palavra mudança é originada do latim mutare ou mutatio, que significa mudar, alterar, trocar. Lembro sempre do processo de transformação que sofre uma larva, até desabrochar em borboleta: ela se encolhe, se fecha em seu alvéolo, troca de pele, precisa abandonar o velho para que o novo possa surgir.
Penso que transcender de um corpo doce no balé para um corpo-escrita é quase o mesmo caminho percorrido pela larva: temos que abandonar a segurança do casulo, nos transformar para, então, podermos aprender a voar e alcançar a liberdade de ser e de criar nossos próprios movimentos. Concebo o corpo – escrita como o corpo protagonista, que produz sua própria palavra por meio de seus movimentos e gestos, unindo o verbo ao sentir e ao agir do corpo. O corpo – escrita é o corpo – sujeito, capaz de escutar sua voz sem censuras, aceitando seu corpo e seu discurso. É o corpo corajoso que expressa seu ser no mundo, tornando-se capaz de romper paradigmas. E, ao aceitar a si mesmo e pronunciar suas próprias palavras, o corpo – escrita reverbera suas enunciações em outros corpos, pois “a tarefa revolucionária da escrita não é excluir, mas transgredir. Ora, transgredir é ao mesmo tempo reconhecer e inverter; é preciso apresentar o objeto a ser destruído e ao mesmo tempo negá-lo; a escrita é exatamente o que permite essa contradição lógica” (BARTHES, 1977, p. 66).
Desarte, o processo de transformação de meu corpo doce em corpo-escrita não foi uma metamorfose tranquila, pois precisei questionar discursos que se encontravam arraigados profundamente em meu ser. Foram todas as perguntas sem respostas consistentes que encontrei em meu caminho que me motivaram a criar a ONG Royale Escola de Dança e Integração Social, uma escola de balé voltada para as classes populares. Lembro que no início fui questionada, pois muitas pessoas consideravam impossível levar arte, educação e cultura para pessoas de baixa renda na cidade de Santa Maria. Com o tempo, a Royale foi se firmando e adquirindo respeito devido aos resultados obtidos com suas ações, pois estávamos trincando paradigmas quanto ao ensino do balé. Assim, meu corpo – escrita articula-se à arte e à educação por meio da ONG Royale, pois foi o trabalho desenvolvido na referida ONG que me levou a cursar a Graduação em Pedagogia e me iniciou como pesquisadora.
Posso tranquilamente colocar que, por meio das minhas pesquisas na graduação e na pós – graduação*, verifiquei o quanto as ações artísticas e educativas realizadas pela ONG Royale são afirmativas e pontuais na transformação social, cultural e educacional de crianças, adolescentes e jovens das periferias da cidade de Santa Maria – RS. São as ações multidisciplinares das oficinas e atendimentos de apoio (Oficina Dança Cidadã, Oficina de Artes Visuais, Oficina de Apoio Pedagógico, Oficina de Língua Francesa, Apoio Psicológico) que propiciam espaços dialógicos que movimentam o pensar, levando ao agir crítico e consciente do sujeito no mundo.
Embora a área da educação seja muitas vezes concebida como um terreno movediço e permeado de acidentes geográficos é possível, por meio de micro ações cotidianas, redesenhar territórios através do comprometimento social e políticos de professores que realmente acreditam na importância de seu trabalho e, principalmente, acreditam em seus estudantes. O Tema Gerador do espetáculo de final de ano letivo da ONG Royale é fundamental nesta ação, pois “a tarefa do educador dialógico é, trabalhando em equipe interdisciplinar este universo temático, recolhido na investigação, devolvê-lo, como problema, não como dissertação, aos homens de quem recebeu” (FREIRE, 1977, p. 120). E os resultados evidenciados nos 19 anos de existência da ONG Royale são a prova principal do sucesso de todas as ações tanto na arte quanto na educação. Tais fatos são evidenciados no capítulo 5 da tese, pois descrevem de maneira clara como são realizadas todas as ações da ONG Royale e o embasamento teórico que as guia.
__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ *Sobre as ações da ONG Royale consultar: SILVA, Daniela Grieco Nascimento. Nos passos de uma dança cidadã: o ballet clássico como agente de inclusão social e cidadania em uma ONG de Santa Maria – RS. Dissertação (mestrado em Educação). Centro Universitário La Salle, Canoas, 2011.
Mesmo assim, a ideia da bailarina da caixinha de música continuava inquietando meu corpo - escrita. Não considerava possível que essa imagem continuasse povoando cegamente a vida das meninas, afinal são as mulheres que predominam nas escolas de balé e são mulheres que preponderam na ONG Royale, tanto no corpo docente quanto no corpo discente. Precisávamos dar voz a essas mulheres, ouvir suas inquietações e seus questionamentos, dar liberdade a seus movimentos, enfim, propiciar que seus corpos – sujeitos pudessem escrever histórias dançantes por meio de seus corpos – escritas.
Destarte meu pensamento também recaia sobre o fato da ONG Royale atender crianças, adolescentes e jovens da periferia que, em sua maioria, estão longe do padrão corporal europeu. São corpos brasileiros que devem ser trabalhados de acordo com suas singularidades, respeitando sempre os limites de cada um. Corpos femininos do Brasil que são sujeitos diversos, com histórias diversificadas e que não correspondem ao imaginário da bailarina européia e, que, por isso devem descobrir e desbravar seus próprios caminhos por meio de seus corpos – escritas.
Como já foi elencado anteriormente na ONG Royale não existem corpos doces, mas corpos disponíveis e desejantes de dançar, onde a técnica do balé é desenvolvida de acordo com o corpo de cada sujeito, ou seja, o progresso técnico leva em conta as possibilidades corporais e o tempo de aprendizagem de cada estudante, indo ao encontro das ideias de Klauss Vianna (2005, p. 36): “por meio do clássico é possível organizar fisicamente as emoções e conhecer o corpo. É uma forma de exprimir harmonicamente essas emoções. Para isso, porém, tenho de estar com os sentidos alertas. Senão minha dança torna-se pura ginástica”.
A competição tão presente nas escolas e companhias de balé, onde as bailarinas visam atingir a perfeição técnica a fim de tornarem-se
primeiras bailarinas, não é incentivada na Royale. O que impera na referida ONG é a cooperação entre todas as bailarinas, de maneira que não
apresenta melhor desempenho técnico, mas a mais comprometida, a mais dedicada, a mais cooperativa. E sempre que existem protagonistas em cena, os papéis são revezados anualmente a fim de que todas possam experimentar dançar solos e pas de deux.
O paradigma já começava a ser quebrado, mas ainda precisava refletir mais criticamente sobre como as ações artísticas e educativas da ONG Royale seriam capazes de contradizer o corpo doce da bailarina da caixinha de música e atuar mais efetivamente sobre o empoderamento feminino no balé. Afinal, sou uma mulher que trabalha predominantemente com mulheres e necessito movimentar meu pensamento em relação ao universo feminino que me cerca, pensando como ocorrem as construções sociais dos papéis de gênero principalmente na Royale Companhia de Dança, onde minha atuação docente é mais efetiva.
Outro fato que desassossegava meu corpo – escrita era que o balé, em seu ensino tradicional, continuava preponderantemente em sua redoma de cristal atemporal. O balé passou pela Revolução Francesa, pela Independência dos Estados Unidos, pela Revolução Russa, pelas duas Grandes Guerras Mundiais, pelo Movimento Feminista, pelo Movimento de Maio de 1968, por Golpes Militares na América Latina, pela Globalização, pelo Liberalismo Econômico sem praticamente alterar-se. Continuou contando histórias de contos de fadas, plenas de princesas, príncipes, feiticeiros e bruxas. Nada parecia abalar o balé em sua concepção tradicional, embora houvesse alterações em seu ensino ao longo dos anos, foi o modo tradicional o predominante. Por conta disso, o balé foi sumariamente atacado como uma arte antiga, fora da realidade, que só valorizava o virtuosismo técnico e um determinado padrão corporal e era desenvolvido e apreciado apenas pelas classes mais abastadas da sociedade.
Mesmo assim, a arte do balé não pereceu. Seu encanto permanece e pode ser afirmado por milhares de escolas e companhias de balé que existem ao redor do mundo. Então, penso quefaz-se necessário um movimento de mudança dentro do próprio mundo do balé tradicional, a fim de provar que ele pode ser ressignificado, trazendo-o para debater os assuntos da contemporaneidade. Tal fato não significa abandonar
sua técnica e sua história, mas redimensionar o balé como dispositivo de poder, deixando germinar corpos-escritas capazes de libertar a
bailarina da caixinha de música.
Foi por conta de todas as inquietações do meu corpo – escrita que nasceu essa pesquisa. Fui buscar suporte no método autoetnográfico para não contar apenas a história percorrida pelo meu corpo - escrita, mas para ouvir as vozes que me rodeiam e me auxiliam diariamente a quebrar paradigmas com a ONG Royale, pois:
O principal papel do pesquisador da cultura que hoje ocupa um lugar em instituições de saber não é apenas possibilitar a visualização e expressão de diferentes sujeitos com suas diferentes culturas e saberes, mas estabelecer com eles uma interlocução, numa predisposição comunicativa que reconheça a autoridade de cada sujeito sobre seu próprio discurso e seu próprio saber. Um interlocutor que não pretenda afirmar sua autoridade sobre a fala dos outros, mas deles reconheça a autoridade e com eles interaja, acrescentando a este processo cognitivo – e criativo – seu próprio quinhão de saberes, vivências e memórias (VERSIANI, 2005, p. 246 – 247).
Ao propor a sistematização de um espetáculo de dança a partir da temática “mulheres na ditadura militar brasileira” para as bailarinas e os bailarinos da Royale Companhia de Dança por meio de um processo de criação coletiva pretendia não apenas possibilitar que, pela primeira vez na ONG Royale, fosse efetivado um espetáculo autoral dos próprios bailarinos, mas que incitasse reflexões sobre os papéis de gênero e sobre o empoderamento das mulheres. Na verdade, a temática escolhida foi o tema gerador do espetáculo da Royale Companhia de Dança que levou a investigações dialógicas e suscitou pensamentos críticos sobre o papel feminino não apenas no balé, mas no mundo, pois “investigar o tema gerador é investigar, repitamos, o pensar dos homens referido à realidade, é investigar seu atuar sobre a realidade, que é sua práxis” (FREIRE, 1977, p. 115).
No momento em que as bailarinas e o bailarino realizavam as pesquisas iam não apenas construindo conhecimentos sobre o universo histórico brasileiro (que muitos revelaram desconhecer), mas refletiam sobre entorno, contextualizavam a história no momento em que vivemos. A escolha dos personagens demarcou uma identificação pessoal de cada um com a história de vida dos militantes políticos e possibilitou que as bailarinas e o bailarino desconstruíssem seus imaginários sobre o corpo doce da bailarina da caixinha de música, pois representavam pessoas reais (bem diferentes das personagens dos contos de fadas dos balés de repertórios e que, na maioria das vezes, não tinham finais felizes) e traziam o balé para o mundo contemporâneo, demonstrando que podemos construir um espetáculo de balé com problemáticas da atualidade. E que os conhecimentos construídos podem nos auxiliar a efetivar transformações não apenas pessoais, mas também no entorno, como as bailarinas universitárias demonstraram durante as ocupações dos prédios da UFSM.
Desarte, o espetáculo #emmemoriadelas é o verdadeiro texto autoetnografia produzido pelo corpo – escrita, pois movimentou o pensamento e incitou reflexões não apenas no meu corpo – escrita e no corpo – escrita das bailarinas e do bailarino da Royale Companhia de Dança, mas também nos corpos – expectadores do espetáculo e nos corpos - leitores dessa tese. Um dos fatos mais significados que ocorrem durante as apresentações do referido espetáculo foram às demonstrações políticas do público com seus gritos de “Fora Temer”, como também os abraços emocionados e as palavras gratas de pessoas que militaram contra a ditadura e que reafirmavam a importância da arte levar o conhecimento desse período histórico para o público a fim de que tal fato não torne a repetir-se.
Ao finalizar essa tese, penso que meu corpo – escrita respondeu seus questionamentos, pois foi possível começar a resignificar o balé e iniciar a quebra dos paradigmas referentes ao corpo doce da bailarina da caixinha de música. As bailarinas e o bailarino da Royale Companhia de Dança conseguiram realizar um processo de criação coletiva sobre a temática proposta, refletiram sobre as construções dos papéis de gênero na dança e na política, contextualizaram o tema gerador e empoderaram-se como sujeitos, evidenciando que gostariam de realizar novas criações coletivas sobre as vivências reais de mulheres brasileiras (o que está sendo efetivado em 2017). Acredito deste modo, que a