4.2 Procedimentos Empíricos
4.2.1 Instrumentos de coleta e tabulação dos dados
Para coletar os dados de redes pessoais foi utilizado um questionário, o qual foi respondido pelos alunos da 3ª série do Ensino Médio das Escolas Estaduais Santos Dumont e Ana Júlia de Carvalho Mousinho, sendo que, na primeira instituição 67 alunos foram amostrados e na segunda 33. Nesse questionário (gerador de nomes) de caráter relacional, os alunos (ego) mencionaram o nome de 45 pessoas (alters) que eles conheciam. Além disso, os alunos entrevistados indicaram também o tipo de relação e o grau de proximidade que eles tinham com essas pessoas (WASSERMAN e FAUST, 1996; HANNEMAN, 2001).
Esse processo de mapeamento das redes pessoais se enquadra no contexto do método egocêntrico, no qual o mapeamento e identificação da rede se dá através da investigação centrada em um indivíduo. Trata-se de uma abordagem que “tem como foco o nó individual, em lugar de abranger a rede como todo” (SOUZA e QUANDT, 2008), ou seja, mapeia-se a rede a partir da percepção de um indivíduo, que nesse caso específico, são os alunos selecionados pelo plano amostral.
Ao ser preenchido pelo aluno, o questionário gerou três tipos de informações: o nome ou apelido das 45 pessoas; o grau de proximidade (definido com base em um escala de afinidade que define a intensidade da relação – Distante (1); pouco próximo (2); próximo (3); e muito próximo (4)) e o tipo de relação (pai, mãe, irmão, primo, amigos, etc) do ego (aluno) com cada uma das 45 pessoas mencionadas (alters) (WASSERMAN e FAUST, 1996).
Sendo assim, considerando como nível de análise a escala individual, os questionários respondidos pelos alunos das duas escolas passaram por um processo de tabulação ou sistematização. Nesse caso, para que esses dados coletados pelo questionários possam representar uma perspectiva relacional é necessário que eles sejam inseridos em uma matriz. Segundo Hanneman (2001) a matriz é a forma mais comum de representação de uma rede de relações entre indivíduos, ela é usada principalmente para demonstrar a intensidade das interações existentes entre os indivíduos mencionados, os quais são organizados através de linhas e colunas (n x n) (matriz), que apresentam a mesma quantidade de elementos (DEGENNE e FORSÉ, 1999).
119 No caso dos dados coletados nas duas escolas, foram construídas para cada um dos indivíduos amostrados, matrizes quadradas de 45 por 45 (ou seja, 45 linhas por 45 colunas), pois cada aluno mencionou o nome de 45 pessoas em seu questionário. Dessa maneira, foi feito o cruzamento das linhas com as colunas para mensurar volume de contatos entre os 45 indivíduos componentes da rede, mencionados pelos alunos.
Para exemplificar melhor esse processo de tabulação e sistematização dos dados relacionais, utilizou-se a representação matricial feita por Degenne e Forsé (1999). Nesse exemplo, o modelo relacional representado possui um total de 3 indivíduos.
Quadro 1: Disposição matricial dos indivíduos (Alters)
1 2 3
1 2 3
Fonte: Degenne e Forsé (1999)
A disposição matricial de três indivíduos (linhas e colunas) permite, metodologicamente, que as relações entre eles sejam estimadas. Para pôr em prática esse procedimento basta apenas associar a relação do indivíduo da linha com o indivíduo da coluna e ponderar essa relação com um valor (HANNEMAN, 2001). “As linhas representam os elos enviados, enquanto as colunas representam os elos recebidos, e esses relacionamentos (linha x coluna) são de fundamental importância para o cálculo da centralidade” (SOUZA e QUANDT, 2008, p. 37).
De acordo com estes autores, a representação algébrica de uma matriz pode ser feita a partir dessa equação, na qual g representa as linhas e h as colunas:
𝑿 = 𝒈 𝒙 𝒉
Para compreender melhor essa ideia, basta apenas observar o Quadro 2, que dispõe de uma representação matricial das relações entre 3 alters (indivíduos mencionados).
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Quadro 2: Modelo matricial de representação das relações.
m11=0 m12=1 m13=0
m21=0 m22=0 m23=1
m31=1 m32=0 m33=0
As notações presentes nesse modelo matricial de relações possuem o seguinte sigificado: m11 (relação do indivíduo 1 com o indivíduo 1); m21 (relação do indivíduo 2 com o indivíduo 1); m31 (relação do indivíduo 3 com o indivíduo 1); m12 (relação do indivíduo 1 com o indivíduo 2); m22 (relação do indivíduo 2 com o indivíduo 2); m32 (relação do indivíduo 3 com o indivíduo 2); m13 (relação o indivíduo 1 com o indivíduo 3); m23 (relação do indivíduo 2 com o indivíduo 3); e m33 (relação o indivíduo 3 com o indivíduo 3). (
m
ij – relação do indivíduo i com o indivíduo j).Os valores expressos para cada tipo de relação denotam a existência ou não de vínculos entre os três indivíduos. Nesse sentido, as associações ponderadas com 0, indicam a inexistência de vínculo entre os dois indivíduos analisados, enquanto que as associações representadas por 1 denotam a existência de vínculo. A única exceção dessa premissa é para as associações feitas para um mesmo indivíduo, as quais serão sempre 0, pois uma relação sempre é definida a partir da interação de duas pessoas, e não somente de uma – princípio da interdependência dos elementos (DEGENNE e FORSÉ, 1999; WASSERMAN e FAUST, 1996).
Na análise desenvolvida junto às duas escolas mencionadas, o procedimento matricial seguiu a mesma lógica do exemplo que foi dado, a única diferença diz respeito à quantidade de alters (indivíduos mencionados), pois ao invés de 3, as matrizes construidas tinham 45 pessoas, em suas linhas e colunas.
Além desses dados relacionais, um outro tipo de informação que coletada diz respeito às notas de desempenho escolar dos alunos dessas duas escolas. Esse processo de coleta foi feito a partir de uma pesquisa documental junto aos históricos escolares dos alunos da 3ª Série amostrados que, no caso, são 67 na Escola Estadual Santos Dumont e 33 na Escola Estadual Ana Julia de Carvalho Mousinho.
Partindo do pressuposto de que o aluno possui uma série de notas, relacionadas às diversas disciplinas cursadas durante o período letivo, foram
121 coletadas somente as informações de desemepenho escolar de dois componentes curriculares: Lingua Portuguesa e Matemática. Sabe-se que essas duas disciplinas não refletem o desempenho do aluno em sua totalidade, mas elas foram escolhidas pelo fato de serem os dois componentes usados como referência no Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB) (RODRIGUES, RIOS-NETO e PINTO, 2010).
Nesse caso, foram consultadas as fichas de desempenho dos alunos selecionados na amostra, onde procurou-se identificar o rendimento desses discentes em Lingua Portuguesa e Matemática. Essa consulta teve como objetivo identificar as caracterísiticas do rendimento do aluno, mais precisamente as suas médias finais, nesses dois componentes curriculares.
Essas informações foram inseridas em uma tabela, na qual estavam disponíveis os nomes de todos os alunos e a sua respectiva nota final nas disciplinas de Português e de Matemática. Essas informações de rendimento foram associadas posteriormente à estrutura relacional de cada aluno, tendo em vista identificar as nuances que existem entre redes pessoais e desempenho escolar, em contextos espaciais distintos.