CAPÍTULO II: LITERATURA: UMA ATIVIDADE DE NATUREZA
3.2 Relatos de uma observação na educação escolar com crianças: mediações
3.2.3 Interação mediada: discutindo temas emergentes relacionados aos Direitos
Conforme Smith (1999), a sala de aula deve ser o lugar onde ocorrem as atividades de leitura (e escrita) significativas, onde é possível a participação ativa dos alunos, sem que nenhuma criança seja excluída. Dessa forma, de acordo com Colomer e Camps (2002), o professor deve conhecer as ideias de seus alunos em relação àquilo que se propõe ensinar, tanto para poder descobrir se possuem apoios conceituais suficientes para incorporar os novos conhecimentos, como para tentar entender sua forma de proceder e de interpretar o escrito, visando a favorecer a evolução positiva desses conceitos no desenvolvimento das aprendizagens.
Tendo em vista as afirmações desses autores, o momento da pré-leitura (que envolve a ativação de conhecimentos prévios, construção de previsões) apresentado por Graves e Graves (1995), na experiência de leitura com andaime, foi planejado de forma a motivar as crianças para a leitura do texto literário escolhido, despertando a curiosidade, ativando conhecimentos sobre o tipo/gênero de texto a ser lido, sobre o tema do texto a ser lido, sobre o autor do texto, explorando os índices textuais (ilustrações, título) e, principalmente, fazendo previsões através de formulação de questões, pois, se ler é um processo de interação entre um leitor e um texto, antes da leitura podemos estabelecer previsões sobre o texto com os alunos, para que essa interação seja a mais produtiva possível.
Sendo assim, para compreendermos como aconteceram as aulas transdisciplinares, apresentamos, antes da análise dos episódios de discussão (das obras escolhidas), a sistemática de como foi organizada, planejada cada aula, utilizando o texto literário para discussão das temáticas emergentes relacionadas aos Direitos Humanos.
Iniciemos a nossa análise com o texto literário Malala – uma menina muito corajosa.
Quadro 03 Mês: Out
Conteúdo: Gênero/Direitos de Infância
Pré-leitura: Você gosta da escola onde você estuda? A escola é um lugar bom para fazer o quê? Será que todas as crianças podem ir à escola, frequentar uma escola? Todas têm esse direito?
Entregar o globo terrestre (bola mundo) para o grupo, sentado no chão em círculo, para passar de um para outro;
Quando a música parar, uma das questões é respondida pela criança: Onde vivo tem: Exemplo: hospital? árvores? escolas?
Depois de o globo do mundo ter passado nas mãos de todos, a conversa continua: nós vivemos em um país chamado Brasil, encontre no globo nosso país.
Mas nossa história não acontece no Brasil. Quem quer dar um palpite de onde acontece nossa história? Nossa história acontece num país chamado Paquistão. Ele fica bem aqui. Perto da Índia.
O que vocês acham que essa história conta?
Leitura/Recurso: Apresenta e realiza a contação do livro: Malala – uma menina muito corajosa – Autora: Jeanette Winter
Comentar um pouco sobre a autora e ilustrador.
Pós-leitura: Quem quer comentar a história? Vocês entenderam? Conversar um pouco sobre a distância entre os países, Brasil e Paquistão, através do atlas. Mostrar a bandeira do Paquistão comparar com a do Brasil
Mostrar a foto da verdadeira Malala, falar um pouco sobre a vida de Malala, que mora na Inglaterra atualmente.
Para conhecer outras escolas e outras realidades, apresentar o livro Escolas como a sua: um passeio pelas escolas ao redor do mundo – autores: Penny Smith e Zahavit
Shalev- TEXTO COMPLEMENTAR
Entregar os livros para as crianças olharem, manusearem...
Pedir que, por meio de desenho, recontem ou retratem uma passagem da história de Malala que mais chamou sua atenção, para depois comentar com os colegas.
Horas de duração: 2h
Diante do planejamento apresentado, tentamos conduzir a aula levando em consideração o que Brandão e Rosa (2010) propõem. As autoras sugerem cinco categorias de perguntas de compreensão que podem ser feitas antes, durante e após a leitura de textos literários. Elas afirmam que, assim, o professor terá mais subsídios para propor perguntas interessantes que orientem sua conversa, promovendo uma discussão mais ampla sobre o que foi lido durante a leitura literária. São elas: perguntas de ativação de conhecimentos prévios; perguntas de previsão sobre o texto; perguntas literais ou objetivas; perguntas inferenciais e perguntas subjetivas.
Observemos a seguir o episódio de pré-leitura realizado com a obra Malala – uma menina muito corajosa:
Quadro 04
Episódio de discussão de histórias - Pré-leitura
(01) PP: Boa tarde, pessoal! Vamos sentar aqui no chão, fazendo uma roda? Vamos afastar as mesinhas, para termos mais espaço, certo? Quem pode ajudar a tia? Isso, muito bem! Agora, vamos conversar primeiro... Você gosta da escola onde você estuda? (direcionando a uma aluna que estava sentada no lado esquerdo)
(02) MJ: Sim.
(03) A escola é um lugar bom para fazer o quê? Será que todas as crianças podem ir à escola, frequentar uma escola? Todas têm esse direito?
(04) ME e MJ: Fazer tarefa!! Estudar!
(05) PP: E frequentar uma escola? Todas têm esse direito? O que vocês acham? (06) JG: Todo mundo vai para escola!
(07) PP: Será? Vamos descobrir isso daqui a pouco, certo?
(Aula Transdisciplinar 01)
Percebe-se do exposto no episódio relatado anteriormente, a professora pesquisadora (PP) encaminhou as perguntas com o objetivo de convidar os ouvintes a entrarem no texto que seria lido, trazendo para a situação de leitura conhecimentos que poderiam ser relevantes para a compreensão das crianças. De acordo com as respostas das crianças, notamos que a representação de escola que elas têm é a escola como local de estudo (fala 04) e que todos vão para a escola (fala 06). Percebemos que as crianças sofrem muitas influências sociais por meio de suas interações e trocas com tudo e com todos que fazem parte
do ambiente em que estão inseridas, e vão formando representações dos diferentes aspectos da sociedade em que vivem, sendo esta representação, em sua maioria, produto da influência dos adultos. Logo, deduzimos que a resposta (04) seja fruto da fala de seus familiares.
Quando, na atividade proposta, a PP entregou um globo terrestre para localizarem o país em que vivemos (Brasil) assim como o país (Paquistão) onde se iria passar a história, as crianças mostraram interesse e curiosidade por aquele material. É importante ressaltar que as crianças não conheciam o globo terrestre nem o Mapa Mundi apresentado no atlas, apesar de, na biblioteca da escola, haver esses materiais, surpresa que se destaca na situação apresentada no quadro abaixo:
Quadro 5
Episódio de discussão de histórias - Pré-leitura (08) AS: Tia, que bola é essa? Ela é bonita!
(09) PP: É um globo terrestre, AS. Ele mostra onde ficam os países. Nós vivemos em um país chamado Brasil; encontre no globo nosso país.
(10) MJ: Aqui tia! (Apontando para a Europa. Os demais colegas apontaram também aleatoriamente sem conseguir localizar o Brasil).
(11) PP: Vejam, o Brasil fica aqui (localizando o Brasil no mapa). Mas nossa história não acontece no Brasil. Quem quer dar um palpite onde acontece nossa história?
(12) JG: No Recife! (13) AS: Em Boa Viagem!
(14) PP: Esses lugares que vocês falaram ficam no Brasil, em Pernambuco. Aqui, olha (mostrando no mapa). Nossa história acontece num país chamado Paquistão. Ele fica bem aqui. Perto da Índia (mostrando no mapa a localização). O que vocês acham que essa história conta?
(15) MJ: Tem uma menina e ela segura um livro.
(16) PP: Isso mesmo, MJ. E você, JG? Você acha que essa história é sobre o quê? (17) JG: É sobre uma menina e o livro dela.
(18) PP: Ok. Alguém mais quer dizer sobre o que essa história vai contar? (Silêncio). Então vamos descobrir por que ela segura esse livro.
(Aula Transdisciplinar 01)
Concordamos com Suanno (2010), quando afirma que o professor mediador que adota uma postura transdisciplinar ajuda a abrir novas possibilidades de ação para a vida e não impede novas experiências, criando uma atmosfera de amorosidade, compreensão e confiança na interação com os alunos. E, ao proporcionar a leitura do mapa para localização de países, a PP oportunizou práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças. Ao ingressar na escola, as crianças possuem conhecimentos prévios que podem ser trabalhados, melhorando, dessa forma, a sua maneira de entender o mundo.
As crianças, ao responderem o lugar onde a história aconteceria, disseram locais que conheciam (fala 12) / (fala 13), da realidade deles. Os lugares citados são espaços familiares à criança. Pode se dizer que é o espaço com o qual o sujeito se identifica e se sente pertencente e/ou afetivamente ligado. Então, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, no Art. 53, a criança tem direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa e conhecer o espaço onde vive é importante para a formação de sua identidade, para desenvolver o sentimento de pertença e consciência de cidadania.
Após essas atividades iniciais, realizamos a leitura do texto literário, comentando sobre a autora e ilustrador. Analisemos, agora, o momento de pós-leitura do episódio n.01 a seguir.
Quadro 06
Episódio de discussão de histórias n. 01 – Pós-leitura (19) PP: Quem quer comentar a história? Vocês entenderam? Gostaram? (20) ME: Tia, ela morreu? Tocaram fogo na escola dela?
(21) PP: Não, ME. Veja aqui no livro. Ela foi levada para o hospital e ficou boa (mostrar a foto de Malala, cenas do seu tratamento, ela discursando na ONU). Vejam, vamos olhar no mapa aqui onde tudo aconteceu. E onde Malala mora hoje. Vejam como fica distante daqui de onde moramos. Vocês conhecem essa bandeira? (mostrando a bandeira do Brasil)
(22) Todos os alunos: Sim!!! É do Brasil!!!
(23) PP: Muito bem! E essa aqui? (mostrando a bandeira do Paquistão) Vocês conhecem? (24) JG: Não...
(25) PP: É a do Paquistão. Do país onde Malala nasceu. Era um país bonito mas por causa das guerras acabou ficando todo destruído. A bandeira é um símbolo que representa o país a que pertence. As duas bandeiras são parecidas? Em quê?
(26) JG: Tem a cor verde, tia...
(Aula Transdisciplinar 01)
No episódio em análise, a professora pesquisadora formulou, inicialmente, perguntas de verificação da recepção da história pelas crianças. Notamos, então, a preocupação da aluna ME (fala 13) pela vida da personagem, sua sensibilidade pela vida do outro. Segundo Morin (2008, p. 51), “a compreensão humana nos chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas alegrias”. O que ocorre, geralmente, é que deixamos de lado as histórias de vida, os sentimentos e as emoções vividas, não os reconhecendo como operadores cognitivo- emocionais de um pensar complexo e transdisciplinar, elementos ou dimensões que nos ajudam a estruturar a realidade, a trabalhar as incertezas.
Destacamos, também, os conhecimentos de outras disciplinas (geografia – mapa, localização dos países; história – a bandeira como representação de um país; matemática –
cores, figuras geométricas nas bandeiras), que são utilizados para enriquecer e possibilitar diversos saberes. O texto literário e a conversa que acontecia estava conduzindo o diálogo para um campo de interação entre disciplinas diversas. Questões sobre gênero e direito de infância também foram abordadas após a contação da história. Confirme-se o episódio n.02, a seguir, quando as crianças folheavam o livro:
Quadro 07
Episódio de discussão de histórias n.02 – Pós-leitura
(27) DP: Tia, aqui ela tá no ônibus indo para a escola? (mostrando a cena no livro) O homem atirou nela, não foi?
(28) PP: Isso mesmo. (29) DP: Tá vendo, JG?
(30) PP: Você sabe o porquê de ele ter atirado, DP?
(31) DP: Queria impedir ela e as amigas dela de ir para a escola. (32) PP: E quem podia ir para a escola?
(33) JG: Os meninos. As meninas não podiam estudar. Ela queria estudar para ficar sabida (apontando para Malala).
(34) PP: O que vocês acham? Meninos e meninas têm direito a ficarem sabidos? Meninos e meninas não são crianças?
(35) DP: Sim...
(36) PP: Então, eles não têm o mesmo direito? Quais outros direitos vocês acham que as crianças têm?
(37) JG: Ficar sabida para quando tiver filho ensinar a tabuada pra ele... (38) PP: Você acha importante saber tabuada? Por quê? O que é tabuada? (39) JG: Minha mãe diz que é bom.
(40) PP: Por que ela diz isso? (41) JG: (Silêncio)
(Aula Transdisciplinar 01)
Perguntas subjetivas são as que solicitam a opinião e/ou conhecimento do leitor e, embora tomem o texto como referência, a resposta dada não pode ser deduzida dele, de acordo com Brandão e Rosa (2010). Nessa direção, evidenciamos a ação da professora pesquisadora na mediação, quando solicitada para esclarecer a dúvida do aluno em relação ao que aconteceu com a personagem Malala. Sua intervenção provocou outras articulações que suscitou questionamentos sobre questão de gênero (falas 26 e 27), o que despertou, também, muito interesse por parte do aluno naquele momento, que continuou com a questão de “ser sabida” associada com o ensino da tabuada. Diante da resposta de JG (fala 30), pode-se inferir que ter acesso ao conhecimento e poder ensinar ao filho é dar condições para que esse filho tenha uma vida menos sacrificada. Segundo Suanno (2010, p.216), “o aluno dá o seu
significado para o assunto estudado de acordo com o nível de realidade e as características cognitivas e biológicas que possui”.
Sabendo que, dentro do nosso planejamento das aulas transdisciplinares, teríamos oportunidade de voltar a essa temática (gênero e direitos da infância), demos continuidade a nossa aula, pois, considerando que a leitura literária deve ser vivenciada diariamente, sempre na perspectiva de que uma leitura suscita outra e um comentário sobre um livro sempre estimula a leitura de outro, apresentamos o livro Escolas como a sua: um passeio pelas escolas ao redor do mundo, na aula transdisciplinar 01, para que as crianças conhecessem outras escolas, outras realidades.
Elas olharam, manusearam e foi possível viajar por outros países, conhecendo um pouco da cultura de cada lugar. Conforme afirma o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 4º, é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar além dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, o direito à cultura. E propiciar situações planejadas, como essa, oportunizou aos alunos/as do Grupo V conhecerem outras crianças com costumes, vestimentas, escolas e brinquedos diferentes dos deles. Consideramos isso importante, uma vez que a nossa sociedade brasileira possui pessoas e grupos com identidades culturais plurais, variadas, sendo, dessa forma, necessário garantir uma interação harmoniosa e de respeito para/entre todos.
Alunos participando das mediações transdisciplinares – Aula Transdisciplinar 01
O quadro a seguir traz o que foi planejado para a segunda aula transdisciplinar:
Quadro 08 Mês: Out
Conteúdo: Direitos de Infância
Pré-leitura: Alguém lembra a história que eu contei? Malala queria o quê mesmo? Vocês acham que criança tem direito a alguma coisa? A quê?
Leitura/Recurso: Vamos escutar agora uma história. Mostrar o livro Os direitos das crianças segundo Ruth Rocha e a foto da autora. Comentar um pouco sobre a autora e
ilustrador. Realizar a contação da história.
Pós-leitura: Como vimos as crianças têm alguns direitos. Existe um documento que defende os direitos das crianças e adolescentes chamado de Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Mostrar e entregar para manusearem o livro do ECA.
Vocês acham que deveriam ter mais algum direito?
Então, a nossa atividade hoje será a seguinte: vocês deverão procurar, aqui na caixa, figuras que representam alguns direitos da criança que vocês acham que toda criança deve ter e figuras que mostrem situações que não podem acontecer com as crianças e colar aqui nesse mural (cartaz de papel madeira com figuras de crianças ornamentando o cartaz e as frases: Temos direitos/Isso não pode acontecer).
Depois falar porque você escolheu a figura. Horas de duração: 2h
O leitor infantil pode ser muito facilmente envolvido pelo momento da contação, desde que o processo seja bem conduzido. De acordo com Brandão e Rosa (2011), na Educação Infantil é preciso que a professora, enquanto leitora mais experiente e mediadora entre as crianças e os textos, tenham a preocupação de não apenas escolher boas histórias mas também de encaminhar uma boa conversa em torno desses textos, uma vez que, numa perspectiva transdisciplinar, conforme Suanno (2010), não é aceitável uma prática pedagógica em que aprendizagem seja uma mera transferência/aquisição de informação.
E dando prosseguimento à análise, apresentamos, a seguir, o episódio da pré- leitura da aula transdisciplinar 02. Os direitos das crianças segundo Ruth Rocha foi a obra escolhida para a segunda aula transdisciplinar. A autora Ruth Rocha conta, de forma poética, o que não pode faltar na vida de quem ainda não passou para a fase adulta.
Quadro 09
Episódio de discussão de histórias - Pré-leitura (42) PP: Alguém lembra a história que eu contei?
(43) Alunos/as: Sim! Malala!
(44) PP: Muito bem! O que aconteceu nessa história? (45) DP: Não queriam deixar ela estudar...
(46) PP: Mas não deixavam ela estudar por quê? (47) (Silêncio)
(48) PP: Na escola não deixavam ela estudar porque ela era o quê? Quem não podia estudar? (49) ME: Malala e a amiga dela.
(50) PP: Isso. Por que elas não podiam estudar? Lembram? (51) JG: Porque elas eram meninas.
(52) PP: Muito bem. Lá onde Malala morava, o Paquistão, não permitiam as meninas estudarem. Existia um grupo religioso, Talibã, que proibia as meninas irem para a escola. As meninas não tinham esse direito. Será que isso é certo?
(53) MJ: Não, tia. Eu sou menina e venho pra escola.
(54) PP: Isso mesmo, MJ. Todos têm esse direito. Não importa se é menino, menina... Hoje eu trouxe outra história pra gente continuar falando sobre ter direitos. Vocês acham que
criança tem direito a alguma coisa? (55) MJ: A estudar, a fazer tarefa...
(56) PP: Muito bem. Mas será que a criança só tem esse direito? (57) AS: A passear.
(58) PP: Coisa importante AS disse. Criança além de estudar, como vocês disseram, tem direito a passear. E você, DP? Gostaria de dizer outro direito da criança?
(59) DP: Ir pro parque...
(60) PP: Ir pro parque para fazer o quê? (61) DP: Brincar.
(62) PP: Ok. Lembram mais de outro direito? (63) (Silêncio)
(64) PP: Posso dizer, ou melhor contar uma história que vai falar sobre outros direitos da criança?
(Aula Transdisciplinar 02)
Percebemos nas respostas de JG (fala 51) e MJ (fala 53) a compreensão de gênero, que as meninas têm direitos e que o direito a frequentar a escola independe da condição de gênero. Ou melhor, os direitos à liberdade, ao respeito e à dignidade são direitos fundamentais e inerentes à criança e ao adolescente, como também aos seres humanos em geral; que todas as pessoas, de uma forma geral, sem considerar suas desigualdades, no que se refere ao gênero, idade, etnia, raça têm direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais têm direitos e devem ser respeitados.
E, nas respostas dos alunos/as, na pré-leitura, quando indagados se conheciam alguns direitos das crianças, percebemos que elas relacionaram ao que tinham de mais próximo como estudar, fazer tarefa, passear, ir ao parque brincar (falas 55, 59 e 61).
Segundo a professora LMS, essa temática era trabalhada com os alunos/as, conforme entrevista inicial:
Quadro 10
Trecho entrevista inicial com a professora da Educação Infantil-perguntas 13 e 14 PP: Você tem conhecimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos? Do Estatuto da Criança e do Adolescente, ECA?
LMS: Sim (ar de reconhecimento do ECA).
PP: Como você possibilita a reflexão sobre as temáticas relacionadas aos Direitos Humanos? LMS: Tratamos com uma linguagem mais simples, né? Porque assim como são crianças muito pequenas, não podemos colocar com esse ângulo tão... mas aí trabalhamos que o direito..., a criança tem direito a ter uma casa, um lar, ter pais, é... ter escola, que todas elas têm direito a ter escola, é... uma alimentação e que também dos direitos também tem também os deveres, tem dever/direito de vir para escola, mas tem o dever de vir para escola, estudar, cada criança que está aqui tem o dever de estudar porque estão vindo pra escola pra isso.
Percebemos que a professora LMS não conseguiu expressar-se, com clareza, sobre o trabalho que desenvolve com as temáticas relacionadas aos Direitos Humanos. No primeiro capítulo dessa pesquisa, destacamos que é importante trabalharmos os Direitos Humanos na Educação Infantil, visando à formação de indivíduos aptos a conviverem com a diversidade humana, cientes dos seus direitos, pois uma das consequências sobre a falta de conhecimento dos próprios direitos é a impossibilidade de exercer o direito essencial: o direito a ter direitos, conforme Ramos (2015). E recorrendo a uma prática transdisciplinar é possível pensar os problemas contemporâneos, não mais de forma fragmentada, mas oportunizando aos nossos alunos o exercício da criticidade, a construção de uma visão de mundo e de saberes mais amplos.
Nas atividades propostas na pós-leitura, apresentamos o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e os alunos/as realizaram uma seleção de figuras que representavam situações dos direitos das crianças e situações que não podem acontecer com as crianças, que estavam expostas no chão, no momento da roda de histórias. Após a seleção das figuras, as crianças falaram sobre suas escolhas:
Quadro 11
Episódio de discussão de histórias – Pós-leitura
(65) PP: Então, quem gostaria de falar por que escolheu essas figuras? (apontando para as figuras que as crianças seguravam nas mãos)
(66) ME: Nessa ela está no médico e nessa ela faz tarefa no chão...
(67) PP: Qual figura você vai colar onde representa os direitos das crianças?