CAPÍTULO 2 – ESTADO DA ARTE DA DESTINAÇÃO FEDERAL, OS
2.1 INTER-RELAÇÃO E SINERGIA NAS ETAPAS DA COMPENSAÇÃO AMBIENTAL
Antes de iniciar uma análise da etapa de destinação da CA federal, objeto deste trabalho, faz-se necessário entendermos algumas das possíveis relações entre esta e as outras duas etapas – valoração e execução dos recursos. Afinal, por se tratar de processo administrativo complexo, burocrático e de longa duração, medidas tomadas nas etapas iniciais refletirão no sucesso das subsequentes, ao passo que informações sobre resultados alcançados nas finais podem retro alimentar e melhorar as primeiras. Bem como deve haver sinergia entre as etapas, para que confluam em fim comum, qual seja – o de tornar o instrumento da CA cada vez mais efetivo em compensar danos ao meio ambiente; uma vez que, apesar de serem complementares, em âmbito federal são realizadas concomitantemente por pessoas diferentes, em instituições diferentes.
A Tabela 3 (abaixo) apresenta uma matriz de relações, com algumas considerações de como uma etapa pode influenciar a outra.
Este exercício de pensar como uma etapa influencia na outra, permite fazer a seguinte reflexão: apenas com a adoção de metodologia efetiva de valoração de dano, necessária e urgente para adequar a CA à decisão do STF, é que se poderá alcançar maior sinergia e coordenação entre elas. Afinal, o mesmo componente “ambiental” utilizado para valorar os danos do empreendimento, estará também presente nas etapas subsequentes: na destinação – ao compor critérios de escolha de UCs que poderão ser beneficiadas (Unidades que possuam a mesma fitofisionomia danificada pelo empreendimento, por exemplo); e na execução, priorizando gastos com a celeridade necessária para conter ameaças e ajudar a gestão no cumprimento dos objetivos de conservação da área protegida.
Quadro 3. Matriz de relações entre as etapas da CA federal.
Matriz – de que forma uma etapa pode afetar a outra
VALORAÇÃO
DESTINAÇÃO
EXECUÇÃO
V
A
L
O
R
A
Ç
Ã
O
Como é feita hoje, calculada de acordo com o Dec. 6.848/08 com aplicação do GI de 0,5% sobre o VR, traz maior objetividade, o que evita questionamentos por parte dos empreendedores, mas continua em desacordo com a decisão do STF na ADI nº 3378.
Aumento ou diminuição do volume de
recursos de CA, disponíveis para
destinação, a depender da metodologia de valoração adotada. Seria necessário avaliar se a adoção de efetiva valoração dos danos implicaria em valores maiores ou menores que a utilização do GI x VR. Neste caso, os critérios de destinação para as UCs poderiam ser alterados para trazerem relação direta com os adotados na valoração. Ex.: se uma mineração causará dano a um rio e este possui suas nascentes em determinada UC. O valor do cálculo para este impacto específico poderia ser integralmente destinado àquela Unidade.
Aumento ou diminuição do volume de recursos de CA, disponíveis para a execução, a depender
da metodologia de
valoração adotada. Se modificada com a utilização de
uma metodologia robusta de
valoração de danos, atenderia a
decisão do STF e evitaria
incongruências trazidas pela falta de relação entre o dano ambiental e o custo de implantação da atividade.
D
E
S
T
IN
A
Ç
Ã
O
Retroalimentação de informações. Em um cenário de adoção demetodologia de valoração de danos, com integração dos critérios de valoração com a destinação, espera- se que esta se torne cada vez mais equitativa e efetiva ao alocar recursos onde mais são percebidos os danos.
A adoção de critérios mais objetivos na escolha das UCs e nas ações previstas no Dec. 4.340/2002 podem trazer maior efetividade
para o SNUC, evitar
questionamentos por parte da sociedade quanto a eventuais “injustiças” na partição dos recursos, gerando uma distribuição mais equitativa e sistêmica, evitando destinações enviesadas “anti-federativas” e eivadas de motivações políticas.
A destinação ausente de:
alinhamento estratégico
institucional, diretrizes,
priorização de ações e
planejamento prévio de gastos;
refletirá diretamente na
efetividade da execução, ou seja, no quanto de conservação é gerado com cada real destinado àquela UC. Exemplos não faltam de UCs abarrotadas de recursos
que, não têm demanda ou
capacidade de execução.
E
X
E
C
U
Ç
Ã
O
Retroalimentação de informações, avaliação e monitoramento. Num cenário de adoção de metodologia de valoração de danos, a efetividade da execução, com ganho real emconservação, poderá ensejar
adequações nos critérios de cálculo utilizados na valoração. Ex.: se houve uma execução rápida e efetiva
de recursos destinados para
regularização fundiária com
recuperação e regeneração de APPs em matas ciliares de um rio em determinada UC, que tenha gerado melhora no quadro de assoreamento existente; ao licenciar um novo empreendimento na mesma região, o órgão licenciador poderá levar o montante de valores gastos e seus resultados, para a composição da
valoração de danos futuros,
refinando a metodologia.
Quanto mais se executa mais se pode destinar. No entanto, a simples análise quantitativa não é suficiente, é necessário realizar análises qualitativas, de custo- efetividade, por exemplo. A possibilidade de destinação deveria guardar estreita relação com a capacidade de execução, se não, como temos visto em âmbito federal, órgãos de controle de contas, como o TCU, podem, e já questionaram, a acumulação de recursos de CA em caixa com baixíssima taxa de execução (vide PINTO, 2013 e Acórdãos TCU nº 2650/2009 e 1853/2013) Também retroaliementa a destinação ao verificar o alcance de resultados planejados, a constante adequação de prioridades de destinação e a revisão de critérios de escolha de UCs e ações.
Se mantida com está em
âmbito federal: a
execução através de
aporte em contas
executadas pelo órgão gestor; continuaremos
onerando a máquina
pública com uma
obrigação originalmente
imposta ao
empreendedor. Ao passo que as parcerias com instituições do terceiro setor poderiam aumentar
a capacidade de
execução em favor das UCs, como ocorre com a execução via sistema on- line implementado pelo FUNBIO, por exemplo. Fonte: Elaborado pelo Autor.