2 FORMAÇÃO DO PADRÃO INOVATIVO BRASILEIRO
2.3 Instabilidade internacional e a “era da informação”
O choque do petróleo de 1973 marcou o ponto final de um período de crescimento econômico mundial de quase trinta anos. Naquele momento, o padrão industrial em curso já demonstrava claros sinais de esgotamento, unindo- se a um déficit estrutural no balanço de pagamentos norte-americano.
Os anos 70 ficaram marcados por uma forte deterioração da condição dos países periféricos não exportadores de petróleo, pois os países centrais rapidamente reverteram os termos de troca em benefício próprio, gerando uma queda nos preços das commodities agrícolas em relação aos bens industrializados.
Países dependentes da importação de petróleo e com fraca base industrial nos setores de ponta tiveram de reestruturar suas políticas econômicas como resposta a tais desafios externos. Em alguns casos, os déficits gerados puderam ser financiados pela entrada maciça de capitais externos, proporcionados pela reciclagem dos petrodólares e pela ausência de investimentos dinâmicos nos países do centro.
Ao lado da instabilidade gerada pelo primeiro choque do petróleo começava a surgir uma nova organização na ordem econômica internacional, a partir do fim do padrão de Bretton Woods. O crescimento dos fluxos internacionais de capitais caminhava em paralelo à perda de capacidade dos bancos centrais de coordenação sobre os circuitos de empréstimos/depósitos.
Os fluxos de capitais tornaram-se cada vez mais desestabilizadores, aumentando a volatilidade das taxas de câmbio e juros que os países utilizavam nas suas tentativas de coordenação macroeconômicas. Em alguns momentos, coloca-se o perigo de rupturas para todo o conjunto do sistema (risco sistêmico).
A capacidade de intervenção do Estado Nacional na economia passava a ser minada, enfraquecendo as possibilidades de políticas ativas para a promoção do desenvolvimento; enquanto isso os teóricos buscavam reformular seu papel dentro do sistema econômico. Cada vez mais o Estado passava a ser visto como um agente da regulação dos atores privados, buscando induzir, por meio de políticas industriais e/ou de competitividade setorial, a coordenação entre os diversos
atores (ex: empresas, universidades, agências de financiamento...), reduzindo a incerteza e criando condições para o surgimento de inovações competitivas.
Se, naquele período, viveu-se o declínio de um padrão industrial, também se assistiu à ascensão de um novo ciclo de desenvolvimento schumpeteriano, que ficaria conhecido como “era da informação”.
As raízes últimas de tal fenômeno devem ser buscadas no fim da Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria, quando os Estados Unidos iniciam pesquisas na área de computação para fins militares83. A adaptação destes instrumentos e seu uso e comercialização para o setor civil, no final da década de 40, não abriu imediatamente um mercado para o software, visto que este era vendido de forma casada com o hardware, não possuindo valor de mercado.
A IBM surge na década de 50 como líder mundial da indústria de computadores de grande porte (mainframes), cuja adaptação a usos específicos era dificultada pela necessidade de conhecimento das linguagens de programação, abrindo um mercado para este tipo específico de serviço, sendo que, na década de 60, surge uma série de empresas especializadas na programação.
A grande expansão para o seguimento de software só viria a partir do lançamento do IBM 360, que gerou uma família de computadores do mesmo padrão e decretou o desligamento do hardware/software, criando um novo setor econômico que se iria expandir na década seguinte. Outro fator importante foi o crescimento da capacidade computacional do hardware, que dobrava a cada ano, fato conhecido como “lei de Moore”.
Logo, já se podia detectar, nos anos 70, novas oportunidades de investimentos nestes setores em ascensão. Grandes investimentos passam a serem direcionados à formação de mão-de-obra qualificada, dado o risco de falta de projetistas de hardware e programadores. Mas os anos 80 seriam marcados pelos novos players no mercado de software.
83 O primeiro computador data de 1944, o Mark 1, desenvolvido em conjunto pela marinha norte americana, a
Universidade de Harvard e a IBM. O uso de computadores para fins comerciais data de 1948, com o Univac, passando ao uso de transistores em sua construção. (GUTIERREZ e ALEXANDRE, 2004)
Poucos países puderam aproveitar-se desta “janela de oportunidades”, visto que a maioria ou não possuía capacidade científica, base industrial e mercado interno para fazer parte desta nova frente de expansão produtiva, ou estavam muito ocupados com a solução de pressões sobre o balanço de pagamentos, advindas das mudanças de preços relativos externos.
Os Estados Unidos estavam entre os países com maiores chances de aproveitar esta oportunidade, não apenas devido à sua vantagem temporal, dada pelo fato de terem sido o berço desta nova tecnologia, mas também por terem um mercado garantido pelas compras militares internas. O fato que poderia atrapalhar sua entrada estava relacionado ao seu déficit externo estrutural, mas isto sofreria uma reviravolta no final da década de 70.
O ano de 1979 ficou marcado por um duplo choque dado pelo novo aumento do petróleo e pela alta repentina dos juros americanos decretada por Volker. Esta acabou por estancar os fluxos de capitais aos países periféricos e ordenou a adoção por todos os países do mundo, com exceção dos Estados Unidos, de políticas monetárias e fiscais ortodoxas, além da necessidade de geração de superávits primários para poderem honrar suas dívidas.
A economia norte americana passou a gozar do privilégio de poder sustentar déficits comerciais crescentes, um aumento do consumo interno e uma reestruturação produtiva centrada nos novos setores, promovida pela importação de bens de capital de ponta, a custo baixo, e de investimentos diretos estrangeiros, sem tocar nos setores industriais tradicionais e em sua agricultura84.
Outros países centrais também puderam empreender processos virtuosos de reestruturação industrial, centrados em um capitalismo regulado85 que tornava possível a oferta de crédito interno a juros baixos, abrindo espaço a um planejamento de longo prazo.
O Japão aproveitou-se de sua relação estreita entre empresas em grupos financeiros conglomerados (keiretsu) e passou a especializar-se nos novos setores de ponta da microeletrônica, financiando também a instalação de
empresas em sua periferia asiática e possibilitando a emergência de novos atores no cenário econômico mundial, com destaque para a Coréia.
Este desenvolvimento e cooperação regional também foram seguidos pela Alemanha que se concentrou nos setores em que era historicamente competitiva, como a química fina e instrumentos de precisão, com o apoio de seus bancos nacionais, que além de financiar suas empresas a juros baixos, sustentou o déficit dos países europeus, liderando-os na integração européia.
O final da década de 70 e início dos anos 80 pode ser visto como um “divisor de águas” na indústria da computação. Em primeiro lugar temos o surgimento e expansão do microcomputador (criado em 1971)86, que abriu um novo mercado ao software, cuja produção mundial encontrava-se em grande parte (2/3) nas mãos dos Estados Unidos, passando a haver uma concentração em poucas empresas.
Dentre as empresas surgidas no período, não podemos deixar de citar a Microsoft, que aproveitou o uso de seu sistema operacional (DOS), pelos computadores da IBM, e acabou tendo um (quase) monopólio do fornecimento de software para computadores pessoais.
O hardware e o software demonstraram ter uma grande capacidade de alavancagem tecnológica e econômica de outros setores econômicos. O uso do software embarcado em automóveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos são grandes exemplos da interconectividade de sistemas, ou seja, os novos setores têm um grande poder de promover uma nova rodada de modernização, seja ela de processos ou produtos, em paradigmas que já haviam demonstrado clara maturidade.
As próprias mudanças nos sistemas produtivos dos países centrais ocorridas na década de 80 estão intimamente ligadas ao uso da computação dentro de suas estruturas. A aceleração das fases de desenvolvimento e de confecção de produtos, relacionada ao uso de mecanismos de controles digitalizados e softwares de prototipagem, permitiu uma maior flexibilização da produção que, unida ao crescimento da integração dinâmica da matriz industrial (Kan Ban / Just in Time) e do aumento da cooperação entre empresas, governos e universidades,
estabeleceu um novo paradigma de competição entre empresas, fundada na inovação e na diferenciação de produtos e serviços para o consumidor final87.
Se alguns países asiáticos puderam entrar nesta “janela de oportunidades”, beneficiados por sua posição regional privilegiada, o mesmo não podemos dizer a respeito da América Latina, perdida em crises sistêmicas de balanço de pagamentos e impossibilitada de realizar, por si só, um salto tecnológico capaz de colocá-la na vanguarda tecnológica.
O papel das multinacionais sofreu mudanças também nesse período, como o crescimento da importância dos fluxos de IDE dos países asiáticos, especialmente o Japão, em direção aos países europeus e Estados Unidos. Além disso, estas firmas passaram a aproveitar-se não apenas dos ganhos econômicos proporcionados pelos mercados em que atuavam, mas também buscavam conhecimentos e modalidades de P&D inexistentes em seus mercados de origem.
Este novo ciclo de expansão das multinacionais e as novas modalidades de busca de mercados, recursos e conhecimentos geraram um crescimento do comércio intra e inter-firmas, criando uma maior interdependência entre as economias nacionais e a, já mencionada, perda na capacidade que estes Estados Nacionais tem para controlar suas variáveis macroeconômicas.