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2.1 Litoral de Arriba

2.1.4 Instabilidades e Movimentos de Massa

As instabilizações que resultam em movimentos de massa, constituem o maior risco para as pessoas e bens envolventes, quer estes se encontrem na base da arriba (utentes de praias/uso balnear e infraestruturas de apoio de praia) quer no topo (edificações). Como já referido anteriormente, as principais causas das instabilizações são devido a fatores climáticos como precipitações intensas ou prolongadas, por sismos e tsunamis, tempestades ou por ações antrópicas, como usos ou atividades em zonas críticas da arriba.

Segundo Glade e Crozier (2005) existem três grupos de fatores das instabilidades:

• os de predisposição: estáticos e inerentes ao território, condicionam o grau de instabilidade potencial da vertente e determinam a variação espacial do grau de suscetibilidade do território à instabilidade (Glade e Crozier, 2005; Zêzere, 2005).

• os preparativos: são dinâmicos e fomentam o decréscimo da margem de estabilidade sem iniciar o movimento (Glade e Crozier, 2005; Zêzere, 2005).

• os desencadeantes: representam a causa imediata da instabilidade e determinam o ritmo temporal dos movimentos (Glade e Crozier, 2005; Zêzere, 2005).

Popescu (1994) esquematizou estes fatores com base nas características do terreno, que funcionam como fatores de predisposição, enquanto os processos geomorfológicos, os processos físicos e os processos antrópicos funcionam como mecanismos preparatórios ou desencadeantes das instabilidades, dependendo da sua intensidade e duração, e da estabilidade prévia da arriba (Figura 2.16).

Figura 2.16 - Fatores dos movimentos de massa (citado em Zêzere, 2005, adaptado de Popescu, 1994).

Os parâmetros dimensionais das arribas são demonstrados na seguinte Figura 2.17.

Figura 2.17 - Parâmetros dimensionais (citado em Teixeira, 2009b).

Os movimentos de descida de uma massa de rocha ou solo coerente numa arriba, progridem segundo o centro de gravidade do material afetado para jusante e para o exterior da arriba. Incluem desabamentos (quedas), balançamentos (tombamentos), deslizamentos (escorregamentos) planos/translacionais ou rotacionais e fluxos de detritos (Figura 2.18) (Sunamura, 1992; Ribeiro, 2010).

Figura 2.18 - Os quatro tipos primários de movimentos (citado em Ribeiro, 2010, adaptado de Sunamura, 1992).

O material movimentado acumula-se depois no sopé da arriba. Sobretudo nas arribas de evolução lenta, o material acumula-se no sopé das arribas “vivas” formando o que se chama de “plataforma de abrasão”, com pouca inclinação e que fica descoberta na baixa-mar, mas submergida em praia-mar (Ribeiro, 2010).

Relativamente ao potencial destrutivo de cada movimento, este irá depender da sua velocidade e magnitude, verificando este facto através de movimentos que já provocaram vítimas (praia de Maria Luísa em 2009). A perda de resistência do material pode ocorrer instantaneamente, através de perda abrupta de coesão, por liquefação de materiais arenosos ou através da cedência do terreno por estratos argilosos (Penacho, 2013). A resposta humana face a estes eventos destrutivos, passa pela tentativa de evitar os mesmos e desenvolver respostas eficazes face ao risco que representa para o homem e bens. A seguinte tabela (Tabela 2.1), relaciona a velocidade dos movimentos de massa com o tipo de resposta humana.

Tabela 2.1 - Escalas de velocidade e resposta humana para os movimentos de massa (citado por Penacho, 2013; Murtinha, 2014; adaptado de Cruden e Varnes, 1996).

Movimento Velocidade (mm/s) Velocidade típica Capacidade Destrutiva Provável

Resposta humana

Extremamente rápido 5x103 5 m/s Catástrofe provável, fuga improvável

Nenhuma

Muito rápido Algumas mortes e velocidade

demasiado elevada para permitir a fuga de todas as

pessoas

Nenhuma 5x101 3 m/min

Rápido Estruturas e bens destruídos e

evacuação possível

Evacuação 5x10-1 1,8 m/h

Moderado Algumas estruturas podem ser

mantidas temporariamente

Evacuação 5x10-3 13 m/mês

Lento É possível a construção de

remediação durante o movimento; algumas estruturas podem ser mantidas

com manutenção frequente

Intervencionável 5x10-5 1,6 m/ano

Muito lento Algumas estruturas

permanentes não sofrem danos

Intervencionável 5x10-7 16 mm/ano

Extremamente lento Impercetível sem

equipamento, construção possível com precaução

2.1.4.1 Queda de Blocos

A queda de blocos, desabamento, derrocada ou desmoronamento (quando ocorre o movimento de mais do que um bloco) (Figura 2.19) define-se como a deslocação de solo ou rocha a partir de um movimento abrupto, ao longo de uma superfície onde os movimentos tangenciais são nulos ou reduzidos (WP/WLI, 1993). Segundo Sunamura (1992) a queda de blocos corresponde a um movimento de massa que viaja através do ar como um corpo em queda livre.

Recentemente na Praia Maria Luísa (Albufeira), no dia 7 de Agosto de 2016, pelas 12h00, ocorreu um desabamento, que embora não tenha gerado vitimas, demonstra que este tipo de movimento, recorrente nesta praia, denota ser um fenómeno difícil de prever o que constitui um risco acrescido para os frequentadores da praia.

Figura 2.19 - Queda de blocos na praia Maria Luísa (Farinha, F. 2016).

O movimento deste tipo de instabilidade é geralmente de muito rápido a extremamente rápido representando um risco muito elevado, devido à sua imprevisibilidade e velocidade da sua ocorrência.

2.1.4.2 Tombamentos

O tombamento ou balançamento (Figura 2.20) corresponde a um movimento e queda-livre com a rotação de um bloco em torno de um eixo fixo durante o movimento (Sunamura, 1992). Também se pode definir como a rotação de uma massa de solo ou rocha, a partir de um ponto ou eixo situado abaixo do centro de gravidade da massa afetada (WP/WLI, 1993).

Segundo Varnes (1978), refere que este tipo de movimento pode ou não culminar em queda ou deslizamento dependendo das propriedades geométricas da arriba e que são movimentos que

vão dos extremamente lentos a extremamente rápidos, e que geralmente aceleram ao longo do deslocamento.

Figura 2.20 - Tombamento ou balançamento (Highland e Bobrowsky, 2008).

2.1.4.3 Deslizamentos

O deslizamento é o cisalhamento sobre uma superfície de deslizamento distinto, e a massa de deslizamento apresenta um movimento em bloco (Sunamura, 1992). Também se define como o movimento de solo ou rocha que ocorrem dominantemente ao longo de planos de rutura ou de zonas relativamente estreitas, alvo de intensa deformação tangencial (WP/WLI, 1993). Dependendo do seu plano de rutura, o deslizamento pode ser planar (ou translacional), caracterizado por uma superfície de deslizamento quase linear, ou rotacional, caso em que o plano é mais curvo ou côncavo (Figura 2.21).

O deslizamento rotacional, é quando o material deformado se movimenta ao longo de uma superfície de rutura curva ou côncava e que está associada à influência da presença de falhas, juntas e outras descontinuidades no material. A escarpa produzida assemelha-se à forma de uma colher, costuma ser fortemente verticalizada, e quando o movimento original é deixado muito longe, esta pode ser deixada sem suporte podendo originar um novo movimento. (Varnes, 1978; Vasconcelos, 2011).

O deslizamento planar, (Figura 2.22) é aquele cujo material instável movimenta-se segundo uma superfície plana ou suavemente ondulada, possuindo muito pouca rotação ou inclinação para trás. Tal como o rotacional, este movimento está associado a superfícies de fraqueza no material como falhas e diáclases, juntas ou outras descontinuidades no material (variações na resistência ao corte entre as camadas em causa (Varnes, 1978; Vasconcelos, 2011)

Figura 2.21 - Deslizamento rotacional de detritos à esquerda e deslizamento planar à direita (Highland e Bobrowsky, 2008).

Figura 2.22 - Deslizamento Planar (Praia da Consolação) (APA, 2015).

2.1.4.4 Escoadas

Escoadas, fluxo ou “flows”, são caracterizadas por um movimento de velocidade crescente em direção à parte superior de um corpo em movimento. Estas ocorrem em costas constituídas por materiais argilosos pouco resistentes, originando “mudflows” ou fluxos de lama, que contribuem significativamente para o recuo de arribas compostas por argilas e margas (Sunamura, 1992). Ocorre também o fluxo de detritos (Figura 2.23) se os materiais envolvidos forem finos (areias, siltes e argilas) e grosseiros (seixos, blocos e calhaus), tipicamente desencadeados por uma invulgar presença de água, que faz deslocar o material por impulsos relativos à força gravítica e pelo colapso repentino os materiais de suporte (Corominas, 1996; Zêzere, 2005; Epifânio, 2013).

São movimentos que geralmente se associam em materiais não consolidados, espacialmente contínuos, cuja superfície de dimensão é curta, que geralmente formam um canal de escoamento mais estreito e que terminam a jusante por leques de acumulação. No seu movimento, a velocidade e distribuição assemelha-se a um líquido viscoso, e podem ser fluxos de elevada se o material do movimento perde a coesão, ganha água ou encontra declives muito acentuados (Varnes, 1978; Vasconcelos, 2011).