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INTERAÇÃO SOCIAL

No documento Sujeito Objeto (páginas 27-34)

Para Piaget (1932, 1973) o desenvolvimento intelectual e afetivo depende da interação. O termo interação social é mencionado nesta pesquisa reportando-se à perspectiva piagetiana segundo a qual bastam dois indivíduos para que ela se estabeleça. Na obra Estudos Sociológicos encontram-se as seguintes palavras: “[...]

já a partir de dois indivíduos, uma interação acarretando modificações duráveis pode ser considerada como fato social, e a sociedade seria a expressão do conjunto destas interações entre n indivíduos, n podendo estender-se indefinidamente, a partir de 2 [...]” (PIAGET, 1973, p. 167).

O aspecto social está intrinsecamente relacionado aos aspectos cognitivo e afetivo, abordados nos capítulos anteriores. Os sentimentos inter-individuais já anunciam as condutas sociais diversas ao longo do desenvolvimento. Em realidade, o ser humano desde seu nascimento se relaciona com o outro. Primeiramente com aquele que o alimenta, cuida e protege.

Nesse processo, a relação parte da anomia, que significa o não-reconhecimento de normas, já que não há diferenciação entre o eu e os outros por parte do bebê. Observando o comportamento de crianças até dois anos de idade, Piaget identificou a existência de regularidades que seriam a origem das regras. No comportamento social desta fase, existem rituais que correspondem à hora de alimentar-se, de tomar banho, de dormir, e assim por diante. A criança apenas explora os objetos para conhecê-los sem se importar com os interesses do outro. Os rituais se cristalizam quando a assimilação e a acomodação se equilibram, gerando regularidades, brincadeiras. A regra é apenas motora e individual.

Mas conforme a criança se diferencia do outro ela reconhece como um dever a regra imposta pelo adulto. Esta fase é chamada de heteronomia porque as normas são vindas de fora, criadas pelos mais velhos e aceitas como verdadeiras e necessárias; são obedecidas sem questionamento. Este comportamento social, encontrado nas pesquisas de Piaget, se refere a um comportamento baseado no egocentrismo e no respeito unilateral. Quanto mais nova é a criança menos ela tem consciência de si, menos se situa independente no mundo e, pois, predomina a imitação. A relação nesta fase é de coação, mas todo ser humano passa por esta fase porque ela é necessária no estabelecimento de regras e, portanto, de

organização e de disciplina. O que ocorre às vezes é um comportamento abusivo por parte do adulto, já que a criança heterônoma não tem noção do que seja a justiça. Esta aparece quando o sujeito questiona e avalia as punições em relação às suas razões de existir, diferenciando o que é simplesmente arbitrário daquilo que não é. A fase da heteronomia deve ser aos poucos ultrapassada com a relação entre pares, que significa interação com outras crianças de mesma idade, levando-as a considerar o respeito mútuo e a cooperação.

Assim, a autoridade adulta, se bem que constituindo, talvez, um momento necessário na evolução moral da criança, não basta, para constituir o senso de justiça. Este só se desenvolve na proporção dos progressos da cooperação e do respeito mútuo, de início, cooperação entre crianças, depois cooperação entre crianças e adultos, na medida em que a criança caminha para a adolescência e se considera, pelo menos em seu íntimo, como igual ao adulto. (PIAGET, 1932, pg. 239).

Quando as normas são discutidas e reelaboradas por meio desta troca o indivíduo se sente responsável por elas. Mais uma vez entendemos o sujeito como ser ativo e, por isso, Piaget expressa que “no domínio moral, como no campo intelectual, só possuímos realmente o que conquistamos por nós próprios” (PIAGET, 1932, pg.272).

O terceiro estágio é o da autonomia no qual o comportamento social se refere à cooperação e ao respeito mútuo. Cooperar é estar consciente do eu e situá-lo em relação ao pensamento comum. A norma é social, isto é, combinada e é racional porque leva em conta os interesses e necessidades do outro, predominando a reciprocidade. Esta promove o senso de justiça no sentido de todos terem os mesmos direitos e oportunidades. “A autonomia só aparece com a reciprocidade [...]

para que o indivíduo experimente interiormente a necessidade de tratar os outros como gostaria de ser tratado.” (PIAGET, 1932, p. 155).

Piaget (1932) estudou a noção de justiça em crianças de 6 a 12 anos, um valor importante para a autonomia, pois parece resultar diretamente da cooperação.

A noção de justo e injusto é, no início, imposta pelo adulto e não compreendida pelas crianças até que cresça a solidariedade entre elas. Piaget (1932) diz que há dois tipos de justiça: retributiva e distributiva. A primeira procura punir arbitrariamente o indivíduo segundo a falta cometida, não levando em conta sua intenção, mas apenas o prejuízo material; não se explica o porquê da punição, mas se espera que com essa medida a falta não se repita. A segunda considera a

intenção do indivíduo e procura fazer com que se restitua o mal cometido explicando as razões de tal medida para que a falta não aconteça novamente. A noção de justiça se desenvolve, portanto, quando o sujeito se coloca na perspectiva do outro, sendo capaz de agir com igualdade. Esta significa retribuir a todos igualmente conforme o que lhes é de direito. Pode-se ver que a autonomia se desenvolve no sujeito quando existe uma preferência pela igualdade mesmo que as normas estabelecidas por uma autoridade a contradigam. A igualdade pode evoluir até chegar à eqüidade; nesse caso, significaria agir generosamente para alcançar a igualdade, tratando diferentemente situações particulares para evitar desvantagens.

Portanto, após o aparecimento da linguagem, as condutas sociais podem ser classificadas em dois extremos: a coação (respeito unilateral) e a cooperação (respeito mútuo, reciprocidade). Mas como o desenvolvimento do ser humano tende à adaptação e ao equilíbrio, a cooperação é uma forma de equilíbrio limitada e ideal.

Entre os extremos, heteronomia e autonomia, há intermediários. Tudo é motor, individual e social ao mesmo tempo, porém, os estágios dependem da dosagem de cada elemento. “[...] a cada nova dosagem da cooperação e da coação, corresponde uma nova qualidade dos estados de consciência [...]” (PIAGET, 1932, p.79).

Sobre a autonomia, Fierro (1995) diz que esta significa a emancipação em relação à família sendo uma das principais características do inicio da fase adulta, ou seja, da adolescência. Por um lado, as circunstâncias do dia-a-dia exigem que a pessoa resolva problemas por si mesma e quanto menos necessária a mediação das figuras de apego, maior a autonomia. Por outro lado, atualmente a independência pode ser adiada por falta de oportunidades de emprego ou simplesmente por parasitismo emocional causado por sentimentos de incapacidade e de inferioridade, levando adultos a serem “perpétuos adolescentes” por causa desta dependência. “A autonomia psicossocial é transferida e vinculada ao momento da independência econômica” (FIERRO, 1995, p.302).

O ideal seria que todo indivíduo se desenvolvesse em direção à autonomia.

As principais condições para que isto ocorra são a inteligência e a cooperação.

Piaget afirma que os aspectos cognitivo e social são interdependentes: a cooperação necessita da inteligência e a inteligência necessita da cooperação.

Sobre este assunto Piaget diz que “[...] a razão tem necessidade da cooperação, na medida em que ser racional consiste em ‘se situar’ para submeter o individual ao

universal. O respeito mútuo aparece, portanto, como a condição necessária da autonomia, sob seu duplo aspecto intelectual e moral” (PIAGET, 1932, p.91).

Quando o sujeito centra-se em sua forma de pensar e não vê outras possibilidades, isto impede o conflito cognitivo e, como conseqüência, não há desenvolvimento intelectual. É no conflito cognitivo que o sujeito se depara com a diferenciação dos objetos, o que leva à sua descentração e em seguida à integração (relações de um objeto com outro em um sistema).

Ilustração 3

A interação social promove o confronto entre pontos de vista diferentes e faz o sujeito perceber que existem várias maneiras de conceber o mesmo objeto ou situação. Enquanto o sujeito está centrado nele mesmo fica limitado pelo egocentrismo e pode facilmente cair em contradição sem perceber. “Ora, está claro que o pensamento em comum favorece a não-contradição: é muito mais fácil se contradizer, quando pensamos por nós somente (o egocentrismo) do que quando os parceiros estão lá para lembrar o que dissemos anteriormente e as proposições que já admitimos” (PIAGET, 1973, p.181).

CENTRAÇÃO (preconceito)

DESCENTRAÇÃO

TROCAS, CONFLITO COGNITIVO (necessidade de nova

adaptação)

2.3.1 O estudo de Stoltz sobre interação social e tomada de consciência

A relação entre tomada de consciência e interação social no referencial piagetiano foi discutida por Stoltz (2001). Sua pesquisa procurou verificar a influência do tipo de interação social na tomada de consciência em vinte e uma crianças de 4,6 a 5,10 anos da noção de conservação da substância e do peso. O grupo de controle contou com 9 sujeitos e o grupo experimental contou com 12 sujeitos. Neste estudo experimental foram realizados um pré-teste, uma sessão experimental dividida em duas fases e dois pós-testes. Foi utilizada a prova9 de conservação de quantidade: comparação de duas bolas de igual peso, sendo uma transformada em bolacha, salsicha ou pedaços. É colocada a pergunta sobre a conservação do peso e da substância e em seguida é utilizada uma balança para comprovar o mesmo peso. A prova é feita em trios na primeira fase da prova contextualizada e em duplas na segunda fase. Os pós-testes são realizados uma semana e um mês após a sessão experimental.

Um dos resultados que a pesquisadora obteve foi que, quando a criança é solicitada por outra criança ou por um adulto, a passar para o plano verbal o que realizou no plano da ação, e ao ser contra-argumentada no sentido de refletir sobre o processo do que a levou aos resultados, pode-se obter progressos na tomada de consciência da noção da conservação. “A interação é, portanto, indispensável porque sem ela e os demais fatores que possibilitam o desenvolvimento cognitivo, não temos a ativação da tomada de consciência (STOLTZ, 2001, p. 119).

Analisando os contextos interativos (família, escola) das crianças pesquisadas, Stoltz (2001) encontra indicativos de que o maior ou menor desenvolvimento cognitivo está relacionado aos questionamentos e desafios que o meio realiza sobre os atos da criança, nos campos moral e intelectual, contribuindo para sucessivas tomadas de consciência.

Portanto, o estudo de Stoltz (2001) é de interesse para a presente pesquisa à medida que admite o fator da interação como sendo necessário para desencadear o processo de tomada de consciência. Sendo os sujeitos desta pesquisa adultos e não crianças, parece produtivo comparar os resultados dos dois estudos sobre o assunto.

9Técnica adotada por Piaget & Inhelder (1975a, p.36).

2.3.2 Interação social e tomada de consciência

Dois tipos de interação são enfocados no presente trabalho: a interação do sujeito com o objeto (desenho livre) e a interação do sujeito com a pesquisadora. O objetivo final é que o sujeito estabeleça relações entre seu próprio desenho, expressão de significantes e significados que apenas o autor pode explicar, e a própria vida. Em última análise, há uma relação interpessoal que procura promover a relação intrapessoal. O esquema abaixo ilustra a existência de uma interação pela troca entre pesquisadora/sujeito e sujeito/desenho.

PESQUISADORA SUJEITO DESENHO (relação interpessoal) (relação intrapessoal)

O método clínico crítico piagetiano usado neste estudo permite que o sujeito expresse livremente sua maneira de pensar o mundo. Cabe a esta interação a tentativa de não estabelecer julgamento, caso contrário não haveria a possibilidade de expressão numa relação de cooperação e respeito mútuos. Sinclair (1987) em seu artigo Symbolisme et Interaction Interpersonnelle assim afirma: “O sujeito aprendiz constrói significações cada vez mais coerentes pela sua interação com a realidade física dos objetos e, paralelamente, significações compartilhadas com o outro na sua interação com outras pessoas” (SINCLAIR, 1987, p.158, tradução nossa).

Nesta pesquisa o indivíduo é questionado sobre os vários elementos de seu desenho porque pode ocorrer em sua fala espontânea abordar apenas alguns elementos representados e omitir outros. O que se pretende aqui é contribuir para a descentração e esta ocorre pela troca na interação. “[...] já no artigo de 1936, Piaget fala da consciência de si mesmo não como um dado da psicologia individual, mas como uma conquista da conduta social” (STOLTZ, 2001, p.7).

O sujeito desta pesquisa, por ser adulto, já adquiriu um grande repertório de experiências, principalmente em relação à família e ao trabalho. Nesses meios sociais, o indivíduo utiliza principalmente a linguagem falada, porém, nesta pesquisa, o sujeito também poderá se expressar pelo desenho, que, em alguns casos, poderá ser acompanhado da escrita.

Acredita-se, neste estudo, que o ser humano pode se expressar de várias maneiras e que há linguagens paralelas. As linguagens faladas e escritas podem ser limitadas para expressar a essência do ser, de acordo com Stoltz:

Muitas vezes não nos conseguimos expressar pela linguagem porque nossos atos permanecem inconscientes. Outros meios de expressão como o desenho, a pintura, a música nos aproximam da consciência do que somos porque exteriorizam partes de nós. Se fomos indagados ou nos indagarmos acerca da obra falaremos sobre o processo de realização de nós mesmos, sobre o que nos levou a realizá-la. (STOLTZ, 2001, p. 120).

Em seguida apresenta-se como e por que esta segunda espécie de linguagem, o desenho, poderia contribuir para a tomada de consciência.

No documento Sujeito Objeto (páginas 27-34)