• Nenhum resultado encontrado

2 INSERÇÃO DO ESTUDO DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO ENSINO

INSERÇÃO DO ESTUDO DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO ENSINO FUNDAMENTAL

2 INSERÇÃO DO ESTUDO DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO ENSINO

FUNDAMENTAL

A educação se faz presente na sociedade desde a sua constituição, adquirindo várias formas e ideologias no decorrer da história humana. Ao longo dos tempos foi se adequando ao meio social em que está inserida, podendo ser um meio de libertação ou subordinação, depende da forma como é colocada ao povo.

Desde a promulgação da Constituição Federal de 1988 passou a se priorizar no Brasil uma educação baseada na formação democrática e cidadã, sem esquecer a capacitação para o mercado de trabalho, com o desenvolvimento integral do ser humano.

Buscar meios para tornar a educação acessível a todos, garantir o acesso e permanência em todos os níveis de formação, com parceria entre família e Estado, efetivando desta maneira a educação como um compromisso social, buscando aproximar escola e comunidade, foi este o novo desafio para o Estado Brasileiro.

Seguindo este viés democrático, que busca assegurar a garantia fundamental do acesso e permanência na escola, em 1990 foi criado o Estatuto da Criança e Adolescente, que em seu Art. 53, diz que “a criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho [...]” O ECA assegura a proteção integral para as crianças e adolescentes, incluindo a educação.

Neste sentido em 1996 passou a vigorar a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que apresenta de maneira detalhada os direitos, princípios e organiza os aspectos gerais da educação brasileira. Focando no acesso e permanência das crianças e adolescentes em uma escola pública e de qualidade, priorizando a formação cidadã e integral.

O Art. 32 da LDB traz as premissas do Ensino Fundamental e desde 2007 faz parte deste artigo o parágrafo 5º, que traz a obrigatoriedade dos conteúdos referentes ao ECA no Ensino Fundamental.

Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.274, de 2006). [...] § 5o O currículo do ensino fundamental incluirá, obrigatoriamente, conteúdo que trate dos direitos das crianças e dos adolescentes, tendo como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990, que institui o Estatuto da Criança e do Adolescente, observada a produção e distribuição de material didático adequado. (Incluído pela Lei nº 11.525, de 2007). (BRASIL, 1996).

Portanto, tem-se consolidado no país a necessidade de se trabalhar o ECA no decorrer do ensino fundamental, tornando acessível às crianças e adolescentes o conhecimento sobre o Estatuto e desmistificando os seus direitos e deveres. Estes devem se entender como sujeitos de direitos, algo que na prática escolar ainda não ocorre de maneira efetiva.

A educação é uma importante ferramenta para o desenvolvimento físico, moral e intelectual do ser humano, para uma formação integral e o pleno exercício da cidadania, pensando a mesma como um mecanismo de transformação social, capaz de auxiliar na construção de uma sociedade mais desenvolvida e justa.

Independente da condição econômica ou social, todos devem ter acesso à educação. Sendo a família o ente responsável por conduzir as crianças e adolescentes até a escola, mais do que mandar o filho para a escola, a família deve acompanhar a vida escolar e dispor de todos os meios necessários para que os mesmos tenham o melhor aproveitamento possível. Já os entes públicos devem ofertar educação para todos, sem distinção, pois, educação é um direito fundamental garantida a todos os cidadãos. Neste sentido, complementa Vieira (2001, p. 19) de que, “Constitucionalmente, a educação brasileira deve ser direito de todos e obrigação do Estado [...]”

Com a intenção de cumprir a legislação vigente e por acreditar que o trabalho efetivo do ECA nas escolas possa interferir na formação dos educandos de maneira positiva pensou-se em meios de levar o estudo do Estatuto da Criança e do Adolescente até a escola, de uma maneira dinâmica e esclarecedora, auxiliando desta maneira na formação integral do sujeito, premissa maior da educação brasileira.

Parte-se do pressuposto de que não basta educar, é preciso formar para a vida, desenvolvendo a criticidade, dando oportunidades para que os nossos adolescentes se sintam sujeitos de direito, pessoas com potencial para produzir novos saberes, com autenticidade para enfrentarem as situações da vida adulta com maturidade e responsabilidade.

Algumas experiências neste sentido já foram realizadas, como posto em documento publicado pela Universidade Federal de Alagoas em 2015, com o título Educação em direitos humanos e o ECA: Educando para a cidadania em escolas de ensino fundamental,33 foi apresentada

a ideia de,

[...] que a escola desempenha um papel fundamental da difusão do ECA, propomos a criação de um espaço na escola para a reflexão e sensibilização de todos os envolvidos com a educação e Direitos Humanos: crianças, adolescentes, educadores, pais, mães e responsáveis. É nossa real intenção desenvolver ações que favoreçam uma cultura de cidadania. Essa ação objetiva ainda fortalece o espaço escolar para que seja uma esfera capaz

de prevenir e combater as violações aos direitos infanto-juvenis, com vistas à formação de uma cultura cidadã na perspectiva da formação sobre Direitos Humanos.

Neste contexto a escola exerce um papel fundamental, por ser um local de construção do saber, onde o senso comum é questionado, dando espaço ao conhecimento científico e a criticidade. Ampliando-se os saberes, todos os envolvidos neste processo estarão caminhando para a construção de uma cultura cidadã, que garanta o acesso aos direitos fundamentais.

Os fatores supracitados demonstram claramente a importância do conhecimento da lei na formação do cidadão. Já o desconhecimento ou a interpretação equivocada em relação ao ECA desencadeiam comportamentos e atitudes que prejudicam as relações sociais e por consequência a convivência no ambiente escolar.

A falta de conhecimento da lei e dos direitos e deveres incumbidos aos cidadãos podem trazer uma série de prejuízos na formação humana, situação ainda mais delicada quando se trata de crianças e adolescentes, sujeitos em formação. Estes, muitas vezes são alvo de violência, exploração, manipulação e por desconhecimento e imaturidade não sabem como agir, onde buscar apoio.

Por outro lado, esta ideia distorcida de que o ECA traz apenas direitos, faz com que o seu público alvo, por muitas vezes extrapole os limites do tolerável e passem a ter atitudes não aceitáveis para uma boa convivência social, fazendo com que cada vez mais adolescentes e até crianças se envolvam em situações de indisciplina. Moura (2013, p. 93-94) expõe que,

O processo de socialização dá-se com a família e se desenvolve, nas diversas etapas da vida do indivíduo, concomitantemente com a escola, igreja etc. É nesse processo que são impostos as regras e os limites das crianças e adolescentes. A ausência de regras e limites na infância e na adolescência pode provocar sérios problemas no relacionamento com pais, irmãos, colegas, professores e não estarão, as crianças e os adolescentes, preparados para exercer diversos papéis sociais, ao longo de suas vidas [...]

Esta falta de limites esta cada vez mais visível nas relações escolares. São muitas atitudes de falta de respeito, bulliyng, xingamentos, preconceito. O que tem tornado a convivência em muitas escolas praticamente insustentável. Pequeno (2013, p. 85) afirma que,

[...] Nosso modelo de civilização vê-se diante de situações de conflito geradas pelo individualismo anárquico, pela cultura da violência e pela coisificação dos indivíduos. Muitos desses fenômenos influenciam a conduta dos atores escolares e a indisciplina tem se revelado, frequentemente, sob forma de atitudes incivilizadas, hostis, xingamentos a colegas e mestres, práticas discriminatórias que envolvem também preconceitos de caráter racista, homófobo, sexista, dentre outros.

Pequeno (2013) descreve as transformações no que diz respeito a disciplina e ao controle dos alunos em sala de aula, passando do castigo, da ameaça e da submissão para um processo de tentativa de os modelar moralmente por meio de repreensão pública, televigilância e supressão de movimentos. Eis aqui mais um desafio aos profissionais da educação, desenvolver o ensino superando adversidades comportamentais e repassando condutas morais adequadas ao ambiente de aprendizagem.

Diante deste desafio, sente-se a necessidade de criar meios para que o Estatuto da Criança e do Adolescente seja palpável, se torne conhecido, onde a escola, a família e a sociedade como um todo consigam interpretá-lo e praticá-lo.

Sabendo-se da existência da lei e dos vários problemas comportamentais envolvendo crianças e adolescentes sente-se a necessidade de criar mecanismos para desmistificar o ECA perante o seu público alvo.

Pensando nisso, foi desenvolvido um estágio de intervenção com os alunos do 6º e 7º ano do ensino fundamental da Escola de Educação Básica Cristo Rei, localizada em Linha Cristo Rei, interior de São João do Oeste, SC, experiência realizada em 2016. Antes de iniciar os trabalhos com os alunos, os professores do educandário responderam a um questionário sobre o ECA, a seguir foi a vez dos alunos participarem das atividades propostas, experiência esta que será demonstrada a seguir.

Inicialmente, optou-se por aplicar um questionário aos professores e um aos alunos, para esclarecer qual o grau de conhecimento que os mesmos possuíam sobre direitos e deveres, no mesmo, buscou-se identificar se os conteúdos referentes ao ECA são trabalhados na escola. Na sequência, a opção foi desenvolver um trabalho em formato de oficina com os alunos, com atividades de interação, com a realização de quiz, uso de vídeo e música. Conciliando teoria e ludicidade, com linguagem acessível e métodos variados, fazendo com que os educandos se interessassem e entendessem o assunto proposto.

A escolha das turmas, 6º e 7º ano do ensino fundamental, se deu em função da idade destes alunos, uma vez que estes, em sua maioria possuem entre 12 a 14 anos, e são muitas as dúvidas que norteiam a transição da infância para a adolescência, e pelo fato de que nesta idade os mesmos já conseguem compreender e entender a legislação, esclarecendo os mitos legais.

Após o estágio de intervenção, foi lançado um novo questionário para os educandos, onde os mesmos puderam colocar sua opinião sobre a atividade desenvolvida, por fim, confeccionaram cartazes a partir dos novos saberes construídos.