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Instituições e o Processo de Decisão das Firmas

1. O PROCESSO CONCORRENCIAL A PARTIR DAS INTERAÇÕES MERCADO-

1.4. Fatores Institucionais no Processo Decisório e na Regulação da Economia

1.4.1. Instituições e o Processo de Decisão das Firmas

A definição de instituição, como aponta NELSON (1995), encobre uma grande variedade de coisas. Os “velhos” institucionalistas definem instituições para se referir ao que os teóricos da evolução cultural chamam de cultura ou aos aspectos da cultura que afetam a ação humana e organizacional, como os valores, normas crenças, significados, símbolos, costumes e padrões socialmente apreendidos e aceitos. A Nova Economia Institucional (NEI) adota uma definição próxima à Teoria dos Jogos, expressa essencialmente na definição de Douglas North9. Por outro lado, há uma terceira definição de natureza mais histórica que associa as instituições a fatos mais concretos, como a forma da moderna corporação, o tipo de pesquisas nas universidades, o sistema financeiro, o tipo de moeda em uso, o sistema legal, etc. (NELSON, 19995).

DOSI & ORSENIGO (1988: p. 19) argumentam que as instituições relevantes incluem não apenas as “organizações sem fins lucrativos [e] não voltadas para o mercado (governos, agencias públicas, universidades, etc.)”, mas, também, “todas as formas de organizações, convenções e comportamentos estabelecidos e repetidos que não são diretamente mediados pelo mercado”.

A partir dessa separação em instituições eminentemente econômicas e outras mais difusas por toda a sociedade, DOSI10, citado por PONDÉ (1994), distingue as instituições econômicas em dois tipos, as macro e as microinstituições. As macroinstituições abrangem os organismos públicos, como os centros de pesquisa, as agências públicas, etc. e os aparatos de regulação econômica e de fomento, como as normas e legislações gerais, regras para a concessão de incentivos, formas de interação com o governo, direitos de propriedade, etc. Esses arcabouços institucionais de um país ou região conformam, portanto, aparatos de incentivos, restrições e até fixam sanções que condicionam e orientam o comportamento e estratégias dos capitais. As microinstituições, por sua vez, compreendem as estruturas empresariais e das

9 A referência citada por NELSON (1995) é: NORTH, Douglas. Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge U. Press, 1990. Aqui, genericamente definidas, as instituições consistem em restrições informais e regras formais, assim como suas características de poder de coação que, em conjunto, provêem as regras do jogo da interação em sociedade, ou seja, as restrições que conformam a interação humana (NORTH, 1993).

10 DOSI, Giovanni. Institutions and markets in a dynamic world. The Manchester School, vol. 56, n. 2, 1988, p. 119-146.

corporações (sua organização funcional e hierárquica), as regras de procedimento coletivos de tomada de decisão no interior das firmas e mesmo para a interação entre as firmas e também com os mercados, padrões de concorrência, vínculos de confiança, etc.

Assim, as microinstituições econômicas são aquelas que se encontram unicamente no interior das firmas e mercados.

Portanto, a diferença com relação às macroinstituições é que essas últimas abrangem o ambiente institucional como um todo, sem discriminação por especificidades setoriais ou por firmas, enquanto as microinstituições encontram-se presentes no interior das firmas e mercados. Vale dizer que, todavia, enquanto as macroinstituições conformam mecanismos de seleção ex-ante comuns aos agentes individuais que atuam num mesmo país ou região, a presença de microinstituições tem a propriedade de criar uma grande diversidade de comportamento na medida em que os agentes respondem de forma distinta a estes estímulos, o que gera assimetrias importantes entre as firmas que atuam nesse contexto e, por conseguinte, traduz-se em efeitos dinâmicos para o sistema econômico (PONDÉ, 1994). Isso porque as firmas são organizações idiossincráticas que tem capacidade de decidir diretamente sobre as instituições, ao contrário do que ocorre com as macroinstituições, e de enfrentar desafios tecnológicos de formas diferentes.

Outro vínculo crítico atribuído às instituições é a previsibilidade do comportamento dos agentes. Ao estabelecerem padrões ou restrições à ação humana, na realidade as instituições fornecem informações a outros agentes e, como conseqüência, mesmo considerando-se a incerteza e a complexidade das informações, é possível um comportamento previsível e regular (HODGSON, 1988). Nesse sentido, vinculam-se as instituições aos processos de tomada de decisões num contexto inevitavelmente complexo e incerto, onde o comportamento de maximização dos agentes é raramente possível. Ou seja, para entendermos a consistência de ambientes incertos precisamos conseqüentemente fazer referencia à presença de instituições. Como salientam DOSI &

ORSENIGO (1988: p. 19):

Uncertainty necessarily implies institutions, in two senses. First, one requires ‘behavior-shaping’ institutions (which may well be just endogenous developments of organizations, rules, beliefs and

‘Gestalten’ or may also involve external organizations, laws, etc.).

Second, uncertainty – even in the weaker form of ‘imperfect

information’ – requires institutions to organise the interactions and the coordination between agents (…).

Assim, elas têm uma funcionalidade de coordenação das ações potencias dos agentes e, portanto, reduzem a quantidade de deliberação implicada no comportamento.

Funcionalmente, exercem, portanto, mecanismos de seleção ex-ante do comportamento, o que facilita a coordenação, ao longo do tempo, da interação e conduta dos agentes econômicos.

Do exposto ressalta-se a regularidade nas interações e o papel de ordenamento das atividades econômicas e sociais como traços básicos do conceito de instituições.

Contudo, a estabilidade institucional que torna possível a previsibilidade comportamental dos agentes tomadores de decisão e aumenta a estabilidade do sistema, apesar de estar associada ao caráter inercial das instituições, não deve ser tratada como totalmente rígida e levando a automática determinação das ações. Ao contrário, apesar de não claramente explicitado, elas estão suscetíveis a processos evolutivos, predominantemente incrementais, sustentados essencialmente pela influência dos agentes econômicos com poder de barganha para incentivar ou bloquear aquelas mudanças institucionais que se adeqüem às suas demandas (NORTH, 1993).

Ademais, mesmo ao nível de tomada de decisões totalmente deliberadas as instituições fazem-se sentir não meramente como restrições, mas também na moldagem da formação de preferências. Isso decorre do fato de que, ao possibilitarem a aquisição do conhecimento com base no qual as escolhas são feitas, elas influenciam também as concepções de mundo dos agentes na medida em que o conhecimento é expresso numa linguagem social e transmitido através de um conjunto de filtros cognitivos adquiridos socialmente (HODGSON, 1988). Portanto, é preciso tomar as instituições também como elementos sujeitos ao processo evolutivo onde elas não apenas preservam a coordenação intertemporal entre os agentes, mas também abrem oportunidades para que as condições em que as relações sociais ocorrem sejam modificadas por seus participantes de forma a atender seus fins particulares. Nessas condições, vale dizer, aplica-se o argumento Schumpeteriano de que a motivação para as adaptações e reorganizações nos arranjos institucionais está nas possíveis vantagens que daí se obtém na competição intercapitalista (PONDÉ, 1994).

No entanto, a resolução do trade-off entre a flexibilidade de uma estrutura institucional de um lado e sua função como estabilizadora, como âncora relativa de uma determinada estrutura social, por outro, não leva absolutamente a uma situação de ótimo (NELSON, 1995). Na verdade, a superioridade ou inferioridade de cada tipo institucional só pode ser analisada com referência a pontos historicamente datados da trajetória evolutiva das inovações institucionais, já que elas apresentam um comportamento claramente dependente de suas trajetórias. Ademais, é preciso ter em conta a impossibilidade de se vislumbrar ex-ante todos os efeitos de determinadas modificações institucionais por conseqüência da intrincada inter-relação entre as várias instituições, vinculação essa que conforma uma rede de relações e que torna bastante difícil modificar uma parcela dessa estrutura sem acarretar mudanças em outras instituições (STRACHMAN, 2002).

Portanto, a partir do caráter incerto e da instabilidade das economias capitalistas, as instituições desempenham um papel muito importante na conformação do padrão evolutivo e do desempenho de cada economia dado seu caráter local e especifico, mas que embora sejam até certo ponto estáveis não são imutáveis. Como sublinha PONDÉ (1994), elas são continuamente remodeladas e/ ou substituídas dentro de um movimento permanente de “destruição criadora” a partir do qual emergem novos mecanismos de adaptação e novas condições econômicas gerais, pois elas não existem meramente enquanto possib ilidades “dadas” que devem ser descobertas pelos agentes, mas precisam ser inventadas dentro do processo competitivo.

1.4.2. A Regulação e as Reformas Regulatórias no Âmbito de Decisão