INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO
3. Intensificação do trabalho e mais-valia relativa
Nesse item, trataremos da relação entre intensificação do trabalho e mais-valia relativa. Tentaremos demonstrar aqui que, diferentemente do que defendem alguns estudiosos, sob determinadas condições, a elevação da intensidade do trabalho pode ser vista como um mecanismo produtor de mais-valia relativa, e não absoluta. Mas para que esse argumento possa ser de fato compreendido é preciso, antes de tudo, se fazer uma breve digressão em torno do conceito de mais-valia. De acordo com Marx (2013):
A extensão da jornada de trabalho além do ponto em que o trabalhador teria produzido apenas um equivalente do valor de sua força de trabalho, acompanhada da apropriação desse mais-trabalho pelo capital – nisso consiste a produção do mais-valor absoluto230. Ela forma a base geral do sistema capitalista e o ponto de partida da produção do mais-valor relativo. Nesta última, a jornada de trabalho está desde o início dividida em duas partes: trabalho necessário e mais-trabalho. Para prolongar o mais-trabalho, o trabalho necessário é reduzido por meio de métodos que permitem produzir em menos tempo o equivalente do salário. A produção do mais-valor absoluto gira apenas em torno da duração da jornada de trabalho; a produção do mais-valor relativo revoluciona inteiramente os processos técnicos do trabalho e os agrupamentos sociais (MARX, 2013, p. 578).
Como pudemos perceber, a obtenção de mais-valia absoluta é conseguida, basicamente, prolongando a jornada de trabalho para além do limite em que o trabalhador reproduz o valor de sua força de trabalho. Em outras palavras, se obtém mais-valia absoluta prolongando o tempo de trabalho excedente e mantendo inalterado o tempo de trabalho socialmente necessário para a reprodução do trabalhador. Para tanto, não é necessário que o capital altere profundamente a estrutura produtiva, isso é, o capital utiliza as condições técnicas previamente existentes na sociedade, apoderando-se do processo de trabalho tal como ele se apresenta na realidade.
Mas e a mais-valia relativa? Em que se diferencia da absoluta? Como nos explicam Arteaga Garcia e Sotelo Valencia (1980):
Ahora partimos de una jornada normal para explicar la forma en que se obtiene la plusvalía relativa. Esta consiste fundamentalmente, al contrario de lo que sucede con la plusvalía absoluta, en reducir la magnitud correspondiente al tiempo socialmente necesario, permaneciendo constante, no el tiempo de trabajo excedente cuya magnitud aumenta, sino la magnitud absoluta de la jornada de trabajo. La comparación nos permite ver, gráficamente, la diferencia que existe entre ambas as formas de extracción de plusvalía (ARTEAGA GARCIA e SOTELO VALENCIA, 1980, p. 10).
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É necessário mencionar aqui que na presente tese é utilizada a edição de O capital produzida em 2013 pela Boitempo, e nessa edição, o conceito de “mais-valia” é traduzido como “mais-valor”.
Figura 10: Representação gráfica: diferença entre mais-valia absoluta e mais-valia relativa. Fonte: ARTEAGA GARCIA e SOTELO VALENCIA, 1980, p. 11.
O que importante destacar aqui é que a mais-valia relativa é obtida mediante a conversão do tempo de trabalho que o trabalhador destina a sua reprodução em tempo de trabalho excedente não remunerado o qual, por sua vez, é apropriado pelo
capitalista231. Contudo, para conseguir a conversão do tempo de trabalho necessário em excedente, não basta que o capital se apodere do processo de trabalho tal como encontra na realidade – como ocorre com a mais-valia absoluta - já que é necessário revolucionar as condições técnicas e sociais do processo de trabalho. Nas palavras de Marx (2013):
É preciso, portanto, que ocorra uma revolução nas condições de produção de seu trabalho, isto é, em seu modo de produção e, assim, no próprio processo de trabalho. Por elevação da força produtiva do trabalho entendemos precisamente uma alteração no processo de trabalho por meio da qual o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de uma mercadoria é reduzido, de modo que uma quantidade menor de trabalho é dotada da força para produzir uma quantidade maior de valores de uso. Assim, enquanto na produção de mais- valor, na forma até aqui considerada [mais-valor absoluto], o modo de produção foi pressuposto como dado, para a produção de mais-valor por meio da transformação do trabalho necessário em mais-trabalho é absolutamente insuficiente que o capital se apodere do processo de trabalho tal como ele foi historicamente herdado ou tal como ele já existe, limitando-se a prolongar sua duração. Para aumentar a produtividade do trabalho, reduzir o valor da força de trabalho por meio da elevação da força produtiva do trabalho e, assim, encurtar parte da jornada de trabalho necessária para a reprodução desse valor, ele tem de revolucionar as condições técnicas e sociais do processo de trabalho (...) O mais-valor obtido pelo prolongamento da jornada de trabalho chamo de mais- valor absoluto; o mais-valor que, ao contrário, deriva da redução do tempo de trabalho necessário e da correspondente alteração na proporção entre as duas partes da jornada de trabalho chamo de mais-valor relativo (MARX, 2013, pp. 389-390) [grifo nosso].
Mas, nunca é demais lembrar que, diferentemente do que muitos imaginam, uma maior capacidade produtiva do trabalho (maior produtividade do trabalho) não assegura, automaticamente, um aumento na mais-valia relativa. Isso só acontece se esse aumento da capacidade produtiva incidir nos ramos industriais produtores de mercadorias destinadas ao fundo de consumo dos trabalhadores ou nos meios de produção para fabricá-los, já que quando isso ocorre, é possível se reduzir o valor da força de trabalho e encurtar a parte da jornada representada pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a reprodução do trabalhador, permitindo, portanto, o aumento do tempo de trabalho excedente. Como lembra Marx (2013):
231 “Ao prolongamento do mais-trabalho corresponderia o encurtamento do trabalho necessário, ou, em
outras palavras, a parte do tempo de trabalho que o trabalhador até agora utilizava para si mesmo é convertida em tempo de trabalho para o capitalista. A mudança estaria não na duração da jornada de trabalho, mas em sua divisão em trabalho necessário e mais-trabalho” (MARX, 2013, p. 387).
Para reduzir o valor da força de trabalho, o aumento da força produtiva tem de afetar os ramos da indústria cujos produtos determinam o valor da força de trabalho, portanto, aqueles ramos que ou pertencem ao círculo dos meios de subsistência habituais, ou podem substituí-los por outros meios (...) a queda no valor da força de trabalho também é causada por um aumento na força produtiva do trabalho e por um correspondente barateamento das mercadorias naquelas indústrias que fornecem os elementos materiais do capital constante, isto é, os meios e os materiais de trabalho para a produção dos meios de subsistência. Em contrapartida, nos ramos de produção que não fornecem nem meios de subsistência nem meios de produção para fabricá-los, a força produtiva aumentada deixa intocado o valor da força de trabalho (MARX, 2013, p. 390).
Em síntese: a mais-valia relativa está indissoluvelmente ligada à desvalorização dos bens-salário e à diminuição do valor da força de trabalho e do tempo de trabalho socialmente necessário à reprodução do trabalhador, para o qual contribui, em geral, mas não necessariamente, a produtividade do trabalho (MARINI, 1973). E aqui chegamos ao ponto principal de nossa argumentação. Como vimos, no início dessa seção defende-se a ideia de que, sob determinadas condições, a elevação da intensidade do trabalho – da mesma forma como a elevação da produtividade do trabalho - também pode ser vista como um mecanismo produtor de mais-valia relativa232. Mas como isso ocorre, afinal?
Como já explicado no presente capítulo, da mesma forma como ocorre com o aumento da produtividade, quando o aumento da intensidade do trabalho está generalizado para todos os ramos produtivos, incidindo, inclusive nos ramos produtores de bens-salário e nos meios de produção para fabricá-los, ele consegue reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário à produção das mercadorias, e, portanto, diminuir o valor das mesmas. Assim, ao desvalorizar os bens-salário, se consegue diminuir o valor da força de trabalho, e, portanto, o tempo de trabalho socialmente necessário à reprodução do trabalhador, ao mesmo tempo em que se aumenta o tempo de trabalho
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Essa ideia também é defendida por outros autores, como Araujo (2012). Para o autor: “A intensificação do trabalho é considerada por grande parte dos estudiosos marxistas como um método de produção de mais-valia absoluta. No entanto, uma leitura mais atenta de algumas passagens de Marx permitiria mostrar que esse método de produção de mais-valia opera de forma semelhante ao aumento da produtividade do trabalho” (ARAUJO, 2012, p.1). E mais a frente, o autor conclui: “Para além dessas diferenças, sobressai o elemento comum aos dois métodos, que consiste na redução do trabalho necessário, o que nos leva a identifica-los como formas de produção de mais-valia relativa. Embora grande parte dos autores marxistas argumente que a intensificação constitui uma forma de mais-valia absoluta, assimilando-a completamente a um prolongamento da duração do trabalho ...” (ARAUJO, 2012, p. 5).