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2 O ADVOGADO, SUAS ASSOCIAÇÕES DE CLASSE E A REFORMA DO

2.2 O ADVOGADO E SUAS ASSOCIAÇÕES DE CLASSE

2.2.1 Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB

O processo de profissionalização no Brasil122 se inicia com a criação dos cursos jurídicos, em 1827, e com a criação do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB, em 1843. Para se compreender os desafios iniciais para esse processo, é preciso ter em mente que:

a) a Independência do Brasil não significa o abandono imediato das normas promulgadas pelos Reis de Portugal, que convivem com as que vão sendo produzidas pelo Império brasileiro, causando dúvidas em suas aplicações;

b) durante o Império, não existe “[...] um código de leis e do processo civil que padronizasse os usos e interpretações do direito” (PENA, 2001, p. 64);

c) o emaranhado de legislação123 vigente à época possibilita que, na prática, alguém possa comparecer a Juízo sem um representante legal, o que causa conturbação no Judiciário124;

d) a competência das Assembleias provinciais para a organização do Judiciário viabilizada pelo Código de Processo Criminal de 1832 e reforçada pelo Ato Adicional de 1834 é retirada durante o “Regresso Conservador” e transferida para o Executivo central, sob a coordenação da Secretaria de Justiça e Negócios de Estado;

e) três categorias de profissionais podem atuar no Judiciário no período imperial. Existe o bacharel, portador de diploma, que pode advogar em qualquer tribunal. Os outros profissionais podem atuar em localidades em que o contingente de advogados for insuficiente. Para isso, o candidato a provisão de advogado125 deve se submeter a exame oral e escrito em que demonstre conhecimentos práticos e teóricos de jurisprudência, perante o

122 Cf Larson apud Bonelli (1999) esse processo é iniciado mundialmente no século XIX 123 Ver Coelho (1999)

124 Cf Pena (2001)

Presidente da Relação, e o solicitador judicial, se submete apenas à uma prova prática processual126 perante os Juízes de Direito;

f) disputas políticas interferem nas ações movidas na Justiça127 que ocasionam “[...] desordem, anarquia, abatimento, desmoralização, corrupção mesmo, que tem atacado o foro, e o vão gangrenando de um modo altamente reprovado” (Malheiro apud Pena, 2001, p. 64).

Vê-se, portanto, que, no Império, o exercício precípuo da profissão, que é advogar em Juízo, enfrenta diversos desafios. Um deles é em relação às normas legais. A falta de consolidação de legislações produzidas por Portugal e pelo Império brasileiro dá margem à controvérsia na interpretação e na aplicação do Direito e possibilita inclusive a presença da parte sem um representante legal128 em uma ação judicial. Essa faculdade de um indivíduo comparecer em Juízo sem um representante legal conferida em lei tumultua as atividades do Judiciário e a atuação do advogado. Outro fator que atrapalha o exercício da profissão é a existência de três categorias de profissionais, com níveis de conhecimentos distintos, mas que estão habilitadas para atuar perante o Judiciário. Por fim, nessa época já se observam disputas políticas que interferem no curso das ações judiciais e na atuação profissional.

Na visão de Pena (2011), esses fatores determinam não apenas medidas para organizar as atividades judiciais como também estimulam a profissionalização dos advogados, que se inicia com a criação do IAB. Para Pena (2001), o IAB é fruto de um contexto em que se pode observar a centralização monárquica e a intervenção do Estado na organização judiciária com a finalidade de restringir a influência política nos foros locais. Segundo o autor, o Instituto é “[...] idealizado e concebido por representantes da magistratura togada que possuía boa parte dos postos de liderança política do governo, no início da década de 1840” (PENA, 2001, p. 57). Vianna (1894), por seu turno, sustenta que o IAB resulta da

[...] ideia de ser fundado um instituto de homens cultores e agitadores do Direito, que viesse constituir a Ordem dos Advogados, regularizasse o serviço da administração da justiça e completasse a organização do Poder

126 O Decreto no 5618, de 2 de maio de 1874, descreve as categorias, suas áreas de atuação e

requisitos

127 Cf Pena (2001) 128 Cf Coelho (1999)

Judiciario, o assegurador, como foi, de todas as garantias sociaes, e se tornasse o centro impulsor de um grandioso movimento, do qual tudo se devia esperar (VIANNA, 1894, p. 10)

Já Bonelli (1999, p. 61), entende que a construção da profissão do advogado se dá em paralelo à formação do Estado brasileiro, após a Independência do país e surge “[...] como uma via de mão dupla interdependente”, por iniciativa de “[...] segmentos sociais de elite (e não por setores médios querendo ascender coletivamente) com uma proposta de influenciar o Estado mediante seu conhecimento sobre jurisprudência” (BONELLI, 1999, p. 62).

O entendimento de Vianna(1894), Pena (2001) e Bonelli (1999) convergem em um determinado entendimento: o IAB é resultado de iniciativa de segmento de elite política129. Afinal, enquanto Bonelli (1999) destaca que a influência da elite, Pena (2001) associa o surgimento do IAB a um período de centralização do Estado e de iniciativa de organização do Judiciário pelo Governo para reduzir as interferências políticas nesse Poder. Essa ilação encontra eco na alegação de Vianna (1894) de que, ao IAB, incumbe regulamentar os serviços de administração da Justiça e completar a organização do Judiciário.

Parece razoável a percepção de Pena (2001), na medida em que a criação ocorre dezoito meses após a Lei no 261, de 3 de dezembro de 1841 que, entre outras medidas, retira das Assembleias provinciais a competência para organização do Judiciário, visando uma uniformidade da atuação desse Poder. Considerando a existência de leis esparsas e conflitantes, categorias distintas de profissionais habilitados para atuar perante a Justiça e a interferência política nas ações judiciais, soa coerente que uma alternativa a ser estimulada pelo Estado seja a organização dos advogados ao mesmo tempo em que busca reorganizar o Judiciário.

129 Bonelli (2002, p. 30) entende que o IAB é “o refúgio da geração de bacharéis liberais feridos nas

lutas políticas de então reunida com a nata do saber jurídico orientada por valores profissionais”. Como entrar nessa questão envolveria pesquisa adicional e voltada para outro período histórico e uma extensão desta tese, a opção é a de ater a parte não conflituosa, que é a que envolve um grupo de elite, independente se advém do governo e, em particular, do próprio Judiciário, ou se emana de um grupo de bacharéis liberais. Entretanto, como há um posicionamento favorável à percepção de Pena (2011), ainda que antecedido do termo “razoável”, que não reflete nenhuma conclusão definitiva, é inserida a presente nota para não confundir o leitor mais atento nem induzir ao erro o leitor desavisado.

Ademais, há notícia130 de que, antes da efetiva criação do IAB, Caetano Alberto Soares e José Maria Frederico de Sousa Pinto tentam organizar uma entidade coletiva de advogados, mas, segundo o noticiado pela Gazeta dos Tribunaes (1843a), tal iniciativa é obstada por outros advogados. Essa informação, que não é destacada nos trabalhos acadêmicos centrados nesse Instituto, revela que, no período em que surge, não é pacífico o entendimento dos advogados quanto à necessidade de existir um órgão para regulamentação da atuação dessa categoria profissional e que, antes mesmo de sua existência, iniciativa análoga já havia sido obstada por alguns advogados.

Entretanto, a ideia da existência de uma associação de advogados capaz de auxiliar a administração da Justiça, ao estabelecer a ordem para os advogados assim como normas para o exercício da profissão bem assim uma entidade que trate “[...] precisamente das questões importantes de direito” (GAZETA DOS TRIBUNAES, 1843a) é reavivada com o início da circulação da Gazeta dos Tribunaes, em 10 de fevereiro de 1843.

O movimento para a criação de um organismo que organize os advogados vem a ser fortalecido quando Francisco Alberto Teixeira de Aragão131, conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça - STJ, faz publicar na edição no 35, de 16 de maio de 1843, da Gazeta dos Tribunaes, o estatuto da Associação dos Advogados de Lisboa para apoiar iniciativa de criação de entidade análoga que contribua “[...] para a boa administração da Justiça em geral, mas até para a perfeição do interessante estudo da jurisprudência do paiz; e alias também muito útil aos nossos jurisconsultos nos differentes estados da vida a que se destinarem” (GAZETA DOS TRIBUNAES, 1843b)

Posteriormente, por meio do aviso de 7 de agosto de 1843, assinado pelo Marquês do Paraná, então ministro da Justiça, cria-se o IAB, com aprovação de seu Estatuto. Nesse documento há a previsão de que a entidade, seja instalada na capital do Império e possua a finalidade de “[...] organizar a ordem dos Advogados, em proveito geral da sciencia da jurisprudencia” (GAZETA DOS TRIBUNAES,

130 Cf Gazeta dos Tribunaes (1843a) 131 Informação obtida em Vianna (1894)

1843c). Observa-se, desta forma, uma grande pressão para a criação do Instituto, já que entre o momento em que é publicada a 1a edição da Gazeta dos Tribunaes, em fevereiro de 1843, que ressalta a importância de existir órgão para organizar a ordem dos advogados e a assinatura do aviso que aprova seu estatuto decorrem não mais do que seis meses.

Pode-se perceber ainda o papel central do conselheiro Aragão, não apenas porque é ele quem determina a publicação do estatuto da Associação dos Advogados de Lisboa para que forneça base para documento semelhante no país, mas também porque ele promove, em sua casa, no dia 21 de agosto132, a primeira reunião do Instituto dos Advogados Brasileiros para eleição de sua diretoria. Nessa ocasião, é acordado que o anfitrião passa a ser “[...] presidente honorário do Instituto em agradecimento aos mui valiosos serviços prestados por este senhor para a fundação desta associação” (GAZETA DOS TRIBUNAES, 1843d).

A sessão solene de instalação do IAB ocorre no dia 7 de setembro de 1843, na sala grande do colégio Pedro II133, assegurando-se naquela data que o Instituto possui

[...] a benigna e imperial aprovação de Sua Magestade Imperial, [e] promette á legislação do império, á sciencia da jurisprudencia, ao foro brasileiro, e á classe dos advogados um forte apoio á boa administração da justiça, pela instrução, trabalho, e bem ordenada moralidade dos seus defensores (GAZETA DOS TRIBUNAES, 1843e)

Nas reuniões realizadas no período de 3 a 24 de outubro de 1843134, o regimento interno do Instituto é debatido pelos seus membros, sendo posteriormente aprovado pelo Governo imperial, por meio de portaria datada de 15 de maio de 1844. De acordo com seu regimento135, o IAB possui três categorias de membros, o efetivo, o honorário e o supranumerário. Seus membros devem compor um quadro anualmente organizado por ordem de antiguidade e a partir dos registros de

132 Conforme noticiado na Gazeta Mercantil (1843d)

133 Consta na pág. 3 da edição 62, de 1o de setembro de 1843, da Gazeta dos Tribunaes que, em 31

de agosto de 1843, em resposta a ofício do dia 27 daquele mes, o Imperador deferiu o uso da sala grande do colégio Pedro II para a instalação do IAB.

134 Conforme Gazeta Mercantil (1843f e 1843g)

matrícula no Instituto, quadro esse que deve ser afixado nas salas de audiência dos tribunais e na Secretaria de Estado de Negócio da Justiça às expensas do IAB.

O regimento interno prevê que todos os advogados que se inscrevam no Instituto até 60 dias após a aprovação de seu regimento interno, com qualquer tempo de prática, são considerados membros efetivos, mas que, decorrido esse prazo, os que possuírem menos de dois anos de prática, devem ser matriculados como membros supranumerários.

Em seus cinquenta e seis artigos, o regimento, além de estabelecer critérios para admissão de seus membros, acolhe os advogados de província136 e os jurisconsultos que não exercem a prática da advocacia como membros honorários e elenca direitos, obrigações, regras aplicáveis ao conselho diretor, bem como declara princípios básicos relacionados à ética profissional. Consta ainda vedação de discussões acerca de religião ou de questões de políticas do estado, facultando-se, no entanto, que os membros do Instituto possam se enveredar em tais temas quando produzirem trabalhos em formato de memória ou em caráter científico.

Do estudo da atuação da entidade durante o Império, percebe-se que exerce atividades típicas de órgão consultor do governo, mas que encontra desafio em se afirmar, não apenas como órgão credenciador da categoria, mas também como aquele responsável por regulamentar o exercício da profissão do advogado137. Relevante mencionar que, tão logo passa a existir e em Portaria de 6 de agosto de 1844, o Conselheiro Manuel Antonio Galvão, da Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça, determina ao IAB que avalie o Código de Processo Criminal de 1832, com as modificações efetuadas pela Lei no 261, de 3 de dezembro de 1841, a fim de verificar a existência de vícios, lacunas e incoerências, assim como que apresente medidas legislativas ou regulamentares necessária ou convenientes à utilidade pública para a boa administração da Justiça (GAZETA DOS TRIBUNAES, 1844b).

136 Embora não tenha sido possível fazer estudo a respeito das atividades dos advogados de

província, pelo teor do Regulamento Interno acredita-se que sejam os profissionais que não possuam o diploma de advogado, como os provisionados e os solicitadores, que podem atuar em 1a instância.

137 Cf Bonelli (1999), que enfatiza a dificuldade de ser aprovada a criação da Ordem, uma vez que tal

atuação se insere em um campo onde Legislativo e Judiciário já ocupam espaço e que resistem a ceder sua esfera de influência.

Segundo Vianna (1894, p. 42), o governo Imperial “[...] reconhecendo a sua competência sempre que se tratava de assumpto que entendia com o fôro, continuou a encontrar no Instituto um dedicado auxiliar”. Para citar apenas alguns temas, o IAB manifesta-se138 acerca dos mais diversos assuntos, dentre eles o casamento de acatólicos, a bancarrota, as férias forenses, as alçadas recursais, a competência do juiz na formação da culpa, as sociedades de responsabilidade limitada e também elabora anteprojeto de Código Civil139. Além disso, dentro da faculdade prevista no regimento interno, são produzidos trabalhos acadêmicos de natureza controvertida, como por exemplo a escravatura140 e a religião141.

Acerca de sua interferência e influência nas políticas governamentais, Bonelli (1999) revela que a maior proximidade do presidente do IAB com o Estado durante o período imperial aumenta o prestígio da instituição, mas que, independente de sua influência, desde a sua criação até a proclamação da República, a entidade é consultada pelo governo imperial para esclarecimento acerca de controvérsias em legislação.

Ocorre que, com a proclamação da República e a instalação do Governo Provisório, o bacharelismo e a presença marcante do bacharel em Direito em papéis centrais do Estado passam a ser vistos com reserva e tanto militares, quanto positivistas e também os intelectuais efetuam severas críticas

[...] à natureza excessivamente teórica do ensino ministrado nas faculdades, à retórica vazia da qual o bacharel abusava nos pronunciamentos públicos, aos ardis dos quais se valiam para perpetuar a dominação oligárquica, ao apego aos modelos de pensamento importados e à cultura europeia (e ao seu reverso: a ignorância da realidade nacional) e a sobrevalorização do diploma como meio de distinção social e via de acesso à carreira política e aos cargos públicos (MATTOS, 2011, p. 17).

Nesse momento, a busca pelo apoliticismo é o caminho que o IAB percorre para construir e também estreitar relações com o novo governo republicano e,

138 Segundo Bonelli (1999, p. 69), “[...]o IOAB continuou a ser consultado pelo governo imperial até

1889, não perdendo está atribuição”

139 Cf Vianna (1894)

140 Na solenidade comemorativa de seu aniversário, em 1847, foi divulgado o trabalho de Soares

(1847)

141 Segundo Bonelli (1999), durante sua gestão – entre 1871 a 1880 -, Saldanha Marinho promoveu o

debate acerca da separação entre Igreja e Estado dentro do IAB, mas o Instituto nunca deliberou sobre o assunto

durante a Primeira República, “[...] o regulamento a favor da neutralidade seguiu predominando e gerando conflitos internos até o final do período” (BONELLI, 1999, p. 71). A compreensão quanto ao momento político é essencial para a atuação do Instituto e determina que, em alguns contextos, o órgão advogue no sentido de que posicionar-se sobre a Constituição será tido como “[...] função técnica do IOAB142; em outros momento, será considerado anti-regimental” (BONELLI, 1999, p. 71)

A resistência identificada em relação ao IOAB143 enseja, portanto, uma adequação de seu discurso, com ênfase na vedação prevista em seu regimento de manifestações acerca de política de estado e com a exaltação de figuras de jurisconsultos e do conhecimento jurídico. E é no período de menor participação da organização na política nacional que o IOAB se volta para o fortalecimento do seu papel de regulação e de controle das atividades profissionais. Em 1910, seu regimento interno é alterado para aumentar de dois para quatro anos o período para a prática mínima forense de seus associados.

Em 1911 e em 1914, são apresentados dois anteprojetos de lei para criação da Ordem dos Advogados. Em 1917, o Instituto decide criar um Conselho da Ordem para exercer ação disciplinar sobre os advogados inscritos na organização. Em 1926, o IOAB aprova a elaboração de seu código de ética144 e, em 1929, propõe a criação da Federação dos Advogados Brasileiros, proposta essa que conta com a adesão dos demais institutos estaduais.

São eventos como os mencionados acima que relevam os esforços do IAB para criar uma entidade de credenciamento, propagadora de princípios éticos e de fiscalização dos advogados e que vão sendo incrementados no decorrer da existência do órgão. Deve-se destacar que o credenciamento e a fiscalização são questões centrais para a problemática da “profissionalização”.

142 Bonelli (1999) adota a sigla IOAB, mesmo quando fala da criação do Instituto. Entretanto, a

designação do órgão só passou a ser Instituto da Ordem dos Advogados do Brasil a partir de emenda regimental de 1870

143 O IAB, criado através do aviso de 7 de agosto de 1843, passou a ser denominado Instituto da

Ordem dos Advogados do Brasil – IOAB, por força de alteração de seu estatuto em 1880.