O instrumento de recolha de dados utilizado foi a entrevista semiestruturada, realizada a partir de um guião de entrevista (anexo 1), cujas dimensões foram elaboradas considerando os objetivos específicos a alcançar (anexo 2). Considerou-se o instrumento mais apropriado visto que não se pretende apenas descrever as práticas dos reformados, mas, sobretudo, perceber e interpretar o significado que lhe é atribuído, a perceção que têm dessas práticas e do ambiente em que se encontram inseridos. Aquele permite, assim, perceber a perspetiva dos reformados e aceder a aspetos que não são observáveis, como sentidos e motivações.
Este tipo de entrevista permite que o entrevistado se exprima livremente, seguindo a sua linha de pensamento e utilizando a sua própria linguagem de modo a fornecer informação de maneira mais completa (Albarello et al., 2001; Guerra, 2006), podendo ser colocadas questões para obter detalhes ou clarificar alguns aspetos. Assim, os entrevistados podem estruturar o seu pensamento pois o entrevistador desconhece a forma como o tema pode ser tratado por cada um deles. Simultaneamente, sendo semidiretiva, a entrevista permite que os entrevistados não se afastem demasiado do tema a estudar e que aprofundem questões que
poderiam não aprofundar se não fossem questionados sobre elas, sendo os mesmos aspetos abordados por todos.
As entrevistas foram realizadas de modo individual e presencial, nos meses de novembro e dezembro de 2014. No lar da Santa Casa da Misericórdia, a maioria das entrevistas foi realizada sem necessidade de marcação, uma vez que os reformados mostraram disponibilidade imediata. Apenas dois entrevistados (E7 [M/82/Lar] e E10 [M/72/CDia]) mostraram alguma hesitação em participar no estudo. Após a aceitação, um deles mostrou bastante disponibilidade, enquanto o outro aceitou realizar a entrevista, mas foi questionado em dois momentos distintos,35 no seu local de trabalho e no lar, sendo que mostrou pouca vontade de colaborar devido ao seu estado de desânimo. Os restantes reformados foram entrevistados no lar, à exceção de um que respondeu às questões em casa de uma pessoa amiga após marcação do dia e hora. As entrevistas no lar tiveram lugar na sala da direção, tendo a diretora e uma técnica estado presente em alguns momentos. O local foi indicado pela diretora e, em geral, a sua presença não pareceu incomodar os entrevistados.36
No caso dos reformados residentes no domicílio, após o contacto com os mesmos e tendo sido dado o seu consentimento, marcou-se a data e o local, à sua escolha, para a realização das entrevistas. Escolheram o seu domicílio como local de entrevista, à exceção de 3 entrevistados (E11 [M/63/Dom], E18 [M/65/Dom] e E19 [F/63/Dom]) que escolheram os locais onde exercem a sua atividade associativa e de voluntariado.
As entrevistas tiveram uma duração que variou entre aproximadamente os 25 minutos e 1 hora e 15 minutos, no lar, e entre os 50 minutos e 1 hora e 35 minutos no caso dos reformados residentes no domicílio.
Todas as entrevistas foram realizadas por nós. Procurámos escutar ativa e atentamente e assegurar que a informação era pertinente para a pesquisa. Procurámos um clima de confiança, tentando não realizar juízos de valor e ter consciência das condições sociais da interação sobre a entrevista (Albarello et al., 2001). Tivemos em conta a influência que poderíamos ter nos entrevistados (apresentação, postura, modo como se colocaram as perguntas e outros indícios subliminares) e examinamos os nossos próprios preconceitos. De facto, não é possível esquecer que entrevistado e entrevistador são duas pessoas, cada uma com a sua subjetividade e as suas representações e sujeitas a influências recíprocas entre si.
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Relativamente a este reformado (E7, M/82/Lar), tínhamos também já alguma informação recolhida aquando da fase exploratória deste trabalho e que foi utilizada na elaboração de um outro trabalho no âmbito do curso de mestrado, dados esses que se revelaram importantes para compreender a sua reação e as suas emoções.
36 À exceção da entrevistada E8 (F/88/Lar) que, num momento da entrevista, se preocupou um pouco com o facto de estarmos a ser ouvidas pela diretora e falou num tom de voz mais baixo.
Estas influências não podem ser anuladas, mas devem ser identificadas e consideradas aquando da análise (Albarello et al., 2001).
Apesar das influências e da subjetividade envolvida, como afirma Guerra (2006), entrevistador e entrevistados são seres racionais capazes de definir objetivos, por isso ambos devem estar cientes dos seus papéis, em que um recolhe informações e o outro é informador privilegiado. Assim, embora não haja garantia de uma objetividade absoluta, uma vez que a entrevista nos dá informação, em primeiro lugar, sobre o que a pessoa pensa e, só depois, sobre a realidade (Albarello et al., 2001), tentámos proceder do modo mais claro e objetivo possível.
O facto da autora do trabalho residir na localidade onde foi realizado o estudo revelou ser uma vantagem visto que, para além de conhecer a realidade local, tal também facilitou o contacto com os reformados e pareceu determinar a aceitação por parte dos entrevistados que estavam um pouco hesitantes.
Foram acauteladas questões éticas, nomeadamente no que respeita à confidencialidade e à proteção dos dados pessoais. As entrevistas foram realizadas com o consentimento dos reformados e, no caso dos institucionalizados, do provedor da Santa Casa da Misericórdia (anexo 3). Os entrevistados foram informados sobre o tema e os objetivos do estudo, o facto de não existirem respostas certas ou erradas e o seu direito a colocar questões ou dúvidas acerca do mesmo em qualquer momento. A entrevista foi voluntária e foi salvaguardado o direito à recusa ou à desistência. Foi ainda pedida autorização para proceder à sua gravação em formato áudio, visto que a entrevista foi realizada oralmente, permitindo a participação dos reformados com um nível de escolaridade mais baixo assim como dos que não possuem qualquer nível de escolaridade.
Visto estarmos perante um tema relacionado com o envelhecimento, inicialmente pensámos que a distância em termos de idade cronológica entre entrevistadora e entrevistados, assim como questões de género, poderiam constituir constrangimentos, mas tal não se verificou.
As reações dos entrevistados foram positivas, tendo sido facilmente estabelecida uma relação de empatia. Alguns mostraram-se emocionados ao recordar determinados acontecimentos passados e factos da sua vida atual. Alguns ainda questionaram se estariam a responder adequadamente às questões, mas após a entrevistadora ter relembrado que se tratava da sua opinião, o restante discurso dos mesmos não pareceu ser influenciado por essa preocupação. O facto de a entrevista ser gravada não pareceu influenciar nenhum dos entrevistados. Relativamente ao tempo de entrevista, apenas um entrevistado (E18,
M/65/Dom) mencionou que conversámos durante bastante tempo. De facto, verificou-se que após as entrevistas, em muitos casos, os entrevistados continuaram a fornecer informação. Esta foi registada, por escrito, e foi também utilizada na análise realizada, juntamente com outras notas da entrevistadora relativamente à postura dos entrevistados.
Como afirma Guerra (2006), são vários os tipos de análise de conteúdo. A nossa análise foi realizada partindo da sua proposta, a qual se baseou nas de Poirier e Valladon (1983, cit. por Guerra, 2006). Os dados recolhidos através de gravação37 foram transcritos para papel. De seguida, procedemos à leitura das transcrições, das respostas registadas por escrito e das anotações, a partir das quais elaborámos os quadros relativos à caracterização sociográfica dos entrevistados (anexos 4 e 5) e as sinopses das entrevistas (anexos 6 a 9). Descrevemos os dados obtidos através do processo atrás mencionado e, seguidamente, procurámos interpretá- los, confrontando-os com o quadro de referência apresentado no capítulo 2 desta parte do trabalho.
É precisamente esse trabalho de análise que apresentamos seguidamente.
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PARTE II
4 ENQUADRAMENTO TERRITORIAL
Antes de procedermos à análise dos dados obtidos, importa traçar uma breve caraterização do concelho onde realizámos o estudo e da instituição onde reside a amostra dos reformados institucionalizados, visto que uma pessoa não vive isoladamente, mas em relação com o outro e com o meio.