4 INTEGRALIDADE
4.1 Integralidade e as práticas odontológicas
Na verdade, não há como separar uma integralidade “geral” de outra integralidade odontológica, sendo essa separação apenas uma maneira de aprofundar particularidades do campo da odontologia. Entretanto, em uma perspectiva mercadológica, esta divisão torna-se quase uma necessidade, considerando que lógica operacional do mercado de saúde suplementar
estabeleceu esse divisor quando a ANS criou os planos de segmentação ambulatorial/hospitalar e os de segmentação exclusivamente odontológica.
Algumas diferenças entre a segmentação hospitalar e odontológica são bem evidentes, como o custo da mensalidade, onde o valor médio do plano odontológico é bem inferior ao dos ambulatoriais/hospitalares. Outra é em relação à cobertura estabelecida pelos diferentes rois, onde os planos do segmento ambulatorial/hospitalar são contemplados com grande diversidade de coberturas, inclusive procedimentos de alta complexidade, enquanto no rol odontológico da ANS, apesar de incluir procedimentos preventivos, cirúrgicos e restauradores, especialidades chaves para restabelecer o equilíbrio da saúde bucal, ainda não foram incluídos, como a ortopedia funcional dos maxilares, a ortodontia e a reabilitação protética.
O trabalho do cirurgião-dentista é naturalmente fragmentador já que, desde a graduação, o ensino é proposto através de disciplinas que não interagem entre si e a formação profissional está voltada para intervir na doença bucal e não no sujeito. Uma prática clínica integral é desejável para o ideal de equipe de saúde bucal. Há muito a avançar em relação à integralidade inserida nas práticas odontológicas. Seria necessário um processo de ressignificação do ato clínico e depois a ressignificação da relação paciente-profissional74.
Realmente os profissionais odontólogos necessitam de ressignificação, pois em pesquisa realizada recente75 foi observado que, para dentistas de operadoras de planos de saúde, acolhimento e vínculo se restringem apenas a um bom atendimento no consultório. Para esses profissionais, a integralidade é entendida como o fluxo para exames, ou procedimentos de maior complexidade, restritas a ações individuais. Em contrapartida, a pesquisa também revelou que não há incentivo por parte dessas operadoras quanto à participação de profissionais em atividades científicas. Assim, a ressignificação não deve ser apenas dos profissionais, mas das operadoras de saúde também.
Apesar das mudanças ocorrerem lentamente, algumas conquistas foram alcançadas. Enfatiza-se, novamente, uma muito importante que é a publicação das diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal (Brasil, 2004)5, editadas em 2004 que concentram os esforços para uma odontologia voltada para o cuidado e com ações em todos os níveis de atenção. As ações devem ser direcionadas tanto para práticas preventivas, como para práticas assistenciais estabelecendo o
“duplo dever do sistema”, no qual o Estado é o responsável por dar resposta às demandas e às necessidades de ambas as ações58.
A discussão sobre práticas integrais revela a necessidade de transcender à técnica e aos protocolos terapêuticos, mas enxergar o indivíduo com necessidades além da intervenção clínica que trazem consigo todo um histórico de dor e sofrimento até atingir o quadro de edentulismo. Como o quadro epidemiológico da saúde bucal brasileira revela uma verdadeira falência de práticas do passado, frisa-se a necessidade não de apenas direcionar a atenção para o procedimento reabilitador em si, mas analisar profundamente a perda de qualidade de vida e limitações que os edêntulos apresentam.
O modelo hegemônico da Odontologia observado na grande maioria das faculdades e reproduzida no mercado aporta não ao sujeito, mas ao dente. Exemplifica que quando se quer falar de um paciente, frequentemente fala-se do seu molar, do canal, da arcada etc., mas nem mesmo cita-se o nome do paciente, tratando o indivíduo como um caso clínico. Percebe-se que as práticas reducionistas que enxergam o dente, mas não o sujeito, ainda estão muito enraizados no ensino odontológico. Ressalta a necessidade de mudança da formação profissional frente às demandas da população usuária tanto do SUS quanto no sistema complementar76.
Sobre essa ênfase da odontologia atual que valoriza a execução de procedimentos curativos, individualismo e não priorizar o diálogo com o sujeito utilizamos Cecílio77 que discorre sobre as tecnologias leve, leve-duras e duras. Explica que nem sempre é possível hierarquizar e que cada pessoa necessita de uma forma diferente de tecnologia, em cada singular momento que vive. O fato é que a Odontologia ainda enfatiza demasiadamente a tecnologia dura. Certamente, existem épocas da vida em que é mais importante a aplicação de estratégias que envolvem ações preventivas voltadas para tecnologia leve, que contemplam a informação, a orientação do indivíduo, contribuíndo para preservar a saúde bucal. Enquanto no quadro de edentulismo já se configura a necessidade de aplicação de tecnologia dura em outro ciclo de vida do indivíduo, nesse momento, a intervenção clínica e tecnológica é imprescindível, pois a doença já foi instalada.
Existe a necessidade de discutir a abordagem integral do paciente numa sociedade que cada dia produz mais sujeitos fragmentados, e coisas, processos, situações, organizações, políticas, soluções e arranjos cada vez mais fragmentados47. O princípio da integralidade se aplica
a partir da indignação com certas características das práticas então existentes. Como também deve gerar indignação a situação de um usuário que tem seus dentes perdidos por uma doença periodontal avançada e permanece edêntulo porque o serviço não tem como reabilitá-lo para um nível resolutivo de assistência78.
Além da inclusão de um novo procedimento no rol de eventos, é necessário também considerar o acompanhamento dos beneficiários depois de iniciar o tratamento. Então, quando o beneficiário recebe uma prótese removível, não significa que o tratamento está concluído, pois o tratamento iniciado requer monitoramento constante, inclusive com possibilidade de substituição da prótese por outra devido ao desgaste pelo uso. O sucesso dessa intervenção dependerá do vínculo estabelecido entre o indivíduo e o serviço de saúde, considerando que isto cria uma situação de responsabilização envolvendo beneficiários, operadoras e profissionais da saúde.