Capítulo I: Arranjo jurídico
1.2 Instituto do reassentamento
O reassentamento é uma das três soluções duradouras para o refugiado de longa duração. Em 2001, por ocasião dos cinqüenta anos da assinatura da Convenção de 1951, o ACNUR organizou as chamadas Consultas Globais – uma série de reuniões em que diversos atores debateram os diferentes aspectos da problemática do refúgio, a evolução no tratamento do tema, bem como as deficiências que ainda existiam. Em uma das reuniões, realizada em Genebra, foram discutidas justamente as chamadas três soluções duradouras para um refugiado, já previstas na Convenção de 1951 e no Protocolo, quais sejam: (i) a repatriação voluntária, considerada a solução ideal, em que o indivíduo, por vontade própria, optaria por retornar a sua terra natal, o que ocorria quando os riscos que justificaram sua fuga não mais existiam; ou (ii) a integração plena à nova sociedade onde o refugiado obteve reconhecimento da condição de refugiado primeiro; ou (iii) o reassentamento em um segundo país de refúgio, caso o refugiado continue a correr riscos no primeiro país onde se refugiou.
A primeira dessas soluções – a repatriação voluntária – é considerada a solução ideal, na medida em que o retorno à pátria-mãe não só sinaliza para o fim da perseguição de outrora,
mas, sobretudo, representa o reencontro do indivíduo com sua memória de vida, seu patrimônio cultural, sua tradição, seus entes queridos que ficaram, seu lar. Já a segunda solução – a integração local no primeiro país de refúgio – é a solução que também resolveria, em tese, a situação daquele que não mais pode regressar à terra natal. Ao se integrar efetivamente à sociedade acolhedora, o refugiado volta a ser cidadão, com dignidade e direitos civis e políticos, para dar prosseguimento à vida. Volta a sentir o pertencimento a um agrupamento humano, ainda que distinto de sua cultura, mas fundamental ao indivíduo.
O reassentamento, por sua vez, explica-se pelo fato de nem sempre o refugiado encontrar condições propícias para recomeçar sua vida no primeiro país em que busca asilo.
Quando, já acolhido como refugiado, os riscos a que ele estava exposto continuam a existir, ou quando novos riscos surgem, o indivíduo poderá ser oficialmente encaminhado a um outro país que se voluntaria a acolhê-lo, num gesto solidário.
Cabe lembrar que não há hierarquia entre as três soluções duradouras citadas. Todas são igualmente importantes e cada caso irá definir qual a mais adequada. Muitas vezes, será o reassentamento a solução que possibilitará a vida digna de uma família.
A descrição comum de reassentamento como “última instância” não deve ser interpretada à luz de uma hierarquia de soluções, sendo o reassentamento a menos importante delas. Para muitos refugiados, o reassentamento é, com efeito, a melhor ou, talvez, a única alternativa [...]11.
Em outros termos,
o reassentamento é a única solução possível para os refugiados que não têm condição de se integrarem no país de refúgio e, ao mesmo tempo, não podem retornar a seus países de origem12.
11 JABILUT, 2006, p. 58-59.
12 VIEIRA, 2005, p. 130.
O aspecto voluntário já mostra a primeira diferença a ser apontada entre o refúgio e o reassentamento. Enquanto aquele é regido por regras internacionais bem definidas as quais um Estado-parte não pode, em tese, se eximir de cumprir, este resulta da ação voluntária do Estado.
Em outros termos, acolher como refugiado aquele que, observadas certas condições, encontra-se em território nacional é obrigação do país que é parte dos tratados específicos do tema, ao passo que, no reassentamento, o país se voluntaria para receber o indivíduo. É esse voluntarismo, materializado no ato unilateral de um Estado soberano, que justifica o caráter humanístico e solidário daquele que se propõe a oferecer seu território para reassentar refugiados.
O Estado norueguês é considerado país tradicional em reassentamento. Outros, como o Brasil e alguns países da América Latina, são definidos pelo ACNUR como emergentes em matéria de reassentamento. Isso porque só recentemente países desta região firmaram acordo com o Alto Comissariado se voluntariando para acolher refugiados ainda em risco no primeiro país de refúgio, uma experiência que se intensifica a cada ano.
O ACNUR lamenta que muitas vezes os países desenvolvidos que possuem programa de reassentamento o fazem com base em critérios usados para sua política de imigração, mais seletiva, sem viés humanitário. Países em desenvolvimento, segundo o ACNUR, por sua vez, entendem o reassentamento sob a ótica da solidariedade internacional e humanista.
Para desenvolver o reassentamento em seu território, um país firma acordo de parceria com o ACNUR, que se compromete a assistir o país em todas as fases do processo de acolhimento, incluindo o acompanhamento do refugiado depois de reassentado em território nacional. No Brasil, foi a partir de 1997, com a promulgação da Lei nº 9.474/1997, estudada mais adiante, que o reassentamento entra oficialmente para o ordenamento jurídico interno. O Brasil decidiu por desenvolver política de reassentamento no ano de 1999, assinando com o ACNUR o
Acordo Marco para Reassentamento de Refugiados. Pelo acordo, estabeleceram-se regras claras, sempre técnicas, acerca dos critérios a serem considerados no momento da decisão pelo acolhimento do refugiado que enfrenta problemas no primeiro país de asilo.
O referido Acordo Marco para Reassentamento de Refugiados baseia-se nos princípios já estabelecidos nos tratados de que o Brasil é parte bem como na sua legislação nacional para refúgio, objetivando a solidariedade internacional na busca de soluções duradouras.
Desde a assinatura do Acordo Marco, dados do IMDH, sediado em Brasília e parceiro estratégico do ACNUR no Brasil, mostram que entre 2002 e 2007 foram reassentadas no país 284 pessoas, sendo 52% do sexo masculino e 48% do feminino. A maioria desses reassentados – 159 – chegaram com idade entre 18 e 59 anos, e 109 deles, com idade entre 5 e 17 anos. Os demais eram crianças com menos de 5 anos e um indivíduo com mais de 60 anos. Ainda segundo o IMDH, entre 2007 e 2008, foram reassentados mais 530 indivíduos no território brasileiro, sendo 380 colombianos e 150 palestinos. Do total de reassentados até hoje, 64% estão na área urbana e 36% na área rural. O custo financeiro para a vinda dessas pessoas é do ACNUR, que conta com entidades da sociedade civil e com o governo brasileiro para atuarem na integração local.