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No que diz respeito ao instrumento utilizado na coleta de dados, empregamos essencialmente entrevistas estruturadas (gravadas em áudio) que serão descritas na sequência. Ressaltamos que nossa intenção, ao realizarmos as observações, foi a de que este instrumento serviria apenas como diagnóstico a fim de delimitar o perfil dos/as alunos/as cujas mães participariam da pesquisa, portanto não utilizaremos os dados advindos das observações porque estas foram realizadas com o fim de ter mais elementos para selecionar os participantes da pesquisa.

3.5.1 Entrevistas

Como instrumento de coleta de dados, nos utilizamos da entrevista estruturada com o propósito de levantar dados, oriundos de entrevistas com diferentes participantes, que posteriormente pudessem ser triangulados.

A entrevista, de acordo com Lüdke e André (1986, p. 33), “representa um dos instrumentos básicos para a coleta de dados”, haja vista o seu modo interativo que permite que se crie “uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde” (loc. cit.), interação essa que facilita captar a informação desejada com mais propriedade (LÜDKE; ANDRÉ, 1986).

A entrevista é um método de coleta de dados que permite aproximação com o entrevistado, possibilitando um clima “de estímulo e aceitação mútua” ( LÜDKE, ANDRÉ, 1986, p. 34). Para as autoras,

A grande vantagem da entrevista sobre outras técnicas é que ela permite a captação imediata e corrente da informação d esejada, pratica mente co m

qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos. Uma entrevista bem-feita pode permitir o trata mento de assuntos de natureza estritamente pessoal e íntima. Pode permitir o aprofundamento de pontos levantados por outras técnicas de coleta de alcance mais superficia l, como o questionário (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 34).

André (2008) destaca que, para o estudo de caso, a entrevista é um instrumento relevante na coleta de dados, pois revela os significados dados pelos/as participantes à determinada situação (ANDRÉ, 2008, p. 51).

No que diz respeito à entrevista, Duarte (2004) acredita que se trata de um método de pesquisa ideal quando o desejo do pesquisador é o de:

mapear prát icas, crenças, valores e sistemas classificatór ios de universos sociais específicos, ma is ou menos bem delimitados, em que os conflitos e contradições não estejam c lara mente e xp lic itados. Nesse caso, se forem be m realizadas, elas permitirão ao pesquisador fazer u ma espécie de mergulho em profundidade, coletando indícios dos modos como cada um daqueles sujeitos percebe e significa sua realidade e levantando informações consistentes que lhe permita m descrever e co mpreender a lógica que preside as relações que se estabelecem no interior daquele grupo, o que, em geral, é mais difícil obter com outros instrumentos de coleta de dados (DUA RTE, 2004, p. 215).

Para a autora, a fim de que seja realizada uma boa entrevista, faz-se necessária a observação de alguns pontos, dentre eles que o pesquisador traga muito bem determinada a finalidade de sua pesquisa e o conhecimento do contexto em que realizará a “investigação”. Nesta questão, ele pode se valer de materiais como documentos, registros, experiências pessoais de moradores da comunidade, por exemplo, entre outros materiais que possam auxiliá- lo a compreender melhor o universo pesquisado antes de adentrar o campo a ser estudado. Além desses, há, segundo a autora, outro aspecto que o pesquisador deve observar que é trazer incorporado o “roteiro da entrevista” a fim de evitar “engasgos” no momento da entrevista verdadeira, estar seguro e confiante sobre a entrevista. Conforme Duarte (2004) orienta, é fundamental, além disso, se ter certa informalidade para deixar o entrevistado mais seguro.

Lüdke e André (1986) afirmam que há de ser respeitada a cultura e os valores do entrevistado. Dessa maneira, o entrevistador deve ter competência para “ouvir atentamente” e “estimular o fluxo natural de informações por parte do entrevistado” (LÜDKE, ANDRÉ, 1986, p. 35). Isso, porém, não significa, segundo as mesmas estudiosas, a necessidade de forçar nenhuma resposta. Assim como Duarte (2004), elas

declaram que se deve “apenas garantir um clima de confiança, para que o informante se sinta à vontade para se expressar livremente” (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 35).

A realização das entrevistas que fizemos ocorreu de modo tranquilo com prévio agendamento junto aos/às participantes. Estes, por sua vez, foram orientados em relação a todo o procedimento e, como já haviam sido questionados se desejavam participar das entrevistas, não houve nenhuma recusa ou constrangimento em dela participar com o auxílio do gravador.

Lançamos mão desse método de coleta de dados assim que terminamos de realizar nossas observações em sala, por acreditar que se tinha feito a necessária aproximação entre pesquisador e participante. Esse processo exige um período de conhecimento mútuo, que, no nosso caso, entendemos ter se realizado depois de passados os dois meses em que estivemos na escola e na comunidade realizando observações. As entrevistas foram sempre agendadas antecipadamente, respeitando a disponibilidade e os limites do outro. Desse modo, elas ocorreram ou na escola, ou no domicílio dos participantes da comunidade, neste caso a fim de não causar transtornos a eles.

Começamos o processo das entrevistas sempre acautelando os entrevistados sobre a gravação das falas e sobre o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (Anexo 2), o qual eles/elas deveriam assinar, demonstrando que se dispuseram a participar do procedimento de coleta de dados e que tinham conhecimento de que seus dados seriam mantidos em sigilo.

A gravação se fez necessária uma vez que, conforme Bortoni-Ricardo (2008), essa técnica “tem uma grande vantagem na coleta de dados porque permite ao observador „revisitar‟ os dados muitas vezes para tirar dúvidas e refinar a teoria que está construindo” (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 62, grifos da autora). Lançamos mão deste método de investigação por desejarmos, segundo Gil (1994), obter dados que interessam à nossa investigação, pois conforme o autor, a entrevista é “uma forma de interação social” (GIL, 1994, p. 113).

Para Gil (1994), a entrevista é uma das técnicas de coleta de dados que mais se adéqua “a obtenção de informações acerca do que as pessoas sabem, creem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram, bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes” (GIL, 1994, loc. cit.). Nesse sentido, a entrevista foi primordial em nosso trabalho, pois nos aproximo u dos/as

participantes, já que muitos se sentiram mais à vontade de falar sobre o tema do racismo com a pesquisadora.

O mesmo autor (1994) destaca também que há algumas vantagens em se utilizar da entrevista nos trabalhos de pesquisa. Entre elas, destaca as seguintes:

A entrevista possibilita a obtenção de dados referentes aos mais diversos aspectos da vida social; a entrevista é uma técnica muito eficiente para a obtenção de dados em profundidade acerca do comportamento humano (GIL, 1994, p. 113).

Entre as vantagens destacadas pelo autor, está também a de que este método de coleta de dados “não exige que a pessoa entrevistada saiba ler e escrever”. Por esse motivo, a técnica foi muito bem- vinda para nosso estudo, pois uma de nossas entrevistadas não sabia ler nem escrever, fenômeno ainda frequente em comunidades afastadas do centro urbano20. Conforme Grokorriski (2012), na Comunidade do Sutil, “os níveis de escolaridade se distribuem de forma relativamente equilibrada entre homens e mulheres, mas é possível observar que a taxa de analfabetismo é maior entre as mulheres” (GROKORRISKI, 2012, p. 81). Por essa razão, este fato poderia impedir que um participante preenchesse, sozinho, um questionário, por exemplo. A entrevista ainda possibilita, segundo Gil (1994), uma maior flexibilidade já que o pesquisador pode explicar as perguntas, quando o participante não compreender algo que lhe foi perguntado. Há igualmente a possibilidade de o pesquisador poder apreender “a expressão corporal do entrevistado, bem como a tonalidade de voz e a ênfase nas respostas” (GIL, 1994, p. 114).

As entrevistas nos nortearam e auxiliaram o nosso trabalho de investigação. Nesse sentido, compreendemos que a escolha do método de coleta de dados é condizente com o objetivo da pesquisa. As entrevistas ocorreram todas no mesmo dia devido ao fato de os participantes estarem disponíveis nesta ocasião.