6 OBJETIVOS
8.4 Instrumentos e procedimentos para coleta de dados
Para conduzir o presente estudo e, assim, promover a interlocução com os atores sociais para acessar o conteúdo das representações sociais necessárias para responder aos objetivos propostos foram operacionalizadas três técnicas: 1) observação sistemática de campo, para obter informações relevantes acerca do processo de trabalho e riscos ocupacionais para o câncer, ou seja, recolher dados descritivos em um diário de campo mediante contato direto e interativo do pesquisador com o contexto e o objeto de estudo; 2) entrevista semiestruturada individual com aplicação de questionário sociodemográfico conduzida por meio de um roteiro construído a partir da revisão da literatura e 3) grupo focal com a finalidade de discutir coletivamente, por meio de debate aberto, o tema.
A coleta de dados ocorreu entre os meses de julho e novembro de 2016. E, no intuito de preservar a identidade e anonimato dos participantes, foi criado um código alfanumérico para nomeá-los. A letra significa a etapa de coleta de dados que o sujeito participou. Dessa forma, os que participaram da entrevista estão representados pela letra “E”, enquanto que os do grupo focal pela letra “G”. O número na entrevista representa a ordem de ingresso do participante no estudo. Já no grupo focal, o número representa o grupo que o sujeito participou.
Para obtenção de falas e narrativas, foram realizadas 56 entrevistas individuais semiestruturadas e três grupos focais, que compuseram o corpus de análise da pesquisa. Para orientar as entrevistas e os grupos focais foram
desenvolvidos tópicos guia/roteiros contendo conceitos centrais e temas relacionados ao estudo que permitissem conduzir a discussão de forma lógica, sem, entretanto, abrir mão da flexibilidade e interação entre a entrevistadora e os atores sociais. Além disso, foram coletados dados para caracterizar os participantes por meio de um questionário sociodemográfico.
8.4.1 Primeira Etapa: Observação sistemática do campo
Seguindo a tradição antropológica foram realizadas visitas ao campo para ambiência, aproximação e interação da pesquisadora com os possíveis participantes do estudo, bem como para apreensão da dinâmica de trabalho, suas características, estrutura e organização na instituição pesquisada (Apêndice 1). Os primeiros contatos permitiram estabelecer relações intersubjetivas com os trabalhadores e conhecer e explorar a realidade concreta em que o fenômeno ocorria, de forma a propiciar o ambiente motivador adequado à participação dos sujeitos segundo os critérios de inclusão e exclusão.
Essa fase de aculturação e ambientação permitiu aprofundar o conhecimento do cotidiano vivenciado pelos trabalhadores em seu ambiente natural, principalmente em relação aos aspectos de vulnerabilidade ocupacional para o câncer. Foi possível estabelecer um espaço de troca e interações, que favoreceram a aproximação com o objeto de estudo, gerando concomitantemente, melhor compreensão de hábitos, linguagens e costumes, bem como o surgimento de novos questionamentos que forneceram maior embasamento para as fases seguintes.
Enquanto prática de pesquisa nas ciências sociais, por ambientação entende-se o processo de plena adaptação ao contexto social no qual o fenômeno ocorre, facilitando a obtenção de informações dos sujeitos que ali interagem e do local no qual se dá o fluxo de relações. Pela sua maior amplitude conceitual, no processo de aculturação ocorre recepção e assimilação de elementos culturais, mentais, costumes e valores do grupo investigado (201).
Os momentos de contato com o campo permitiram registrar em um diário as impressões do ambiente de pesquisa, além de conversas informais com os trabalhadores para conhecer e compreender melhor os seus comportamentos e pensamentos em relação ao seu ambiente e processo de trabalho. Foi possível
observar a interação dos trabalhadores com seu espaço de trabalho e a sua relação com os demais trabalhadores. É importante ressaltar que essa etapa não se encerrou com o início das demais atividades de coleta de dados, sendo realizada concomitantemente com estas até o final da permanência da pesquisadora no campo.
O contato direto com o campo na pesquisa qualitativa é uma ferramenta indispensável, pois amplia a interação com o grupo social pesquisado e com as experiências vividas por eles. Facilita o entendimento de como comportamentos, hábitos e pensamentos são acionados ao oportunizar a observação e experimentação dos desafios e vivências cotidianas dos participantes no contexto pesquisado, e como tal, fornece os elementos essenciais para evidenciar as representações precisas de uma cultura. Além disso, configura-se como um momento para inspiração e formulação de novos questionamentos não pensados anteriormente, expandindo o leque de informações (202–204).
As informações geradas nessa etapa deram suporte adicional as análises obtidas nas entrevistas e grupos focais.
8.4.2 Segunda etapa: entrevista individual semiestruturada
As 56 entrevistas individuais semiestruturada, do tipo conversacional, foram gravadas em áudio com auxílio de um gravador digital e totalizaram 20 horas e 14 minutos de diálogo, com duração média de 22 minutos por entrevista. Quase a totalidade das entrevistas foi conduzida em salas reservadas, na sede da instituição e no centro de apoio de coleta noturna. Apenas um participante aceitou agendar a entrevista em sua residência. Todas foram realizadas em dia e horário de preferência do entrevistado.
Com o auxílio de um roteiro semiestruturado (Apêndice 2), as entrevistas foram realizadas pela pesquisadora, que buscou focar na pessoa do entrevistado, reformulando sempre que necessário as questões norteadoras à medida que a conversação exigia, na busca de aprofundar o diálogo e privilegiar a fala do participante. O roteiro foi composto por questões norteadoras abertas que permitissem explorar o tema em tela e, assim, acessar e explorar os saberes e comportamentos dos participantes em relação ao câncer e sua interface com o
processo de trabalho, bem como as dificuldades encontradas para desenvolver, com segurança, as atividades laborais. A degravação foi realizada sem auxílio de software, de forma detalhada pela própria pesquisadora, sem alterações de grafia, registrando falas sobrepostas, entonação de voz e pausas. Cabe mencionar, que sinais não-verbais e paraverbais presentes no momento das entrevistas foram registrados no diário de campo.
Salienta-se que foi aplicado um questionário contendo questões sociodemográficas (Apêndice 2). Conduziu-se a leitura do questionário juntamente com o entrevistado, de forma a evitar erros de interpretação. Estas informações são relevantes, pois situam o pesquisador no universo de pertença dos entrevistados, ampliando a compreensão das representações sociais, já que estas também sofrem influência e são determinadas por fatores sociais, econômicos, políticos e culturais.
Além de permitir uma compreensão em profundidade de experiências, comportamentos, valores, crenças e vivências dos sujeitos de um determinado meio social, a entrevista semiestruturada tem a vantagem da flexibilidade e liberdade no que se refere à duração do momento de interação entre o pesquisador e o entrevistado. É, portanto, ferramenta que favorece a obtenção de respostas espontâneas e o direcionamento da entrevista para o alcance de assuntos mais complexos e delicados (203,205).
Essa técnica exige do pesquisador estado de alerta para não ficar restrito as questões do roteiro, já que a riqueza da técnica consiste na liberdade que o entrevistado possui de expressar-se espontaneamente, o que garante ao pesquisador explorar estruturas relevantes, proporcionada pela experiência (187).
Foram realizados ajustes no tópico-guia e no questionário sociodemográfico aplicados nas entrevistas, após análise das duas primeiras. Esse pré-teste permitiu modificar e incluir alguns termos que melhoraram a interpretação por parte dos entrevistados, como uso de linguagem mais adequada ao nível de escolaridade dos participantes. Retirou-se o termo “câncer relacionado ao trabalho” que não era familiar ao grupo e causava dificuldades na compreensão. Além disso, possibilitou melhorar a operacionalização do momento da entrevista, ao ser identificado que aplicar o questionário sociodemográfico após a entrevista influenciava menos as repostas dos entrevistados.
8.4.3 Terceira etapa: Grupo focal
A realização do grupo focal, como técnica de pesquisa qualitativa, possibilita aprofundar a coleta de informações por meio de interação entre um grupo pequeno e homogêneo de pessoas. Além disso, por meio de debate aberto e acessível, amplia a discussão focada na temática em estudo entre os participantes selecionados, e, dessa forma, gera informações específicas e detalhadas complementares às obtidas na entrevista individual (200,206).
Uma das vantagens da aplicação do grupo focal reside no fato deste permitir a construção de um quadro de interesses, atitudes, opiniões e preocupações comuns por meio da partilha e contraste de experiências vivenciadas e que raramente seriam proferidas pelo indivíduo de forma isolada (203).
Informações mais detalhadas, contendo especificidades que ampliam a compreensão do tema, podem ser melhor captadas em discussões e comunicações em grupo. Nesse sentido, o grupo focal permite extrair hipóteses e soluções para problemas e situações de forma coletiva. É, também, adequado ao tratamento de temas considerados delicados, na perspectiva social, muitas vezes associados a grupos com maior vulnerabilidade (207).
Para a execução do grupo focal foi realizado planejamento prévio com a administração da instituição, com vistas a viabilizar o espaço e a liberação dos trabalhadores que manifestassem interesse em participar. Foram agendados datas e horários, previamente acordados com os participantes e reservado o espaço de recreação da empresa para operacionalização dos grupos.
Inicialmente, a intenção era realizar os grupos focais em um local externo à instituição, para que os participantes pudessem se sentir mais confortáveis e, assim, evitar a inibição da pronunciação de falas e saberes essenciais para a identificação de unidades de significação acerca do tema investigado. Entretanto, houve intensa resistência por parte dos trabalhadores em participar em horário e local fora do ambiente de trabalho, o que nos conduziu a mudar a estratégia pensada a priori.
Diante desses acontecimentos, foram realizados três grupos focais, identificados conforme a ordem de ocorrência em Grupo Focal 1, Grupo Focal 2 e Grupo Focal 3. Estes foram formados de modo a manter a homogeneidade dos
participantes, para garantir a interação entre os mesmos e o surgimento de debates, trocas de ideias e elaborações aprofundadas. Todos os grupos foram conduzidos pela manhã, antes dos trabalhadores saírem para o cumprimento de suas atividades laborais.
O primeiro grupo focal foi composto majoritariamente por trabalhadores da oficina mecânica e lavadores de veículos; o segundo por coletores de resíduos e motoristas e o terceiro por trabalhadores da capina e varrição.
Para a condução do grupo focal, a pesquisadora assumiu o papel de moderadora (coordenadora). A função de observadora foi desempenhada por outra pesquisadora com experiência na técnica, a convite da responsável. Ambas tiveram como função focalizar o tema, promover a participação dos integrantes e evitar que alguns membros monopolizassem a palavra. Para orientar a execução dos grupos, foi utilizado um check-list (Apêndice 3) e um roteiro com questões norteadoras (Apêndice 3). Para facilitar a participação na discussão de grupo, os participantes foram convidados inicialmente a apresentar-se, indicando um primeiro nome e compartilhar sua trajetória profissional na instituição. Posteriormente, seguiu-se o grupo com a proposta inicial de induzir os participantes a pensar sobre a temática, convocando-os por meio de um termo indutor a evocar três palavras.
Os grupos foram gravados em áudio com auxílio de dois gravadores digitais, um que ficou em posse da coordenadora e o outro da observadora, sendo que ambos foram ligados e desligados simultaneamente. Os áudios dos três grupos totalizaram 4 horas e 31 minutos. Anotações referentes a informações não-verbais e paraverbais, bem como o clima estabelecido entre os membros, foram registrados em um caderno. A transcrição integral dos áudios dos grupos foi realizada pela própria pesquisadora, sem auxílio de software, momento oportuno para iniciar o processo reflexivo e analítico dos dados. Foi mantida a integridade das falas, sem correções de grafia, respeitando as abreviações, pausas, cacoetes e reticências.