Por ser uma pesquisa de cunho qualitativo-interpretativista, a análise das representações de cultura baseou-se nas respostas dadas pelos professores para as perguntas que constituem o questionário e a entrevista.
3.4.1 Questionário
Uma das características da pesquisa qualitativa é a multiplicidade metodológica para a geração de dados, ou seja, é permito o emprego de vários instrumentos; dentre estes instrumentos, o questionário é um dos mais utilizados. Nesta pesquisa, utilizei o questionário para um levantamento de dados inicial que ajudou na elaboração das perguntas para a entrevista. No questionário, optei por perguntas abertas de cunho dissertativo na expectativa de que os informantes pudessem responder abertamente as perguntas, sem haver um limite de escolha de respostas – o que acontece em questionários com perguntas fechadas em que o individuo tem que escolher uma dada resposta dentre as listadas – e também na tentativa de não influenciar a resposta dos docentes.
Para uma perquirição inicial, utilizei os dados coletados por meio de um questionário escrito, composto por 12 questões abertas pertinentes ao ensino/aprendizagem da língua inglesa e aspectos culturais a ela relacionadas (Apêndice 1). Neste, as perguntas 1, 2 e 3 buscam informações sobre o interesse e o tempo de experiência no ensino-aprendizagem da língua inglesa dos participantes; as questões 4 e 5 indagam as experiências, interesses e percepções dos participantes a respeito dos países anglofalantes; com as perguntas 6, 7 e 8 pretendo compreender a relação entre língua e cultura e como estes conceitos se inserem no ensino da língua inglesa de acordo com os professores; a pergunta 9 procura verificar como o curso de Letras pode ter influenciado nas representações dos docentes sobre a língua/cultura inglesa;
com a questão 10 pretendo constatar se os professores concordam ou não que as representações culturais são mutáveis; a pergunta 11 aborda o entendimento de Inglês Língua Franca segundo os participantes; e a questão 12 procura identificar possíveis representações relacionadas às variantes do inglês.
A aplicação desse questionário foi realizada entre os meses de setembro e outubro de 2014 com um grupo de professores formados recentemente no curso de Licenciatura em Letras Português-Inglês da UTFPR.
No total, 6 professores responderam às perguntas, sendo que alguns desenvolveram mais suas respostas, enquanto outros foram mais pontuais em suas asserções. A partir das respostas obtidas por meio do questionário, prossegui com a segunda etapa de geração de dados: uma entrevista. Os
mesmos informantes que responderam o questionário também participaram da entrevista, não havendo a necessidade de escolher quais informantes participariam da segunda etapa. Como aponta Gaskell (2012), na pesquisa qualitativa não há critérios pré-estabelecidos para a seleção dos entrevistados.
Cabe, então, ao pesquisador criar seus próprios critérios de seleção, desde que sejam coerentes para que a pesquisa seja válida. Para esta pesquisa utilizamos um grupo definido de 6 informantes para ambos os momentos de geração de dados, considerando que todos eram egressos do curso de Letras da UTFPR e que todos atuam no ensino de língua inglesa.
3.4.2 Entrevista
No segundo momento da geração de dados, por se tratar de uma pesquisa qualitativa que busca interpretar um fenômeno sociocultural em relação ao ensino de língua inglesa, utilizei a entrevista como meio de aprofundar as reflexões que os docentes apresentaram em suas respostas ao questionário. Escolhi fazer a entrevista para que houvesse uma compreensão mais detalhada das percepções e valores dos professores em relação à cultura no ensino de inglês.
Para a entrevista, empreguei um grupo natural de entrevistados. Num grupo natural, de acordo com Gaskell (2012, p.69), “as pessoas interagem conjuntamente; elas podem partilhar um passado comum, ou ter um projeto futuro comum.”. No caso desta pesquisa em específico, o grupo partilhava de um passado comum (egressos do curso de Letras Português-Inglês da UTFPR) e apresentavam interesses comuns naquele momento (o ensino da língua inglesa).
Optei por uma entrevista grupal (ou grupo focal), visando à interação dos sujeitos da pesquisa sobre os temas abordados. A entrevista em grupo – ou grupo focal – é uma técnica bastante utilizada em pesquisas qualitativas e de cunho social e pode ser entendida como uma sessão em grupo com questões semiestruturadas, moderada por um pesquisador, que pode ser realizada em um local informal com o intuito de obter informações sobre determinado tema. Conforme ressalta Gaskell (2012, p. 75),
O objetivo do grupo focal é estimular os participantes a falar e a reagir aquilo que outras pessoas no grupo dizem. É uma interação social mais autêntica do que a entrevista de profundidade, um exemplo da unidade social mínima em operação e, como tal, os sentidos ou representações que emergem são mais influenciados pela natureza social da interação do grupo em vez de se fundamentarem na perspectiva individual, como no caso da entrevista de profundidade.
Como o grupo empregado nessa entrevista já mantinha uma relação social anterior à entrevista, o propósito de interação entre os sujeitos da entrevista em grupo focal foi alcançado. O fato de o entrevistador também já ter contato anterior com o grupo facilitou no estabelecimento de uma relação de empatia e confiança entre entrevistador e entrevistados, levando a entrevista a fluir de maneira não muito formal, mas eficaz. Para tanto, um roteiro com 14 (quatorze) perguntas (Apêndice 2) foi elaborado para uma entrevista semiestruturada, deixando espaço para intervenções e novas perguntas que surgissem durante a discussão. As perguntas que compuseram o roteiro da entrevista buscavam aprofundar algumas questões verificadas no questionário, como a importância do inglês no mundo atualmente, a relação entre língua e cultura, a percepção e o trabalho com estereótipos da língua inglesa, o entendimento de Inglês Língua Franca e sua relação com a cultura, como a língua/cultura inglesa pode ser ensinada, entre outros tópicos.
No entanto, um dos informantes não pôde participar da entrevista em grupo e, por isso, realizei uma entrevista individual com este. Como destaca Gaskell (2012), a entrevista individual ou de profundidade assume a forma de uma conversação a partir de alguns tópicos guias e tem duração normalmente de uma hora. O objetivo dessa entrevista é aprofundar o conteúdo trabalhado no questionário, levantando informações mais específicas, e possibilitar um espaço mais dinâmico e espontâneo para o entrevistado desenvolver suas respostas – já que o questionário escrito pode ser um tanto limitador, por questões de espaço e tempo para escrita. Sendo assim, utilizamos o mesmo roteiro da entrevista em grupo, composto por 14 (quatorze) perguntas. A interação foi bastante profícua, pois na entrevista individual o informante teve mais tempo para aprofundar suas respostas e teve mais espaço para interagir diretamente com o entrevistador. Para a coleta, os dados foram gravados e depois transcritos para análise posterior. Apresento mais detalhadamente o processo de gravação da entrevista no Apêndice 3.
Portanto, esses foram os dois instrumentos de geração de dados utilizados nesse trabalho, sendo que parte crucial para obter os resultados foi a interpretação dos dados obtidos. Na seção seguinte, destaco o local e o contexto em que a pesquisa foi feita e trago mais informações sobre os sujeitos participantes dessa pesquisa.