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5. Instrumentos e procedimentos de recolha de dados

5.1. Portfolios reflexivos e Questionário: análise de conteúdo

Os questionários e os portfolios reflexivos serão sujeitos a uma análise de conteúdo, uma vez que, conforme Bardin (1979: 42) se trata de “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não), que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção, recepção (varáveis inferidas) destas mensagens”.

Assim sendo, a análise de conteúdo permite as inferências e tem também como finalidade fazer inferências, “com base numa lógica explicitada, sobre as mensagens cujas características foram inventariadas e sistematizadas” (Vala, 1986: 104).

Pardal e Correia (1995:73) consideram que a análise de conteúdo pode percorrer diversas fases: “selecção de categorias que viabilizem a quantificação dos dados observáveis; estabelecimento de unidades de análise (…); distribuição das unidades de

análise pelas categorias ou quadros de análise anteriormente seleccionados; tratamento dos resultados através de recursos estatísticos”.

Uma vez que cada portfolio reflexivo é elaborado ao longo de um certo período de tempo, a análise do seu conteúdo em cada uma das fases da sua construção permitirá perceber quais são as concepções que os participantes apresentam em diferentes momentos e perceber se existem (ou não) alguns indícios de evolução. É a análise comparada entre as concepções iniciais e finais, que baliza o processo de reflexão acerca dos modos como o conhecimento pessoal e profissional se foi (re)construindo, caso a caso.

Assim, e tendo em mente as questões investigativas deste estudo, foi progressivamente elaborado um sistema misto de categorias de análise, resultante da conjugação de elementos provindos do quadro teórico com os que resultaram da análise de conteúdo dos questionários e dos portfolios reflexivos.

Este sistema pode ser percebido globalmente no quadro-síntese que se apresenta mais à frente, e cujas subcategorias serão apresentadas caso a caso na análise das questões.

5.1.1. Inquérito por questionário

Com vista à recolha de dados, usámos a técnica de inquérito por questionário, pois, conforme Marques (2003), esta técnica é um processo de recolha sistemática de dados no terreno para responder a um determinado problema, visando aceder e interpretar um conjunto de discursos individuais.

Os discursos produzidos no âmbito do inquérito não são espontâneos (mais próximo da espontaneidade estará o portfolio reflexivo), nem são produzidos num vazio social, mas antes numa situação particular de interacção social. Marques (2003) refere que conscientemente, ou não, o inquirido, tendo por base os objectivos do inquiridor, diz apenas o que pode e quer dizer o que é, afinal, determinado pela representação que faz da situação e pelos seus próprios objectivos que, não têm que coincidir com os do investigador.

Conforme já foi referido, para análise e tratamento da informação recorremos à técnica de análise de conteúdo dos questionários e dos portfolios reflexivos de profissionais em situação de formação pós-graduada.

Pardal e Correia (1995:72) referem que esta técnica “viabiliza, de modo sistemático e quantitativo, a descrição do conteúdo da comunicação”, facilitando e permitindo a identificação de alguns indicadores no que diz respeito aos processos de possível mudança conceptual através da (re)construção das respectivas representações.

O inquérito por questionário consiste então, em colocar ao conjunto de inquiridos uma série de perguntas relativas às questões de pesquisa no quadro da sua situação social, profissional. Deste modo, a utilização do questionário de administração directa (Quivy e Campenhoudt, 1995:188) revela-se bastante vantajosa, uma vez que se trata de um processo de recolha sistemática de dados no terreno, para responder a um determinado problema.

Alertando também para as limitações deste tipo de instrumento, Blaxter (2001:179) considera que esta técnica é a mais usada na investigação e pesquisa social, não deixando, porém, de levantar algumas dificuldades. A ideia de formular questões escritas precisas, para aqueles cujas opiniões ou experiência são importantes para si, parece ser uma estratégia óbvia. Porém, não é assim tão simples, porque não existem questionários ideais e é necessário formular as questões a colocar o mais correcta e adequadamente possível.

No nosso estudo privilegiámos o tipo pergunta aberta, porque se procura conhecer as opiniões dos professores (na situação de alunos em formação pós-graduada) integrantes da amostra, de forma mais pormenorizada e profunda. Procura-se que os sujeitos inquiridos possam responder como desejam, não devendo ser condicionados por sugestões ou indicações ainda que implícitas do investigador.

Para além das perguntas abertas, os respondentes tiveram ainda que responder a um conjunto de perguntas fechadas em escala, ou seja, as respondentes seleccionavam, de acordo com um conjunto de 5 possibilidades, as três que consideravam mais significativas, considerando que a escolha 1 era a mais importante e a escolha 3 a menos importante. Este modelo de análise introduz índices de valorização distintos e permite, igualmente, analisar as categorias desvalorizadas através da não referência.

Esta técnica de recolha de dados pressupõe também procedimentos que garantam aos sujeitos inquiridos condições de privacidade e de confidencialidade da informação disponibilizada.

5.1.2. Análise documental

Entendem-se por documentos, as publicações, notas pessoais e artefactos, que poderão ajudar o investigador a descobrir novos significados e outros pontos de vista importantes para o estudo do problema.

Retomamos a definição de Walker (1989: 82):

“a análise de documentos é muito útil para obter informação retrospectiva acerca de um programa, sendo em algumas ocasiões a única maneira de tornar disponível certa informação. A análise de documentos é especialmente apropriada para o início de uma avaliação, na fase em que o avaliador tenta entender por que razão um programa apresenta uma das características determinadas. Os documentos são uma fonte idónea para determinar o propósito, a justificação e a história de um programa. A análise de documentos pode ser um preparativo útil para recolher novos dados”.

Apesar de este estudo não se enquadrar numa perspectiva de avaliação, entendemos a técnica referida anteriormente adequada aos nossos propósitos, uma vez que os documentos que analisamos poderão revelar-se “uma fonte idónea” de informação, porque produzida directamente pelos sujeitos cujos processos de pensamento queremos conhecer.

Na análise de documentos, o processo utilizado foi idêntico ao do inquérito por questionário, tendo sido considerados dois momentos na análise: uma primeira leitura exploratória global e exaustiva e, seguidamente, uma leitura selectiva e anotada.

No caso presente os documentos consultados foram:

• Ministério da Educação (1986). Lei nº 46/86 (Lei de Bases do Sistema Educativo) de 14 de Outubro, com alterações introduzidas pela Lei nº 115/97 de 19 de Setembro.

• Decreto-Lei nº 6/2001 de 18 de Janeiro.

• Assembleia da República (2005). Lei nº 49/2005 de 30 de Agosto. Segunda alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo e primeira alteração à Lei de Bases do Financiamento do Ensino Superior.

• Ministério da Educação. Programa de Língua Portuguesa. Ensino Básico 3º ciclo. Vol. I - Organização Curricular e Programas.

• Ministério da Educação. Programa de Língua Portuguesa. Ensino Básico 3º ciclo. Vol. II - Plano de Organização do Ensino-aprendizagem.

• Ministério da Educação (Departamento do Ensino Secundário). Programa de Português – 10º, 11º e 12º anos – Cursos Científico-Humanísticos e Cursos Tecnológicos (em vigor desde o ano lectivo 2004-2005).

• Ministério da Educação (Direcção-Geral de Formação Vocacional). Programa da Componente de Formação Sociocultural da disciplina de Português. Cursos Profissionais de Nível Secundário (em vigor desde 2004-2005).

• Ministério da Educação (Julho 2005). Documento Orientador – Português Língua Não Materna no Currículo Nacional (Programa para Integração dos alunos que não têm o Português como Língua Materna)

• Guia-estruturante da construção do dossier pessoal (portfolio) - Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências

• Texto sobre o processo Bolonha

Neste estudo, a análise destes documentos serve essencialmente para caracterizar a forma como a estratégia portfolio tem vindo a ser anunciada/integrada pelo nosso sistema de ensino e quais as razões e objectivos, que fundamentam o uso da mesma, em particular, nos vários programas de ensino da Língua Portuguesa. Esta análise pretende dar conta do quadro conceptual e legal nos quais a estratégia portfolio começa a ganhar preponderância e legitimidade, procurando, de igual forma, encontrar caminhos, estabelecer pontes prospectivas e estabelecer um plano de trabalho.

Para além dos documentos legais, foram também consultados os portfolios reflexivos dos elementos dos subgrupos um e dois, constituindo a parte fundamental e determinante do presente estudo. Para Hodder (2000), os documentos, mais próximos dos discursos, requerem uma interpretação mais contextualizada do que os registos legais. É o que se passa com os portfolios reflexivos que apresentam um cariz mais experiencial e instituinte, enquanto os normativos supracitados se referem sobretudo à filosofia subjacente às normas curriculares na sua dimensão instituída.

6. Análise e tratamento da informação