• Nenhum resultado encontrado

Instrumentos de coleta de dados

No documento MARCELLO DE ABREU FARIA (páginas 68-71)

3. MATERIAL E MÉTODO

3.3. Instrumentos de coleta de dados

Os dados foram coletados no setting do Centro de Convivência e Atenção Psicossocial (Mansão Vida) (DF). A clínica (como setting) é um aspecto chave por se situar no encontro entre o fundamento e a aplicação da ciência com relação ao

homem. Por isso, o espaço clínico pode ser considerado um espaço científico, inclusive por possibilitar a emergência da sensibilidade ao ambíguo, ao duplo sentido e ao hipercomplexo. A clínica é um espaço particular de conhecimento semelhante a um laboratório, no qual hipóteses são construídas e testadas a todo momento (Barbier, 1985).

Os instumentos de coleta utilizados foram:

3.3.1. Entrevista clínica

Foram feitas entrevistas individuais semiestruturadas – elaborada pelo pesquisador – em duas partes: a primeira voltada para a identificação do paciente, motivo da internação, histórico atual, histórico pessoal e familiar (Carretoni Filho & Prebianchi, 1999); a segunda orientada para possíveis contextos dissociativos experienciados. Para tal, foram inseridos elementos selecionados da Escala de Experiências Dissociativas (DES) de Putnam (1992), adaptados ao tipo de pesquisa.

A entrevista é um importante instrumento para conhecimento do sujeito. É um instrumento importante de conhecimento interpessoal, porque facilita a apreensão de elementos que podem contribuir para a identificação do fenômeno pesquisado, além de auxiliar a construção do perfil do entrevistado (Turato, 2003).

3.3.2. Teste de Rorschach

A opção por este método se deve a sua vasta utilização no Brasil e pelo pesquisador, em sua prática clínica, além dos resultados observados em termos de nível de satisfação.

O Método de Rorschach é um processo de avaliação da personalidade, que também avalia déficits neurocognitivos. Trata-se de um instrumento golden standard da Psicologia para avaliação diagnóstica. O teste consiste em apresentar ao indivíduo 10 cartões com manchas de tinta (desenhos abstratos), e o examinando é solicitado a verbalizar o que cada um dos 10 cartões lhe sugere. Cabe ao examinando a tarefa de organizar, estruturar e verbalizar suas percepções frente a cada cartão recebido do examinador. Enfim, o Rorschach “consiste em interpretar formas fortuitas, isto é, figuras formadas ao acaso; as figuras são simétricas com diferenças sutis entre uma metade e a outra” (Rorschach, 1967, p. 15).

Nesta pesquisa, foi utilizada a abordagem de B. Klopfer, validada por Vaz (1997), além do atlas de Augras (2004). É um método fidedigno e revelador, que esclarece componentes profundos do comportamento humano, principalmente, em virtude de o sujeito não ter consciência do que está sendo medido quando submetido ao teste.

No estudo das alucinações, o Método de Rorschach tem sido um instrumento singular de avaliação psicológica para diagnóstico diferencial, uma vez que permite significativa correlação entre a percepção da cor e da forma. A cor reflete um mundo que emerge da subjetividade e que se configura e se projeta através da forma. A forma, por sua vez, refere-se ao ponto de vista objetivo da percepção e constitui um dos elementos essenciais da análise, sendo importante porque indica as possibilidades de controle racional que um indivíduo tem sobre as emoções e os afetos.

Em termos de avaliação psicológica, com base no Método de Rorschach, pacientes traumatizados fornecem significativo índice de conteúdos desta natureza em suas respectivas respostas ao teste, tais como: sangue, ansiedade, morbidez, movimento agressivo, sexo e/ou anatomia (Fortes, Scheffer & Kapczinski, 2007). O Rorschach também fornece indicadores sobre os fenômenos dissociativos – que devido a suas associações com os aspectos traumáticos representa um dos grandes

desafios da psiquiatria – e transtornos mentais associados, entre outros aspectos relativos à dinâmica da personalidade.

Moore, Viglione, Rosenfarb, Patterson e Mausbach (2013, p. 255) explicam a

adequabilidade do Método de Rorschach para a avaliação da esquizofrenia. Segundo os autores, “ele pode avaliar níveis de produtividade, precisão, diferenciação e integração envolvidos no conjunto das respostas”. Em relação a alguns sintomas:

- desordem do pensamento: a utilização do Rorschach pode contribuir para definir essa desordem. “Como uma tarefa de resolução de problemas de comportamento com base no desempenho, o Rorschach tem demonstrado ser uma medida válida e confiável de avaliação do transtorno de pensamento de pessoas com esquizofrenia”;

- complexidade psicológica: com a interpretação das respostas do Rorschach, pode-se demonstrar o declínio causado pela esquizofrenia, a redução da capacidade de raciocinar e de se comunicar, bem como que elementos anteriores ao avanço da doença foram perdidos.

No geral, o resultado da complexidade dá suporte indireto à conclusão de que indivíduos com capacidade e motivação para codificar, integrar e organizar estímulos visuais complexos devem apresentar resultados mais positivos, no que diz respeito ao seu funcionamento cotidiano e social (Moore, Rosenfarb, Viglione, Patterson & Mausbach, 2013, p. 256);

- representações interpessoais: com o Rorschach, são avaliadas as estruturas cognitivas pelo acesso a dimensões das representações, às formas distorcidas, à agressividade das respostas e outros. O esquema interpessoal de representações mentais contribui para se compreender como o paciente olha o outro. Teoricamente, a avaliação do esquema interpessoal tem relação com a expressão externa do comportamento social do indivíduo. Esquemas interpessoais pobres e distorcidos pruduzem representações igualmente equivocadas.

Há pesquisadores dedicados ao aprofundamento do espectro esquizofrênico e, até o momento, não há registros, na literatura científica, sobre falha diagnóstica envolvendo o Método de Rorschach, no que tange especificamente à esquizofrenia e ao TDI.

3.4. Procedimento

Os sujeitos foram avaliados individualmente, em tempo livre, e a duração estimada foi de quatro horas por paciente. O tempo para conclusão da tarefa variou para mais ou para menos, conforme as condições do sujeito avaliado.

A sequência do processo de avaliação dos participantes foi feita na seguinte ordem: (1) assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para participação na pesquisa, pelo paciente e/ou resposável legal; (2) anamnese e entrevista clínica semiestruturada; (3) aplicação do teste de Rorschach, abordagem de B. Klopfer.

Todos os protocolos foram codificados pelo pesquisador. Uma psicóloga, treinada na correção do Método, Sistema Klopfer, também analisou os citados protocolos para que a análise fosse realizada da forma mais fidedigna. Não houve discordância entre os profissionais, o que afastou a necessidade de um terceiro avaliador.

No documento MARCELLO DE ABREU FARIA (páginas 68-71)