A coleta de dados da pesquisa foi realizada em dois momentos, quando foi necessário o meu deslocamento para o local a ser estudado. O primeiro se deu por meio da observação da rotina de uma ILP, em seus aspectos arquitetônicos, relacionais e afetivos. Nessa etapa, busquei passar a maior parte de tempo possível na ILP,10 realizando visitas diárias, visando conhecer a dinâmica da instituição e me aproximar dos idosos e da equipe técnica. Também observei a dinâmica da sua rotina em seus aspectos físicos, organizacionais e de funcionamento, além dos sujeitos, cujos detalhes foram registrados em um caderno de campo, com o auxílio de uma câmera fotográfica para capturar as especificidades do espaço para posterior transcrição e análise.
O registro no caderno de campo contemplou elementos ligados a aspectos relacionais e afetivos, bem como ao âmbito físico dos espaços arquitetônicos destinados à intimidade dos moradores da instituição, incluindo a descrição dos objetos menos rígidos, como mobiliário, peças decorativas e objetos afetivos dispostos no espaço de intimidade de cada idoso, tais como bonecas, bichos de pelúcia, fotografias, arranjos de flores artificiais, objetos religiosos, entre outros, vistos nas camas ou mobiliário e no seu entorno.
Durante as visitas à instituição, com autorização dos idosos e da direção da instituição, a coleta de dados foi complementada pela utilização de uma câmera fotográfica, que capturou imagens dos objetos e do cenário, para posterior análise.
10 O horário permitido para as visitas é das 14h00 às 16h30min, entretanto solicitei à diretoria da ILP que me
autorizasse permanecer por períodos maiores no local, para conhecer melhor a rotina da instituição e as suas peculiaridades.
24 Bauer e Gaskell (2002, p. 321) argumentam que, “embora os objetos, imagens, e até mesmo os comportamentos possuam os seus significados, eles nunca fazem isso autonomamente: todo sistema semiológico possui sua mistura linguística”. Os autores defendem que “o sentido de uma imagem visual é ancorado pelo texto que a acompanha e pelo status dos objetos”. Nesse sentido, “os sistemas de signos necessitam da mediação da língua, que extrai seus significantes (na forma de nomenclatura) e nomeia seus significados (na forma de usos, ou razões)”.
A segunda fase da pesquisa aconteceu por meio de visitas aos idosos residentes na instituição, quando foi aplicada individualmente a técnica da entrevista narrativa, sem a pretensão da definição de questões norteadoras, deixando para as entrevistadas a oportunidade de comtemplarem as observações como lhes aprouvessem. Nesse processo, o diálogo fluiu conforme as questões emergiam e foi disponibilizado o tempo necessário para desvelar as especificidades de cada caso. As entrevistas foram iniciadas a partir da apresentação dos propósitos deste estudo, quando as participantes eram convidadas a narrarem sobre as suas histórias de vida, ficando à vontade para darem o direcionamento que melhor lhes fizesse sentido. Não houve, por parte da pesquisadora, quaisquer manifestações que pudessem interferir no modelo de entrevista eleito para fundamentar a investigação.
As entrevistas narrativas comtemplaram os relatos de vida das participantes. Na sequência, formam feitas entrevistas em profundidade, devido à necessidade de uma imersão mais aprofundada nas narrativas com o intuito de acessar elementos intrínsecos das participantes da pesquisa que justificassem a relação subjetiva que as mesmas mantinham com os seus objetos afetivos. Nesse sentido, para se chegar à profundidade almejada – às questões subjetivas dos relatos - as participantes foram convidadas a narrarem por mais tempo, sobre temas específicos, porém sem quaisquer respaldos de roteiros ou questionamentos previamente estruturados. Assim, a partir do tempo maior para as narrativas, acredita-se ter chegado à profundidade esperada.
Além do tempo de entrevista destinado a cada participante, o que variou de acordo com as especificidades de cada caso, fez-se necessário investir em entrevistas com a equipe da ILP, não com a intenção de confrontar informações de versões de relatos das próprias idosas, mas com o objetivo de obter outras informações que pudessem facilitar a compreensão dos fatos e, assim, somar ao entendimento de pontos específicos, como o processo de institucionalização e participação das famílias nesse contexto.
25 As entrevistas narrativas foram conduzidas de modo a deixar as participantes livres para priorizarem as questões que considerassem importantes de serem relatadas, conduzindo o diálogo para a direção que melhor lhes fizesse sentido e fazendo emergir os temas que melhor lhes aprouvesse.
Muylaert et al. (2014) argumentam que as entrevistas narrativas podem ser classificadas como ferramentas não estruturadas, que visam a profundidade de determinados aspectos que possam emergir dos relatos de histórias de vida dos participantes da pesquisa, bem como angariar elementos do contexto social onde se passam as entrevistas. Os autores esclarecem que esse tipo de entrevista narrativa visa estimular e encorajar os participantes da pesquisa a relatarem algo que consideram importante em sua história de vida, assim como discorrer sobre acontecimentos ou situações do seu contexto social. Semelhantemente, Barthes (1993) afirma que toda experiência humana pode ser expressa por meio de uma narrativa:
A narrativa está presente no mito, lenda, fábula, canto, novela, epopeia, história, tragédia, drama, comédia, mímica, pintura [...] notícias, conversação. [...] a narrativa está presente em cada idade, em cada lugar, em cada sociedade; ela começa com a própria história da humanidade e nunca existiu, em nenhum lugar e em tempo nenhum, um povo sem narrativa. [...] a narrativa é internacional, trans-histórica, transcultural: ela está simplesmente ali, como a própria vida. (251-2).
No decorrer da entrevista narrativa, foram investigados elementos simbólicos e subjetivos implícitos nos objetos afetivos que as idosas possuíam e sua relação com a trajetória de vida e a condição na instituição asilar. Além das respostas explícitas das entrevistadas, foram registrados os conteúdos implícitos das conversas, como o silêncio, as demonstrações de sensações e sentimentos diante de determinado tema. Atenção também foi dada a gestos, postura, tom de voz, expressões faciais das entrevistadas, elementos contidos na linguagem corporal que, muitas vezes, não estão presentes na fala propriamente, porém são conteúdos imprescindíveis a serem levados em conta no processo de coleta de dados. Conforme Py (2006), a comunicação é toda a manifestação do ser humano, na qual está incluído o não verbal e o silêncio.
Pelo fato de este estudo abarcar as complexidades oriundas das subjetividades das idosas, as entrevistas narrativas envolveram profundidade, visando acessar os conteúdos enraizados na individualidade das participantes. Moré (2015, p. 127) assinala que “o diálogo proposto nesse tipo de entrevista, como um instrumento de coleta de dados, constitui-se num “espaço relacional privilegiado”, quando o pesquisador busca o protagonismo do
26 participante”. A autora argumenta ainda que, “quando se analisam em profundidade os dados em seu conjunto, buscam-se as regularidades temáticas e os significados atribuídos às mesmas”.
A dinâmica da pesquisa passou por consideráveis alterações a partir do momento em que se deram as primeiras entrevistas. Era planejado um ou dois encontros com cada participante. Entretanto, as entrevistas perduraram por, no mínimo, 14 horas e, no máximo, 22, além de 12 horas com membros da direção da ILP e quatro horas com uma ex-diretora, que atendeu ao meu chamado sobre um dos casos. O estudo foi se aprofundando na fase investigativa, de acordo com as demandas de cada participante e respeitando seu tempo e suas limitações físicas e emocionais.
Inicialmente, apresentou-se o que seria o grande desafio deste estudo: compreender as relações subjetivas entre os idosos e seus objetos afetivos a partir de um ou dois encontros, conforme pretensão inicial. Entretanto, no decorrer do processo investigativo, percebemos que isso não seria possível. Isso porque quanto mais se aprofundava na investigação, mais emergiam elementos novos, que apontavam para a complexidade das relações pessoa-objetos afetivos.
No primeiro encontro com cada participante da pesquisa, foi feita uma apresentação pessoal, seguida da proposta de estudo. Foi explicado, minuciosamente, como se dá o trabalho de escuta de uma psicóloga e isso abriu portas para o trabalho de pesquisa, já que estimulou as participantes a se abrirem em seus depoimentos.
Assim, o vínculo entre as partes foi se ampliando e se fortalecendo e, com isso, as narrativas ganharam dimensões até então inesperadas. Assim como no primeiro caso, para as demais, também foi disponibilizado o tempo que foi demandado para a compreensão das demais relações subjetivas das participantes com os seus objetos afetivos.
Os encontros com a equipe da ILP resultaram em dados técnicos e pessoais das residentes, os quais complementaram as informações sobre o processo de institucionalização, os contatos com familiares, o estado geral de saúde, a socialização, entre outros, porém nunca como confronto de informações acerca das relações pessoa-objeto afetivo.
Especificamente no caso da Dona Majú, a entrevista narrativa foi insuficiente para compreender a complexidade envolvida, tendo em vista o fato de ela se mostrar portadora de sofrimento psíquico. Nesse sentido, o processo investigativo, por meio de entrevistas, ocorreu junto com a aplicação de técnicas psicológicas para que a participante pudesse desfrutar de
27 recursos psicológicos que pudessem amenizar o seu quadro de adoecimento antes da realização da entrevista.
Assim, o processo metodológico envolveu a pesquisa-ação, por meio do recurso da escuta clínica, com aplicações de técnicas psicológicas, que tiveram o objetivo de contribuir com o restabelecimento da saúde emocional daquela idosa que, ao longo dos últimos 86 anos, se encontrava aprisionada a lembranças dos maus-tratos que sofrera. O recurso da fala a possibilitou se distanciar do sofrimento e experimentar uma vida emocional mais saudável. O processo de cuidado psicoterápico também foi tempo frutífero de coleta de dados que enriqueceram a pesquisa, possibilitando compreender a complexidade envolvida no caso da Dona Majú.
No processo investigativo de compreensão da relação subjetiva das participantes da pesquisa com os seus objetos afetivos, foram investidas 22 horas de trabalho junto a Dona Majú, 20 horas junto a Dona Dolores, 14 horas com Dona Lourdinha, 21 horas com Dona Estela e 18 horas com Dona Helena. As horas de investimento em cada caso confirmam a assertiva de Cassab (2007, p. 62) de que “a pesquisa se presta mais a uma reflexão mediata que imediata, fornecendo elementos à análise e reflexão do problema e do contexto que o insere”. Após a transcrição e a organização dos dados pela similaridade de conteúdo, foi realizada a análise e interpretação dos mesmos, assim como a análise dos registros fotográficos, pautando-me nos referenciais teóricos que versam sobre envelhecimento, Instituição de Longa Permanência e relações subjetivas entre pessoas e objetos afetivos.
As imagens obtidas pelo registro fotográfico foram analisadas em seus detalhes, “transformando as imagens em texto” (DUARTE; FARIAS, 2013, p. 117). Entretanto, optou- se pela publicação de apenas uma fotografia, de uma das participantes, dada a complexidade da cena em si. A imagem, nesse caso, torna-se fundamental para a compreensão da complexidade do caso estudado. Quanto às demais participantes, optou-se pelas descrições das cenas, sem o recurso da imagem.
Bauer e Gaskell (2002) dizem que os modelos baseados na análise de conversação podem conduzir o pesquisador à compreensão mais clara dos dados que foram colhidos em pesquisas na área das ciências sociais. Os autores relatam que essa categoria de análise é demorada, requer prévia anotação dos dados e transcrições cuidadosas acerca das falas dos participantes da pesquisa. Acrescentam que tal análise oferece um caminho para examinar categorias dos participantes da pesquisa, desvelando o que os mesmos consideram
28 importantes acerca dessas categorias, por isso essa técnica é relevante para reflexão e investigação de situações, fatos e ações pessoais e no contexto social.
Por questões éticas, as internas que compuseram o universo pesquisado assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, expressando a concordância em participar da pesquisa. Visando assegurar o sigilo sobre a identidade das participantes, especificamente no caso de uma entrevistada, o seu registro fotográfico passou por processo de descaracterização de fisionomia, usando o programa de foto shop “Câmara 360”, disponível na Internet – acessado em setembro de 2019. Além disso, seus nomes verdadeiros foram substituídos por pseudônimos e a identificação da instituição foi resguardada.