CAPÍTULO IV. DITADURA, SUDAM E AMAZÔNIA – A NEGAÇÃO DE UM PROJETO REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO
1. ECONOMIA E DITADURA MILITAR: A ANTE-SALA DAS POLÍTICAS PARA A AMAZÔNIA
1.2. Instabilidade Política e Golpe Militar de
Jânio Quadros, eleito com grande margem de votos (48,26%, JK fora eleito com 35,63%), através da instrução 204 da Sumoc e de outros instrumentos, segundo Lafer (2002), liberalizou o câmbio e buscou incentivar as exportações (desvalorizando a moeda, por exemplo). Mais que isso: não limitou a atividade do capital externo, restringindo-se a oferecer vantagens fiscais aqueles que se reinvestissem no Brasil. Quadros não conseguiu contornar as limitações econômicas pós-Plano de Metas e, apesar da clareza das limitações da burocracia estatal (a administração pública era ineficiente, segundo suas palavras) e das suas promessas eleitorais, não encaminhou a propalada reforma administrativa. Ele renunciou ao mandato presidencial em agosto de 1961.
Seu sucessor, o então vice-presidente João Goulart, havia sido eleito com apenas 300 mil votos a mais que Milton Campos, tendo perdido a eleição nos estados mais importantes do país.141 Nesta situação o novo governo nascia com sérios problemas para conseguir consenso e teve que aceitar inicialmente o estabelecimento do parlamentarismo. Diante desta fragilidade, Goulart, oscilante entre direita e esquerda, conforme informam Lafer (2002) e Marini (2000), mudava constantemente o seu ministério objetivando formar novas alianças, o que acabava em: dispersão de forças; não consolidação de aliança de sustentação estável e pouca efetividade das propostas apresentadas.
Jango procurou manter uma política externa autônoma que, inclusive, diversificasse mercados aos produtos brasileiros (América Latina e África) e às fontes de créditos (incluindo países socialistas), mas no plano interno as contradições aumentaram. A taxa de investimento caiu ao mesmo tempo em que os movimentos de trabalhadores e da pequena burguesia se intensificaram. É deste período que temos a fundação do Comando Geral dos Trabalhadores, da Política Operária (Polop), do PCdoB e da Ação Popular, além dos movimentos rurais e da permanência de organizações trabalhistas (Brizola e Arraes, por exemplo) e trotskistas. Em 1961 há 180 greves operárias em São Paulo, envolvendo 254.215 trabalhadores e paralisando 954 empresas, em 1962 são 154 greves, com 158.891 operários paralisados e 980 empresas atingidas. Deste modo, de acordo com Marini, a burguesia depositou em Goulart a esperança conter o movimento sindical e, ao mesmo tempo, enfrentar dois problemas determinantes da crise econômica: o setor externo (a crise cambial) e a questão agrária. Procurou “substituir a liderança carismática de Jânio Quadros, baseado numa concepção abstrata de autoridade, por uma liderança de massas, apoiada por forças organizadas e com uma ideologia definida” (MARINI, 2000, p. 36-37).
Apoiado pelo PCB, Jango buscou conformar uma frente única operário-burguesa, uma espécie de frente popular142e obteve alguns êxitos. Falando em nome das “reformas de base” e depois de duas greves gerais de trabalhadores em 1962 conseguiu com que o Congresso convocasse um plebiscito para decidir em 6 de janeiro de 1963 a forma de governo do país. Jango e o presidencialismo saíram vitoriosos, mas as contradições permaneceram.
Celso Furtado liderou a equipe que elaborou o Plano Trienal, onde, segundo Lafer (2002) e Macedo (1975), priorizava-se o mercado interno e se defendia a superação dos pontos de estrangulamento institucionais que emperravam a economia, buscando retomar o crescimento econômico e conter a inflação. Para tal se fazia necessário um programa político de reformas de base: além da tributária e administrativa, incluía-se as reformas agrária, urbana e bancária. Propunha-se, ainda, proceder um reescalonamento da dívida externa e intensificar
141 A eleição do presidente era separada da eleição do vice. Eram duas votações independentes. Não havia formação de chapas. Assim, enquanto Jânio obteve 5.636.623 votos, Jango conseguiu apenas 4.547.010.
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Segundo Moreno (2005) um governo cuja essência é ser burguês, mas que se apresenta como um governo dos trabalhadores. Este foi um fenômeno impulsionado inicialmente pelo estalinismo, apesar de não se limitar a ele.
o processo de substituição de importações.143 Apesar destes objetivos grandiosos, Lafer afirma que, dadas as limitações do planejamento brasileiro, o próprio plano deixa claro que se apresentava muito mais como um esforço de transição para um efetivo planejamento no país, ampliando a base de conhecimento e os instrumentos para tal.
O plano havia sido anunciado em dezembro de 1962. Logo depois, já em 1963, Furtado foi levado a renunciar ao cargo e o plano foi esquecido - mesmo tendo recebido apoio formal da Confederação Nacional da Indústria em março deste último ano144. Como é conhecido, não foi somente Furtado que caiu. A crise econômica permanecia e se anunciava uma crise política de grandes proporções.
O Plano projetara um crescimento econômico de 7% em 1963 e a economia se expandiu tão somente 1,6% (a indústria cresceu apenas 1%), a inflação foi de 78% quando deveria atingir no máximo 25%. O déficit federal foi de 500 bilhões de cruzeiros quando não deveria ultrapassar Cr$ 300 bilhões e os meios de pagamento cresceram 65% quando se programara 34%. Mesmo a contenção salarial que o governo se propôs ele não conseguiu alcançar, seja no setor privado, seja no setor público que com os salários achatados pressionaram e conseguiram uma reposição de 60% contra os 40% projetados.145
Cardoso (1975) credita a queda do plano às resistências presentes no próprio governo quanto à efetivação das políticas apresentadas. Para Marini o fracasso do mesmo foi decorrência das próprias contradições que estavam na base do governo. A burguesia acreditava que o papel do governo deveria ser garantir a rentabilidade do capital, ampliando o mercado interno e fazendo a reforma agrária que, enquanto não apresentasse retorno positivo, seria compensada pela ampliação do mercado externo através de uma política externa ativa. Por outro lado, o governo também deveria conter o movimento e as reivindicações dos trabalhadores e estudantes, que ganhavam cada vez mais autonomia. Deveria, deste modo, se conformar como uma espécie de governo bonapartista. Não consegue e surge a reação de direita. Os latifundiários, comandados pela Sociedade Rural Brasileira, passaram a montar milícias. Algo parecido ocorre nas cidades. A igreja também engrossa este movimento e organiza atividades anti-comunistas e posteriormente as “marchas da família, com Deus, pela Liberdade”. Também neste sentido, segundo denunciava Jango, os créditos da ALPRO (Aliança para o Progresso) se destinaram diretamente para os governadores anti-Jango (Lacerda, por exemplo) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), com dinheiro da embaixada dos EUA e de grupos estrangeiros, passou a financiar diretamente candidatos de sua preferência.
A crise que se abria, inclusive com rebelião na base das forças armadas, demonstrava, a nosso ver, a inviabilidade do esquema burguês-popular de sustentação de Jango e a burguesia foi paulatinamente retirando seu apoio ao governo. Isso aconteceu permeado pela continuidade da crise econômica, pelo fato de os trabalhadores não aceitarem passivamente e sozinhos os sacrifícios da mesma. Já a classe média146 se divide – tal qual demonstram
143Os formuladores do plano acreditavam que o cenário internacional em alguma medida poderia colaborar para o sucesso do mesmo. A Revolução Cubana e outros processos levaram o governo estadunidense a flexibilizar sua negativa a políticas nacionais de desenvolvimento latinoamericano. Disso decorre a Carta de Punta Del Este (1961) e a Aliança para o Progresso. Mas, como se viu posteriormente, a flexibilidade era muito limitada e não foi suficiente, ao contrário, para o êxito do planejamento proposto por Celso Furtado e seus colaboradores. 144O que contradiz Cardoso (1975) que afirma que o plano obteve pouco apoio dos empresários. É provável, como demonstra Marini, que este setor o apoiasse, mas a partir de certo horizonte moldado que, ao não ser cumprido, levou à rápida retirada do referido apoio.
145Veja Marini (2000), Macedo (1975) e Basbaum (1986).
146Se é verdade que não podemos homogeneizar a classe trabalhadora também não podemos deixar de ver que “classe média” é uma definição imprecisa, que também torna homogênea (através da renda) setores sociais diversos. Mesmo assim, recorreremos a ela em alguns momentos.
Basbaum (1986), Marini (2000) e outros. Uma parte se aproxima das reivindicações do proletariado urbano e outra, cada vez maior, engrossa a reação direitista.147 Somado a isso a própria burguesia, desde JK, vinculava-se cada vez mais a capitais estrangeiros, limitando seriamente um projeto nacionalista sustentado nesta classe. Goulart resolve buscar apoio nas esquerdas, anunciando as reformas de base e fazendo um comício com 500 mil pessoas no Rio de Janeiro onde apresenta decretos de expropriação de terras, estatização de refinarias de petróleo, entre outras medidas.
A burguesia passa a buscar um novo governo forte, desta vez dentro da direita clássica, mesmo que para isso tivesse que restabelecer a aliança com as antigas classes oligárquicas, de toda não plenamente rompida. Mais que isso: “no momento em que os movimentos de massa favoráveis ao aumento dos salários se acentuaram, a burguesia esqueceu suas diferenças internas para fazer frente à única questão que lhe preocupa de fato: a redução de seus lucros” (MARINI, 2000, p. 91). A elevação dos preços agrícolas tornou-se questão secundária não apenas porque as reivindicações dos trabalhadores ganharam autonomia,
mas também porque o caráter político que estas assumiram colocou em perigo a própria estrutura de dominação vigente no país. A partir do ponto em que as reivindicações populares mais amplas se uniram às demandas operárias, a burguesia – com os olhos postos na revolução cubana – abandonou totalmente a idéia da frente única de classes e voltou-se maciçamente para as fileiras da reação (MARINI, 2000, p. 92).
Se esta afirmação em grande medida tem sentido também é verdade que nenhuma das grandes organizações políticas de esquerda com grande influência de massas, como era o caso do PCB, estava se propondo naquele momento a uma ruptura imediata e radical com esta estrutura de dominação capitalista.148 A grande política pecebista para aquele período foi a constituição de uma frente entre trabalhadores e burgueses materializada no próprio governo Goulart. Isso se justificava na análise que esta organização fazia do desenvolvimento brasileiro, assim sintetizado por Ianni:
Essa interpretação do desenvolvimentismo nacionalista supunha que os interesses de setores ponderáveis da burguesia industrial pelo mercado interno a colocava em antagonismo com os grupos latifundiários, importador e imperialista. Assim, a frente
única, acertada entre esquerda e burguesia, poderia conduzir a luta pelo progresso
econômico, a democratização crescente e as conquistas da classe operária. Em termos mais precisos, a esquerda adota taticamente o modelo de ‘substituição de importações’, como etapa necessária no processo revolucionário brasileiro (IANNI, 1968, p. 97).
Sem um projeto claro de ruptura por parte das direções dos movimentos de trabalhadores fica difícil pensar num efetivo e exitoso processo de rompimento com a estrutura de dominação burguesa. Do ponto de vista da burguesia, ela aceita um governo de frente de classes, uma frente popular, mas sempre de forma transitória, quando está diante de uma crise em que não consiga impor clara e explicitamente sua hegemonia e quando este tipo
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Analisando o papel da classe média, Ianni concluiu que ela “revelou-se a massa mais dócil às soluções autoritárias” (IANNI, 1968, p. 137).
148 Muitas destas organizações, em parte por conta de suas próprias políticas, se encontravam fragilizadas. Basbaum (1976) afirma que dos 180 mil membros que tinha em 1946 o PCB se resumiu a algo entre 10 mil e 15 mil em 1960. Dos oito diários que dispunha restou apenas um semanário.
de governo significa um mal menor, uma não ruptura de grandes proporções.
A maior aproximação com organizações de esquerda e a rebelião de marinheiros no Rio de Janeiro, questionando a hierarquia militar, foram tomados pelos dirigentes das forças armadas como argumento para exigir, como condição de apoio, a extinção da CGT e das organizações de esquerda, o que significaria a total rendição de Jango ao setor militar. Por outro lado, apesar de sua ascensão, a classe trabalhadora estava desarmada para um enfrentamento, seja por conta de suas próprias contradições e fragilidades ou em função da própria política de Jango e da revolução pacífica do PCB e de outras organizações.149 Este quadro facilita a instalação da ditadura, imediatamente reconhecida pelos EUA.150 Jango sai do país.
Para Macedo (1975) Jango utilizou inconsistentemente os instrumentos disponíveis e sustentou-se numa conformação de força tão instável que não conseguia impor sua vontade política. Assim, a queda de Jango decorreu da dupla debilidade do governo: “incapacidade para controlar politicamente as pressões e o apoio dos diversos membros do sistema, e a ineficiência operacional para processar o volume crescente de demandas, difusas e específicas, dirigidas às autoridades” (LAFER, 2002, 174). Deste modo, “enquanto Getúlio tinha o instinto de reter aliados potenciais em todos os seus golpes de mestre, Jango reduzia cada vez mais a margem de apoio ao se atirar na areia movediça do impasse político que se agravava” (SKIDMORE, 1991, p. 344). Para Almeida (2007) o problema estava na própria figura do Presidente, que se perfilava como um “manso criador de grande manadas de gado”, sendo presa fácil à armadilha dos conservadores e dos militares. A imagem é que Jango não tinha o pulso necessário que o momento exigia, cultivando uma insegurança que “afasta os homens” e, ainda, “não sabia o que fazer com o poder”. Assim, “pelo medo e falta de energia [de Goulart] para decidir, o Golpe Militar de 64 o abateu; tombou vencido, sem lutar” (ALMEIDA, 2007, p. 312 e 317).
Pelo que já expusemos até aqui acreditamos que estas conclusões estão incompletas. Primeiro porque, apesar de importante, não acreditamos que a personalidade de Goulart seja “o” elemento explicativo do Golpe. Segundo, não se trata de uma questão limitada à eficiência como pode parecer nas palavras de Lafer. A instabilidade decorria de uma situação muito difícil de resolver naquelas condições de crise econômica e política. Por exemplo, na questão salarial trabalhadores e patrões estavam em campos opostos e Goulart buscava agradar aos dois para mantê-los em sua base de apoio, o que trazia o conflito e a instabilidade para dentro da estrutura do governo – e tentava fazer isso sem uma sólida, ampla e orgânica estrutura/organização política que ele controlasse e que o sustentasse (fosse no campo dos trabalhadores, fosse no campo do empresariado). Mais do que isso: a maioria das direções de organizações ligadas aos trabalhadores e estudantes levou (ou tentou fazer) os mesmos, ou pelo menos uma grande parcela deles, a acreditarem num governo que não reunia todos os
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Para Cardoso a situação pré-1964 não redundou em revolução ligada aos trabalhadores tanto em função da política oportunista da esquerda de maior expressividade quanto da própria aliança populista. “Dificilmente, entretanto, essa conjuntura poderia ter resultado numa revolução pela falta dos instrumentos adequados para isso: metas claras, uma política não oportunista por parte dos grupos de esquerda que predominavam na situação, em suma, organizações capazes de aproveitar para seus objetivos a decomposição do Estado. E, principalmente, a ‘aliança populista’, para vincular as massas, os grupos de classe média e a burguesia, baseava-se em setores do próprio Estado que se ligavam, pela teia de relações políticas que mantinham e pelos interesses que sustentavam, uma base econômica não só intrinsecamente não-revolucionária, posto que proprietária, como atrasada” (CARDOSO, 1993, p. 69).
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Em entrevista a O Estado de São Paulo, publicada em 09.07.1966, o senador estadunidense Wayne Morse deixou claro a posição dos EUA: “a ajuda que os Estados Unidos estenderam às juntas da República Domicana, da Guatemala, do Equador, de Honduras e de El Salvador ajudou a desencadear o golpe de Castello Branco no Brasil. Quando nos apressamos a aprovar e fornecer à junta de Castello Branco novas e vastas somas, alentamos a classe militar argentina a apodera-se de seu governo” (MORSE apud IANNI, 1968, p. 180-181).
instrumentos151 não estava disposto e não cumpriria, como não o fez, um processo de ruptura com o capitalismo, sequer com o imperialismo. Constroem ilusões, desarmam os trabalhadores e, assim, facilitam o movimento golpista.
Nesse contexto histórico e ideológico, a esquerda brasileira ficou como que ‘aprisionada’. [...] Em conseqüência, viveu oscilando entre as recomendações do marxismo e as exigências da democracia populista. [...] Todavia, entre o fascínio abstrato da teoria e o fascínio efetivo da prática, esta sempre levou vantagem. [...] O fato é que ela não foi capaz de transformar a política de massas numa política de classes. [...] Por isso, ela se condenou a assistir impotente à modificação drástica do quadro histórico no Brasil (IANNI, 1968, p. 103, 118 e 121).
Para Ianni (1991) o divórcio entre os poderes Legislativo e Executivo, a crescente politização das populações urbanas e rurais e a disputa entre socialismo (via pacífica) e capitalismo (nacional ou associado/dependente), assim como o crescimento de importância política da estratégia socialista, aprofundam a crise da democracia representativa e redundam no golpe de 1964.
Entretanto, é possível ressaltar agora o que seria o fundamento de toda a crise político-econômica desses anos. Tanto o governo Quadros como o de Goulart tiveram dificuldades para propor e resolver os termos da contradição entre as duas estratégicas possíveis para o desenvolvimento econômico brasileiro. Por um lado, colocavam-se as condições políticas e econômicas, bem como ideológicas, favoráveis a formação de um sistema capitalista de tipo nacional.152 E, por outro, colocavam-se as condições políticas e econômicas, bem como ideológicas, favoráveis ao desenvolvimento do capitalismo associado; isto é, favoráveis à reelaboração das relações e estruturas de dependência.
“Foi no âmbito dessa contradição que se desenvolveu o antagonismo entre as forças políticas favoráveis à expansão do capitalismo (forças essas que reuniam elementos das duas correntes mencionadas) e as forças políticas de esquerda, favoráveis à transição pacífica para o socialismo (IANNI, 1991, p. 200).
Tão profunda quanto a análise do golpe é a interpretação da nova realidade brasileira a partir da industrialização. Veremos mais à frente que a Cepal fez inicialmente uma interpretação estruturalista centrada na contradição centro-periferia e acreditando no pleno desenvolvimento a partir da industrialização, depois caminhou para uma análise pessimista deste processo. O PCB e outras organizações de origem estalinistas, já afirmamos, mesmo depois da industrialização, continuaram durante longo período identificando o Brasil como um país pré-capitalista, afirmando que antes do socialismo seria necessária uma revolução democrático-burguesa que, ao romper a opressão imperialista, possibilitaria que desenvolvêssemos as forças produtivas. Assim a burguesia cumpriria um papel progressivo, necessário e conduziria a industrialização. Caberia então aos trabalhadores apoiar esta classe em sua “tarefa histórica” de lutar contra o imperialismo e as classes oligárquico-feudais.
Muitos outros pesquisadores e organizações políticas analisaram a situação brasileira a partir do conceito de imperialismo extraído da obra clássica de Lênin (1987). Derivações desta análise podem ser encontradas em André Gunder Frank, Theotônio dos Santos e Ruy
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Apesar de contar com um relativo, instável e contraditório apoio da burguesia por certo período.
152Até que ponto as condições nacionais e internacionais possibilitavam um êxito neste sentido é uma questão a se questionar. A derrubada de Allende demonstra que estas condições não se colocavam com tanta facilidade como pode parecer na afirmação de Ianni.
Mauro Marini que, com diferenças, visualizam por um lado uma espécie de superimperialismo dos países industrializados centrais e, por outro, uma condição de subimperialismo do Brasil.153
Oliveira (1988) critica as análises sustentadas na oposição centro-periferia na medida em que, nestas interpretações, o desenvolvimento foi concebido a partir das determinações externas, limitando-se a uma oposição entre nações e deixando-se de ver que, antes de tudo, este processo é derivado da oposição entre as classes sociais internas à nação. Dito isso, Oliveira, ao analisar o período pós-1930, afirma que as relações de produção vigentes na economia brasileira continham em si a possibilidade de aprofundar a estruturação capitalista mesmo que as condições da divisão internacional do trabalho fossem contrárias. Ao afirmar que a expansão capitalista no Brasil foi muito mais resultado da luta de classes interna do que reflexo de movimento do capital internacional Oliveira não apenas nega interpretação sustentada no conceito clássico de imperialismo (chegando a negligenciá-lo) como se diferencia da teoria da dependência mais difundida que acredita na reestruturação global da economia nacional apenas quando os movimentos interno e externo do capital estão sincronizados.154
Cardoso e Faletto (1985) criticam a interpretação imperialista afirmando que os investimentos internacionais estabelecem uma nova dependência entre países centrais e as nações em desenvolvimento. Nesta nova situação de dependência a relação entre economia nacional periférica e economias centrais é estabelecida no próprio mercado interno, mas com duas contradições: primeiro, o desenvolvimento industrial permanece dependendo da capacidade de importação de bens de capital e matérias-primas complementares, levando à dependência financeira; segundo, as condições do mercado interno têm que se internacionalizar.155 Deste modo, por um lado há desenvolvimento e autonomia, por outro heteronomia, desenvolvimento parcial e exclusão social não somente das massas, mas também de setores sociais economicamente importantes do período anterior, o que gera