“A memória é menos presença do passado que escolha do passado, do que uma reconstrução do passado para servir aos fins do presente...”417
3.1- Entre memória e história: A defesa de uma imagem positiva da ditadura
A crítica ao intitulado “revanchismo da esquerda”, como visto, é o meio pelo qual esses intelectuais de direita se colocam nos debates públicos acerca da memória do golpe de 1964 e da ditadura. Ou seja, trata-se de uma estratégia de intervenção no espaço público. Nesse sentido, ao examinar tais discursos, deve-se ter em vista que o argumento, no qual os que defendem uma imagem positiva do regime surgem descritos como vítimas “da história reescrita pelos vencidos na luta armada”, possibilita a Ustra, Passarinho e Olavo Carvalho apresentarem seus testemunhos e ideias como “a verdadeira história do regime civil-militar”. Numa construção em que aparecem como “guardiães da memória, arautos da história”418. Tanto que numa breve passagem pelos títulos que ilustram os trabalhos desses autores não é difícil encontrar entradas como: “A Verdade Sufocada”, “A Esquerda Mitômana”, “A
Verdade incomoda”, “Derrubando a História Oficial”...
Esta é uma narrativa na qual só aqueles que vivenciaram, fizeram e apoiaram o regime, em especial, a luta contra o “perigo vermelho”, no caso de Olavo de Carvalho, daqueles que conhecerem o “outro lado” e se desiludiram sabem e possuem o direito, bem como o dever de contar o que “realmente aconteceu” durante tal período. Eles colocam a história e a historiografia produzida sobre o golpe e a ditadura não somente sob suspeita como sob acusação de serem falaciosas e instrumentos da política. Apesar desse ato de desconfiar das perspectivas críticas à memória não ser um posicionamento apenas das direitas, mas atributo peculiar independente do matiz ideológico dos discursos de memória, ao voltar o
417 LABORIE, Pierre. Op. Cit. 2009, p. 86.
418 A expressão final foi extraída de: ROLLEMBERG, Denise. “Ditadura, Intelectuais e Sociedade: O Bem-
Amado de Dias Gomes”. In: AZEVEDO, Cecília; ROLLEMBERG, Denise; KNAUSS, Paulo; BICALHO, Maria
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olhar para os trabalhos de Passarinho, Olavo de Carvalho e Ustra essa atitude surge como um elemento de suma importância.
Ante uma crescente desvalorização da imagem dos governos civil-militares iniciados após 1964, em que essa fase passou a ser cada vez mais associada aos anos de chumbo, as ideias desses que intitulo como intelectuais de direita foram articuladas de modo a apresentarem suas intervenções nos debates do presente como algo semelhante a um dever de
memória. Tema que nasce historicamente associado à esquerda, baseado na ideia de que as
“reminiscências do sofrimento e opressão geram obrigações, por parte do Estado e da sociedade, com relação às comunidades portadoras dessas memórias”419; o que implica não só
num dever de lembrança e de manter o vivo passado o passado que não passa ao qual se refere Henry Rousso , mas num reconhecimento político e jurídico também420. No entanto, os limites desse dever de memória têm sido constantemente debatidos e apontados por historiadores, ou seja, o risco de tais práticas políticas tornarem-se reguladoras e definidoras de conteúdos para o passado histórico, sancionado por leis. A sacralização da memória. Nessas críticas, o que se está questionando não é o juízo negativo de políticas autoritárias, totalitárias e de abusos de poder por parte do Estado, nem a importância de determinados temas para o estudo do passado, mas sim “as intervenções que as políticas de memória impõem na apreciação de eventos históricos”, pois a imposição legal de uma visão da história transformaria uma memória em valor inconteste, eliminando qualquer possibilidade de discussão421.
Antes de uma análise mais aprofundada, cumpre assinalar que a expressão dever de
memória, cunhada ao longo dos anos 1990, não é utilizada pelos autores em questão. No
419 HEYMANN, Luciana Quillet. Op. Cit./ ROUSSO, Henry; CONAN, Eric. Vichy, un passe qui ne passe pas.
Paris: Fayard, 1994.
420De acordo com Luciana Heymann, a origem da noção dever de memória estaria diretamente ligada ao
processo de ressignificação, ocorrido a partir dos anos 1970, do discurso memorial ligado ao holocausto de milhares de judeus que viviam na França. Enfatizando o caso francês, lembra que nos dias de hoje toda a evocação do passado, no espaço público, parece estar permeado por essa noção. E, prossegue, ressaltando que, apesar de ter surgido num contexto específico, a noção se afastou desse contexto inicial, atraindo novas reivindicações, bem como novos grupos que passaram a pautar tal bandeira; em suma, um debate intenso, cuja a ressonância tem atualizado a reflexão clássica sobre as relações entre história e memória, provocando rediscussões no espaço público, principalmente sobre os limites desse dever memória e sobre o problema de ter como consequência o que Tzvetan Todorov intitulou de abusos de memória. Apesar do caso brasileiro ainda estar distante dessa realidade, a história é, também, posta sob vigilância pela memória; onde muitas tentativas de visitar criticamente certos passados sensíveis é vista de forma suspeita por aqueles que constroem discursos de memórias sobre tais períodos. Cf. HEYMANN, Luciana Quillet. Op. Cit.
421 FERREIRA, Marieta de Moraes; FORTES, Alexandre. “Memórias do PT: As vozes de seus construtores”. In:
FICO, Carlos; FERREIRA, Marieta de Moraes; ARAUJO, Maria Paula; QUADRAT, Samantha Viz. Op.Cit., 2008, p. 295-296.
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Brasil tal termo tampouco compõe o “léxico das políticas públicas voltadas para gestão de
passados sensíveis”, nem a linguagem dos movimentos sociais segundo Luciana Heymann,
estando estes mais próximos do “resgate de memória” e do “dever de justiça”. Mesmo assim, num movimento duplo, nos trabalhos de Ustra, Olavo de Carvalho e Passarinho, se por um lado se apresentam como críticos à dita história oficial do regime civil-militar acusando de serem abusos de memórias as ações públicas, reivindicações, rememoração de determinados temas e medidas ligadas à justiça de transição por outro constroem um discurso em que história e memória se embaraçam, constituindo uma narrativa com função pedagógica. Uma espécie de historia magistra vitae, expressa de maneira que a história verdadeira seja aquela enunciada pelas memórias422.
Decerto outros grupos também se posicionam dessa forma no que concerne à rememoração de tal passado (como no caso da memória da resistência, por exemplo). No entanto, essa memória que Ustra, Olavo de Carvalho e Passarinho buscam sacralizar ˗ através da exaltação do testemunho e da crítica ao “outro” ˗ serve para criticar o presente e através dela enaltecer diversos aspectos do regime ditatorial. Ao analisar as reminiscências de um determinado período (como lembra-nos Pierre Laborie na epígrafe deste capítulo), deve-se considerar que é justamente sob a luz dos questionamentos e flutuações do presente que se articulam e são organizadas as lembranças e esquecimentos bem como os silêncios que estruturam uma determinada memória social; ou seja, sempre “tributária das representações e preocupações do presente”423. Portanto, para essa memória torna-se capital fomentar e manter
determinados silêncios, que perpassam aquilo que pode ou não ser dito, como uma forma de confirmar e contribuir para o esquecimento de determinadas questões do passado, em específico as que remetem à repressão de Estado ˗ como lembra a fórmula do historiador Peter Burke quem quer que quem esqueça o quê e por quê? Também possui a sua contrapartida, ou seja, quem quer que quem lembre o quê e por quê?
Assim, sem perder de vista que na construção da memória social de um determinado período esquecimento e lembrança se coadunam, esse jogo entre visibilidades e invisibilidades, através da crítica aos governos estabelecidos no pós-ditadura ˗ nas palavras de Brilhante Ustra “dos ‘perseguidos’ políticos que chegaram até a presidência”424 tem por
422 Sobre a Historia Magistra Vitae ver em: CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”,
Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, Edição Especial, n. 2, p. 7-36, 2006.
423ROUSSO, Henry. “El Estatuto del Olvido”. In: BARRET-DUCROCQ, Françoise (org.). Op. Cit., 2002, p.80. 424 USTRA, Carlos Alberto Brilhante. Op. Cit. 2007, p.
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função lembrar e ressaltar o que seriam, segundo tais autores, pontos positivos do regime civil-militar; não apenas esquecer ou virar a página como muitas vezes é dito. Mas, para além, silenciar e lembrar. Silenciar para esquecer e para valorizar “o que deve ser lembrado”. Nesse caminho, o objetivo do presente capítulo é analisar qual o lugar da ditadura nesses discursos; tanto nos aspectos que são comuns aos três autores, quanto no que tange ao significado específico que ganha nas narrativas de cada um.
3.2- A nova ordem nacional: A memória positiva da ditadura e a crítica aos governos estabelecidos no pós-regime civil-militar.
Em meados da década de 1980, Passarinho escrevia:
[...] a ‘Nova República’ vai bem... As eleições de novembro próximo serão um complicador a mais, já que os partidos colegiados nessa frágil e fissurada Aliança Democrática, vão pressionar o tesouro público. As nomeações em massa já estão gerando enorme peso sobre as folhas de salário dos Estados e Municípios, para garantir clientelismo eleitoral. Estou, porém, tão otimista quanto o nosso presidente da República, pois creio no Brasil, que se alçou à condição de oitava economia
capitalista do mundo, graças ou a despeito da ‘velha república’425.
Mesmo usando a sentença “a despeito da velha república” é notável a defesa de Passarinho do período do regime civil-militar, mostrando sua importância até como forma de segurar certas fraquezas da ‘Nova República’. Uma prática discursiva que viria a ser comum aos três autores, a saber, a estratégia de cotejar os governos ditatoriais com as administrações políticas estabelecidas após o fim do período de exceção, como uma tentativa não só de relativizar o peso negativo dos crimes decorrentes do Estado ditatorial, mas como uma forma de mostrar e buscar o reconhecimento social das realizações de tal período diante de uma memória, como foi visto, na qual a “ditadura” e o “golpe” eram gradativamente demonizados. Antes de aprofundar a análise, é necessário destacar que tal comparação aparece com mais frequência e clareza nos textos de Jarbas Passarinho, contudo há referências importantes nos trabalhos de Ustra e Olavo de Carvalho. Não se pode perder de vista que as narrativas são articuladas por escolhas subjetivas daqueles que as produzem, sendo assim, existem ênfases e
Título de artigo publicado por Olavo de Carvalho, no jornal “O Globo”. Cf. CARVALHO, Olavo. “A Nova
Ordem Nacional”, O Globo, sábado, 25 de agosto de 2001.
425 BN- PASSARINHO, Jarbas. “A ‘Nova República’ no banco dos réus”, Folha de São Paulo, São Paulo,
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formas diferentes de abordar o mesmo tema. Porém, convém salientar que, nessa primeira parte, trata-se de considerar seus temas em comum, ou seja, analisar o objetivo maior que é legitimar uma imagem positiva da ditadura.
Nesse sentido ˗ no tocante aos argumentos supracitados de Passarinho ˗ cumpre retomar que, na fase em que os escreveu, o Coronel era Senador da base do governo, o que não lhe impedia de fazer esse tipo de comparação entre o regime e os novos governantes, mas seus argumentos eram mais sutis que nos trabalhos que passou a publicar na década de 1990. Assim, em outro texto, prosseguia ressaltando que “o balanço dos resultados entre 64 e 84 mostra[va] claramente uma prevalência dos acertos sobre os erros”426. Mesmo Ustra, cuja
narrativa estava mais voltada para o tema das guerrilhas, citava o período da ditadura como “uma época em que se deram profundas modificações na vida política e socioeconômica”427.
Jarbas Passarinho “lamentava” não poder “incorporar entre as consequências irreversíveis do autoritarismo extinto, um regime democrático estável”, no entanto, mesmo considerando que “a revolução” teria abandonado “sua límpida motivação inicial” que, segundo o autor, “era a defesa dos postulados democráticos” e de “forma traumática se acomodado ao estilo da pax romana”, o coronel tinha por argumento que com o fim do regime autoritário “ficaria de modo irreversível” a “modernização do Brasil, por ser indiscutível a erradicação das estruturas obsoletas ante-64, em praticamente todos os setores da vida nacional”428. Assim, mesmo sem se confrontar com o governo ou tomá-lo como exemplo
direto para afirmar uma superioridade do regime civil-militar, cumpre assinalar que a valorização principalmente da política econômica do período da ditadura era um elemento central, sobretudo num período em que o país se encontrava em crise financeira e o presidente e seus ministros apresentavam profundas dificuldades de saná-las429.
No que tange a tais discursos, um tema privilegiado é a valorização do milagre
econômico brasileiro que, vale destacar, não ficaria retida apenas nos trabalhos de Passarinho
(especialmente). Esse modo de positivar a memória da ditadura e ressaltar determinadas mudanças que ocorreram nesse período prosseguiria ao longo das décadas de 1990 e 2000. Ao
426 BN- PASSARINHO, Jarbas. “A safra dos Aretinos”, Folha de São Paulo, São Paulo, Quarta-feira, 02 de abril
de 1986, Coluna Opinião, p.2.
427 USTRA, Carlos Alberto Brilhante. Op. Cit. 1987.
428 BN- PASSARINHO, Jarbas. “Vitória sobre os radicalismos e demagogias”, Folha de São Paulo, São Paulo,
30 de março de 1985, Sábado, Caderno Opinião, p. 3.
429 SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. “Crise da ditadura militar e o processo de abertura política no Brasil,
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propor uma análise do Golpe de 1964 e do regime que se estabeleceu, Olavo de Carvalho afirmava:
[...] em 1964, o número de pessoas que viviam na miséria, que viviam com menos de um salário mínimo neste país era de sessenta por cento da população nacional. Quando terminou o regime militar, eram vinte e poucos por cento. Ou seja, esse regime [...] conseguiu tirar da miséria quarenta por cento da população brasileira430.
No bojo dessa defesa, seguia questionando:
Será que estamos todos dormindo? Será que não percebemos as coisas? Será que perdemos o senso das proporções? Digam-me vocês: Qual o regime do século XX, qual o plano econômico, por mais genial que fosse, seja o Plano Qüinqüenal de Stálin ou o New Deal de Roosevelt ou qualquer outro, que conseguiu retirar da miséria e deu condições de vida humana a 50 mi1hões de pessoas no prazo de uma geração? Quem fez isso?
Para situar estes argumentos torna-se importante destacar, como o fez Maria Hermínia Tavares de Almeida e Luiz Weis, que se por um lado o “milagre brasileiro” ocorrera no período de maior repressão do regime (a década de 1970) que foi “por excelência tempo da tortura, dos alegados desaparecimentos e das supostas mortes acidentais”, por outro fora “para a classe média, o período de melhorar de vida”. O autoritarismo foi assim amparado por um surto de organização da economia, que multiplicou oportunidades de trabalho e permitiu a ascensão de amplos setores médios. Portanto ˗ entre “carro-zero e pau-de-arara” ˗ recuperar a memória do “festejado milagre econômico” significava trazer à baila um período em que o regime triunfava, em que a “oposição da classe média estava ao mesmo tempo sob o chicote e o afago”. Ou seja, pode ser considerada uma forma eficaz de relativizar a questão dos crimes, dos anos de chumbo e mostrar o lado positivo do regime431.
Ao cotejar o governo do presidente Lula com os governos estabelecidos durante o regime civil-militar, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra ressaltava:
Na economia, o Ministro da Fazenda, Antônio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto e ex-militante de uma organização trotskista, dando continuidade à política do governo anterior, manteve a inflação em níveis razoáveis [...]. Entretanto,
430CARVALHO, Olavo de. Reparando uma Injustiça Pessoal, Discurso proferido no Clube Militar, em 31 de
março de 1999. Disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/textos/reparando.htm. Acessado em: 06/01/2012 às 15:00.
431 ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de; WIES, Luiz. “Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de
classe média ao regime militar”. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (org.). A História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Cia das letras, 1998, p.332.
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a queda do dólar, os juros altos e o fraco desempenho da agropecuária derrubaram a economia. O Produto Interno Bruto de 2005 (PIB) cresceu apenas 2.3%. Na América Latina o resultado superou apenas o do conturbado Haiti que, apesar de tudo, cresceu, 1.5%. [...]. No tão criticado regime militar, principalmente no governo de Médici, o crescimento da economia chegou a 11.9%. A média do período foi 9% ao ano432.
Desse modo, se o milagre econômico tem lugar relevante nessa construção de memória, outros dois tópicos dividiriam com este tema como já parcialmente enunciado na citação de Brilhante Ustra o espaço e lugar de valorização nos discursos desses intelectuais, qual seja, tratam-se dos governos dos presidentes Médici e Castelo Branco. Num primeiro olhar sobre os trabalhos desses intelectuais de direita não é difícil encontrar referências variadas aos presidentes citados. Como nas palavras de Ustra, ao referir-se a Médici:
Médici enfrentou o auge das atividades terroristas e combateu-as com determinação. [...] Por essa razão as esquerdas, hoje, realizam forte orquestração associando o seu nome à imagem de um tirano cruel que perseguia aqueles que combatiam a sua ditadura. Jamais se permitiram admitir que Emílio Garrastazu Médici foi um dos melhores presidentes que já tivemos433.
Olavo de Carvalho lembrava que, mesmo estando em 1964 ao lado da esquerda, no tocante ao regime civil-militar “nunca pensou em negar suas realizações mais óbvias”, entre essas, associava a imagem de Castelo Branco o qual tinha por “um homem justo e um grande presidente” que, nos termos do autor, “demolira o esquema político comunista sem sufocar as liberdades públicas”434. E, advertia, “muito menos houve, nessa época, qualquer violência
física, exceto da parte dos comunistas”.
No que tange a Médici, mudando um pouco do argumento de Ustra, considerava que “foi o melhor administrador que já tivemos apesar de mau político”435. Num tom semelhante
aos dois autores, Passarinho rememora o “movimento de 1964” pondo ênfase na figura do presidente Castelo Branco ao afirmar que “diferentemente de muitos grupos golpistas contrários a João Goulart”, “o movimento de Castelo Branco conta[va] com uma liderança competente e a perspectiva de amplo apoio”. No que concerne a Médici, Jarbas Passarinho ressaltava que o ex-presidente “resistiu até a última hora a aceitar a indicação para suceder à
432 USTRA, Carlos Alberto Brilhante. Op. Cit. 2007, p. 527-528. 433 USTRA, Carlos Alberto Brilhante. Op. Cit. 2007, p. 484.
434CARVALHO, Olavo. “Resumo do que penso sobre 1964”. Disponível em:
http://www.olavodecarvalho.org/textos/resumo_1964.htm. Originalmente publicado em: Bah!(Jornal
Universitário Gaúcho), maio de 2004. Visto em: 25/10/2011 às 15:16
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Costa e Silva”, contrapondo que “retratado pela esquerda como intolerante ditador, exigiu a reabertura do congresso”, e, continuava, ao ressaltar que “tido como cruel e sanguinário, dele jamais partiu a ordem para a prática da crueldade”; nas palavras do autor, Médici “assumiu, sim, perante a história o alto preço de haver, no seu governo, desbaratado a esquerda armada”436.
Assim, nessa construção, o primeiro tinha a imagem ligada à “contrarrevolução”, ao
moderado, cuja imagem evoca, nas palavras de Passarinho, “a límpida motivação inicial da
contrarrevolução”. O nome de Castelo Branco é associado, nesses discursos, ao que seria o imediatismo do movimento de 1964, ou seja, como uma resposta à investida da esquerda, e a ideia de que o regime fora democrático desde o início, com o apoio do povo e, desse modo, um governo legítimo que o regime autoritário só teria se instalado após o AI-5. Como forma de corroborar com essa construção, Passarinho voltava ao ano de 1955, quando Juscelino Kubitshek quase foi impedido de tomar posse, para lembrar que Castelo, à frente da ECEME, “em preleção aos seus comandados, pregava o afastamento dos militares da política”437. Já
Olavo de Carvalho lembrava que o general, em 1963, “fez um discurso alertando seus companheiros para o perigo da proliferação de organizações paramilitares, que num momento de crise poderiam usurpar as Forças Armadas”, advertência, de acordo com Carvalho, “feita no plural, sem mencionar cor ideológica”438; tanto a esquerda quanto a direita.
Se Castelo representava a “contrarrevolução”, Médici era o homem cuja marca foi a luta contra o chamado terrorismo. Como citado anteriormente, o período Médici representa