A suposta ameaça a direitos individuais é uma justificativa historicamente utilizada para que políticas conservadoras fossem concebidas e se fortalecessem. Vaz, Cardoso e Felix analisam a propagação midiática de uma política do medo, tendo em vista as diferentes formas de se noticiar um fato ocorrido. Para os autores, tais políticas “se prestam facilmente à generalização do sentimento de vulnerabilidade, da urgência de intervenções preventivas e estabelecem, por retrospectiva ou antecipação, a responsabilidade individual por sua ocorrência.” (2012, p. 35). Não por acaso, essa é uma estratégia responsável, inclusive, por influenciar os rumos de eleições:
Paul Chevigny (2003), por exemplo, em estudo sobre o que considera a vitória do “populismo do medo” em eleições para cargos públicos em Nova Iorque, Buenos Aires, Cidade do México e São Paulo, concluiu que os candidatos conservadores têm mais chance de êxito quanto mais difíceis forem as condições sociais e econômicas da população e a incapacidade do Estado em reverter o quadro. Nestas circunstâncias, as pessoas têm medo de perder seus empregos, de que a economia sofra um abalo ou de que alguma calamidade ocorra. No caso do medo do crime, em especial, a resposta conservadora têm sido a de aderir a campanhas pautadas por este tipo de populismo, que prega no lugar do “Estado de bem-estar” o “Estado seguro”, defendendo uma série de medidas tão discriminatórias quanto inócuas no combate à criminalidade. (Vaz; Cardoso; Felix, 2012, p. 39).
Esta é a mesma tática utilizada pelo antagonista Kai ao criar seu culto. Ao espalhar medo, terror e a busca eterna por um inimigo invisível, o personagem faz com que os indivíduos abram mão de certos direitos e garantias para, paradoxalmente, conservar estes mesmos direitos supostamente ameaçados. Em AHS — Cult, este medo é o fio condutor de toda a narrativa, aparecendo de forma explícita em duas cenas do primeiro episódio, quando do anúncio da eleição de Trump. A Figura 1 retrata a primeira dessas cenas, em que, um casal heterossexual discute, na frente do filho de Ally e Ivy, sobre as consequências da eleição. O marido está furioso pois em seu entendimento a esposa é culpada por
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não se dirigir às urnas para garantir que o casamento homoafetivo de Ally e Ivy continue juridicamente válido.
Figura 1 — Casamento LGBT em pauta.
Em outro momento, nos deparamos com uma cena na qual a personagem Winter Anderson (Billie Lourd), irmã de Kai que adere à seita, está decepcionada com a vitória de Hillary Clinton e teme ter seu direito ao aborto revogado pelo novo presidente (Figura 2). É evidente, assim, que as personagens temem os desdobramentos políticos que os espera e é justamente esse medo que dará abertura para que Kai perpetue suas ideias reacionárias.
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Neste sentido, entendemos que AHS — Cult exerce o papel apontado pela crítica Sue Chaplin, ao evidenciar o caráter ficto e mutante do direito. Segundo a autora, o direito foi associado à razão como forma de garantir a verdade de uma ordem simbólica cultural, motivo pelo qual foi dissociado de qualquer elemento diretamente conectado ao passional, como a imaginação e a poesia.
Para Chaplin, essa aproximação com o racional, entretanto, precisa ser dotada de legitimidade, cuja justificativa recai sobre a ideia de origem do direito. É então que se forma um paradoxo, uma vez que, ao perquirir racionalmente o momento de origem do direito, o jurista se depara com o mito — uma esfera distante da razão. Ao buscar o mito, o direito passa a ser fundamentado, então, por um pressuposto, que funciona como uma ficção de origem necessária. Conforme a crítica:
Lei como logos é essa ficção necessária, uma “suposição fundacional” que, como observa Alain Pottage, opera, para Legendre, analogamente “ao ‘número’ zero na matemática.” Oscilando entre presença e ausência, o ponto zero na matemática tem uma origem vazia que existe não como um número, mas como um ponto de demarcação entre positivo e negativo. Como o ponto zero da ordem simbólica, o logos ficcionaliza a origem de uma lei que é, em si mesma, nada mais do que a diferença entre presença e ausência e “que é paradoxalmente presença e ausência”.3 (Chaplin, 2007, p. 24).
A crítica prossegue sua análise, afirmando que é esse direito pretensamente racional que irá criar categorias como o sagrado e o abjeto; trata-se, portanto, de uma linha divisória utilizada que serve para demarcar fronteiras ideológicas. Porém, essa fronteira artificial, que luta para se apresentar como sólida e tradicional, é algo instável e volátil, justamente por seu caráter ficto. Chaplin conclui que o direito precisa de uma origem, para ser legitimado; esta origem é baseada no mito, na ficção, o que torna o direito um marcador — um divisor do que é sagrado e abjeto, legal ou ilegal, justiça ou injustiça. Todavia, os limites postos pela ordem jurídica são frágeis, porque são inventados. Em uma tentativa de apresentar o direito como algo não frágil, os juristas ocidentais tentam torná-lo 3 No original: “Law as logos is this necessary fiction, a ‘founding supposition’ which, as Alain Pottage observes, operates, for Legendre, analogously ‘to the “number” zero in mathematics’. Oscillating between presence and absence, point zero in mathematics is an absent origin that exists not as a number at all, but as a point of demarcation between positive and negative. As the zero point of the symbolic order, the logos functions to fictionalise the origin of a law that is, in itself, nothing but the difference between presence and absence and ‘which is paradoxically presence and absence’.”
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racional. Precisamente neste ponto é que entra a narrativa gótica. Diversas obras do universo do terror evocam a monstruosidade humana e a instabilidade política para evidenciar o caráter ficto do direito. O site especializado na série AHS, por exemplo, evocou diversas obras de terror no intuito de demonstrar como o gênero se relaciona diretamente com questões políticas:
Nada impede o terror sobrenatural de ser infiltrado pelo teor político. Mesmo que não ocorra de forma direta, clássicos do terror usam metáforas para tratar de assuntos de interesse social. “A noite dos mortos-vivos” (1968) não foi criado só para divertir, por exemplo. O filme lançado no período das lutas pelos Direitos Civis tinha críticas sobre as relações raciais nos Estados Unidos. George Romero também compara a humanidade submissa à cultura consumista, que engole tudo sem resistência, à horda de zumbis, em “A madrugada dos mortos” (1978). “Vampiros de almas” (1956) usa simbolismos para brincar com a paranoia em relação uma hipotética dominação comunista. Até o slasher “O massacre da serra elétrica” (1974) não trata apenas dos terrores de vítimas submetidas a uma família de canibais — o filme tem sutis críticas à Guerra do Vietnã. (Fernandes, 2 fev. 2017).
Em AHS — Cult é possível perceber que além de assassinatos e de uma estética do grotesco e do excesso, há um pano de fundo político na medida em que o medo de se perder direitos e garantias fundamentais em um estado democrático não apenas está presente, como também impulsiona as ações dos personagens. Kai Anderson, o antagonista responsável por propagar estes temores, serve justamente para lembrar aos espectadores de que as leis nada mais são que uma invenção humana, uma mera ficção que podem sim ser modificadas ao bel prazer dos governantes. Não por acaso, ao se eleger vereador, o personagem viabiliza a sanção de projetos de lei flagrantemente inconstitucionais, como por exemplo, restrição do acesso à internet. Seus eleitores compactuam com suas ideias em razão do medo, baseando-se na crença de que renunciar a pequenas liberdades em nome de um bem maior (segurança) seria o mais sensato a se fazer. São exatamente condutas como esta que afligem os personagens mais progressistas, como Ally; afinal, como sobreviver em um mundo no qual todas as lutas sociais são esvaziadas de significado em razão do medo? AHS — Cult, funciona, assim, como um aviso aos juristas e a toda sociedade civil: o direito não é eterno, nem metafísico, mas produto de mãos humanas que sempre podem modificá-lo a depender de seus interesses específicos.
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Considerações finais
Questões políticas, como atuações governamentais e mesmo eleições presidenciais são panos de fundo promissores para diversas narrativas de horror. Nessa senda, as eleições americanas de 2016 surgiram como um ponto de partida para a série American Horror Story — Cult. A partir da controversa figura de Donald Trump, os criadores construíram um enredo cheio de estereótipos excessivos no intuito de satirizar um determinado momento socio-histórico e levantar diversas questões para a audiência. Dotada de características góticas como o horror, o grotesco, suspense e concepções estéticas próprias, o programa abandona elementos sobrenaturais tradicionalmente explorados para focar em um mal mais aterrorizante: o radicalismo humano, perigosamente próximo do real.
Dessa forma, a série aterroriza seus espectadores ao abordar uma verdade desconcertante: a ficcionalidade de nosso direito. O medo de perder os direitos e garantias já conquistados é o que irá impulsionar a narrativa, que descortina as ações humanas cometidas em razão de um medo exageradamente evocado. Assim, a obra coaduna com os estudos da autora americana Sue Chaplin, para quem a literatura gótica assombra o direito ao relembrar que sua suposta lógica racional nada mais é que uma ficção, que pode ser reconstruída em razão de interesses específicos.
O problema de pesquisa trabalhado (qual seja, a instabilidade jurídica funciona como elemento hábil a despertar o medo na narrativa de AHS — Cult?) é respondido de forma positiva, uma vez que foi possível demonstrar que as ações dos personagens principais, Kai e Ally, orbitam em torno do medo de se perder aquilo que juridicamente já se conquistou.
Primeiramente, apresentamos os referidos personagens, que nada mais são que estereótipos exagerados de um espectro político antagônico: direita e esquerda, conservadores e liberais. Em seguida, apresentamos elementos relativos à questão da instabilidade política e jurídica como pano de fundo para a temporada, relacionando-os diretamente aos estudos de Sue Chaplin. Por fim, é possível concluir que a série funciona como um alerta, um aviso em forma de uma exagerada sátira, para que não nos esqueçamos da fragilidade de nossas leis e de nosso ordenamento jurídico.
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Referências
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Canal FX, 2017.
Camara, Ranayra. Evan Peters interpretará 6 personagens em ‘AHS cult’, incluindo um famoso assassino inescrupuloso americano. A Febre. 30 ago. 2017. Disponível em: https://febreteen.com.br/2017/08/evan-peters-interpretara- 6-personagens-em-ahs-cult-incluindo-um-famoso-assassino-inescrupuloso- americano/. Acesso em: 1 jun. 2019.
Chaplin, Sue. The Gothic and the Rule of Law, 1764-1820. Hampshire: Palgrave Macmillan, 2007.
Fernandes, Gabriel. Terror e política: como a 7a temporada poderia abordar a
temática das eleições? American Horror Story Brasil. 3 mar. 2017. Disponível em: http://americanhorrorstorybr.com/terror-e-politica-como-ahs-poderia-abordar- a-tematica-das-eleicoes/. Acesso em: 4 jun. 2019.
Fernandes, Gabriel. AHS: Cult agrada a maioria da crítica especializada.
American Horror Story Brasil. 2 set. 2017. Disponível em: http://
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Fienberg, Daniel. American Horror Story: Cult: TV Review. The Hollywood
Reporter. 5 set. 2017. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/
review/american-horror-story-cult-review-1034029. Acesso em: 1 jul. 2019. Sá, Daniel Serravalle de. Gótico Tropical: o sublime e o demoníaco em O guarani. Salvador: EdUFBA, 2010.
Sá, Daniel Serravalle de. Filosofia política nos romances góticos ingleses do século XVIII. In: Natário, M. C.; Bezerra, C. C.; Epifânio, R. (Org.). (Im)
possíveis (Trans)posições — Ensaios sobre Filosofia, Literatura e Cinema. Sintra:
Zéfiro, 2014, p. 65-77.
Vaz, Paulo; Cardoso, Janine Miranda; Felix, Carla Baiense. Risco, sofrimento e vítima virtual: a política do medo nas narrativas jornalísticas contemporâneas.
Contracampo, v. 1, n. 25, p. 24-42, dez. 2012.
Venable. Malcolm. American Horror Story: Cult Brilliantly Mocks Left-Wing Hysteria. TV Guide. 2 set. 2017. Disponível em: https://www.tvguide.com/news/ american-horror-story-cult-review-politics/. Acesso em: 1 jul. 2019.
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