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Integração do PETI ao Programa Bolsa Família

3.2 O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil nos Documentos Institucionais

3.2.5 Integração do PETI ao Programa Bolsa Família

Em dezembro de 2005, através da Portaria nº 666, o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome estabeleceu a integração entre o PETI e o Programa Bolsa Família - PBF, o qual, conforme já citei no início deste capítulo, unificou os procedimentos de gestão e execução dos programas de transferência de renda do governo federal. Com isso, as famílias de crianças e adolescentes atendidas pelo Programa, a partir de 2006, também foram incluídas no “Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal - CadÚnico”.

A integração visou os seguintes objetivos:

1- racionalizar e aprimorar os processos de gestão do PBF e do PETI, pela universalização da obrigatoriedade de pagamento do benefício por meio de cartão magnético da CAIXA e pela inclusão de todas as famílias no CadÚnico;

2 - ampliar a cobertura do atendimento das crianças/adolescentes em situação de trabalho infantil do PETI, com a inclusão de crianças menores de seis anos;

3 - estender as ações socioeducativas e de convivência do PETI para as crianças/adolescentes do PBF em situação de trabalho infantil;

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Agência Brasil; artigo: Conceito de Trabalho Infantil Precisa ser Revisto, Afirma Sociólogo, www.agenciabrasil.gov.br, São Paulo, SP, 12 de junho de 2005.

4 - universalizar o PBF para as famílias que atendem a seus critérios de elegibilidade.

(RUA, 2007, p. 22)

Para efeito da integração naquilo que dizia respeito à transferência de renda, a Portaria nº 666 estabeleceu, em seu Artigo 3º:

a) “I - o componente de transferência de renda para as famílias que atendam ao critério

de elegibilidade do PBF será tido como benefício do PBF”; ou seja, famílias em situação de

pobreza e extrema pobreza, caracterizadas por renda per capita mensal de até R$ 120,00 (cento e vinte reais) e até R$ 60,00 (sessenta reais), respectivamente, conforme definição da lei que instituiu o PBF.

b) “II - o componente de ações socioeducativas e de convivência que devem ser

freqüentadas pelas crianças e adolescentes das famílias oriundas do PETI, assim como pelas famílias beneficiárias do PBF que apresentem situação de trabalho infantil, será tido como parte integrante do PETI”; segundo a professora Maria das Graças RUA, este componente tornou-se a

“principal ação finalística” do PETI (Id. Ibid., p. 24)

c) “III - o componente de transferência de renda para as famílias que não atendam ao

critério de elegibilidade do PBF será tido como benefício financeiro do PETI”; ou seja, famílias

com renda per capita mensal superior a R$ 120,00 (cento e vinte reais) (limite do PBF) e inferior a ½ (meio) salário mínimo (limite estabelecido pelo PETI). Para a autora, este benefício se transformou “numa categoria residual do PETI”, pois:

Este benefício,..., está condicionado a que haja meta disponível, ou seja, recursos para este fim. Como a ação de transferência de renda do PETI assumiu a condição absolutamente secundária e residual, é pouco provável que no futuro, essa categoria continue existindo (Id. Ibid., p.26).

Caso isso se confirme, as ações de combate ao trabalho infantil do PETI ficarão restritas às crianças e adolescentes cujas famílias tenham renda per capita de até R$ 120,00 (cento e vinte reais) por mês.

Do ponto de vista do financiamento da política pública, tais critérios, considerados em conjunto com as legislações e normas que estabelecem o PBF (Lei nº 10.836/2004, Decreto nº 5.209/2004 e Decreto nº 5.749/2006) e o PETI (Portaria MDS nº 458/2001), criaram nove

“categorias” não explicitadas diretamente na Portaria nº 666. Quadro com estas categorias, produzido por RUA, está em Anexo IV.

Vale destacar, ainda, do estudo da autora, a seguinte tabela com a “comparação simulada

dos benefícios do PETI e do PBF segundo o número de crianças e adolescentes em trabalho infantil”, na qual introduzi pequenas alterações no descritivo das colunas, sem alterá-las em seu

significado.

A partir dos dados da tabela 4, é possível perceber que há situações em que a migração da transferência de renda do PETI para o PBF poderá se constituir em aumento ou redução do valor da bolsa, dependendo da condição de enquadramento de cada família nas categorias de transição, conforme Anexo IV, até três crianças ou adolescentes em situação de trabalho infantil. A partir da quarta criança, é visível a condição desfavorável à migração.

Tabela 4

Comparação simulada dos benefícios do PETI e do PBF segundo o número de crianças e adolescentes em trabalho infantil por família

PETI PBF Número de crianças ou adolescentes em trabalho infantil por família Zona Rural e Zona Urbana com menos de 250 mil habitantes Zona Urbana com mais de 250 mil habitantes

Renda Familiar per capita até R$ 60,00 (extrema pobreza). Benefício básico R$ 50,00 + benefício variável R$ 15,00 por filho com menos de 15 anos no limite de R$ 45,00, podendo a soma chegar a R$ 95,00 por mês.

Renda Familiar per capita entre R$ 60,01 e R$ 120,00 (pobreza). Benefício variável R$ 15,00 por filho com menos de 15 anos podendo chegar a R$ 45,00 por mês. 01 R$ 25,00 R$ 40,00 R$ 65,00 R$ 15,00 02 R$ 50,00 R$ 80,00 R$ 80,00 R$ 30,00 03 R$ 75,00 R$ 120,00 R$ 95,00 R$ 45,00 04 R$ 100,00 R$ 160,00 --- ---

Não obstante, RUA salienta que:

Para as novas famílias com renda per capita até R$ 60,00 ou entre R$ 60,01 e R$ 120,00, que irão receber benefício PBF, não há tratamento diferenciado, caso tenham crianças/adolescentes em situação de trabalho infantil. Significa que o Programa eliminou o incentivo ao afastamento da situação de trabalho infantil. (Id. Ibid., p. 26)

Tendo em vista que a inserção como beneficiário em situação de trabalho infantil depende da constatação e do registro desta condição, que muitas vezes é informado pela própria família no momento do cadastro no PBF, a ausência do incentivo financeiro para inserção dificultará o

enfrentamento da questão. “Para a política de combate ao trabalho infantil, o registro da

informação talvez seja um dos problemas mais preocupantes do processo de integração via CadÚnico” (Id. Ibid., p.27).

Agregam-se a isso as dificuldades relativas à fiscalização para identificação, mapeamento e combate ao trabalho infantil, pelo fato de um dos principais órgãos fiscalizadores, que são as Delegacias Regionais do Ministério do Trabalho e Emprego, atuarem prioritariamente na economia formal, na qual a ocorrência do trabalho infantil está presente em menor número. Apesar disso, os números da Relação Anual de Informações Sociais - RAIS sobre a fiscalização do trabalho no Brasil, nos últimos três anos, apresentados na tabela 5, demonstram a importância das ações deste órgão também no trabalho informal.

Tabela 5

Resultados das Fiscalizações pelo Ministério do Trabalho e Emprego 2005-2007

Fiscalização 2005 2006 2007

(jan/nov) Crianças de 0-16 anos encontradas trabalhando

(excluídos os aprendizes)

7748 12458 7382

Trabalhadores adolescentes (não aprendizes) 16 a 18 anos, registrados sob ação da fiscalização

4101 2831 2434

Trabalhadores aprendizes contratados sob ação da fiscalização (desde 2006, 14 a 24 anos)

29605 44049 49536

Trabalhadores libertados (trabalho escravo) 4273 3308 4139

Fonte: MTE/SIT/RAIS (grifos meus)

A fiscalização da grande parcela das situações de exploração do trabalho infantil na economia informal, para que sejam identificadas, ficam sujeitas à ocorrência em locais visíveis (ruas, comércio etc.), às denúncias feitas diretamente aos órgãos responsáveis pela defesa dos direitos de crianças e adolescentes, em particular aos Conselhos Tutelares, ou, ainda, às ações pontuais de fiscalização que envolvam as autoridades responsáveis.

Outra situação que dificulta a identificação para o enfrentamento das situações de trabalho infantil, seja pelas próprias famílias ou pelos atores sociais responsáveis pela política pública, “resulta do fato de que o próprio entendimento do conceito desse nível de trabalho, entre as

autoridades na esfera municipal, não é consensual, nem os critérios são uniformes” (Id. Ibid.,

A integração do PETI ao PBF, além da racionalização do financiamento, eliminando a duplicidade de benefícios para uma mesma família, através dos impactos demonstrados acima para situações determinadas de transição ao PBF ou pela eliminação do incentivo ao afastamento da situação de trabalho infantil, significou efetivamente a substituição do enfoque na exploração do trabalho infantil pelo enfoque na renda da família. Houve, portanto, o que Maria Malta CAMPOS, citando Fitoussi e Rosanvallon, chama de “simplificação dos problemas” na abordagem das políticas sociais (CAMPOS, 2003).

Embora a integração estenda as atividades da Jornada Ampliada, que é um componente do PETI, às crianças e adolescentes de famílias beneficiárias de PBF em situação de trabalho infantil, possibilitando sua extensão também para crianças com menos de 7 e até 16 anos oriundas dessas famílias, percebe-se que a complexidade que envolve a categoria trabalho foi simplificada ao fenômeno da pobreza e da miséria.

As dimensões culturais, as limitações dos sistemas educacionais, a distinção do trabalho abstrato e trabalho concreto (discutida no capítulo 1), os aspectos da aprendizagem na valorização do trabalho abstrato e na formação da mercadoria “trabalho” para atendimento do mercado (discutida no capítulo 2), os problemas que envolvem a fiscalização e o combate, comuns à categoria trabalho, com a integração (PETI/PBF), foram submetidas à questão da concentração da riqueza.

Não obstante esta “simplificação” tenha ocorrido, aparentemente, por motivações de ordem financeira, de limites dos investimentos pelo Estado brasileiro, assim como ocorreu de forma ampliada na adoção da Convenção nº 182 da OIT (piores formas de trabalho infantil), em detrimento da Convenção nº 138, que é mais ampla em seus objetivos, o caráter desta postura é também de ordem político-ideológica.

Prevalecem nisso duas concepções. A primeira, de que existem formas e métodos de trabalho para crianças e adolescentes, sob o capitalismo, que são bons, aceitáveis e formadores do caráter, mesmo que sejam essencialmente geradores de trabalho abstrato. E a outra, de que é preciso perpetuar as formas de exploração do trabalho humano e, portanto, da superexploração do trabalho infantil, para valorização ampliada do capital.

Não obstante as considerações feitas até aqui, a integração (PETI/PBF), do ponto de vista da extensão das atividades da Jornada Ampliada para as famílias do PBF, identificadas em situação de trabalho infantil, poderá se transformar num instrumento estratégico importante para

ampliação de atividades que pautam o trabalho infantil a municípios que atualmente não executam o PETI e sequer colocam esta dimensão do trabalho de crianças e adolescentes nas pautas políticas locais ou regionais.

Isso, considerando o fato que todos os municípios brasileiros sejam operadores do PBF, que haverá investimentos novos para ampliação das atividades da Jornada Ampliada do PETI e que, no processo de contratação entre os atores sociais (Estado e famílias), no momento do cadastramento, a ocorrência da situação de trabalho infantil seja identificada.

4 A Criança e o Adolescente na Região Metropolitana de Campinas - RMC