CAPÍTULO VI – ABORDAGEM METODOLOGIA
6.6. Instrumentos e indicadores
Como González Rey (2002b), concebemos o instrumento, nesta pesquisa, não como forma direta de acessar o que nos interessa, mas como indutor de informações que vão ganhar sentido no curso da geração de indicadores relevantes. Os indicadores são aqueles elementos que vão adquirindo significação teórica graças à interpretação do pesquisador, isso significa que sua inteligibilidade não aparece de forma direta à experiência nem tampouco em sistemas de correlação.
No caso desta pesquisa, um indicador se definiu, não por um único dado, mas por um conjunto de elementos, ou seja, um indicador se produziu pela combinação de informações indiretas e omitidas. Por exemplo, uma das crianças pré-selecionada para participar da segunda fase da pesquisa, por sua imaginação criativa, mostrou-se
extremamente desinteressada em participar da atividade de desenho sobre a história contada. Ao invés disso, esta criança desenhou outras figuras que, aparentemente, nada tinham a ver com o enredo da história. Com base, portanto, em outros momentos, quando a criança demonstrou uma imaginação criativa, quando demonstrou estar motivada para e contar histórias; quando preferiu ficar folheando os livros ao invés de ir para o parque, dentre outros indicadores de interesse pela atividade proposta, este sujeito foi selecionado. Ao contrário, se tivéssemos nos detido a um único instrumento, esse sujeito provavelmente não teria sido selecionado, apesar de ter sido um dos sujeitos considerados mais criativos.
Assim, o maior desafio metodológico desta pesquisa foi buscar alcançar as dimensões da expressão da criatividade nas crianças na atividade de contar histórias que pressupõe uma emocionalidade que normalmente vai além dos significados explicitados pelo sujeito. Outro desafio foi reconhecer como esteve constituída subjetivamente a relação entre a criança, a pesquisadora e a instituição escolar, pois também essa relação não apareceu diretamente na expressão criativa do sujeito.
Para buscar superar esse desafio metodológico e nos aproximarmos deste objeto de estudo tão complexo como a criatividade infantil, entendida como expressão da subjetividade, em primeiro lugar foram utilizados vários instrumentos, com a finalidade, dentre outras, de descentralizar a expressão do sujeito que, quando só tem à sua disposição um único instrumento, pode se expressar sempre seguindo alguns elementos da dinâmica da relação entre pesquisador e pesquisado que tal instrumento releva. (González Rey, 2002b).
Em segundo lugar, preferimos instrumentos abertos e semi-abertos, através dos quais, a expressão livre da criança fosse favorecida. Essa preferência se deu porque esse tipo de instrumento favorece a expressão indireta do sujeito, importante para fazermos construções sobre os recursos personológicos relacionados à expressão da criatividade na atividade de contar histórias por parte das crianças.
De forma resumida, apresentamos os instrumentos utilizados na primeira e segunda fase da pesquisa.
Na primeira fase, os instrumentos utilizados foram: 1. Observação participante não estruturada;
2. Leitura da história ‘Branca de Neve e os Sete anões’ escrita por cinco autores diferentes;
3. Apresentação de um ‘longa metragem’ sobre a história ‘Branca de Neve e os Sete anões’;
4. Realização de dois desenhos sobre a história ‘Branca de Neve e os
Sete anões’ mudando o seu final e contada na versão do príncipe (reescrita da história);
5. Conto e reconto da história ‘Branca de Neve e os Sete anões’ pelas crianças;
6. Reconto da história ‘Branca de Neve e os Sete anões’ mudando o seu final;
7. Continuação da história ‘Branca de Neve e os Sete anões’, acrescentado o que aconteceu depois da expressão ‘...e foram
felizes para sempre’;
8. Escuta de CD sobre a história ‘Branca de Neve e os Sete anões’ e de outras histórias infantis durante as atividades de desenho;
9. Dinâmicas conversacionais coletivas sobre o filme apresentado e as histórias contadas22;
10. Análise das atividades escritas realizadas pelas crianças em sala de aula, na sua atividade cotidiana;
11. Análise dos seguintes documentos do Centro Municipal de Educação Infantil – CEMEI:
a) Projeto Pedagógico;
b) Relatório Individual da criança; c) Anedotário
23.
Na segunda fase da pesquisa empírica, os instrumentos utilizados foram: 1. Entrevista semi-estruturada com a professora titular da sala dos
sujeitos selecionados para os estudos de casos;
2. Entrevista semi-estruturada com os pais dos sujeitos selecionados para os estudos de casos;
22 As dinâmicas conversacionais, utilizadas nesta pesquisa, foram planejadas com base na metodologia
qualitativa proposta por González Rey (2005b), com o objetivo de buscar uma expressão livre e aberta das crianças sobre as características da história da Branca de Neve e os Sete Anões (cenários, acontecimentos, personagens etc).
23 Nesta escola a professora chama de ‘anedotário’ um caderno no qual são registradas frases e histórias
3. Conto da história ‘Branca de Neve e os Sete anões’;
4. Reconto da história ‘Branca de Neve e os Sete anões’ mudando o seu final;
5. Dinâmicas conversacionais individuais sobre o filme apresentado e as histórias contadas24;
6. Continuação da história ‘Branca de Neve e os Sete anões’,
acrescentado o que aconteceu depois da expressão ‘...e foram
felizes para sempre’;
7. Reconto de uma história que se relacione com a história da ‘Branca de Neve e os Sete anões’;
8. Conto de uma história que não se relacione com a história da ‘Branca de Neve e os Sete anões’.
Os objetivos de cada instrumento utilizado nas duas fases da pesquisa empírica serão explicitados no tópico seguinte.