma voz a mais nessa polifonia da capoeira contemporânea. Evidencia-se que tal ação certamente se realizará a partir de hierarquias e relações de poder constituintes deste campo em disputa. O dos- siê e as ações de salvaguarda circularão a partir de uma relação de autoridade singular, na medida em que possui caráter acadêmico, pois foi produzido por acadêmicos e oficial, como fruto de uma ação do estado.
Embora se tenha dado início às políticas públicas visando o reconheci- mento da diversidade cultural a partir de marcos legais como os artigos 215 e 216 da constituição de 1988 ou o instrumento de registro com o Decreto-lei n. 3.551/2000, que amplia as possibilidades de reconhecimento de bens até
então sub-representados no conjunto do patrimônio cultural, deve-se atentar ao perigo de a diversidade cultural apresentar-se apenas como mera retórica, como propõe Domingues (2010). Entendemos, a partir do estudo da capoeira, que o ferramental instituído visando o registro de bens de natureza imaterial vem sendo realizado por técnicos que buscam o diálogo para a determinação das políticas de salvaguarda da prática inventariada. No caso da capoeira, a participação dos praticantes foi relatada como um ganho positivo da metodo- logia empreendida. A reflexão sobre esta participação contribui para buscar- mos uma redução do risco do inventariamento tratar-se de um recorte que deixa de fora elementos importantes da dinâmica destas práticas e saberes, ainda que cientes da existência da autoridade etnográfica calcada na suposta alteridade (CLIFFORD, 1998) entre praticantes e os intelectuais que produ- zem o material de instrução. Assim atentos para o fato de que como toda ação política, o registro se dá num campo de disputas.
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