4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.3 INTERAÇÕES E BRINCADEIRAS POR MEIO DE UMA TELA?
Bom, ela desenvolveu bem, tem que desenvolver bem. (MÃE CENTRO 1). P
Eu achei bem fraco, vou te falar a verdade. Sim, eu não sei como é o aqui na escola, né? Mas como fui eu que acompanhei uma parte então eu achei que foi bem fraco eu acho que não foi suficiente. (PAI SUL 1). criança. (Mãe Oeste 1)
Ah, eu acho assim que toda a matéria esses materiais, essas coisas que eles passam pra elas fazer bem, bom. (MÃE SUL 2).
Eram bons. Eu acho assim que o professor ele é mais capacitado pra ensinar. A gente vai tentar ensinar não é igual.
(TIA NORTE 2)
A proposta da Secretaria de Educação, embora consentida pelos familiares, de atividades meramente conteudistas mediadas por meios digitais, contraria todo o ordenamento legal que ampara os direitos das crianças: a Constituição Federal, o ECA, as DCNEI e também a BNCC e sobretudo está em desacordo com os fundamentos e os princípios da Educação Infantil, visto que, interações e brincadeiras por meio de uma tela não é realizável.
infantis13, em síntese, não pode ser realizada no vazio social e necessita se sustentar na análise das condições sociais em que as crianças vivem, interagem e dão sentido ao que fazem”. Portanto, há de se considerar que são diversas as experiências nesse contexto de pandemia assim sendo, torna-se fundamental a reflexão sobre as infâncias e como cada criança é afetada de maneira diferente pelo isolamento social o que justifica a pesquisa de campo ter sido realizada com dois familiares de cada região da cidade.
Embora as diferenças sejam evidenciadas na pesquisa, todas as pessoas entrevistadas relataram uma prática comum no que se refere às brincadeiras, ou seja, no período de confinamento todas as crianças brincaram em casa. Ainda que as escolas se configurem como locais onde facilmente se encontram situações de brincadeiras, - devido ao fato de ser um ambiente ocupado predominantemente por crianças e se configurarem como geradoras de culturas infantis, de significação do mundo por elas - a brincadeira se fez presente na cultura infantil de todos os sujeitos investigados. Brincadeiras com os irmãos apareceram sete vezes nas narrativas dos entrevistados; com as mães quatro vezes; com os pais duas vezes; com amigos também foi citado duas vezes, uma criança brincou com os primos e uma sozinha.
Enquanto criança, eles sempre brincam muito junto, então foi uma fase ali que eles continuam brincando muito.
Mas ele correu naquele quintal, parecia um doido assim, então brincava de muitas coisas.
Eles gostam de brincar muito é de lego, era uma criação atrás de outra ali.
(MÃE LESTE 2)
Brincava bastante, fazia bastante barulho. Bastante bagunça. (rss)
Ela brincava com a prima dela. Com uma prima, de casinha, de bonequinha, de barba, de papel. De escrever cartinha, essas coisas. (TIA NORTE 2) Eles sempre brincam entre si, né?
Brinca muito de jogo, de pega-pega, de esconde-esconde, vai esconde no guarda-roupa, é brincadeira de criança, sobe em cima de porta, né? É brincadeira, é arte de criança mesmo, né? (MÃE LESTE 1)
Ah brincava mais com a irmã dela que é a menor. A gente brincou muito com ela (MÃE OESTE 1)
Brincava mais com o irmãozinho dela em casa mesmo. (PAI OESTE 2) Ele brincava mais de montar as coisas, ele gosta de montar as coisas.
13 Culturas Infantis: “um conjunto estável de actividades ou rotinas, artefactos, valores e ideias que as
crianças produzem e partilham em interação com os seus pares” (CORSARO & ELDER, 1990 apud SARMENTO, 2005, p. 373).
Sempre sozinho. (TIA NORTE 1)
Ela gosta de brincar de bar, boneca, sabe? Essas coisa de cozinha. (MÃE CENTRO 2)
Brincava comigo, pique-esconde, assim, era eu a mãe e a irmã que brincava.
(PAI SUL 1)
Ela é muito de brincar o dia inteiro, se deixar fica só brincando, brincando.
(MÃE SUL 1)
Como se deram essas brincadeiras, em que circunstâncias as crianças brincaram? Todas puderam contar com a participação de seus pais, mães, tias(os) avós, nas brincadeiras? Embora os entrevistados afirmem que as crianças brincaram com as mães e pais por exemplo, a periodicidade pode ser questionada, a consi derar que a falta de tempo se apresentou como um dos elementos dificultadores de acordo com as narrativas dos entrevistados.
E aí eu tinha que fazer atividade, organizar a rotina que era dos três filhos e a minha com os alunos, eu acho que então assim, pra nós foi penoso, né?
Mas o pai ele trabalha numa reunião atrás da outra dentro de casa, eu acho que pra ele foi um grau assim, excesso, é de realmente assim de ansiedade, né? (MÃE LESTE 2).
Ela é muito ativa, ela pula, ela já é assim. Só que não é igual da escola, com o amigo é diferente, né? Mais atenção, porque enquanto estava na pandemia eu e a minha esposa não paramos de trabalhar, então foi normal. E aí quando eu não estava no escritório, estava remoto, então todo jeito eu trabalhei o tempo todo, não parei nenhum dia. Então ela sentiu bastante falta da brincadeira mesmo, da atividade física que ela faz na escola normal, ela sentiu bastante falta.(PAI SUL 1).
Conforme observamos as brincadeiras com a participação de um adulto se configurou como uma exceção, visto que, as atividades laborais consumiram grande parte do tempo dos pais, mães ou responsáveis. Outro elemento dificultador do envolvimento destes nas brincadeiras com as crianças refere-se ao fato das questões emocionais, dentre elas as preocupações ocasionadas pela pandemia da COVID -19, sendo impossível dedicar um tempo para brincadeiras diante os sintomas de depressão e ansiedade segundo os excertos abaixo:
Estou olhando ele, a mãe dele está trabalhando e está com depressão também, essa semana mesmo ela nem ligou para o menino. (TIA NORTE 1).
Igual a gente é autônomo tinha hora que não tinha serviço porque não podia ir trabalhar, ou igual ele ficou doente, então teve momentos de muita preocupação, eu fiquei muito ansiosa. (MÃE OESTE 1).
A gente ficou angustiada e ansiosa né? Porque aí você pensa como é que a gente vai dar conta, né? De tudo que essa falta se atrapalha, já estava difícil, né? Com a ansiedade da pandemia, ele ainda perde parte do salário, né? Aí a gente fica bem, bem ansioso. (MÃE SUL 1).
Levando em conta que as realidades são distintas, dentre os entrevistados apenas uma mãe, Leste 1, narrou maior disponibilidade de tempo para se dedicar aos filhos, embora não tenha especificado momentos dedicados à brincadeiras.
Eu consegui conciliar isso tudo porque eu trabalho em casa, né? Eu ajudo meu esposo trabalhando em casa. Então, eu tenho essa flexibilidade, eu consigo remanejar meus horários, só que eu sei que isso não é, não é uma realidade da grande maioria. (MÃE LESTE 1).
Analisando os excertos podemos afirmar que não havia lugar para as infâncias nessas rotinas, no sentido do ser criança como uma prioridade, infância esta que corre nos corredores, inventa brincadeiras, que possui braços incontroláveis, se perde em gargalhadas, que se encanta com descobertas.
Na eminência de manter o sustento, familiares não dispunham de tempo e nem de energia para dedicarem as crianças coube, portanto, a elas encontrar uma maneira de entretenimento, seja nas brincadeiras ou de frente a tela de aparelhos digitais.
Infância esta que se tornou um problema em tempos quarentena, uma preocupação a mais para os responsáveis que até então era compartilhada com a rede de apoio - escolas, creches, serviços de saúde, avós ou outros familiares, etc.
Podemos assegurar, que em tempos de isolamento social, de tantas mudanças e incertezas por meio das narrativas dos sujeitos entrevistados, que a brincadeira se tornou ainda mais essencial, pois, impedidas de conviver com outras crianças, de brincar em espaços coletivos, diante da falta de tempo dos adultos, meninos e meninas tiveram que se adaptar ao confinamento e consequentemente remodelar seu jeito de brincar.
Como uma peculiaridade, da infância as crianças possuem a habilidade de se adaptarem e assim usam de sua criatividade, imaginação, fantasia para adequar objetos às suas brincadeiras, desse modo, logo uma tampinha vira um pião, uma caixa de papelão se transforma em diversos brinquedos divertidos, conforme podemos observar nos excerto abaixo:
Eles criaram tudo quanto é trem de caixa, era robô, tinta de tudo, o que eu tinha de tinta foi nessa pandemia, embora sabe? Assim, eu não sabia o que fazer eh era de recorte, era de pintura, era de criar coisa com papelão e uma das coisas que eles gostam de brincar muito é de lego, era uma criação atrás de outra ali. (MÃE LESTE 2).
Ela brincava com a prima dela. Com uma prima, de casinha, de bonequinha, de barba, de papel.
Ela pegava alguns livrinhos o né? De historinha e ficava folheando, a minha menina gosta mais é de inventar. (TIA NORTE 2).
Ela gosta de brincar de bar, boneca, sabe? Essas coisa de cozinha. ( MÃE CENTRO 2).
As brincadeiras compreendem um jeito da criança dar sentido ao vivido, “por meio do brincar, a criança produz e também reproduz sua realidade” afirmam Abramowicz e Moruzzi (2010,p.50). Corroborando Sarmento (2004) complementa que
O “mundo do faz de conta” faz parte da construção pela criança de sua visão do mundo e da atribuição do significado às coisas. No entanto, esta expressão “faz de conta” é algo inapropriado para referenciar o modo específico como as crianças transpõem o real imediato, e o reconstroem criativamente pelo imaginário, seja importando situações e personagens fantasistas para o seu quotidiano, seja interpretando de modo fantasista os eventos e situações que ocorrem. Na verdade, a dicotomia realidade- fantasia é demasiado frágil para denotar o processo de imbricação entre dois universos de referência, que nas culturas infantis efectivamente se encontram associados. Poderemos de resto, justamente, interrogar-nos sobre se essa imbricação não ocorre também no mundo dos adultos, isto é, se toda a interpretação não é sempre projecção do imaginário e se o “real” não é, afinal, o efeito da segmentação, transposição e re-criação feita no acto da interpretação de acontecimentos e situações. (SARMENTO, 2004, p. 16).
Marcada pela cultura, a brincadeira varia conforme aspectos sociais, econômicos, de gênero, religião, regionais, dentre outros, as crianças variam o jeito de brincar afirma Mouruzzi (2010). Em contexto de pandemia independente da classe social, arranjos familiares, gênero, raça, etnia, etc. a brincadeira se configurou uma aliada para as crianças que encontraram independente do seu jeito de brincar, uma forma de dar um novo sentido para o caos em que vivenciaram.
Para Corsaro [...] as interações das crianças com o mundo adulto muitas vezes geram perturbações à medida que surgem com os pais e outros adultos, mas tentam resolver muitas outras em mundos imaginários que criam e compartilham com os colegas.” (CORSARO, 2011, p.174). Desse modo, brincando, foi possível ressignificar a falta que sentiram do ambiente escolar.
Ela sentiu muita falta da escola, dos amigos, ela gosta da escola.
(MÃE OESTE 1).
Ele sentiu muita falta dos amigos, você precisa de ver, até chorava querendo ir para a escola, tadinho! (TIA NORTE 1).
No começo ficou bem, né? Mas aí depois foi sentindo bastante falta, que ela sempre gosta muito de vir, aí ela sentiu falta dos amigos de brincar. (MÃE CENTRO 1).
Ela sentiu muita falta e sentiu da parte da brincadeira também. (PAI SUL 2).
Principalmente dos amigos, ela tem irmão, né? Mas não é a mesma coisa, né? Do que estar na escola, do que estar no ambiente escolar.
(MÃE LESTE 1).
Sentiu muita falta, né? Da escola, da professora (PAI OESTE 2).
A falta da escola, sentida pelas crianças, pode ser justificada pelo fato de que em espaços de convencia coletiva as crianças tem a oportunidade de se relacionar com os pares, estabelecer amizades, e para isso criam estratégias de acesso e participação nos grupos, resolvem conflitos ou seja, vão criando conjuntamente estratégias para lidar com a complexidade dos valores impostos.
Borba (2005) evidencia a relevância das relações sociais construídas entre as crianças nas culturas de pares, segundo o autor, pela convivência, as crianças, constroem conhecimentos, hábitos que lhes são impostos por adultos e, assim, nas atividades e brincadeiras com seus pares encontram formas próprias de compreensão e de ação sobre o mundo e assim vão criando cultura.
Na impossibilidade de interagir com outras crianças na escola, bem como em outros lugares coletivos durante a pandemia da COVID-19 a casa foi o único espaço disponível que as crianças tiveram para brincar. Entretanto, o fato de ficarem restritas não as impossibilitou de encontrarem formas de brincar e ressignificar o seu contexto social e produzir cultura no momento das brincadeiras, do faz de conta, da criação, utilizando a linguagens verbais; não verbais; corporais; gráficas, fotográficas, e também a linguagem tecnológica, com uso dos aparelhos eletrônicos e assim,
“transportam as marcas dos tempos, exprimem a sociedade nas suas contradições, nos seus estratos e na sua complexidade.” (SARMENTO, 2002, p. 4).
Além das brincadeiras de pega-pega, lego, bicicleta, lousinha, o celular também esteve presente na rotina das crianças em tempos de confinamento, como um instrumento de brincadeiras, sendo o jogo o principal atrativo. Dentre os entrevistados apenas um pai relatou que sua criança não tem acesso ao celular.
Ela mais brincou, né? Porque esse celular mesmo pra ela a gente lá em casa a gente não dispõe o celular pra eles porque lá em casa a gente vê que não pode, não é o momento. (PAI OESTE 2).
Entretanto o mesmo pai que afirmou não deixar a criança manusear o celular, relatou que o substitui pela televisão.
Ao invés de celular põe na televisão que você vai tá controlando você vai saber o que tá assistindo assiste mais desenho educativo, essas coisas aí e vai aprendendo. (PAI OESTE 2).
Na narrativa dos entrevistados cinco vezes aparece que a criança ficou muito tempo no celular.
Ele jogava no celular, jogava! Muito difícil a mãe brincar com ele. (TIA NORTE 1).
Ele fica muito no celular e tem coisa que ele joga que ele não pode né?
(TIA NORTE 1).
Muito celular, esse pegou bastante, né? (MÃE CENTRO1).
Brincou, jogou no celular, mais no celular, né? A gente tem que ficar controlando, mas foi mais no celular mesmo. (MÃE SUL 1).
Na internet ela brinca depois que a mãe dela chega. Aí ela fica vendo YouTube (TIA NORTE 2).
Meio complicado, meio puxado por conta do serviço, né?
Tinha que arrumar um tempinho ali pra poder conseguir auxiliar tudo. Aí como era os dois aí dava uma puxada. (PAI OESTE2).
Ainda que se configure a uma prática antiga, o brincar não é natural às crianças, é preciso ensiná-las a brincar, visto que, a brincadeira é resultado das relações entre as pessoas, é impregnada de cultura, sendo impensável considerá-la como algo inato. Assim sendo marcada pela cultura, a brincadeira no celular é característica da infância nesse contexto histórico, na impossibilidade de frequentar os espaços de educação coletiva o celular ocupou o lugar que deveria ser usado por brincadeiras em pequenos e grandes grupos, de diferentes formas, espaços e tempos.
Esses jeitos de brincar favoreceram a ressignificação do isolamento social, mas não foram suficientes para que as crianças compreendessem o motivo de não poderem sair de casa, oito vezes a questão das crianças não entenderem o porquê não podiam ir na escola e o porquê tinham que ficar só em casa, apareceu nas narrativas dos sujeitos entrevistados e o confinamento ocasionou medo e ansiedade em nove das dez crianças segundo o relato dos familiares que colaboraram com a pesquisa.
“Só que com o tempo, ele, ele começou a desenvolver a ansiedade.”
Mãe Leste 2
“ Pra ele foi um grau assim, excesso, é de realmente assim de ansiedade, né?” Mãe Leste 2
“Ele já é mais agitado, ele teve esse quadro de ansiedade, de agitação.”
Mãe Leste 1
“Ansiosa, ficou ansiosa [...]
Ansiosa pra fazer a tarefa, pra voltar a escola logo, pra saber se estava certinho”. (Mãe Oeste 1).
“Ficava muito muito ansiosa[...]
Quando ela está ansiosa ela começa a falar demais da conta e começa a pular, assim ó, aí você já pode saber que ela tá ansiosa, ai tem insônia.”
(Mãe Centro 2).
“Eu percebi de diferente que ela ficou com medo da televisão, só via notícia ruim.” (Pai sul 1).
“Ela brincava em casa, pulava e depois ela foi ficando muito ansiosa, sabe?” (Mãe Centro 2).
“Ele está ansioso até hoje, a professora disse que a ansiedade deve estar dando essa diarreia.” (Tia Norte 1).
Acredita-se que o fato de não encontrar seu lugar nas rotinas domésticas, nem em nenhum outro lugar, já que estavam impedidas de irem além dos muros de suas residências, afirmamos não existir espaços para as infâncias confinadas, realidade esta que acarretou um sofrimento psíquico nas crianças que deixaram de viver suas infâncias.
Esta constatação nos leva a reflexão de que pensar na infância implica considerar seu jeito de ser e estar no mundo, que apesar de tantos avanços, na literatura e na legislação, ainda hoje a infância ocupa um lugar de irrelevância que não faz parte das políticas públicas nem tampouco dos currículos escolares que não favorecem a criança viver plenamente sua infância o qual envolve: brincar, explorar o mundo que as cercam, dialogar com a cultura e produzir cultura, receber cuidado, educação, proteção e condições de se desenvolver integralmente, conforme estabelece a LDB.