Foram realizadas visitas ao local onde seria desenvolvido o estudo para conhecimento da área a ser explorada e melhor familiarização com os possíveis integrantes do estudo. Também foram feitos registros fotográficos das condições de trabalho local e possíveis alterações no meio ao seu entorno. Foi utilizado pelo pesquisador um questionário semi-estruturado de entrevista (Apêndice B), a qual, ao mesmo tempo em que valoriza a presença do investigador, oferece perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação (TRIVIÑOS, 2006). A entrevista foi gravada após autorização dos sujeitos do estudo, e transcrita para posterior análise pelo próprio pesquisador, tornando-se um documento base para a análise proposta.
O questionário foi direcionado aos indivíduos economicamente ativos do Distrito da Ribeira, sendo composto por variáveis sociais e demográficas (sexo, estado civil, grau de instrução, condições de moradia), econômicas (renda familiar, programa assistencial do governo), ambientais (relacionadas ao ambiente de trabalho e entorno) e condições de saúde (fatores de risco cardiovascular, doenças diagnosticadas pelo médico, presença de sintomas e alergias, uso de medicação). Também estavam presentes questionamentos acerca da percepção dos trabalhadores com relação a problemática ambiental, impactos vivenciados pela população in loco, atividades educativas e a influência destas no seu cotidiano. Consoante, realizou-se a análise de
conteúdo por categorização, possibilitada pela utilização da entrevista semi-estruturada, com o agrupamento de respostas por afinidade específica, permitindo a organização temática dos resultados alcançados (COLOGNESE; MELO, 1998).
De acordo com Bardin (1979, citado por Richardson, 2011, p. 223), a análise de conteúdo é:
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, através de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam inferir conhecimentos relativos às condições de produção/recepção dessas mensagens.
Como a pesquisa versa sobre qualidade de vida, alguns questionamentos presentes no instrumento de coleta foram baseados nos que compõe o questionário específico de avaliação, o WHOQOL-bref, desenvolvido pelo grupo de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde (OMS). O instrumento consta de 26 questões divididas em quatro domínios: físico, psicológico, relações sociais e ambientais, possibilitando a identificação das principais demandas da população estudada de forma pontual, visando à elaboração de políticas públicas de promoção da saúde (FLECK et al., 2000; GORDIA; QUADROS; CAMPOS, 2009).
O domínio meio ambiente do questionário WHOQOL-bref refere-se às facetas de segurança física e proteção, ambiente no lar, recursos financeiros, disponibilidade e qualidade dos cuidados de saúde e sociais, oportunidade de adquirir novas informações e habilidades, participação e oportunidades de recreação/lazer e ambiente físico - poluição, ruído, trânsito, clima e transporte (GORDIA; QUADROS; CAMPOS, 2009).
Uma vez que a qualidade de vida está diretamente relacionada com as condições de saúde, fora proposta uma pequena avaliação acerca de alguns fatores de risco cardiovascular, levando-se em consideração o peso (Kg), a estatura (m), o estado nutricional, a medida da pressão arterial (segundo normas da VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, 2010), medidas antropométricas (índice de massa corporal - IMC, circunferência abdominal e relação cintura-quadril – RCQ). Também se avaliou o pico de fluxo expiratório máximo (PFE), através do peak flow, visando uma estimativa sobre o calibre das vias aéreas. Como cada variável apresenta suas peculiaridades no que tange ao procedimento de avaliação, foi responsabilidade do pesquisador a sua realização.
Para mensuração do peso corporal, em quilogramas, utilizou-se uma balança antropométrica da marca Filizola, onde o indivíduo fora posicionado no centro da mesma com os pés unidos e em posição ereta. A altura, em metros, por sua vez, foi medida através de um estadiômetro.
Com relação à avaliação da composição corporal, de uma forma indireta, foi utilizado o Índice de Massa Corporal (IMC) ou Índice de Quetelet, calculado através do quociente entre a massa corporal em quilos e o quadrado da altura em metros, [IMC = Peso (kg)/Altura (m)2]. O IMC não só é um indicador que permite avaliar se um indivíduo tem ou não excesso de peso, como também um preditor da gordura corporal.
A Organização Mundial de Saúde - OMS, em 2000, padronizou para adultos de ambos os sexos, a classificação do excesso de peso e da obesidade baseada no IMC, onde um IMC normal se situaria entre os 18,5 e os 24,9 kg/m2 (CABRERA et al., 2005), conforme visualizado no Quadro 2.
Quadro 2 - Classificação de peso pelo IMC
CLASSIFICAÇÃO IMC (kg/m2) RISCO DE COMORBIDADES
Baixo peso ≤ 18,5 Baixo (risco aumentado de outros
problemas clínicos)
Peso normal 18,5 a 24,9 Médio
Sobrepeso ≥ 25 -
Pré-obeso 25 a 29,9 Moderado
Obesidade grau 1 30 a 34,9 Aumentado
Obesidade grau 2 35 a 39,9 Grave
Obesidade grau 3 ≥ 40 Muito grave
Fonte: Adaptado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (2004).
A circunferência abdominal, em centímetros, e a circunferência do quadril, também em centímetros, foram mensuradas com uma fita métrica não distensível, ajustada ao nível da cicatriz umbilical e área de maior protuberância glútea, respectivamente (MACHADO; SICHIERI, 2002).
De acordo com Ribeiro Filho et al. (2006), os valores da circunferência abdominal de 88 cm para as mulheres e 102 cm para homens, conforme Tabela 1, são considerados limítrofes. Valores acima dos estabelecidos, associados à presença de risco cardiovascular elevado, integram os critérios do National Cholesterol Education
Tabela 1 – Circunferência abdominal e risco de complicações metabólicas associadas com obesidade em homens e mulheres caucasianos.
Circunferência abdominal
Riscos de complicações metabólicas Homem Mulher Nível de ação Aumentado ≥ 94 ≥ 80 1 Aumentado substancialmente ≥ 102 ≥ 88 2
“Nível de ação” significa a importância de se recomendar a redução da medida da circunferência abdominal quando 1 é menos importante do que o 2.
Fonte: Adaptado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (2004).
A medida de circunferência abdominal reflete melhor o conteúdo de gordura visceral que a relação circunferência abdominal-quadril e possui grande associação com a gordura corporal total, segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (2004). Os perímetros de cintura e quadril possibilitaram a construção do RCQ, obtido pelo quociente entre a circunferência abdominal e a circunferência do quadril, para avaliação de gordura corpórea. Dentre os pontos de cortes estabelecidos para discriminar valores adequados dos inadequados de RCQ, o mais utilizado tem sido 0,85 para o sexo feminino e 0,95 ou 1,0, para o masculino (MACHADO; SICHIERI, 2002; SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOBIA, 2004).
Uma vez que a hipertensão arterial sistêmica (HAS), condição clínica multifatorial caracterizada por níveis elevados e sustentados de pressão arterial (PA), estando associada frequentemente a alterações funcionais e/ou estruturais dos órgãos- alvo (coração, encéfalo, rins e vasos sanguíneos) e a alterações metabólicas, representa um fator de risco de grande porte para eventos cardiovasculares fatais e não-fatais, de acordo com Rodrigues et al., 2010, esta também foi mensurada.
Para a determinação da Pressão Arterial (PA), utilizou-se o método auscultatório com o auxílio de um esfignomanômetro de coluna de mercúrio (Missouri, Brasil) e um estetoscópio (Littmann Classic II, EUA), sendo os níveis pressóricos avaliados de acordo com os estabelecidos pela VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial do ano de 2010 (RODRIGUES et al., 2010) (Tabela 2).
Tabela 2 – Classificação da pressão arterial de acordo com a medida casual no consultório (> 18 anos)
Classificação PA sistólica (mmHg) PA diastólica (mmHg)
Ótima < 120 < 80 Normal < 130 < 85 Limítrofe 130-139 85-89 Hipertensão estágio 1 140-159 90-99 Hipertensão estágio 2 160-179 100-109 Hipertensão estágio 3 ≥ 180 ≥110 Hipertensão sistólica isolada ≥ 140 ≤ 90 Fonte: Adaptado de Rodrigues et al. (2010)
O procedimento foi realizado com o indivíduo na posição sentada, com pernas descruzadas e pés apoiados no chão, dorso recostado na cadeira e relaxado. O braço estava na altura do coração (nível do ponto médio do esterno ou 4º espaço intercostal), livre de roupas, apoiado, com a palma da mão voltada para cima e o cotovelo ligeiramente fletido (RODRIGUES et al., 2010).
Com relação a avaliação da função pulmonar dos indivíduos em questão, verificou-se o pico de fluxo expiratório máximo (PFE) através de um aparelho chamado
peak-flow meter®, por ser portátil, de baixo custo e não necessitar de energia para a sua
operação. O PFE é o fluxo máximo alcançado durante uma expiração realizada com força máxima e iniciando de um nível máximo de insuflação pulmonar, representando um índice indireto do calibre das vias aéreas, o qual determina a severidade e a presença de obstrução ao fluxo aéreo (BRITTO et al., 2009).
Segundo os mesmos autores, das situações patológicas que podem interferir no PFE, a mais comum é a desordem na estrutura e função das vias aéreas intratorácicas, que promove a resistência do fluxo aéreo dentro delas. A diminuição do PFE também pode ser observada em obstrução de vias aéreas extratorácicas, por condições que limitam a expansão pulmonar ou afetam a função dos músculos respiratórios ou por condições que afetam a integridade do sistema neural.
As mensurações foram realizadas com os indivíduos na posição sentada e com clipe nasal (Figura 6), sendo realizada por três vezes, conforme protocolo de execução. A maior mensuração foi acatada e comparada com os valores preditos, dispostos num normograma (Anexo 1).
Figura 6 – Avaliação do Pico de Fluxo Expiratório Máximo.