2.3 POLÍTICAS DE ORDENAMENTO TERRITORIAL
2.3.1 Instrumentos ambientais de ordenamento
2.3.1.3 Instrumentos municipais de perspectiva ambiental
Dentre os instrumentos, que têm como propósito a preservação e conservação ambiental, os de esfera municipal são proeminentes para a implementação de projetos e normativas vindas de domínios superiores. O Poder Público municipal tem a competência de ordenar o seu território de acordo com as normativas federal e estadual a que está subordinado, mas também tem a possibilidade de estabelecer normativas próprias, conforme descrito na Constituição brasileira.
Assim, o planejamento municipal ocorre através do Plano Diretor e respectiva Lei de Uso e Ocupação do Solo, descritas no Estatuto das Cidades (BRASIL, 2001). Estas normativas municipais correspondem a Lei de ordenamento territorial em nível de município, sendo responsáveis pelo gerenciamento dos usos permitidos e não permitidos nas áreas pertencentes ao respectivo território.
É também por meio destas que o município pode implantar “espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos” (BRASIL, 1988). Conforme se observa descrito na figura 10.
Figura 10 - Estrutura organizacional da política urbana e ambiental da CF e Estatuto das Cidades
Fonte: Organizado pela autora com base em Brasil, 1988; 2001.
Na figura 10 é esclarecido que nos Planos Diretores e nas Leis de Uso e Ocupação do Solo dos municípios devem estar previstos espaços territoriais especialmente protegidos, a fim de assegurar que todos tenham o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Os espaços territoriais especialmente protegidos, por compreenderem todas as tipologias voltadas à proteção ambiental têm nos municípios, a possibilidade de instituição de áreas com restrições de uso, mas também de áreas com suporte no SNUC, como as Unidades de Conservação de Uso Sustentável e de Proteção Integral. Neste caso, se o município é o órgão instituidor de qualquer tipologia de espaço territorial especialmente protegido é dele a atribuição de legislar sobre o espaço criado.
As legislações de ordenamento dos territórios municipais, quando cumpridas, possibilitam a efetivação da gestão ambiental das áreas protegidas municipais através de setores como os Fundos Municipais de Meio Ambiente, Conselhos Municipais de Meio Ambiente e equipes técnicas, e a comunidade como ente participativo e deliberativo.
A fim de que as áreas definidas pelos municípios possam ser efetivadas, a gestão ambiental local deve integrar a população, viabilizando a proteção. Portanto considerar a proteção e o desenvolvimento local em conjunto, torna-se essencial para que as normativas ambientais sejam implementadas.
Sobre isso, Toni e Pacheco (2005, p. 21) mencionam que, para o MMA a gestão descentralizada comporta a cooperação entre os níveis federal, estadual e municipal, integrando-se à participação social e políticas públicas de desenvolvimento, no viés da transversalidade11.
Assim, os diferentes instrumentos legais que possuem aplicação nos territórios municipais devem aparecer de forma integrada. A este contexto, Leme (2010, p. 32) faz menção que,
É no município que a população está mais próxima dos representantes políticos e interagem diretamente com as políticas públicas. Portanto é nesse espaço territorial que a organização da sociedade pode levar à construção de consensos e de outras lógicas de desenvolvimento que valorizem o local, as relações humanas, a justiça social.
Os Planos diretores agregam normativas, tanto de desenvolvimento como as que descrevem sobre o meio ambiente. Sendo através do sistema municipal de meio ambiente e gestão ambiental, que se tem a aplicação territorial. Toni e Pacheco (2005, p. 22) descrevem como sistema municipal de gestão ambiental “o conjunto de organizações governamentais locais e instituições voltadas à conservação e uso sustentável dos recursos naturais e à garantia da qualidade ambiental nas áreas urbanas e rurais dos municípios”.
11 A transversalidade deve estar presente nas políticas dos três níveis de governo que, idealmente, estariam
Desse modo, verifica-se a necessidade de organização dos sistemas municipais em consonância com os demais sistemas da federação. Sobre isso, analisa-se que muito falta para que a gestão ambiental nos municípios seja efetivada, pelos entraves políticos, econômicos e falta de pessoal capacitado, problemas que se estendem também para as UCs.
No entanto, em relação a gestão, as unidades de conservação representam um território específico para tal, voltadas a proteção ambiental, devendo ter um conselho gestor12 como função de auxiliar o chefe da UC na sua gestão, e integrá-la à população e às ações realizadas em seu entorno, através de um planejamento das práticas adotadas dentro da UC e em seu entorno, dispostos no plano de manejo (MMA, 2016c).
Diferencia-se a instituição de uma UC, em relação a qualquer outro espaço de proteção, pela atribuição à que é criada em qual a gestão e gerenciamento volta-se a proteção ambiental prioritariamente. Para estas, os órgãos ambientais federais, utilizando-se da descentralização podem sugerir a criação de UCs em nível municipal (OLIVEIRA; BARBOSA, 2010).
As demais categorias de proteção, incluídas nos Planos Diretores municipais, muitas vezes não se efetivam, apresentadas as dificuldades de funcionamento dos sistemas de gestão municipais.
Nesse aspecto, o município, ao escolher criar uma UC, a categoria atribuída deverá ser uma das previstas na lei do SNUC ou SEUC, ficando como órgão responsável pela Unidade de Conservação criada, a respectiva Secretaria Municipal de Meio Ambiente ou outro órgão executor do SISNAMA (OLIVEIRA; BARBOSA, 2010). A figura 11 demonstra os procedimentos para implantação de UC municipal.
12 Representação de órgãos públicos, tanto da área ambiental como de áreas afins (pesquisa científica, educação,
defesa nacional, cultura, turismo, paisagem, arquitetura, arqueologia e povos indígenas e assentamentos agrícolas), e da sociedade civil, como a população residente e do entorno, população tradicional, povos indígenas, proprietários de imóveis no interior da UC, trabalhadores e setor privado atuantes na região, comunidade científica e organizações não-governamentais com atuação comprovada na região (MMA, 2016).
Figura 11 - Fluxograma dos procedimentos para criação de Unidade de Conservação
Fonte: Oliveira; Barbosa, 2010, p. 38.
Ao criar uma Unidade de Conservação em nível municipal, esta será mais um território de gestão existente dentro dos limites administrativos do município, mas que, também, pertence a algum Comitê de Bacia Hidrográfica. Verifica-se a conexão que o município e comunidade têm em relação à gestão ambiental, pois é imprescindível considerar os diferentes territórios a fim de obter a qualidade ambiental almejada.
É sabido destacar o papel do poder público municipal em realizar a proteção do meio ambiente juntamente com os representantes das comunidades que integram os conselhos municipais de meio ambiente. No entanto, quando é mencionada a proteção ambiental, não é a intocabilidade de espaços que se refere, mas sim da cooperação entre os componentes físicos e socioambientais em prol da manutenção destes serviços ambientais.
A efetiva proteção ambiental tem maior possibilidade de acontecer quando ocorre a valorização dos lugares pelas populações locais. Nesse sentido, o incentivo à criação de áreas
protegidas na perspectiva sustentável é primordial para que a intocabilidade de Unidades de Conservação, criadas em décadas passadas e que causaram descontentamento de grupos populacionais, seja superada. Com a manutenção das populações nos lugares onde se pretende instituir UCs e através da gestão da área que possibilite a geração de renda, inicia-se a mudança para uma positiva concepção que a população virá a ter em relação as UCs.
Assim, de acordo com as características únicas de cada paisagem, torna-se possível elencar atributos prioritários à conservação, e por meio de estratégias de sustentabilidade, valorizar as áreas e efetivar a conservação ambiental.
Nesse aspecto, os planos de manejo das UCs necessitam compatibilizar a preservação e conservação de características da área com a utilização dos recursos disponíveis. Integrando os instrumentos de planejamento que influenciam no ordenamento territorial, como os Comitês de Bacia Hidrográfica, as Leis de Uso e Ocupação do Solo e os Planos Diretores Urbanos e Ambientais dos municípios que possuem em seus limites Unidades de Conservação.
A inserção da população em projetos com fins de sustentabilidade socioambiental, demanda a articulação das instâncias mencionadas, com apoio de ONGs e organizações comunitárias, em que podem contribuir na conservação ambiental da área, bem como na difusão da importância da existência de UCs.
Tais características que envolvem populações e efetiva conservação ambiental é possível de ser observada em algumas áreas protegidas de Portugal. Neste País a criação das áreas considera as características culturais locais, possibilitando o desenvolvimento de projetos que promovam a sustentabilidade ambiental dentre das áreas protegidas, além de incentivar a permanência da população nas áreas, como é o caso do Parque Nacional da Peneda-Gerês (informações adquiridas em entrevista realizada no ICNF – Braga, 2017).