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Inteligência Emocional em Contexto Educativo

No documento UNIVERSIDAD DE GRANADA (páginas 172-177)

Anexos

Capítulo 1 – O contexto do ensino superior

3. Inteligência emocional

3.7. Inteligência Emocional em Contexto Educativo

Os conflitos entre a razão e as emoções são frequentes e podem ter graves consequências no ser humano. Saber gerir estes conflitos não é tarefa fácil e os indivíduos que apresentam competências neste domínio distinguem-se das demais pessoas por serem sãos tanto a nível físico como mental, assim como por estarem melhor integrados no seu meio social e profissional (Extremera e Berrocal, 2003a).

Extrema e Berrocal, (2003a) referem que, apesar das reduzidas investigações em torno da inteligência emocional, sobretudo numa perspectiva científica, têm sido notáveis as influências da inteligência emocional em diferentes âmbitos de acção, pois alguns dados empíricos evidenciam as vantagens de possuir adequados níveis de inteligência emocional. Neste sentido, vários autores consideram que a inteligência emocional pode ter importantes implicações em diferentes domínios da vida quotidiana nomeadamente no âmbito clínico, organizacional e educacional.

Particularmente no contexto educativo a inteligência emocional surge como uma ferramenta bastante útil pois integra uma nova perspectiva de ensino, não exclusiva à razão mas, igualmente, atenta à emoção. Assim, esta nova abordagem constitui um duplo contributo tanto para os professores como para os alunos (Pérez, s.d.).

Extremera e Berrocal, (2004) defendem que é importante desenvolver habilidades emocionalmente inteligentes no contexto educativo essencialmente por dois motivos:

1) Porque as aulas são um modelo de aprendizagem sócio-emocional adulto de grande impacto para os alunos;

2) Porque a investigação demonstra que adequados níveis de inteligência emocional ajudam a enfrentar com sucesso as adversidades do dia-a-dia e o stress laboral que os professores têm de enfrentar no contexto educativo.

São assim notáveis duas perspectivas que destacam a importância da inteligência emocional no contexto educativo, uma do ponto de vista dos

professores enquanto indivíduos e outra do ponto de vista dos professores enquanto educadores / promotores de conhecimento.

No que respeita aos docentes enquanto indivíduos, a ênfase dada remete para os inúmeros desafios que os professores têm de enfrentar diariamente.

Factor este que faz com que a docência seja uma das actividades profissionais que apresenta uma elevada percentagem de problemas como burnout, stress, ansiedade, depressão, entre outros. Estes transtornos de saúde mental podem agravar-se com o aparecimento de diferentes alterações fisiológicas nomeadamente insónias, úlceras e enxaquecas que surgem em consequência do stress profissional. Extremera e Berrocal, (2004) agrupam alguns dos factores que contribuem para o mal-estar dos docentes em três grandes grupos:

1) Factores de contexto organizacional e social, onde destacam a sobrecarga de trabalho, a instabilidade da própria profissão, as pressões de tempo, a escassez de recursos, entre outros;

2) Factores inerentes à relação educativa como, a indisciplina e o mau comportamento dos alunos, a falta de motivação para aprender, o elevado número de alunos por turma, bem como a falta de compreensão e entreajuda entre os colegas de trabalho;

3) Factores pessoais e individuais relacionados com variáveis intrínsecas aos professores que influenciam e contribuem para a vulnerabilidade ao stress docente nomeadamente a experiência docente, a auto-estima, o estilo atribucional e as características de personalidade (Doménech, 1995; Valero, 1997, cit in Extremera e Berrocal, 2004).

As consequências desta situação podem manifestar-se a vários níveis uma vez que, além de afectarem o docente, pelo mal-estar psicológico e pela deterioração das suas relações sociais, afecta a organização na qual trabalha devido ao consequente absentismo, baixa profissional ou até mesmo ao abandono da própria instituição e, por último, afectam os alunos quando estes estão expostos a um serviço de baixa qualidade no âmbito da sua educação e/ou formação profissional (Extremera e Berrocal, 2004).

Neste contexto, torna-se premente o desenvolvimento de habilidades de inteligência emocional junto dos docentes, pois estas comportam benefícios para o bem-estar dos professores, principalmente a nível preventivo.

Os docentes emocionalmente inteligentes que apresentam, portanto, uma maior capacidade para perceber, compreender e para regular as suas emoções e as dos outros, estarão dotados dos recursos necessários para enfrentar melhor os acontecimentos stressantes de âmbito profissional e para gerir, de forma adequada, as respostas emocionais negativas que frequentemente surgem com as interacções que se mantêm com os colegas de trabalho, com os pais e, inclusivamente, com os próprios alunos (Extremera e Berrocal, 2004).

As estratégias e habilidades emocionais básicas podem servir como factor protector para eliminar ou diminuir os problemas sentidos pelos professores, principalmente quando evidências empíricas sugerem que altos níveis de inteligência emocional se relacionam com (Extremera e Berrocal, s.d.):

Maior eficácia para responder ao ambiente social e conseguir apoios sociais mais efectivos;

Maior propensão para desenvolver estratégias mais adaptativas nomeadamente ao nível da resolução de problemas;

Menor sintomatologia depressiva e ansiosa, assim como um melhor ajustamento psicológico e uma maior realização pessoal;

Melhor qualidade de serviço prestado num trabalho e maior dedicação e energia.

Depreende-se assim, que o desenvolvimento da inteligência emocional nos professores pode trazer um grande contributo para estes profissionais e, a longo termo para a sociedade uma vez que, muito resumidamente, ser emocionalmente inteligente diminui o desgaste psicológico e facilita o desempenho profissional.

No caso concreto dos docentes enquanto educadores, vários autores defendem que os professores deveriam possuir habilidades emocionais assumindo, simultaneamente, um papel de “educador emocional”. Neste sentido, um contexto escolar dotado de “educadores emocionais” configurar-se-ia como um espaço privilegiado de socialização emocional e o professor seria um

importante modelo promotor de atitudes, comportamentos, emoções e sentimentos para os seus alunos (Extremera e Berrocal, 2004).

Os professores são, assim, perspectivados como um modelo de inteligência emocional insubstituível que, além de dotar os alunos de conhecimentos teóricos e de valores cívicos, pode modelar e ajustar o perfil afectivo e emocional dos seus alunos. Extremera e Berrocal (2004), parafraseando alguns investigadores referem que na prática docente se encontram implícitas algumas actividades como: a estimulação afectiva e a expressão regulada dos sentimentos positivos e negativos; a criação de ambientes que desenvolvam as capacidades sócio-emocionais e a solução de conflitos interpessoais; a exposição a experiências que requerem estratégias emocionais; e por último, o ensino de habilidades empáticas que ensinam o aluno a saber prestar atenção, saber ouvir e a compreender os diferentes pontos de vista.

Apesar de tudo, esta tarefa não está facilitada para os professores pois, tal como preconizam Abarca et al. (2002, cit in Extremera e Berrocal, 2004) os docentes não dispõem de formação adequada, nem de meios suficientes para promover estas habilidades e, muitas vezes, carecem eles próprios de competências afectivas e emocionais. Desta forma, a educação emocional em voga consiste basicamente, em discursos morais aos quais os alunos respondem de forma passiva. No entanto, as sociedades e os órgãos de educação começam a estar mais conscientes da necessidade de um currículo específico que promova conteúdos emocionais onde os alunos possam cultivar a sua inteligência emocional descobrindo a diversidade emocional; estimulando a sua percepção e compreensão dos sentimentos próprios e dos outros; observando como os sentimentos motivam diferentes comportamentos; percebendo a transição de um estado emocional a outro, estando conscientes da possibilidade de sentir emoções contraditórias e descobrindo como outras pessoas resolvem os seus conflitos ou dilemas pessoais.

Deste modo, o principal objectivo que se pretende alcançar com a prática da inteligência emocional, tanto nos alunos como nos professores, é que aprendam a transferir, a cuidar e a gerir as emoções do seu dia-a-dia; aprendam

a reconhecer e a compreender os sentimentos dos demais alunos e professores, sendo empáticos com as emoções dos outros e, finalmente, que regulem o seu próprio stress ou mal-estar enfrentando e resolvendo sem recorrer à violência ou a outros comportamentos desajustados (Pérez, s.d.).

Berrocal e Ramos (2004, cit in Extremera e Berrocal, 2004) consideram que a inteligência emocional pode funcionar como um pilar para o desenvolvimento de competências mais complexas. Neste sentido, seria pertinente desenvolver as habilidades básicas de inteligência emocional nomeadamente a percepção, assimilação, compreensão e a regulação emocional, que integram o modelo de Mayer e Salovey, pois desenvolver a habilidade básica para reconhecer as emoções nos outros ajuda a fomentar competências para uma resolução eficaz dos conflitos; do mesmo modo, a capacidade de assimilar um estado emocional e integrá-lo no pensamento pode modificar a perspectiva face aos problemas e estimular à partilha de pontos de vista ou a uma reavaliação das situações melhorando assim, a resolução de problemas; por outro lado, a compreensão emocional revela-se útil para um melhor entendimento das dificuldades e sacrifícios que precisam ser ultrapassados para alcançar um objectivo e permite antever as consequências que daí podem advir; finalmente, com a regulação das emoções negativas e a gestão das positivas facilita-se o desenvolvimento de competências mais complexas relacionadas com a tolerância á frustração ou a assertividade. Compreende-se assim, que as habilidades que integram o conceito de inteligência emocional proposto por Mayer e Salovey são de grande utilidade para enfrentar as situações de conflito pessoal e interpessoal bem como, para o desenvolvimento integral do aluno.

Apesar destas acepções serem, de certa forma recentes, vários autores entram em consenso ao defender que a educação emocional deveria estar incluída nas diferentes áreas curriculares, não enquanto conteúdo de aprendizagem mas sim enquanto estilo educativo do docente. Desta forma, caberia ao professor, além do seu papel convencional, o papel de transmitir modelos emocionais adequados nas interacções que ocorrem dentro da sala de aula desenvolvendo nos alunos a capacidade de tomar decisões por si mesmos, nas suas situações particulares.

Pérez (s.d.) enuncia alguns benefícios que se podem alcançar com a integração da inteligência emocional no contexto educativo nomeadamente:

Aumento das relações interpessoais satisfatórias;

Diminuição de pensamentos auto-destrutivos;

Melhor auto-estima;

Menor conduta anti-social;

Menor número de expulsões da sala de aula;

Diminuição do consumo de álcool, tabaco, drogas, entre outros;

Melhor adaptação escolar, social e familiar;

Diminuição da ansiedade e do stress;

Diminuição dos distúrbios alimentares.

Na actualidade há uma maior consciência ao assumir que uma adequada formação deve contemplar o desenvolvimento intelectual mas também o potencial emocional, afectivo e social através de um currículo educativo integrador e realista que satisfaça as necessidades de um mundo em constante mutação (Extremera e Berrocal, 2003a). As evidências empíricas notabilizaram os contributos da inteligência emocional no contexto educativo ao ressaltar que, altos níveis de inteligência emocional ajudam na prevenção de comportamentos problema (agressivos ou aditivos); contribuem para um bom ajustamento psicológico e saúde mental; melhoram as relações interpessoais tanto em quantidade como em qualidade e aumentam o rendimento académico (Extremera e Berrocal, s.d.), em suma, pode-se considerar que a inteligência emocional pode constituir uma poderosa ferramenta na construção de sociedades mais saudáveis.

No documento UNIVERSIDAD DE GRANADA (páginas 172-177)