O avanço predatório sobre os recursos naturais na região Amazônia atingiu proporções alarmantes nos primeiros anos da década atual. Entre os anos de 2001 a 2002, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou um aumento de 40% na taxa de desmatamento na Amazônia Legal. Fato que mostrou a ineficiência das ações governamentais até então, e que incentivou o poder público a tomar decisões que viabilizassem o reordenamento do território amazônico, de forma a conter a expansão de atividades de uso da terra que estivessem contribuindo para tal desequilíbrio ambiental.
Nesse contexto, o Governo Federal instituiu um Grupo de Trabalho (GT)27 com a “finalidade de propor e coordenar ações de combate ao desmatamento na Amazônia, por meio de um conjunto de ações integradas de ordenamento territorial e fundiário, monitoramento e controle, fomento a atividades produtivas sustentáveis e infraestrutura, envolvendo parcerias entre órgãos federais, governos estaduais, prefeituras, entidades da sociedade civil e do setor privado” (BRASIL, 2004, p. 18).
Paralelamente, o poder público viabilizou três Planos de Ação: o Plano Amazônia Sustentável - PAS, que propõe o equacionamento de conflitos fundiários e territoriais a partir da concepção de um novo modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, buscando contemplar cinco eixos temáticos: (1) produção sustentável com inovação e competitividade, (2) inclusão social e cidadania, (3) gestão ambiental e ordenamento do território, (4) infraestrutura para o desenvolvimento e (5) novo padrão de financiamento (BRASIL, 2006, p. 1). E planos setoriais, como o Plano para a Prevenção e o Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAM), que objetiva reduzir a taxa de desmatamento na Amazônia por meio de um conjunto de ações integradas nas áreas de ordenamento territorial e fundiário, monitoramento e controle, fomento às atividades produtivas sustentáveis e ao planejamento estratégico de obras de infraestrutura e o Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável para a Área de Influência da Rodovia BR-163 (Plano BR-163 Sustentável), cuja finalidade é promover o desenvolvimento sustentável ao longo da BR-163.
27 O Grupo Permanente de Trabalho Interministerial foi composto por vinte e um Ministérios, dentre os quais cita-se: Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da Ciência e Tecnologia, da Defesa, do Desenvolvimento Agrário, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, da Integração Nacional, da Justiça, do Meio Ambiente, das Minas e Energia, dos Transportes, do Trabalho e Emprego, do Planejamento, Orçamento e Gestão e o Ministério das Relações Exteriores.
O resultado de reuniões interministeriais, de seminários e de estudos técnicos, realizados para analisar e qualificar os dados do desmatamento com vistas à identificação das áreas críticas e dos principais vetores originou a edição da Medida Provisória nº 239 de 18/02/05 [convertida no Art. 22-A da Lei n° 11.132, de 04 de julho de 2005], que instituiu cinco Áreas sob Limitação Administrativa Provisória (ALAP), abrangendo uma área de 8,2 milhões de hectares de terras públicas federais, com o objetivo de conter a ocupação desordenada do território, reduzir a taxa de desmatamento e indicar as áreas prioritárias para a criação de Unidades de Conservação de proteção integral e de uso sustentável na área de influência da BR-163 (Quadro 5). Fato que resultou na criação de um mosaico de Unidades de Conservação no estado do Pará.
Quadro 5 - Áreas sob limitação administrativa provisória no sudoeste do Pará.
ALAP Municípios incluídos
Áreas
(hectare) UF
Área 1 Jacareacanga, Itaituba, Trairão,
Novo Progresso e Altamira
5.709.022 PA
Área 2 Altamira 394.954 PA
Área 3 Altamira e Novo Progresso 456.259 PA
Área 4 Rurópolis, Itaituba e Trairão 1.077.933 PA
Área 5 Itaituba e Jacareacanga 666.623 PA
Total 8.234,791
Fonte: BRASIL (2005).
As unidades de conservação de uso integral incluem a ampliação do Parque Nacional da Amazônia, a criação dos PARNAS do Jamanxim e do Rio Novo, além da Reserva Biológica da Serra do Cachimbo. As unidades de uso sustentável compreendem FLONAs do Jamanxim, do Crepori, do Amana e do Trairão, e a Área de Preservação Permanente (APA) do Tapajós, ambas totalizando uma área de 1.905 mil hectare e 4.897 mil hectares, respectivamente. Estas foram instituídas em áreas críticas de conflito fundiário, em zona de expansão da fronteira agrícola, onde eram urgentes medidas de ordenamento territorial para frear não apenas o desmatamento e a grilagem, mas também a violência cometida contra populações locais, trabalhadores rurais, assentados e liderança do movimento social.
Com o anúncio do maior pacote ambiental da história do Brasil, o governo ampliou as unidades de conservação federais de 54.190 km2 para 85.491 km2 e as estaduais de 37.252 km2 para 114.562 km2, o que perfaz em torno de 200 mil km2 de unidades de conservação federal e 287 mil km2 de unidades de conservação estadual, no período de vigência do
Programa de Áreas Protegidas (ARPA)28 - 2003 a 2006. Estes números tornaram-se mais extensos em dezembro de 2010, quando 24% do território amazônico passou a ser ocupado por unidades de conservação. Neste ano, institui-se 59.383 km2 de UC federais e 32.071 km2 de UC estaduais, totalizando uma área de 1.174.258 km2 protegida por 307 unidades de conservação, sendo 196 de Uso Sustentável e 111 de Proteção Integral (VERÍSSIMO et al., 2011, p. 24). O Quadro 6 apresenta a quantidade de UC até dezembro de 2010, de acordo com as quinze categorias existentes no território nacional.
Quadro 6 - Unidades de Conservação existentes na Amazônia Legal até dezembro de 2010 (excluídas as RPPNs)
Categorias de UC Quantidade Área oficial (km2)* Área em (km2)** FEDERAL 132 619.532 610.510 Proteção Integral 48 316.276 314.036 ESEC 14 63.359 63.360 PARNA 24 215.808 213.567 REBIO 9 37.108 37.108 RESEC 1 1 1 Uso Sustentável 84 303.256 296.474 APA 4 23.976 21.224 ARIE 3 209 209 FLONA 32 160.402 158.234 RDS 1 647 0,1 RESEX 44 116.160 9,9 ESTADUAL 175 605.299 563.748 Proteção Integral 63 132.572 129.952 ESEC 9 46.307 46.307 MONAT 2 324 324 PES 42 71.260 69.640 REBIO 5 12.578 12.578 RESEC 2 1.039 39 RVS 3 1.064 1.064 Uso Sustentável 112 472.727 433.796 APA 39 195.472 160.593 ARIE 1 250 250 FLOTA 17 133.804 133.803 FLOREX 1 10.550 6.883 FLORSU 10 2.951 2.674 RDS 18 109.901 109.794 RESEX 26 19.799 19.799 Total 307 1.224.831 1.174.258
Fonte: Veríssimo et al. (2011).
Nota: *Descontada a área das UC que estão fora da Amazônia Legal;
**Excluídas as áreas de UC, calculadas pelo Sistema de Informação Geográfica (SIG), que estão fora da Amazônia Legal, as que estão em áreas marítimas e das UC que se sobrepostas com outras.
28 O ARPA é um programa do Governo Federal, com duração prevista de dez anos, para expandir, consolidar e manter uma parte do Sistema Nacional de Unidades de Conservação no Bioma Amazônia.
A análise dos dados desta tese sugere que, apesar da criação das UC, a territorialidade das áreas tem sido garantida por políticas públicas transversais, conforme já apontava Vallejo (2003). No caso da Floresta Nacional do Jamanxim, houve repercussões socioeconômicas das políticas ambientais que, em seu bojo, tem estimulado a manutenção da floresta em pé, contrariando os interesses de parte da população residente, que ainda persiste em explorar os recursos naturais sem o compromisso de resguardar a integridade dos ecossistemas.
6 APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS
Nesta seção, são apresentados os resultados das análises descritivas e da aplicação da técnica multivariada Análise de Correspondência, de modo a identificar e analisar as mudanças ocorridas na paisagem e na vida dos residentes que habitam a Floresta Nacional do Jamanxim, assim como, as relações que eles estabelecem entre si, expressadas nas formas espontâneas de organização social, e com o poder público, em suas várias esferas de governo.
Inicialmente, os resultados obtidos a partir da sistematização das informações do banco de dados são apresentados e analisados de modo a expressar o perfil socioeconômico da população residente na FLONA do Jamanxim; posteriormente as relações existentes entre as variáveis que expressam as múltiplas dimensões do ordenamento territorial - social, econômica e ambiental – são expressas em tabelas de contingência e mapas perceptuais, produtos gerados por meio da técnica multivariada Análise de Correspondência simples e múltipla.