A IAD framework é o produto coletivo dos diversos cientistas sociais que participam do Workshop em Teoria e Análise Política ao longo dos últimos 25 anos, com suas colaborações de natureza interdisciplinar, foi produzida esta ferramenta que pode ser usada para analisar as intervenções políticas em uma ampla variedade de situações político-econômicas (POLSKI; OSTROM, 1999).
A IAD é uma ferramenta utilizada para analisar e testar hipóteses sobre o comportamento em diversas situações em múltiplos níveis de análise, onde os participantes estão expostos a um conjunto de incentivos que os induzem a agir de uma forma particular, mas também assumem que suas ações são promovidas por circunstâncias físicas, bem como atributos institucionais, regras e normas (CARLSSON, 2000; OSTROM, 2010).
A IAD framework desenvolve um conjunto comum de elementos linguísticos que podem ser usados para analisar uma grande variedade de problemas, fornecendo uma base comum para integrar diversos elementos de política e do trabalho de diversos analistas políticos (POLSKI; OSTROM, 1999; OSTROM, 2010).
O objetivo principal de ampliar a IAD framework era torná-la mais adequada para análise dos processos políticos multinível, porém, ela também pode ser aplicada para compreender a mudança política em um único nível de decisão política, ou seja, por um lado, ela chama a atenção dos analistas institucionais para o papel de distribuição de energia e discursos em múltiplos níveis em design e desempenho institucional. Por outro lado, ela oferece um quadro teórico robusto orientado para o projeto de recomendações políticas práticas para estudiosos, cujo trabalho está enraizado na ecologia política e outras abordagens centradas no poder (CLEMENT, 2010).
Os tipos de regras da IAD framework consideradas em uma análise institucional estão intimamente ligadas aos elementos de uma situação de ação, sendo o conjunto mínimo de regras necessárias para explicar as ações relacionadas com a política, as interações e os resultados (POLSKI; OSTROM, 1999).
A confiança na utilidade desta ferramenta tem crescido de forma constante, tendo em conta a grande diversidade de configurações empíricas onde ajuda os pesquisadores a identificar as variáveis chaves para efetuar uma análise sistemática da estrutura das situações que as pessoas enfrentam e como as regras, a natureza dos eventos envolvidos e da comunidade afetada se comporta ao longo do tempo (OSTROM, 2005).
O apelo generalizado desta framework está, em parte, ligado à sua aptidão para a análise de microescala e por sua clareza operacional (AUER, 2006), ou seja, permite a análise das partes para se entender o sistema como um todo de forma coerente e lógico.
A IAD framework é um dos quadros mais amplamente usados e testados em estudos de gestão de recursos comuns e oferece uma ferramenta útil para a análise comparativa, pois cada variável da IAD framework é decomposto em um conjunto de sub-variáveis (CLEMENT; AMEZAGA, 2013).
Para Carlsson (2000), a IAD framework baseia-se na ideia de individualismo metodológico, porém não se presume que o indivíduo é uma unidade vazia sem história e cultura, nem negligencia a existência de relações de poder específicas para que os indivíduos ou grupos de indivíduos estejam expostos.
A IAD framework tem uma abordagem diferente e incide sobre os custos de transação associados às relações interorganizacionais. Além disso, ela usa uma variedade de critérios para analisar o desempenho geral de um arranjo institucional para entender melhor seus pontos fortes e fracos (IMPERIAL,1999). Para Andersson (2006), o aspecto mais importante desta ferramenta é que ela introduz o contexto em que os atores locais interagem para criar os arranjos institucionais que moldam as suas decisões coletivas e ações individuais.
A moldura analítica da IAD oferece uma base sólida e bem testada para a análise da governança descentralizada dos recursos naturais, por meio da identificação dos principais fatores que afetam as decisões dos atores em nível de governança, bem como oferece uma base sólida para estudos multinível, relacionando as decisões dos atores por meio dos níveis de governança (CLEMENT, 2010).
Além disso, para Polski e Ostrom (1999), a IAD framework fornece um meio para incorporar diversos participantes na análise de políticas e design. Por exigir múltiplas perspectivas disciplinares, ela tem o potencial de produzir uma rica compreensão de situações sociais, fornecendo a base para uma política mais eficaz. A IAD framework facilita a organização, a análise e a prescrição dos problemas políticos específicos, por identificar os elementos universais que os pesquisadores de política precisam considerar, além de ajudar no acúmulo de conhecimento a partir de estudos empíricos e na avaliação dos esforços passados, sendo originalmente usada para estudos de serviços públicos e posteriormente aplicada em uma ampla variedade de campos, incluindo o estudo de sistemas de governança, projetos de infraestrutura de desenvolvimento internacional patrocinado por doadores e ordem política internacional (RUDD, 2004; OSTROM, 2005; 2010).
Para Andersson (2006) a IAD framework foi utilizada no estudo das condições institucionais condizentes com a governança florestal descentralizada eficaz e como estes se relacionam com a sustentabilidade, permitindo a formular uma série de hipóteses testáveis sobre quais fatores institucionais influenciam a probabilidade de resultados de governação de sucesso em um contexto descentralizado.
A IAD framework pode ajudar na identificação de quais os tipos de variáveis (e as relações entre elas) que é preciso considerar para a análise institucional, pois fornece um conjunto mais geral de variáveis que devem ser usadas para analisar todos os tipos de arranjos institucionais e uma linguagem metateórica que pode ser utilizada para comparar as teorias, assim ela tenta identificar as variáveis universais que qualquer teoria deveria ter (CARLSSON, 2000; OSTROM, 2005; 2010).
Para Imperial (1999), a análise institucional é, portanto, uma tentativa de examinar um problema que um grupo de indivíduos (ou organizações) enfrenta e como as regras adotadas resolvem o(s) problema(s).
Talvez a questão mais importante na análise institucional é definir a natureza do bem que está envolvido na situação de ação (ANDERSSON, 2006), porém um elemento que não pode ser esquecido na análise institucional é a sua capacidade de vincular vários níveis de governação (CLEMENT, 2010).
A IAD framework oferece uma estrutura teórica sólida para ajudar os analistas a compreender os fenômenos sociais complexos e dividi-los em grupos gerenciáveis de atividades práticas, sendo que, quando aplicada rigorosamente, aumenta-se a chance de evitar os equívocos e simplificações que levam a falhas políticas (POLSKI; OSTROM, 1999; CLEMENT, 2010).
A IAD framework é melhor visualizada como um método sistemático para organizar as atividades de análise política que é compatível com uma ampla variedade de técnicas analíticas mais especializadas, utilizadas nas ciências físicas e sociais, fornecendo um meio para sintetizar o trabalho de vários participantes, incluindo aqueles que estão diretamente envolvidos na situação política e têm interesse em resultados políticos (POLSKI; OSTROM, 1999).
Nos estudos desenvolvidos por Imperial (1999), Rudd (2004), Andersson (2006) e Clement (2010) obtiveram que a IAD framework é uma ferramenta útil para a análise institucional, devido a sua característica de levar em consideração o meio biofísico, as regras em uso e a estrutura dos atores.
Em seu nível mais básico, a IAD framework é composta por três elementos: 1) variáveis exógenas10, 2) uma arena ação11, e 3) as interações que geram produtos e
resultados12 (SMYTH; KERR; PHILLIPS, 2013), conforme pode ser verificado na
Figura 3.
Figura 3 – Componentes da IAD framework
Fonte: Ostrom (2005)
Depois de definir uma questão política ou problema, o foco da análise é sobre o comportamento na arena ação, que inclui a situação de ação e os indivíduos e grupos (atores) que são afetados por um conjunto de variáveis externas, fazendo com que haja interação dos atores em situações de ação (POLSKI; OSTROM, 1999; CLEMENT, 2010).
Três variáveis exógenas afetam a estrutura e o funcionamento das arenas de ação: os estados do mundo físico13 e material, onde as ações são realizadas; as
10 Ostrom define variáveis exógenas para incluir condições biofísicas ou material, por exemplo, as
limitações físicas e biológicas e desafios em diferentes regiões de cultivo, atributos da comunidade, a estrutura industrial e sistemas políticos que regem a agricultura, as regras, normas e práticas institucionais que delimitam escolhas (SMYTH; KERR; PHILLIPS, 2013).
11 A arena de ação é composta de situações de participantes e ação - a definição de vários problemas,
questões, áreas políticas e redes ou comunidades de indivíduos e organizações (SMYTH; KERR; PHILLIPS, 2013).
12 Interações entre arenas de ação e variáveis exógenas determinam os produtos e resultados, que
são avaliados segundo critérios adaptados de sistemas externos ou desenvolvidos explicitamente para as circunstâncias (SMYTH; KERR; PHILLIPS, 2013).
13 As condições físicas definem o cenário para os atributos da comunidade. Assim, examina-se como
os atores se relacionam dentro e entre os grupos de outros atores, considerando o contexto histórico, cultura, religião, valores, crenças, conhecimentos, habilidades, condições de saúde, nível de pobreza, e outras características socioeconômicas dos grupos definidos como os atores principais (ANDERSSON, 2006).
regras em uso14 pelos participantes para encomendar suas interações e a estrutura
da comunidade e das instituições (incluindo determinantes culturais), onde os participantes atuam (RUDD, 2004; OSTROM, 2005; BRAVO; MARELLI, 2008; CLEMENT, 2010; CLEMENT; AMEZAGA, 2013).
Para Imperial (1999) a IAD framework reconhece que o mundo físico e biológico impõe restrições importantes no desenvolvimento de regras, porém a estrutura do sistema de regra é importante porque ela pode influenciar nas relações interorganizacionais. Já as relações interorganizacionais serão influenciadas pelos atributos da comunidade onde os atores estão localizados.
O apoio da SIA por meio da classificação dos efeitos sociais adotados por IAIA (2003) e Vanclay (2003) subsidiou a escolha das variáveis da IAD framework, a fim de se obter um estudo mais aprofundado dos efeitos sociais causados por grandes empreendimentos, que no caso deste trabalho foi a construção da UHE de Tucuruí. Até o momento, não foi encontrado nenhum trabalho utilizando a associação da SIA com a IAD Framework para avaliação de impactos causados por grandes empreendimentos, tornando assim, este trabalho inovador nessa área.
Na próxima seção será tratado o método comparativo, mostrando como este pode ser um instrumento de explicação e generalização de um determinado fenômeno, ao utilizar a comparação entre determinadas unidades analíticas, que no caso deste trabalho as unidades analíticas são as partes do lago pertencentes a seis municípios (Novo Repartimento, Tucuruí, Breu Branco, Goianésia do Pará, Jacundá e Itupiranga) do estado do Pará.