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Características 03 Ninguém apontou qualquer tipo de influência significativa na relação professor X aluno, que sinalizasse para uma lógica de

6.3 Características da inserção e do exercício profissional no mundo do trabalho.

6.3.1 Inserção profissional, renda e empregabilidade.

As primeiras impressões colhidas sobre o percurso da trajetória de exercício profissional acontecem durante o período em que ainda são estudantes, expondo uma entrada precoce no mundo do trabalho, visto que, pelo menos do ponto de vista teórico, as ferramentas necessárias para este exercício ainda estão em formação no interior da graduação. Ao serem questionados sobre o exercício de algum tipo de atividade profissional durante o período em que cursavam Educação Física, os egressos expuseram um quadro ocupacional bastante variado, fruto das oportunidades favorecidas numa cidade servida, até então, por apenas um curso nesta área. Conforme dados do anteprojeto de criação do curso (UFBA, 1986) havia na Bahia, antes da criação do curso, um déficit de 3000 professores somente para a rede pública do estadual (1100 só para Salvador).

Com o campo relativamente aberto os graduandos puderam experimentar várias ocupações. No total foram citadas quinze atividades diferentes que foram agrupadas no gráfico 11 para que se tenha uma idéia do perfil de atuação naquele momento.

Este quadro nos mostra que o ingresso precoce no mundo do trabalho, pelo menos no que se refere ao modelo tradicional de formação, parece ser uma marca inconteste dos egressos de Educação Física. Todos os entrevistados afirmam terem trabalhado no período concomitante aos estudos. As ocupações se caracterizam por uma dominância entre atividades ligadas ao exercício da função de professor de Educação Física escolar em instituições de ensino de natureza privada, bem como a ocupações ligadas ao mercado da atividade física e saúde, sendo as academias de ginástica e musculação o nicho que absorveu mais estudantes-trabalhadores. As escolinhas desportivas, geralmente ofertadas em condomínios ou programas públicos de prefeituras, fazem parte, junto com a participação em eventos esportivos (geralmente como árbitro) e atuações como recreador ou animador sócio-cultural em eventos de lazer, dão conta das outras ocupações mais citadas pelos egressos.

A trajetória profissional depois da formação toma contornos diferentes daqueles desenhados pelo exercício profissional durante a formação. Ao serem solicitados a descreverem as atividades profissionais exercidas até os dias atuais, relacionando o âmbito (público ou privado), obteve-se o seguinte panorama (Quadro 17).

Educ. Física Escolar - rede pública 76%

Educ. Física Escolar - rede privada 35%

Ensino Superior (41% efetivos) 59%

Cargo Administrativo 29%

Esporte de rendimento 12%

Arbitragem 6%

Escolinhas desportivas 18%

Atividade Física e Saúde/Academia 35%

Recreação/Lazer/animação 24%

Fora da área 18%

Quadro 17 – Ocupações profissionais depois de concluída a formação O estudo mostra que o cenário de ocupação profissional depois da formatura difere um pouco da ocupação quando ainda estudante. Ao passo em que na graduação os nichos de mercado que mais os abrigavam eram as áreas de Atividade Física e Saúde, Educação Física Escolar na rede privada, arbitragem em eventos esportivos, escolinhas desportivas e atividades de lazer/recreação, no período após a formação acadêmica o que se vê é uma trajetória marcada pela entrada no campo da Educação Física Escolar na rede pública de ensino.

Nesse sentido, 76% dos egressos afirmam terem exercido algum tipo de atividade docente de caráter escolar em seu percurso profissional. Grande parte deles, inclusive, depois acabou optando para a docência no ensino superior (59%). A área de Atividade física e saúde foi a opção de 1/3 da turma em sua trajetória de construção da carreira profissional. O ensino na rede privada também foi apontado por 1/3 da turma como tendo feito parte deste percurso.

Aqui pode ser notada uma divisão bem visível nas ocupações. De um aqueles que buscaram assegurar sua empregabilidade na área da docência em alguns dos níveis de educação formal, de outro, aqueles que resolveram exercer seu ato pedagógico no campo das atividades não escolares. Esse dado, em nosso entendimento, é revelador de uma opção profissional destoante daquela desejada quando do ingresso no curso, momento em que a

imagem do exercício profissional ligado apenas aos desígnios do mercado e alimentado pela mídia massificada, era a opção servida como exemplo na área.

As atuais ocupações da população estudada têm no setor público a maior fonte de origem da renda salarial (Gráfico 12), que responde por algum tipo de interferência em nada menos que 94%. Tomando-se em consideração que os 6% restantes não trabalham na área, fica aqui a constatação de que todos os egressos pesquisados em atividade na área de Educação Física trabalham em alguma instância do setor público.

Assim, dos 94% dos egressos tem algum tipo de vínculo efetivo com instituições públicas, 67% vive exclusivamente do serviço público, e outros 20% tem o emprego público como principal fonte de renda. Os dados apontam que a trajetória de formação deste grupo levou-os por uma séria de conquistas na ocupação dos postos de trabalho, visto que o ingresso em ambientes públicos só se dá mediante concurso público.

Assim, as ocupações no setor público são caracterizadas pela predominância do exercício da docência nas diversas redes públicas, sejam municipais, seja estadual, no âmbito dos ensinos fundamental e médio (36%). A ocupação no Ensino Superior também é marcante (32%), mostrando que parte desses ex-alunos hoje forma o quadro docente das universidades de Educação Física do Estado da Bahia.

No total o exercício docente é responsável por 2/3 de toda a ocupação no setor público dos egressos em estudo. Parte dos entrevistados acumula funções em ambos os níveis de ensino. 20% do grupo afirmam exercer função pública não mencionada no conjunto das opções oferecidas pelo questionário (Quadro 18).

a. Educação Física escolar no ensino fundamental 16%

b. Educação Física escolar no ensino médio 20%

c. Aulas no ensino superior (graduação) 32%

d. Aulas em pós-graduação Latu Sensu (Especialização) 8% f. Técnico desportivo em prefeitura ou entidades públicas (ONG´s,

Filantrópicas, etc) 4%

h. Outros (não citados aqui) 20%

Quadro 18 – Perfil da ocupação profissional no setor público

No que tange à participação, mesmo que reduzida, do grupo no setor privado da economia, o quadro 19 mostra uma discreta predominância do exercício docente em unidades escolares. Vale ressalvar que estas opções estão muito pulverizadas no âmbito daqueles que tem algum tipo de renda na área privada, não tendo nenhuma área com destaque expressivo, que possa conotar um domínio no campo profissional da área neste setor.

Dentro dos 41% de ocupações no setor privado 33% referem-se ao setor educacional, divididas entre aulas no ensino superior, em cursos de pós- graduação e na educação básica. Outros 32% trabalham em Escolinhas desportivas, Lazer em clubes, Treinamento de performance em equipes e Personal trainning. Outro terço dos respondentes (33%) alega trabalhar em área profissional que não constava das opções oferecidas no questionário.

a. Educação Física escolar no ensino fundamental 8%

c. Aulas no ensino superior (graduação) 17%

d. Aulas em cursos de pós-graduação Latu Sensu (Especialização) 8%

g. Escolinhas desportivas 8%

h. Lazer em clubes sócio-recreativos 8%

j. Treinamento especializado em clubes ou equipes coletivas de

performance 8%

k. Aulas individualizadas (personal trainning) 8%

l. Outros (não mencionados aqui) 33%

A paisagem desenhada pelos perfis de ocupação profissional no mundo do trabalho mostra uma reviravolta nos planos estruturados pelos ingressantes. A natureza da atividade desenvolvida, hoje no campo profissional, tem uma característica totalmente diferente daquela que nutriu o interesse pelo curso, bem como as perspectivas da futura profissão.

Essas mudanças, longe de serem obras casuais do destino, são frutos, antes de qualquer coisa, da interferência viva dos mecanismos intervenientes da formação, principalmente os docentes. O perfil político-ideológico de atuação dos mesmos foi marcante nos destinos de seus alunos, na medida em que os mesmos ampliaram o leque da visão profissional do grupo pesquisado para outras realidades necessárias e prioritárias para os mecanismos de intervenção na sociedade através das ferramentas de trabalho.

Na ordem do pensamento Bernsteiniano houve uma contra-prática pedagógica que atuou fora do campo de ação do conteúdo específico, refutando aquilo que a lógica dominante conduz e transporta, na medida em que questionou a orientação do mercado, a suposta relevância de habilidades vocacionais em conformidade com as demandas da sociedade industrial, para a sua legitimação (BERNSTEIN, 1996), reconstruindo com isso, um novo olhar para o campo de ação de intervenção profissional.

Com isso, é possível afirmar que o preenchimento dos postos de trabalho com as competências oriundas do processo de formação não se deu, conforme posicionamento dos egressos, de forma tão articulada com o currículo, como se preconiza no interior dos documentos oficiais de condução do processo. Orientado pelos avanços teóricos da Carta de Belo Horizonte o curso da UFBA prevê em sua estrutura curricular que a atuação profissional se dará nos campos de ensino em escolas de 1° e 2° graus e universidades, em academias e na orientação de atividades desportivas, recreativas e de lazer em clubes, associações de bairros, hospitais, empresas privadas, entidades assistenciais e na comunidade de um modo geral (FERRARO, 1991). No entanto a trajetória de ocupação mostra uma predileção pelo universo da área de ensino escolar.

6.3.2 Os sistemas de estilos pedagógicos dos docentes e sua influência na formação do perfil de atuação