• Nenhum resultado encontrado

2. REVISÃO TEÓRICA

2.4 Instituições de Longa Permanência para Idosos

O cuidado de membros dependentes deve ser responsabilidade da família a que este pertence, segundo estabelece a legislação brasileira, entretanto, Camarano & Kanso (2010) ressaltam que as mudanças em relação ao casamento, diminuição na taxa de fecundidade, menor número de pessoas em um núcleo familiar e a crescente e constante participação da mulher no mercado de trabalho resultam em maior dificuldade de organização da família contemporânea em cuidar de seus idosos. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico responsável pela melhora na qualidade de vida humana e prolongamento da vida ou diminuição da mortalidade nas idades avançadas (80 anos ou mais) é responsável pelo crescimento da população idosa no Brasil, transformando assim a velhice de uma questão privada a pública; o que gera inúmeras demandas, dentre elas uma nova organização em relação ao morar do idoso. (COSTA & MERCADANTE, 2013)

Como alternativa ao cuidado familiar com o idoso, cresce o número de residências coletivas que atendem pessoas com 60 anos ou mais e que muitas vezes se encontram em situação de carência de renda e/ou familiar. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia denominou tais residências como Instituição de Longa Permanência para Idosos, mesmo assim é possível encontrar, ainda, na legislação e na literatura diversas denominações como casa de repouso, clínicas geriátricas, abrigos, asilos – refletindo sua origem, associada aos asilos que se dedicavam a receber a população carente que necessitava de abrigos e cuidados, em 2010 no Brasil, 65,2 % dessas instituições era de natureza filantrópica. Comumente associadas a instituições de saúde, as ILPIs não são voltadas à clínica ou à terapêutica, entretanto os estabelecimentos oferecem, além de moradia,

alimentação e vestuário, serviços médicos e medicamentos. (CAMARANO & KANSO, 2010)

As ILPIs encontram-se entre os serviços especializados voltados para o cuidado da população idosa, que tem por função auxiliar o idoso a realizar atividades da vida diária. Segundo Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 283, a ANVISA define ILPI como “(...) instituições governamentais ou não governamentais, de caráter residencial, destinadas a domicílio coletivo de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, com ou sem suporte familiar, em condição de liberdade e dignidade e cidadania”, (BRASIL, 2005) atendendo idosos dependentes e independentes, que não dispõem de condições para permanecer com a família ou em domicílio unicelular. (COSTA & MERCADANTE, 2013)

Segundo Costa & Mercadante (2013), o primeiro cuidado aos idosos no Brasil, dando origem a evolução das instituições domiciliares como as conhecemos hoje, se deu em 1790, quando uma chácara foi construída para ser a primeira instituição destinada ao cuidado de idosos; pensada para atender soldados portugueses já em idade avançada, que haviam participado da campanha de 1792 (Inconfidência Mineira) e que se faziam dignos de uma velhice descansada pelos serviços prestados; essa instituição foi chamada Casa dos Inválidos. Restrita a receber soldados militares e não idosos em geral, a casa funcionou até 1808, com a vinda da Família Real, quando foi cedida ao médico particular do Rei, seus internos, então, foram transferidos para a Casa de Santa Misericórdia, que era responsável pelos serviços de hospitalização da época colonial, atendendo pobres, indígenas, forasteiros, soldados e marinheiros.

E foi somente depois de três décadas que o “Asilo dos Inválidos da Pátria” foi construído, delimitando o atendimento a idosos de maneira exclusiva. Pouco depois, em 1854 o “Asilo de Mendicidade” foi construído para atender pessoas em situação de mendicância, pois essa população era vista como perigosos agentes propagadores de doenças. A velhice dessa época já habitava as ruas da cidade e com a abolição da escravatura há um aumento da mendicância e da velhice desamparada, o que contribui para a criação de instituições asilares, é neste contexto que surge a diferença entre velhice e mendicância, com isso em 1890 há a construção da primeira instituição a ela destinada, o asilo São Luis no Rio de Janeiro. Criado para dar sossego e repouso a quem estava cansado de tanto viver,

era tradicionalmente um lugar para descanso e não para trabalho. (COSTA & MERCADANTE, 2013)

As instituições responsáveis por abrigar pessoas idosas necessitadas de alimento, de lugar para morar e de cuidado em tempo integral, ficaram conhecidas como asilos ou albergues, com isso essas denominações passaram a ser acompanhadas de carga negativa, associadas a imagens de pobreza ou abandono, o que para Costa & Mercadante (2013) torna necessário criar novos termos para se referir às instituições destinadas ao cuidado do idoso. De Souza et. al. (2015) ressaltam que institucionalizar o idoso pode trazer uma conotação negativa – pela própria definição de “institucionalizado”, na língua portuguesa – em que padrões de comportamento e regras tendem a ser impostos, desconsiderando a subjetividade do idoso que carece de necessidades particulares; isto associado à falta de informação e conhecimento sobre o bom trabalho realizado por muitas ILPIs e Centro de Referência de Idosos, faz com que o tema seja ainda um tabu para a sociedade, dificultando a decisão de muitas famílias ao optar pelos serviços de uma ILPI como forma de garantir a seus idosos dignidade e atenção especial nos cuidados diários e melhora na qualidade de vida.

A Política Nacional do Idoso, sancionada em 1994 e regulamentada em 1996, foi um marco no Brasil em relação ao envelhecimento, que objetiva assegurar os direitos sociais do idoso, integração e promoção de autonomia. Em 1º. de Janeiro de 2004 o estatuto do idoso foi consolidado, nele 118 artigos visam medidas de proteção aos idosos de modo geral e institucionalizados; os artigos 49 e 50 se destinam especialmente às ILPIs, mencionando a preocupação de garantir a dignidade, respeito e manter a identidade do idoso, preservar vínculos familiares e sociais, oferecendo cuidados de profissionais capacitados no cuidado com os idosos. (DE SOUZA et. al., 2015) As ILPIs têm o compromisso de auxiliar os idosos a lidar com as dificuldades diárias relacionadas ao envelhecimento físico, psicológico, cognitivo ou social. A saúde brasileira se vê desafiada diante do aumento na população idosa e da expectativa de vida, pois à medida que envelhece o idoso se torna mais dependente na realização de suas atividades diárias. Silva et. al. (2015, p.345) aponta que:

Embora o cuidado familiar esteja culturalmente arraigado à sociedade, esta não é a realidade de todos os idosos. Há idosos cujas famílias não podem oferecer suporte financeiro para garantir o cuidado adequado ou que não conseguem conciliar a função de cuidadores com a vida cotidiana.

Dessa maneira, as ILPIs se mostram como opção para idosos cujas famílias não podem contar com um cuidador e para os que são vítimas de abandono e/ou com sequelas de doenças crônicas. São elas a assumir a responsabilidade de cuidar quando o idoso perde seus vínculos com sua rede social, oferecendo suporte com a finalidade de melhorar sua saúde e qualidade de vida. (SILVA et. al., 2015)

As ILPIs dividem-se em três modalidades, de acordo com o nível de dependência dos idosos a que atende: aquelas de modalidade um atendem idosos autônomos em suas atividades diárias; as de modalidade dois atendem idosos dependentes e independentes que necessitam de ajuda e cuidados específicos, com acompanhamento; já as de modalidade três dedicam-se a atender idosos dependentes que precisam de assistência total, em pelo menos uma atividade diária. Em relação à estrutura física as ILPIs são classificadas de acordo com o número de idosos possíveis de receber: aquelas que tem possibilidade de atendimento de 01 a 20 idosos são classificadas como porte 01; Porte 2 são aquelas capazes de atender de 21 a 40 idosos, porte 3 são as com capacidade para atender de 41 a 60 idosos e aquelas capazes de atender mais de 60 idosos, são classificadas como porte 4. (SILVA et. al., 2015)

Conforme dito anteriormente, a resolução de n° 283 estabelece normas de funcionamento referentes a infraestrutura, processos operacionais, recursos humanos, notificação compulsória, monitoramento e avaliação, que visam preservar os direitos dos idosos. Entretanto, na prática a legislação brasileira é bastante falha, o Estado falha com o idoso não apenas ao fornecer vagas insuficientes à demanda de idosos, mas essencialmente no descaso com as ILPIs e a falta de supervisão adequada, que as transformam em ambientes refletores do abandono. (SILVA et. al., 2015)

O cotidiano dentro de uma ILPI exige do idoso adaptação e abdicação de bens pessoais de significados afetivos de uma vida inteira, com que tinha contato diariamente em seu núcleo familiar. Trata-se de um momento de afastamento do

sujeito do mundo exterior. E vivendo neste novo ambiente é preciso construir uma nova forma de viver, com novas regras e horários, com novos relacionamentos (nem sempre prazerosos) – essas mudanças de comportamento podem distorcer a identidade e afetar a individualidade do sujeito. (COSTA & MERCADANTE, 2013)

Documentos relacionados