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INSTITUTO NACIONAL DE CINEMA EDUCATIVO

No documento Revista Completa (páginas 95-98)

Por ocasião da visita do Senhor Presidente Getúlio Vargas, ao Instituto Nacional de Cinema Educativo, pronunciou o diretor deste órgão do Ministério da Educação, Professor Edgard Roquete Pinto, o seguinte discurso:

"Durante mais de trinta anos de minha modesta vida de naturalista e professor dediquei todo o meu renitente entusiasmo ao estudo da raça, da gente, dos tipos do Brasil. E quando os dados objetivos da ciência, livres de qualquer influência sentimental, me convenceram de que os pro-blemas humanos não derivam, no Brasil, de influências nocivas de cruzamentos ou atavismos biológicos e são exclusivamente questões de meio, de herança social e de cultura — voltei-me apaixonadamente para tudo quanto pudesse elevar, no plano físico e no moral, os meus irmãos. Foi a minha velha antropologia que me abriu esse novo caminho, no desejo de ser útil, única ambição veemente da minha alma brasileira. E então, Sr. Presidente, julguei encontrar na ciência e na técnica os dois "anjos da guarda", que devem marcar a estrada do nosso povo. Que desani-mador seria, porém, para o nosso progresso espiritual e prático poder contar apenas com as cartilhas e os livros.

Somos, por sorte, herdeiros felizes da civilização ocidental e temos rigorosa obrigação de tirar partido dos novos meios de aperfeiçoamento humano que ela nos proporciona: o cinema, o rádio, o disco, a televisão...

Imaginemos a surpresa dos nossos velhos mestres se hoje ressuscitados lessem os resultados de numerosos inquéritos ultimamente realizados para comparar a eficiência do livro e do cinema na educação pública. Permita V. Ex.a que recorde aqui apenas um dos muitos testes feitos nos Estados Unidos, o do professor Seasholes, de Cleveland, sôbrle milhares de alunos. Para 39 fatos aprendidos no cinema, cada aluno ganhou, em média, 23 aprendidos nos livros. Com o livro cada fato aprendido custou um centavo; com o cinema cada centavo pagou a aprendizagem de quatro fatos... Pelo cinema o tempo necessário à aprendizagem foi quatro

vezes menor do que o exigido pelo uso do livro. A experiência mostrou que no ensino os processos devem ser assim seriados, pela ordem decrescente de valor didático: 1 — Filme comentado pelo mestre; 2 — Filme sonoro; 3 — Lição oral; 4 — Livro texto. E como o livro é afinal, apesar de tudo, a mesma velha urna sempre solícita onde o pensamento das gerações repousa à espera de poder servir aos novos, os testes ainda provaram que os alunos acostumados ao ensino pelo ciríema são os que mjíiis procuram os livros.

Peço permissão a V. Ex.ª, Sr. Presidente, para dizer que por tudo isso considero um prêmio o ter sido chamado para organizar e dirigir

0 Instituto Nacional de Cinema Educativo quando há alguns anos V. Ex.ª criou, por proposta do Sr. Ministro Gustavo Capanema, este centro de estudos, de ensino e de pesquisas especializadas.

Esta é talvez a menor, a mais modesta repartição da República. Meia dúzia de técnicos, algumas máquinas, muitos livros. Mas também é, Sr. Presidente, uma das mais vigorosas sementes de progresso teórico e prático, das muitas que V. Ex.a e o nosso ilustre Ministro da Educação vêm desveladamente cultivando. Para servir gratuitamente às escolas, colégios, institutos de assistência, associações culturais e esportivas, fábricas e estabelecimentos industriais, unidades das Forças Armadas, para atender a muitas solicitações de missões diplomáticas que desejam mostrar onde se encontram alguns aspectos culturais do Brasil, vem o I. M. C. E. editando regularmente seus filmes que pertencem a três categorias:

1 — Filmes de educação escolar, 16m, silenciosos ou sonoros; 2 — Filmes de educação popular1, 35m, sonoros; 3 — Filmes de documentação de pesquisas e investigações originais.

De 1936 a 1944, foram editados 19.089 metros de filmes escolares e 10.917 metros de filmes de educação popular.

O mais original da nossa produção, Sr. Presidente, é a dos filmes de documentação científica, técnica e artística.

O que o Brasil faz hoje. nesse terreno, não encontra paradigma em nenhum país do mundo. O Ministério da Educação, pelo I.N.C.E., documenta, sem nenhuma despesa para o cientista, o técnico, o artista — o seu trabalho e a sua criação, desde que representem realmente contribuição original e valiosa.

Pesquisas de Cardoso Fontes sobre Morfogênese das Bactérias; de Vital Brasil sobre o Ofidismo; de Evandro Chagas sobre Leishmaniose Americana; de Miguel Osório sobre fisiologia nervosa; de Carlos Chagas Filho sobre o peixe elétrico e sobre a cultura de tecidos "invitro"; de

Dutra e Silva sobre o choque elétrico no tratamento de psicopatas; de Maurício Gudin sobre Cirurgia aséptica, e tantos outros — inauguraram o arquivo palpitante das conquistas da inteligência do Brasil.

Páginas eternas da nossa literatura vão sendo levadas ao conhecimento do povo. O I. N. C. E. pôs na tela uma deliciosa fantasia de Machado de Assis e um vigoroso resumo de "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Carlos Gomes, Henrique Oswald, Francisco Braga, Vila Lobos, este na admirável partitura do filme "Descobrimento do Brasil", iniciaram a série dos nossos músicos. Já está completamente gravada a música do Padre José Maurício para um dos próximos trabalhos do I. N. C. E.

A coleção deste Instituto é hoje patrimônio considerável. E pode servir ao Brasil inteiro, porque fornece mediante a entrega do filme virgem, cópias aos governos estaduais, aos municipais, às instituições de cultura que desejarem possuir filmoteca de valores brasileiros.

As quantias que o I. N. C. E. dispende representam assim verdadeiro aumento do patrimônio nacional. Com o apoio e o carinho de V. Ex.a, Sr. Presidente, e do Sr. Ministro Gustavo Capanema, encontrando na opinião pública um constante e generoso estímulo, vamos servindo com a mesma fé os interesses da cultura nacional, procurando todos colaborar na elevação dos nossos compatriotas, ponto essencial do programa de V. Ex.a. Aqui, Sr. Presidente, todos os meus competentes dedicados e queridos companheiros de trabalho, que em oito anos tudo fizeram, todos nós, estamos cheios de esperança, dando o melhor das nossas vidas para que o Brasil possa chegar aos nossos filhos maior e melhor do que o recebemos dos nossos pais".

No documento Revista Completa (páginas 95-98)