• Nenhum resultado encontrado

3.4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

3.4.3 As ementas e planos de ensino

3.4.3.2 Instituição B

A instituição B apresentou ementas de duas disciplinas: capoeira e judô II. Contudo na disciplina de capoeira consta que esta é uma disciplina do bacharelado, e, desta forma, não será analisada neste estudo.

A disciplina de lutas II Judô, como indica o nome, dedica-se apenas a esta modalidade. Ela acontece no 5º. Período e possui uma carga horária de 36 horas, sendo a disciplina com menor carga horária das estudadas neste trabalho.

A ementa indica a preocupação com a história e a filosofia do judô, reproduzindo os termos que se encontram nos demais documentos. Destaca a preocupação com o ensino- aprendizagem e aspectos educacionais, demonstrando assim sua preocupação pedagógica. Dedica-se então a descrever os fundamentos, divididos em três grupos: cair (ukemi), projeções (nague-waza) e imobilizações (kaeshi-waza). Termina por indicar o objetivo de conhecer e aplicar as regras oficiais. Este ponto refere-se, provavelmente, à vertente esportiva do judô.

O fato de indicar a “história” e a “filosofia”, bem como aspectos relacionados à aprendizagem indicam existir a preocupação do ensino do judô sob um viés educacional. O fato de se escolher esta modalidade não se dá ao acaso. Trusz e Nunes (2007) indicam que o judô é uma das modalidades sugeridas nos PCN (1997) e que instituições de ensino superior acabaram aderindo. Além disso, a própria história do judô colabora com sua função educativa. Jigoro Kano, criador do judô, é relatado como um sujeito baixo e franzino (possuía 1,50 m. de altura e peso próximo a 50 kg. Devido a isto era vítima frequente de violência por conta de colegas de escola maiores. Decidido a se defender destas agressões, Jigoro Kano resolveu treinar Jiu-Jitsu. Contudo, ao longo da prática achou que esta arte marcial possuía golpes muito agressivos, e se dedicou a aperfeiçoá-los, de maneira a torna-los menos lesivos, sistematizando assim o judô46.

A troca do jitsu (que pode é frequentemente traduzido por jutsu, arte de guerra) pelo do (caminho, na perspectiva budismo da prática como um caminho em busca da iluminação)

46

Sobre os aspectos históricos da origem do judô consultar Casado e Villamón, (2009) e <http://www.fpj.pt/o- judo/a-vida-de-jigoro-kano>. Acesso em: 23 de maio de 2015.

indica a mudança da perspectiva de uma prática voltada de uma arte da guerra para uma arte do caminho, e, portanto, da paz.

¿Por qué he querido llamarlo judo en lugar de jujutsu? Si bien existieron diferentes motivos, el más importante y decisivo fue que el objetivo primordial de la enseñanza del judo Kodokan debía estar fundado sobre el do y no sobre la habilidad en la técnica (jutsu), que es un fin o medio secundario para alcanzar el objetivo principal que para nosotros está en el do (CASADO; VILLAMÓN, 2009, p. 16).47

Jigoro Kano via no judô uma prática corporal para educar as pessoas, de forma a auxiliar na formação de um país mais pacífico, como aconteceu com outras artes marciais no início do século XX, que ficaram conhecidas com a denominação de budo (bu significa marcial, de guerra, e do caminho. Budo seria a busca do caminho através das artes marciais).

Com o Japão passando por um processo civilizador (ELIAS, 1994), no qual saia de um longo período bélico e se aproximava da cultura ocidental, graças a influência imperialista dos Estados Unidos e da Inglaterra, muitas artes marciais adquiriram um formato menos agressivo e com propósito de educar as pessoas para a paz. Seguindo este princípio, Kano retirou movimentos mais lesivos. O próprio Jiu-Jitsu basea-se em alavancas e imobilizações, não possuindo assim técnicas de percussão, que incluem movimentos de ataque, por este motivo estas artes são conhecidas como artes de defesa. A suavização desta defesa, unido a princípios do não uso da força e da condução da energia do movimento do oponente para aplicar a técnica, de forma que não é necessária força física, possibilitando também que pessoas mais franzinas tenham condições de disputar em igualdade com pessoas mais fortes, deram ao judô a característica educativa pelo qual é reconhecido e frequentemente inserido em atividades extra curriculares nas escolas, e, neste caso, na ementa do curso de licenciatura em Educação Física da instituição B.

O judô se tornou então uma das artes mais representantes neste processo civilizador das artes marciais, entre outros motivos, por ter se tornado um esporte olímpico mais tarde.

O processo de esportivização do judô não se deu de forma natural. Seu criador, Jigoro Kano, não era favorável que sua arte se transformasse em um esporte, por entender que a busca pelo resultado no esporte poderia deturpar os valores morais de sua arte, chegando afirmar que [...] “mientras él siguiera vivo, el judo no sería parte de las disciplinas olímpicas,

47

Em uma tradução livre: “Porque preferi chamar de judô ao invés de jujutsu? Existem diferentes motivos, mas o mais importante e decisivo foi que o objetivo primordial do ensino do judô Kodokan devia estar fundado sobre o do e não sobre a habilidade na técnica (jutsu), que é um fim ou meio secundário para alcançar o objetivo principal para nós, que está no do”.

porque, de ser así, el judo moriría” (CASADO; VILLAMÓN, 2009, p. 11)48

. Em outra passagem, ao ser inadagado por um de seus discípulos mais próximos sobre a inclusão do judô nos jogos olímpicos, Kano afirma que “[...] mi punto de vista sobre este asunto es más bien pasivo [...] Si así lo desean otros países y miembros, yo no tendría ninguna objeción. Pero no me siento inclinado a tomar ninguna iniciativa” (CASADO; VILLAMÓN, 2009, p. 11)49

.

Estaria a disciplina indicada na ementa da instituição B ciente deste processo? Seria a isto que ela se referia ao indicar a “filosofía” e a “história” do judô?

Percebe-se nas ementas a preocupação com o viés esportivizado das artes marcíais, muitas vezes se sobrepondo às outras posibilidades. Isto parece verdade neste caso na medida em que, ao estabelecer as competências esperadas na disciplina de lutas II judô, elenque por primeiro “Conhecer e estudar as técnicas do Judô esporte, para as faixas etárias escolares adaptadas para a expressão natural das crianças, manifestadas através da luta corpo a corpo.”.

Aqui repete-se a ideia presente na ementa da instituição A, na qual refere-se a existência de movimentos naturais das lutas realizados pelas crianças. Fica clara também a preocupação do Judô esporte, e não apenas do Judô como arte marcial.

Na sequência afirma que espera-se que o acadêmico seja capaz de “ministrar aulas de judô para alunos de primeiro e segundo graus, bem como acompanhar seu desenvolvimento e avaliar seu aproveitamento”. Seria uma disciplina de 36 horas o suficiente para que os egressos deste curso se sentissem aptos a ministrar aulas de judô? Partindo-se da premissa que isto envolve dominar as técnicas em um nível mínimo, que na arte costuma-se levar mais de um ano para atingir, certamente os acadêmicos não serão aptos com apenas esta disciplina conseguir promover isto sob o ponto de vista técnico, contudo, possivelmente, serão capazes de determinar as características principais, tipos de movimentos, suas funções.

A ementa avança indicando, nas competências, quais seriam estas técnicas básicas, indicando “Dominar as formas básicas de cair (ukemi). Reconhecer e praticar as técnicas de projeções (nague-waza), e de imobilizações (katame-waza). Adquirir noções de técnicas de contra golpes (kaeshi-waza), e de ataques sucessivos (ren-raku-renka-waza).” Reforça ainda o aspecto esportivo ao descrever como competências “Conhecer e aplicar as noções básicas sobre arbitragem de Judô”. Não existe arbitragem na prática do judô enquanto arte tradicional, pois não se objetiva no treino vencer a alguém, mas sim, de acordo com o princípio do

48

Em tradução livre: “enquanto seguir vivo, o judô não será parte das modalidades olímpicas, porque, se assim for, o judô morreria”.

49

Em tradução livre: “(...) meu ponto de vista sobre este assunto é mais passivo (…) Se assim desejam os outros países e membros, eu não teria nenhuma objeção. Porém não me sinto inclinado a tomar nenhuma iniciativa.”

Wagatsu Agatsu (verdadeira vitória sobre si mesmo), busca-se superar os próprios limites, onde o oponente é visto como um auxiliar, e não adversário, não havendo assim porque desrespeitar regras ou se definir quem venceu, dispensando a figura do árbitro.

Ao discutir as técnicas, a ementa é capaz de classificá-las e organizá-las, demonstrando possuir certo conhecimento sobre os elementos que constituem esta prática. Contudo, ao tentar ampliar o enfoque para questões sociais, utiliza apenas “Conhecer a origem, o histórico e a filosofia do Judô”.

Quais seriam os elementos históricos importantes de serem classificá-los? Já se conhece minimamente a história do judô no meio académico e da Educação Física? Quais seriam os princípios filosóficos da arte?

A ementa tenta descrevê-los mais adiante quando elenca “temas de estudo”, e, entre eles:

1 - História e filosofia do Judô; Aspectos filosóficos segundo ensinamentos do Prof. Jigoro Kano; Conhecimento da origem do Judô. Item 2 - Aspectos como elemento de preparação para educação integral dos praticantes. Item 3 - Saudações (REI); A importância do respeito no ensino do Judô.

A preocupação com o aspecto esportivo do judô aparece novamente nos temas de estudo ao elencar “8 - Estudo e prática de arbitragem. Regras utilizadas nas competições de Judô. Item 9 - Organização e prática de festivais e competições de Judô. Organizar e desenvolver festivais de Judô para crianças”.

Percebe-se então na ementa a tentativa de abarcar diferentes possibilidades do Judô, sob os aspectos culturais, definidos como históricos e filosóficos, os aspectos técnicos, o aspecto esportivo e sua relação com o ensino/escola. Contudo descrevem-se com maior detalhamento e precisão os aspectos técnicos, indicando maior conhecimento ou ênfase nestes, em detrimento dos demais.

Percebe-se que em nenhuma das ementas fica clara alguma relação com as abordagens teóricas da Educação Física escolar, de forma que caberia ao acadêmico estabelecer estas relações. Na bibliografia básica são indicadas apenas duas obras, ambas específicas do judô, não havendo indícios nos títulos destas se abordam a relação com a tematização do judô na Educação Física escolar.

Na bibliografia complementar existem quatro obras, sendo três delas relacionadas diretamente ao judô e um caderno publicado pelo Ministério da Educação, indicando assim a relação com a Educação Física Escolar.

Há uma seção na ementa chamada “interdisciplinaridade”, na qual se subtende a busca de romper a fragmentação do currículo, de forma a estabelecer relações entre as disciplinas curriculares. De fato percebe-se na ementa o esforço de indicar com que disciplinas a disciplina de lutas II – judô poderia estabelecer estas relações. Indica assim que “Na parte relacionada com organização de festivais e competições de Judô, envolver a disciplina de Marketing e Organização; Acompanhar e relatar competições de Judô. Na parte de História do Judô, envolver a disciplina de História e Filosofia da Educação Física”. Estas preocupações se aproximam do conhecimento mais amplo possível a respeito do processo social em curso, previsto por Tonet (2005) como um dos critérios para uma prática educativa emancipadora. Contudo não aprofunda ou apresenta mais elementos de como se daria esta relação com as demais disciplinas, como, por exemplo, quais conhecimentos das disciplinas de História e Filosofias da Educação poderiam se articular ao Judô. Ficaria isto a cargo dos professores destas disciplinas? Se sim, teriam eles conhecimentos suficientes sobre o Judô para fazer esta articulação?

Se a própria ementa indica ser uma competência esperada de o acadêmico conhecer o histórico do judô, por que existe a necessidade de que isto seja tematizado na disciplina de história e filosofia? O que estas disciplinas poderiam tematizar que a própria disciplina de judô não seria capaz?

Percebe-se então que esta ementa traz alguns avanços com relação à instituição A sob o ponto de vista técnico, já que descreve de forma mais específica os conhecimentos técnicos que compõem o judô. Contudo oferece menos subsídios ao acadêmico, já que este conhecerá apenas uma modalidade de luta em sua graduação no que depender da estrutura curricular.

As relações com a tematização desta arte marcial na escola, os procedimentos didáticos, a intencionalidade deste conteúdo frente à função da escola, sua didatização tendo em vista a busca de contextualização e conhecimento do processo social em curso no que tange ao judô ficam obscuros, cabendo ao professor da disciplina construir estas relações caso assim deseje.