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2 CULTURA E APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL

3.4 INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS DE COLETA DE

3.4.1 Pesquisa indireta

Na pesquisa indireta, conforme Abramo (1979 apud MARCONI; LAKATOS, 2007, p. 20, grifo nosso), o pesquisador realiza ―consulta bibliográfica e documental [...]‖. Esse procedimento está de acordo com a orientação de Marconi e Lakatos (2007, p. 26) no sentido de que ―antes de iniciar qualquer pesquisa de campo, o primeiro passo é a análise minuciosa de todas as fontes documentais que sirvam de suporte à investigação projetada‖.

A partir dessa perspectiva, foram analisados:

1 A Matriz Curricular Nacional para a formação dos profissionais de segurança pública.

O resultado da análise deste documento, apresentada na fundamentação teórica, se constituiu na base de escolha das categorias de análise nesta pesquisa, ou seja, as competências operativas, cognitivas e atitudinais, subdivididas em

subcategorias na própria Matriz. (Ver Quadro 03 da página 50). Com base nos pressupostos dessa Matriz, foram analisados os demais documentos e as entrevistas.

Considerando a amplitude e riqueza temática abordada pela Matriz, bem como o foco no problema de pesquisa e nos objetivos que nortearam a pesquisa, foi realizado um recorte metodológico, elegendo-se o estudo das competências a ser desenvolvidas no profissional de segurança pública. Esta escolha se deu a partir da proposta da Matriz, da qual é possível deduzir que sua aquisição é a condição sine

qua non para tornar os profissionais de segurança pública aptos para o exercício de

sua profissão em um contexto democrático, por torná-los conhecedores de seu papel no contexto social em que estão inseridos, tanto como cidadãos quanto como operadores de segurança pública.

2 Normas Educacionais elaboradas pelo Centro de Educação da PM, entre os anos de 2009 e 2011;

3 O Projeto Político Pedagógico do Curso de Formação de Oficiais PM; 4 O Currículo do Curso de Formação de Soldados (CFSd).

Embora prevista a análise do Projeto Político Pedagógico do Curso de Formação de Soldados (CFSd), não foi possível realizá-la, devido à inexistência desse documento. Por essa razão, assumiu-se como também válidos para esse curso os mesmos pressupostos teórico-metodológicos da proposta pedagógica para o CFO, com exceção apenas de alguns aspectos pertinentes à função de planejamento e comando, próprios da formação de futuros oficiais. Além do mais, todas as competências propostas na Matriz para o profissional de segurança pública são comuns para ambos os cursos de formação, pois, em última análise, são cursos de formação de policiais militares.

Essa postura também se apoia na inferência a partir da proposta da Matriz de que o Soldado não é apenas um ―elemento de execução‖ conforme massificado no ensino militarista. Os integrantes desse grau hierárquico da estrutura organizacional da PMPB, bem como as demais praças, precisam, e devem desenvolver competências que os capacitem a tomar decisões nas mais diversas situações complexas com que cotidianamente se deparam no exercício de sua profissão.

3.4.2 Questionário

Este instrumento (vide Apêndice A) foi aplicado unicamente com o fim de coletar dados demográficos básicos, cujo resultado pode ser visualizado no Quadro 10 da página 91.

3.4.3 Entrevistas

As entrevistas se constituem em um instrumento por excelência para a coleta de dados em pesquisas qualitativas. Conforme Vieira (2009, p. 12) elas ―[...] buscam revelar opiniões, atitudes, ideias, juízos‖. Nesta pesquisa, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, cuja eficácia para colher opiniões e pontos de vista sobre determinado tema é ressaltada por Flick (2009, p. 143, grifo nosso):

As entrevistas semi-estruturadas, em particular, têm atraído interesse e passaram a ser amplamente utilizadas [porque] estão associadas à expectativa de que é mais provável que os pontos de vista dos sujeitos

entrevistados sejam expressos em uma situação de entrevista com um planejamento aberto do que em uma entrevista padronizada ou em um

questionário.

Como se depreende de Flick (2009), as entrevistas semiestruturadas são realizadas acompanhando o livre fluxo da conversa com o entrevistado. Porém, para se evitar o desvio do foco e dos objetivos, recomenda-se a utilização de um roteiro. Ainda assim, Vieira (2009, p. 12) orienta que ―o entrevistador pode até utilizar um roteiro, mas precisa deixar o respondente livre para falar‖.

Argumentando sobre o potencial desse tipo de entrevista, esse autor afirma que ―entrevistador e entrevistado podem explorar mais longamente os pontos que considerem importantes, mas o entrevistador precisa ser sensível à linguagem do entrevistado e não pode, de forma alguma, influenciar as respostas.‖ (VIEIRA, 2009, p. 12).

Nesse sentido, Flick (2009, p. 148) lembra que ―[...] o principal é dar ao entrevistado o maior espaço possível para manifestar suas opiniões‖. Além disso, vale ainda ressaltar que ―[...] existem informações que só podem ser obtidas conversando com as pessoas que se dispuserem a participar da pesquisa.‖ (VIEIRA, 2009, p. 10).

Outra orientação importante para a realização de entrevistas profícuas é a elaboração de questões baseadas na teoria, como deve ser feito para a elaboração

de questionários, ou seja, ―[...] a construção do conhecimento científico deve, em princípio, ter uma orientação teórica, ou seja, as hipóteses, a obtenção de dados, a análise e a discussão devem advir de teorias existentes.‖ (VIEIRA, 2009, p. 25). Devem também estar direcionadas aos objetivos e às hipóteses. Essa orientação pode ser enriquecida com o que escreve Flick (2009, p. 62) sobre pesquisa qualitativa:

Na pesquisa qualitativa, o pesquisador utiliza os insights (sic) e as informações provenientes da literatura enquanto conhecimento sobre o contexto, utilizando-se dele para verificar afirmações e observações a respeito de seu tema de pesquisa naqueles contextos.

As informações que se buscou coletar com esses instrumentos encontram- se no roteiro de entrevista constante do Apêndice A. O roteiro para a entrevista dos Cadetes e Soldados PM foi estruturado objetivando obter informações acerca de alguns aspectos de seus cursos de formação:

1) A prática docente e os relacionamentos interpessoais; 2) O desenvolvimento de Competências Operativas; 3) O desenvolvimento de Competências Cognitivas; 4) O desenvolvimento de Competências Atitudinais.

Para evitar a dispersão e fuga do foco e objetivos da entrevista, foram definidos subtemas dentro desses temas. Por exemplo, dentro do tema ―Desenvolvimento de Competências Operativas‖, solicitou-se aos participantes que descrevessem os procedimentos que se espera sejam adotados por um policial militar, desde o acionamento pelo CIOP6 para atender a uma ocorrência, até o seu encerramento, em diferentes situações de ocorrência, tais como: conflito familiar, conflito com outras pessoas e manifestações de grevistas.

Foram contemplados outros aspectos importantes, relacionados à atuação policial militar no contexto democrático, tais como: a legalidade do uso de arma de fogo e o exercício da profissão policial militar, a profissão policial militar e a cidadania, a democracia e os direitos humanos. Nessa parte da entrevista, objetivou- se identificar, no discurso dos entrevistados, estereótipos e conotações acerca desses temas.

Neste ponto, é necessário levantar a questão da intersubjetividade, ou seja, se o que os entrevistados disseram foi um ―discurso preparado‖, considerando a

6 CIOP

– Centro Integrado de Operações Policiais (local responsável por receber os diversos chamados para acionamento da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar)

ascendência hierárquica militar do pesquisador sobre os respondentes, ou se representa, efetivamente, suas experiências de vida. Sem dúvida, é um aspecto a ser considerado e, com muita probabilidade, um problema enfrentado por qualquer pesquisador, sobretudo em pesquisas qualitativas. No entanto, assume-se que os seguintes pressupostos conferem credibilidade aos discursos:

1) o desconhecimento que os respondentes tinham dos questionamentos levantados;

2) a relação amistosa que o pesquisador tem construído com seus subordinados;

3) a solicitação explícita de que fossem o mais sinceros possível nas respostas, pois, do contrário, os resultados da pesquisa seriam comprometidos por não corresponderem à realidade;

4) a aleatoriedade da escolha dos entrevistados não lhes deu tempo para se preparar para a entrevista.