• Nenhum resultado encontrado

INSTRUÇÃO FORMAL, MERCADO DE TRABALHO, MUDANÇAS E NOVOS

1. VULNERABILIDADE, INSTRUÇÃO FORMAL E MERCADO DE TRABALHO: UMA

1.4. INSTRUÇÃO FORMAL, MERCADO DE TRABALHO, MUDANÇAS E NOVOS

O impacto da escolaridade na remuneração e na inserção dos trabalhadores é um dos aspectos mais discutidos nas relações entre instrução formal e mercado de trabalho. Conforme Mendonça:

(...) a escolaridade influencia a remuneração e a inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho via três mecanismos. Em primeiro lugar, a escolaridade aumenta a produtividade e, portanto, a remuneração. Em segundo lugar, uma maior escolaridade dá acesso a melhores postos de trabalho e, portanto, modifica a inserção do trabalhador

no mercado de trabalho e o seu nível de remuneração. Por fim, a escolaridade altera o valor relativo que o trabalhador dá ao seu tempo em atividades econômicas e não econômicas, levando a que ele fique mais propenso a participar do mercado de trabalho (MENDONÇA, 2005,p. 34).

No entanto, a instrução e as habilidades necessárias para a manutenção da inserção laboral envolvem uma maior complexidade de elementos, resumida por um estudo feito sobre a América Latina:

La combinación de nuevas tecnologías de automatización, basadas en la introducción de la informática y la microelectrónica, con formas radicalmente distintas de la organización del trabajo, generan un nuevo paradigma productivo; éste exige trabajadores que posean un tipo de competencias muy diferentes a las que demandaban los procesos anteriores. Esto implica una transformación sustantiva de las escuelas basadas en el modelo fordista. Se requieren competencias relacionadas con: una compresión global del proceso tecnológico; formación polivalente para necesidades de rotación en los puestos de trabajo; capacidad de tomar decisiones; habilidades para el trabajo en grupos articulados entre sí; estado de recalificación permanente de los trabajadores (FILMUS6 apud SEPÚLVEDA e GUTIÉRREZ, 2000, 2).

O ritmo tecnológico é tão acelerado, que seu acompanhamento precisa ser constantemente revisado, reformulado e o tempo e o preparo para a assimilação humana dessas mudanças dependem da estrutura de oportunidades (KAZTMAN Y FILGUEIRA, 1999), que cada indivíduo dispõe. Apesar da instrução formal ter atingido cobertura positivamente inédita, ainda restam pessoas em idade ativa, analfabetas absolutas e principalmente funcionais. Qual seria seu grau de inserção? Quais as possibilidades de correção de defasagens e posterior inserção?

Porém, pessoas analfabetas absolutas e funcionais são minorias. A educação no Brasil, no que diz respeito à universalização do ensino, apresentou significativo desenvolvimento também apontado por Rigotti (2001), que chama atenção para uma diminuição das disparidades regionais, embora ainda existam localidades com mais

6

Filmus, Daniel. Hacia una nueva articulación en la relación educación – trabajo. N: Daniel Filmus (ed.), Las transformaciones educativas en Iberoamérica. Tres desafíos: democracia, desarrollo e integración. Madrid. OEI. 1998. pp. 193 a 219.

difícil acesso. Ressalta também a importância da permanência dos alunos na escola até a conclusão do ensino médio.

Mas estes avanços não são ainda suficientes:

A comparação entre o perfil dos chefes de família nos dois quartis de renda mais extremos confirma as dificuldades que o mercado de trabalho impõe para os segmentos populacionais que têm condições financeiras mais precárias. Com nível de instrução inferior, os chefes de família mais pobres têm maiores dificuldades para obter colocação nas vagas que o mercado de trabalho oferece resultando em altíssimo desemprego (DIEESE, 2001, 42).

Rocha (2000) também aponta a dificuldade de inserção dos menos escolarizados:

Devido ao fato de que o trabalho é a principal fonte de renda das pessoas e que os trabalhadores não qualificados estão sobre-representados dentre os pobres, a rapidez e a intensidade dessa evolução tendem a afetar adversamente a incidência de pobreza metropolitana. As situações locais são, no entanto, diferenciadas em função, por exemplo, de características produtivas locais e do grau de atratividade demográfica exercida em cada metrópole (ROCHA, 2000, p.2).

Não somente a abrangência da instrução tornou-se importante, mas a melhoria de sua qualidade, como peça fundamental para o acompanhamento da complexidade de elementos, envolvidos na contemporaneidade.

Já existia, nos anos 80, clareza a respeito da necessidade de elevados níveis de escolaridade (efetiva, eficiente) para possibilitar um enfrentamento adequado das novas características que o capitalismo estava adquirindo. À proporção que se avançava nos anos 90, trata-se menos de medir a contribuição da educação para o crescimento econômico, mas de pensar como tornar a aprendizagem adequada para responder a um mundo cada vez mais complexo (PAIVA, 2001, p. 187).

Além disso, segundo Beck (2000), o valor trabalho está intimamente ligado às origens da democracia tanto na América, quanto na Europa. Viver em democracia significava ter um trabalho remunerado. Somente pessoas com casa e trabalho iriam tornar-se cidadãos e participariam da construção da democracia. Sem segurança material não haveria liberdade política.

Sua importância também reside no fato de ser um dos pontos mais importantes relacionados à identidade do indivíduo, que acaba refletindo em outros planos de sua vida. Um indivíduo possui vários papéis: alguns relativos à família, outros à comunidade, ao mercado, ou ao Estado, mas é o papel relacionado a sua profissão, um dos mais exigidos e é através dele que uma pessoa é reconhecida. Numa situação de desemprego, os demais papéis acabam sendo atingidos de forma negativa até o encontro de um novo emprego, onde seu valor novamente é estabelecido, desde que os rendimentos e o status social sejam recuperados.

Le travail – et plus particulièrement l’emploi dans la sphère des activités monétarisées – constitue la pierre angulaire de toute notre organisation sociale, le déterminant principal du revenu (direct ou indirect) dés Européens mais aussi ce qui, en leur conférant un statut professionnel, leur assure une reconnaissance sociale (RIFFAULT, 1995, 25).

Este reconhecimento social pelo trabalho é atualmente tão importante para o homem, quanto para a mulher. Mas a esfera domiciliar não acompanhou adequadamente a entrada feminina no mercado de trabalho, sobrecarregando-a com a maioria das tarefas.

(...) as mulheres são, seguramente, os membros da família mais afetados. Primeiramente, porque a vida familiar não está sendo afetada apenas por processos econômicos, mas também pelos demográficos e sociais: a redução da fecundidade e da mortalidade e as novas temporalidades familiares vêm alterando profundamente as trajetórias de vida de homens e mulheres. Não há mais uma trajetória padrão e o ciclo vital da família não corresponde mais ao ciclo vital das pessoas (BILAC, 2002, p. 3). Essas alterações resultantes tanto de movimentos internos, quanto da inserção mais efetiva de todos os membros da família na esfera externa, possuem grande influência direta e indireta no aumento do nível educacional feminino, ocorrido a partir dos anos 60. Relações de gênero, novos valores e objetivos individuais e do grupo familiar foram modificando-se e uma importante estratégia para reduzir os impactos das mudanças na família foi a entrada da mulher no mercado de trabalho.

Um estudo específico para a Região Metropolitana de São Paulo constatou que, na década de 80, o aumento da participação da mulher casada na atividade econômica elevou o número de famílias com mulher na força de trabalho, principalmente aquelas famílias constituídas pelo casal e pelo casal com filhos. Isto quer dizer que um número

maior de famílias passou a depender do trabalho da mulher para preservar a renda familiar, não se observando, entretanto, melhora significativa na renda relativa da mulher que trabalha, comparativamente a todas as outras fontes de renda da família. Esses resultados não refletem peculiaridades só da Região Metropolitana de São Paulo, verificando-se também em outras regiões metropolitanas do país (LEONE, 1996a, 1996b, apud LEONE 2000, p. 87).

Segundo a mesma autora (2000), nos anos 90, ao lado da recuperação econômica, foi observada uma gradativa diminuição de empregos formais principalmente na indústria e na construção civil, ocupados predominantemente por homens. Por outro lado, notou-se um aumento de atividades ligadas a serviços, trabalho por conta-própria, geralmente, com maior participação feminina, cuja inserção no mercado de trabalho manteve-se.

Montali (2000), em um estudo sobre a Região Metropolitana de São Paulo, também aponta em relação aos últimos vinte anos “a redução do emprego industrial, o crescimento das ocupações ligadas ao terciário – de caráter formal, ou informal – e o progressivo empobrecimento da população” como conseqüência de “transformações regionais associadas à instabilidade da economia” (p. 57).

Análises da década de 90 em particular referentes à RMSP, revelam, igualmente, transformações como a diminuição da participação de homens e mulheres no setor industrial e o aumento da importância do setor terciário como fonte de empregos. As taxas de desemprego sofrem elevação, cresce a participação feminina, havendo simultaneamente uma reorganização da inserção dos membros da família no mercado de trabalho. Neste período, foi crescente a importância da renda gerada pelo trabalho da mulher no interior da família, diminuindo a lacuna entre os rendimentos provindos do trabalho feminino e masculino (MONTALI e LOPES, 2002).

Essas alterações não se dão de forma mecânica, há um importante gasto emocional, resultante das reformulações de papéis no contexto familiar, cercado de tradições, crenças, preconceitos e valores, que nem sempre acompanham, no mesmo ritmo, uma mudança necessária para a sobrevivência familiar, ou manutenção de sua qualidade de vida, como a inserção da mulher no mercado de trabalho.

Outra questão a ser evidenciada é que a crescente impossibilidade de efetivação do padrão da família mantida pelo “chefe provedor”, caro às famílias de baixa renda,

pode ser, em grande parte, responsável pelo crescimento das famílias chefiadas por mulheres. Estudos de caso mostram que a impossibilidade concreta de realização desse padrão de família considerado como ideal significa para a mulher-cônjuge a ruptura da reciprocidade da divisão sexual do trabalho esperada; para o homem significa a incapacidade de cumprir seu papel, levando-o ao alcoolismo ou ao abandono da família (MONTALI, 2000, p. 62).

Eventos sociodemográficos e culturais são resumidos por Bruschini (2000) para a compreensão das transformações ocorridas no Brasil: “a queda das taxas de fecundidade, o envelhecimento da população, o aumento do número de famílias chefiadas por mulheres, a expansão da escolaridade, os novos valores relativos ao papel das mulheres na sociedade brasileira e a redemocratização do País (BRUSCHINI, 2000, p. 13).

A ocorrência de mudanças não implica necessariamente em sua percepção. A queda da fecundidade é um exemplo disso. É constantemente afirmado em meios de comunicação e em conversas informais que o número de filhos por mulher entre as camadas sociais menos favorecidas continua sendo alto. Outro exemplo é o analfabetismo: menos intenso e com outros enfoques, conforme desenvolvido, ainda permanece a idéia de sua alta proporção, o que, no entanto, não diminui sua gravidade, pelo simples fato de continuar existindo. A escolaridade média de brasileiros apresenta melhoras7, havendo inclusive uma relação significativa entre aumento da escolaridade feminina e sua inserção no mercado de trabalho:

Como tem sido reiterado pela literatura (Miranda, 1975, Rosemberg, Pinto e Negrão, 1982) a associação entre a escolaridade e a participação das mulheres no mercado de trabalho é intensa. As mais instruídas apresentam taxas mais elevadas de atividade, não só porque o mercado de trabalho é mais receptivo ao trabalhador mais qualificado de modo geral, mas também porque elas podem ter atividades mais gratificantes e bem remuneradas, que compensam os gastos com a infra-estrutura doméstica necessária para suprir sua saída do lar (BRUSCHINI, 2000, p. 21 - 22).

A importância da escolaridade reside em esferas além das do trabalho. A alfabetização em grande escala de mulheres, posterior a de homens, foi o primeiro

7

“A duração da vida escolar do brasileiro aumentou de cinco anos em 1993 para 6,4 anos em 2003”. IBGE,Índice de Indicadores Sociais 2004 apud O Estado de São Paulo, 24.02.2005.

passo em direção a sua inserção mais efetiva em diferentes meios da sociedade, incluindo naturalmente o mercado de trabalho. Na comparação do nível de instrução de homens e mulheres, é possível notar uma menor participação de mulheres até os anos 60 no contexto escolar, situação que se inverte com o passar do tempo, levando atualmente a uma média de instrução feminina geralmente maior que a masculina.

Observa-se, resumidamente, uma queda da garantia de sustento via mercado de trabalho formal, paralela a uma maior escolarização da população, que, no entanto, caminha em um contexto de maiores exigências quanto à qualificação, a qual necessita de continuidade e atenção às constantes reformulações tecnológicas, que nem sempre podem ser investidas pelo indivíduo, com pouco respaldo do Estado para reinserção laboral dos já excluídos.

Documentos relacionados