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4 PROCESSO DE IMIGRAÇÃO X PERCURSO MIGRATÓRIO: A QUESTÃO DA

4.1 DIMENSÕES HISTÓRICAS, SOCIAIS E JURÍDICAS DA INTEGRAÇÃO NA

4.1.1 Integração ao mercado de trabalho e francisation

Se as preocupações relativas ao enfraquecimento da identidade quebequense são consideradas prioritárias às políticas de imigração, não se podem desvincular as políticas de integração, de modo geral, dos modos de inserção dos imigrantes ao mercado de trabalho, em particular. Em primeiro lugar, pois a principal via de recrutamento dos imigrantes pela província do Québec é pela sua qualidade de travailleur qualifié. Em segundo lugar, pois o caminho reconhecido pelo governo quebequense para o sucesso100 da integração - o que inclui a integração cultural - é vinculado à participação econômica dos imigrantes que, fazendo valer de sua formação educacional e de sua experiência profissional, tendem a não criar novos grupos de excluídos que poderiam ameaçar a coesão social. Uma recente declaração da atual ministra do MICC ilustra a forma como esse sentido de integração é assumido como política pública:

Il faut mieux coordonner nos ressources gouvernementales et simplifier ou alléger certains processus. Gardons en tête cet objectif principal qui est de

100 O sentido de “caminho de sucesso” para integração, na forma em que é reconhecido pelo governo do Québec, compreende algumas etapas que devem ser vencidas pelos imigrantes, como por exemplo: o aprendizado da língua francesa, a inserção no meio profissional, o desenvolvimento de uma rede de contatos, o estabelecimento de domicílio e a inscrição dos filhos no sistema escolar.

faciliter le recrutement, l’accueil et la francisation des personnes que nous accueillons. Par ailleurs, dans nos efforts, il faut cibler l’intégration et la rétention des personnes immigrantes dans les milieux de travail. Toutes les discussions que nous avons eues vont dans ce sens et aussi vers un resserrement des liens entre tous ceux et celles qui participent à ces processus d’accueil. (COURCY, 2012, p. 1)

Mas o sentido fornecido a uma integração econômica também pode encontrar limitações devido ao nível de qualificação profissional do imigrante: pesquisas indicam que, quanto mais alto o nível socioeconômico antes da imigração, mais fracas são as chances de encontrar o mesmo nível no Québec, sugerindo que quanto mais complexo é o trabalho, mais difíceis são os processos de inserção e reconhecimento de competências, fenômeno conhecido como déclassement (GIRARD, SMITH e RENAUD, 2008, p. 795). Em outros termos, a precariedade de acesso ao trabalho – não se limitando apenas à relação emprego/desemprego, mas particularmente ao acesso ao trabalho qualificado – pode ser considerada uma variável limitadora do efeito integrador do trabalho, ao mesmo tempo em que pode acionar processos de exclusão social.

Il existe de nombreuses manières d’être ‘inclus’ ou ‘exclus’. Les individus ne sont pas, une fois pour toutes, ‘intégrés’ ou ‘exclus’, moins encore ‘des intégrés’ ou ‘des exclus’ – aucun individu n’étant jamais totalement hors du jeu social -, mais il existe des populations en état de fragilité ou de précarité qui ont une probabilité plus ou moins forte de connaître, ou que connaissent effectivement, un processus susceptible de les exclure de la vie collective, professionnelle et relationnelle, ou – pour reprendre un autre concept traditionnel de la sociologie – de les marginaliser. (SCHNAPPER, 2007, P.

160).

O argumento apresentado acima revela que a relação entre integração e exclusão está na base da seleção de imigrantes, além de ser um componente da lógica das políticas de integração concebidas pelo Estado. Como analisam Chicha e Charest (2008, p. 7), vários indicadores demonstram a situação de desigualdade dos imigrantes no mercado de trabalho: o pertencimento a uma minorité visible, a inferiorização profissional, as competências linguísticas, as dificuldades para o reconhecimento de diplomas estrangeiros e a falta de experiência de trabalho em território canadense. Mas um dos argumentos mais importantes dos autores que contribuem para análise da relação entre exclusão e integração é a de que existe uma discriminação sistêmica nas empresas, evidenciada nas práticas de recrutamento e seleção dos empregados, que não está diretamente relacionada ao pertencimento a uma communauté culturelle ou a uma minorité visible.

Les pratiques de recrutement ou de sélection de la main-d’œuvre en vigueur dans les entreprises sont généralement conçues en fonction du profil traditionnel des travailleurs qui y sont représentés. Étant donné la faible proportion d’immigrés dans la plupart des entreprises, et notamment d’immigrés issus des minorités visibles, on constate que les pratiques peuvent parfois avoir un effet d’exclusion à leur égard. […] Un exemple particulièrement frappant a trait à l’usage que font les entreprises des réseaux professionnels ou personnels lors du recrutement. L’absence d’expérience canadienne représente un obstacle souvent insurmontable, renforcé par une autre difficulté d’importance, soit le manque de réseaux professionnels. (CHICHA, CHAREST, 2008, p. 13, sem grifo no original).

Em resumo, uma vaga de emprego é geralmente ofertada para um determinado perfil profissional baseado em características profissionais do contexto trabalhista canadense. Além disso, tende a ser preenchida por alguém que faz parte de uma rede profissional particular. Nesse caso, o peso inexpressivo de capital social, nos termos de Bourdieu (2002), é tão limitador quanto não ter experiência profissional canadense, e vice-versa.101 Para os imigrantes, não fechar-se em guetos e ampliar as redes sociais locais torna-se fundamental para o processo de inserção no mercado de trabalho quebequense.

Em termos ideais, o processo de integração ao mercado de trabalho se traduz por uma situação de igualdade de acesso e de resultados entre imigrantes e nativos com as mesmas características profissionais. Embora as ações governamentais – como os cursos de francisation e a Loi sur l'équité en matière d'emploi102 – tenham como objetivo a redução da desigualdade de acesso ao mercado de trabalho, é possível verificar que existe um sentido tácito que indica que uma situação de maior igualdade não é atingida, nesse contexto, devido à inadaptabilidade da oferta de força de trabalho, isto é, das características pessoais dos imigrantes. Este argumento é relevante para compreender as estratégias dos imigrantes em seus percursos migratórios, como será analisado no subtítulo 4.3.

Como proposto no início desse capítulo, a ideia de trabalhar a integração como um “conceito-horizonte”, possibilita analisar a interdependência entre acesso

101 Chicha e Charest (2008, p. 14), argumentam ainda que a falta de sensibilidade em matéria de diversidade cultural por parte dos responsáveis pela seleção de funcionários é outro fator desfavorável em direção aos imigrantes. Nesse mesmo sentido, Kymlicka (2003) argumenta que um Estado que se torna multicultural e tende a agir de forma inclusiva em direção à diversidade cultural, pode encontrar obstáculos em indivíduos que não possuem aquilo que chama de intercultural skills, que pode ser traduzido por “competências interculturais”. Nesse sentido, o sucesso de políticas multiculturais estaria diretamente relacionado à formação de cidadãos interculturais: “On this view, an intercultural citizen is someone who not only supports the principles of a multicultural state, but also exhibits a range of more personal attitudes towards diversity.” (KYMLICKA, 2004, p. 157).

102 Ver subtítulo 2.2.1.1 .

ao mercado de trabalho e o processo de francisation como uma dimensão de integração. Pode-se retomar esse sentido de análise em sua expressão política por meio de um documento oficial que trata da integração linguística dos imigrantes no Québec, em que se encontra a seguinte definição: “Il y a intégration à la société québécoise quand le plus grand nombre d’immigrants choisissent le français comme langue d’usage public.” (VICENT, 2004, p. 2). É interessante perceber que, nesta definição, o verbo utilizado para relacionar integração e língua francesa é “choisir”, que em português é “escolher”: sabe-se que o processo de francisation não é uma questão de escolha para os imigrantes alófonos (aqueles que não possuem nem o francês nem o inglês como língua materna).

Embora haja uma questão legal nesse processo – a língua oficial do Québec é o francês - esse sentido de imposição simboliza o esperado dever de integração do imigrante na sociedade francófona: se há o dever de participação econômica e democrática, há o dever de aprender a língua francesa. Assim, o processo de francisation – que envolve tanto a competência linguística como seu conteúdo cultural – é o elemento mais explícito do modelo de integração intercultural. Eis que a distinção da sociedade quebequense estaria em risco se o francês fosse considerado, entre os imigrantes, como uma língua de segunda categoria, aquela que não escolheriam se tivessem tido liberdade.

Em seguida vem a questão do uso público da língua francesa, definida da seguinte forma: “Si l’on peut qualifier la relation d’intime, elle appartiendrait au domaine prive. Si elle est impersonnelle, elle relèverait du domaine public” (VICENT, 2004, p. 15). Assim, marca-se a diferença entre público e privado ao mesmo tempo em que se indica o mercado de trabalho como espaço de integração determinante, pois impessoal, baseado na prática linguística dos imigrantes adultos. Verifica-se, enfim, que é na relação entre o acesso ao mercado de trabalho e a proficiência na língua francesa que está o que o governo considera como o sentido elementar de integração, uma vez que dela depende a probabilidade de retenção do imigrante no Québec.103

103 Nesse contexto, é interessante considerar os baixos investimentos do governo do Québec em ações de integração ao mercado de trabalho, como explicitam Chicha e Charest (2008, p. 40):

« Toutefois, les chiffres disponibles montrent que l’écart entre les besoins exprimés et les investissements réalisés pour y répondre est extrêmement élevé. Alors que le flux d’immigrés dépasse 45.000 personnes para an, seul un très petit nombre d’entre eux peuvent bénéficier d’un appui approfondi, et ce, pour une durée très limitée. »

Além da relação entre empregabilidade e integração linguística, o documento citado anteriormente (VICENT, 2004) utiliza-se dos termos “atributos culturais” e

“herança cultural” para argumentar que, quanto maior a proximidade de atributos culturais, menos obstáculos à integração sofrem os imigrantes e maiores as probabilidades de retenção. Esses atributos são caracterizados como: a proximidade das línguas de origem latina, a tradição judaico-cristã, a religião e a cultura em geral.

O sentido de herança cultural é utilizado, principalmente, em direção à proximidade da língua materna dos imigrantes com a língua francesa.

Embora esse sentido de proximidade cultural seja um argumento utilizado pelo Estado para qualificar os obstáculos à integração, cabe questionar como a dimensão de integração que relaciona o acesso ao mercado de trabalho e o uso da língua francesa pode enfraquecer a adesão dos imigrantes ao fait français. Em documento que planificou ações de integração do governo do Québec em direção aos imigrantes (MICC, 2008d), essa relação fica subtendida no objetivo principal declarado: a imigração é indispensável para o dinamismo econômico, social e cultural da província.

Par sa politique d’immigration, le Québec recrute à l’étranger des travailleurs qu’il sélectionne notamment en raison de leurs compétences professionnelles et de leur aptitude à s’intégrer à une société francophone, nord-américaine. […] L’apport de l’ensemble de ces personnes est indispensable pour assurer le dynamisme économique, social et culturel du Québec et pour répondre adéquatement aux enjeux d’une population vieillissante. En toute équité et responsabilité, le gouvernement du Québec et ses partenaires se préoccupent d’offrir aux immigrants ayant choisi de s’établir ici les moyens de concrétiser leurs ambitions professionnelles. […]

Par ailleurs, on constate que le recours à des travailleurs immigrants est une pratique d’affaires à laquelle s’intéressent un nombre croissant d’employeurs du Québec aux prises avec des besoins importants de main-d’oeuvre spécialisée. [ …] Néanmoins, malgré les résultats atteints jusqu’à présent, il faut reconnaître que les personnes issues de l’immigration éprouvent des difficultés à accéder rapidement au marché du travail. Le temps pour obtenir un premier emploi tend à s’allonger chez les personnes nouvellement arrivées. De plus, certains Québécois des communautés culturelles font face à des préjugés qui peuvent les tenir éloignés du marché du travail. (MICC, questão identitária que daí resulta. Nesse sentido, o fait français não é influenciado

apenas pela fragilidade da sobrevivência da língua francesa – fragilidade que tende a ser maior sem uma política de integração bem definida -, mas principalmente por invocar uma identidade quebequense necessária à integração. Na medida em que a identidade quebequense perde espaço no contexto anglófono que a circunscreve, a francisation tornou-se uma política pública progressivamente relevante, sobressaindo-se ao incentivo de compartilhamento de uma cultura nacional canadense. Se por um lado o governo quebequense reconhece os desafios de suas políticas migratórias em relação à inserção dos imigrantes no mercado de trabalho, por outro lado deve-se compreender como este reconhecimento está ligado à ideia de cidadania quebequense.