Durante a fase de elaboração do Projeto Novo Mundo, ainda no ano de 1996, aquele grupo original, formado em sua maioria por técnicos, estabeleceu a necessidade de constituição da Associação e de parcerias com diversas instituições, para que pudessem atingir os seus objetivos. Nessa decisão do grupo, pode-se identificar uma orientação semelhante à de Bourdieu (1985), citado por Portes (1998), para quem as redes sociais deveriam ser constituídas a partir da institucionalização das relações de grupo, o que permitiria a obtenção de benefícios de forma mais segura e confiável aos seus integrantes.
Assim criaram a Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos de Jussara, que ao contrário do que Campanhola e Graziano da Silva (2004) apud Oliveira (2006) descrevem sobre os principais estímulos à criação desse tipo de instituição, não foi constituída com objetivos de terem acesso a recursos governamentais. Pelo contrário, a ACCOJUS surgiu justamente pela retirada do apoio estatal à agricultura, no caso o crédito agrícola, e pela necessidade de encontrarem alguma forma de sobrevivência.
Dessa forma conseguiram, em uma região com pouca experiência no associativismo, arregimentar novos agentes àquele projeto em torno de uma atividade tradicional que havia sido execrada pelas políticas de modernização da agricultura ao longo das duas últimas décadas.
Além de ter resgatado a criação de cabras, a Associação acabou favorecendo o estabelecimento de uma melhor relação entre os produtores e o mercado, dominado na época
pelo comerciante intermediário. Não obstante isso tenha sido desencadeado por um abatedouro-frigorífico localizado no município de Feira de Santana, quando este começou a operar no município de Jussara estabelecendo a prática da venda de caprinos e ovinos com base no peso.
Pode-se inferir, com base em dados levantados por Holanda Júnior (2004), que essa simples pesagem dos animais não era uma prática comum entre os produtores de caprinos e ovinos de base familiar, o que já representaria uma inovação para o município de Jussara. Segundo o autor, entre os agricultores familiares pesquisados no Sertão Baiano do São Francisco, o peso dos animais vendidos “era estimado por indivíduos acostumados à prática com base no tamanho e escore corporal” (p.46).
Em um segundo momento, já no ano de 2004, a ACCOJUS passou a ser reconhecida como uma entidade de utilidade pública39 pela Assembléia Legislativa da Bahia, que reconheceu nos seus projetos benefícios potenciais para a comunidade, que seriam de responsabilidade do Estado40. Com isso, a Associação pôde firmar convênios com o Estado para conclusão do abatedouro-frigorífico, para instalação dos condomínios de produção de leite em outros municípios da região e para implementação do Programa Cabra de Corda. Este último possibilitou ainda a formação de uma equipe de assistência técnica para prestar um serviço aos pequenos produtores e agricultores familiares, que já há algum tempo vinha sendo negligenciado pelo Estado.
Assim, a ACCOJUS continuou coexistindo com a COPERJ, assumindo funções que a personalidade jurídica desta não permitia. Para facilitar a participação das duas entidades nos diversos programas, foi estabelecido que o presidente da Associação fosse o mesmo da Cooperativa. Assim, se em determinado procedimento fosse necessária a assinatura de uma ou da outra entidade, ambas estariam representadas pela mesma pessoa.
A criação da Cooperativa, por sua vez, foi decisiva para ampliar o universo de produtores envolvidos no projeto do Complexo Agroindustrial, abrigando outras associações e produtores de Jussara, de outros municípios do Território de Irecê e até mesmo do Território vizinho do Piemonte da Diamantina. Com isso, se estaria ampliando também a segurança no
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Entidade constituída como personalidade jurídica privada sem fins lucrativos, mas de fins públicos.
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abastecimento do complexo, além da capacidade do empreendimento em promover o desenvolvimento na região.
Atualmente o quadro social da COPERJ é formado por 217 cooperados, dos quais 11 são associações (com direito a um voto), segundo relatório emitido pela Organização das Cooperativas do Estado da Bahia – OCEB no mês de agosto de 2007. Mas, conforme informações da Diretoria da COPERJ e da Agência do Banco do Nordeste de Irecê esse quadro já está sendo ampliado com novos agricultores familiares que estão recebendo financiamento pelo Pronaf para produção de caprinos. Cabe mencionar ainda a pouca participação de mulheres entre os cooperados, fato observado ao longo da pesquisa, e confirmado pela diretoria da Cooperativa que informou serem em torno de 10% dos cooperados. Essa mesma informação consta no relatório da OCEB.
Em contrapartida à sustentação do complexo, a Cooperativa disponibiliza as bases para o acesso desses produtores ao mercado. Seja por permitir uma produção em escala e com um melhor padrão de qualidade, seja por agregar valor a essa produção na agroindústria, ou por oferecer os mecanismos legais para a sua comercialização, características que Guimarães Filho et al. (1999) julgam essenciais para o agricultor se inserir no mercado de forma competitiva.
Nesse quesito, a COPERJ vem mantendo o princípio original do cooperativismo descrito por Singer (2002) apud Oliveira (2006) de compartilhar os benefícios e as responsabilidades com os associados, apesar das responsabilidades ainda estarem concentradas sobre poucos cooperados. Mas, a Cooperativa tem ido além, ao estender seus benefícios a pessoas que não fazem parte de seu quadro social como as cerca de 200 famílias atendidas pelo Programa Cabra de Corda ou pelos agricultores familiares não cooperados que estão podendo entregar seu leite de vaca no laticínio pelo Programa Fome Zero. Conforme salientou o um dos informantes-chave, trata-se de um público que um laticínio empresarial dificilmente atenderia (IC18).
Como pôde ser observado no capítulo anterior, entretanto, essas bases para agregação de valor à produção e para o acesso aos mercados ainda não estão plenamente funcionais. Além disso, a Cooperativa ainda enfrenta algumas limitações na questão gerencial, especialmente nos aspectos ligados ao cooperativismo, conforme debatido em reunião
realizada no dia 31 de outubro de 200741, e averiguado no relatório emitido pela Organização das Cooperativas do Estado da Bahia – OCEB no mês de agosto do mesmo ano.
Embora os dirigentes da cooperativa tenham passado por uma série de capacitações na área de planejamento estratégico, mercado e gestão do agronegócio, contando ainda com consultorias nessa área, percebe-se ainda certa dificuldade em questões operacionais do dia a dia como controle de estoque de mercadorias e embalagens, gestão dos recursos humanos, entre outros aspectos apontados pelo relatório da OCEB.
Já durante as reuniões da Cooperativa acompanhadas pela pesquisa, pôde-se constatar que algumas questões importantes não têm sido trabalhadas a contento, como o registro dos demais produtos do laticínio no Serviço de Inspeção Estadual e a criação de uma marca para os produtos do abatedouro-frigorífico. Conforme foi bem lembrado pelo informante chave IC18, mesmo que a Cooperativa não vá produzir em escala comercial os demais produtos do laticínio, o seu registro no SIE garante-lhes o acesso a Exposições, Feiras e outros eventos aonde esses produtos poderiam ser divulgados.
No quesito cooperativismo está um outro leque de limitações apontadas pela OCEB, como o pouco diálogo entre o conselho administrativo e o fiscal, a ausência de taxa administrativa para manutenção da cooperativa e de controle das fichas de matrícula dos cooperados, entre outros aspectos.
A falta de capital de giro (Dias, 2007), aparece como um limitador dos avanços da Cooperativa, o que na verdade parece permear todas as cooperativas de pequenos produtores nessa fase inicial. Mas os principais fatores apontados pelos entrevistados se referem às dificuldades que encontraram com o mercado dos produtos lácteos e o não funcionamento do abatedouro-frigorífico.
É importante lembrar que essa dificuldade na comercialização é freqüentemente apontada nos estudos sobre a agricultura familiar e sobre suas organizações, como na análise realizada por Duarte et al. (2002) sobre o Programa de Verticalização da Produção implementado pelo Governo do Distrito Federal, e que fomentou a criação de agroindústrias no âmbito da agricultura familiar. Dentre as famílias beneficiadas pelo programa submetidas à pesquisa, 52,5% citaram a comercialização como sendo sua maior dificuldade.
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Reunião realizada entre a COPERJ e instituições parceiras com objetivo de traçar o plano de ação para os dois últimos meses do ano de 2007.
A não consolidação do complexo agroindustrial é apontada ainda como um dos fatores responsáveis pela pouca participação dos cooperados na condução de seu empreendimento. E também pela sua resistência em adotar certas tecnologias de produção.
IC7: Como a distribuição dos resultados será proporcional à sua participação na Cooperativa, os cooperados sentiram a necessidade de uma maior participação.
Mesmo assim, os entrevistados reconhecem suas limitações e admitem a necessidade de contar com um profissional especializado em administração, o que vem sendo viabilizado pelo SEBRAE. No entanto, a COPERJ não abre mão de que a direção do empreendimento fique a cargo dos próprios cooperados. Razão pela qual, alguns dos representantes da diretoria vêm procurando aprimorar seus conhecimentos nessa área, participando de um curso de especialização em administração de pequenas e médias empresas oferecido por uma Universidade.
IC2: Eu pensava que o mais difícil era construir toda essa estrutura. Mas hoje, percebo que construir é fácil, o mais difícil é colocar em funcionamento.